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Revista da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia

On-line version ISSN 1982-0232

Rev. soc. bras. fonoaudiol. vol.13 no.2 São Paulo Apr./June 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-80342008000200009 

ARTIGO ORIGINAL

 

Relação entre desempenho em consciência fonológica e a variável sexo: um estudo com crianças pré-escolares

 

Relationship between performance in phonological awareness and gender: a study with preschool children

 

 

Carla Andreazza-BalestrinI; Carla Aparecida CieloII; Cristiane LazzarottoIII

IMestre, Fonoaudióloga clínica e escolar - Caxias do Sul (RS), Brasil
IIDoutora; Professora no Programa de Pós-graduação em Distúrbios da Comunicação Humana da Universidade Federal de Santa Maria - UFSM - Santa Maria (RS), Brasil
IIIPós-graduanda; Professora Assistente na Universidade Federal de Pelotas - UFPel - Pelotas (RS), Brasil e da Universidade Federal do Pampa - UNIPAMPA - Bagé (RS), Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Analisar o desempenho em tarefas de Consciência Fonológica (CF), de acordo com o sexo e com a hipótese de escrita.
MÉTODOS: Foram avaliados 43 pré-escolares, 19 do sexo masculino e 24 do feminino, por meio de triagem fonoaudiológica completa, avaliação do nível de escrita, e das habilidades em CF. Os dados foram analisados utilizando-se os testes estatísticos ANOVA, de Duas Vias e Uma Via.
RESULTADOS: Como resultados, encontrou-se relação estatisticamente significativa entre CF e sexo nos sujeitos com níveis de escrita silábico-alfabético e alfabético, nos quais a consciência de palavras mostrou-se mais desenvolvida no sexo masculino. Em tarefas de segmentação silábica com trissílabos, houve desempenho significativamente melhor no sexo feminino, evidenciando maior facilidade em lidar com a análise das sílabas.
CONCLUSÕES: Concluiu-se que as meninas apresentam maior habilidade em analisar unidades menores, em palavras de maior extensão, o que pode ser sugestivo da possível relação entre o baixo índice de desvios fonológicos no sexo feminino e seu melhor desempenho em CF.

Descritores: Linguagem; Transtornos da linguagem; Escrita manual; Fatores sexuais; Pré-escolar


ABSTRACT

PURPOSE: To analyze the performance in phonological awareness tasks (PA), according to sex and writing hypothesis.
METHODS: Forty-three preschool children - 19 male and 24 female - were submitted to a complete speech-language pathology screening, and carried out an evaluation of their writing level and their PA abilities. The data were statistically analyzed using Two-Way and One-Way ANOVA.
RESULTS: As a result, there was a statistically significant relationship between PA and gender in subjects with syllabic-alphabetical and alphabetical writing levels. Awareness for words was more developed among male subjects, while female individuals had significantly better performances in syllabic segmentation tasks with three-syllable words, which evidenced their better abilities in dealing with syllabic analysis.
CONCLUSIONS: It's concluded that the female subjects showed greater ability to analyze smaller units in longer words, which might suggest a possible relationship between the low rate of phonological deviations in female individuals and their better performance in PA.

Keywords: Language; Language disorders; Handwriting; Sex factors; Child, preschool


 

 

INTRODUÇÃO

A Consciência Fonológica (CF) tem sido um tema amplamente estudado nos últimos anos. Esse tipo de consciência lingüística pode ser definido como a habilidade para analisar e manipular os componentes fonológicos da língua falada, de forma independente do conteúdo semântico da mensagem(1-3).

Pesquisas importantes revelam que, em um sistema alfabético, os aprendizes do código escrito necessitam estabelecer relações entre fonemas e grafemas. Para que percebam essa relação, é necessário que sejam capazes de analisar o contínuo da fala em unidades menores. Isso quer dizer que algum grau de CF precisa estar desenvolvido, para que o processo de aquisição da escrita se efetue. A estreita relação entre CF e alfabetização pode ser exemplificada pelas diversas pesquisas que reforçam a importância da estimulação de crianças pré-escolares, por meio do treinamento com atividades de CF, visando à facilitação de acesso ao código escrito(1,3-10).

Dessa forma, como mostra a maioria das pesquisas, a alfabetização é um marco para o aparecimento e desenvolvimento da consciência fonêmica. No entanto, não é só o conhecimento fonêmico que repercute favoravelmente na aprendizagem da leitura. Também outros conhecimentos fonológicos, como o conhecimento da rima e da aliteração, ou a sensibilidade às unidades intra-silábicas, têm parte ativa no desenvolvimento dessa aprendizagem(3,8-11).

Neste estudo, são considerados quatro níveis diferenciados de habilidades em CF, que se desenvolvem por meio do ensino formal da escrita ou espontaneamente, dependendo da sua complexidade. Esses níveis referem-se a habilidades em consciência de palavras, de rimas, de sílabas e de fonemas(1-2).

A consciência fonêmica, por exemplo, permite que se entenda que a língua falada é composta de pequenos sons justapostos no tempo. Os estudos indicam que, sem o apoio de uma instrução direta, ainda que em ambientes letrados, 25% dos estudantes da primeira série do Ensino Fundamental não desenvolvem tal capacidade. No caso de alunos provenientes de ambientes culturais menos letrados, esse percentual é consideravelmente maior. Mais do que isso, essas crianças acabam apresentando sérias dificuldades para aprender a ler e a escrever. Pode-se afirmar, assim, que essa capacidade de decompor palavras faladas em sons é exatamente a habilidade que promove a leitura bem-sucedida na primeira série do Ensino Fundamental. Além disso, as avaliações da capacidade de escolares para prestarem atenção e manipularem fonemas têm forte correlação com seu êxito na leitura até o fim do Ensino Médio(2,5,12-13).

Os inúmeros estudos em CF, realizados nos últimos anos, não têm se preocupado em estabelecer relações entre as habilidades em CF e o sexo dos sujeitos participantes do estudo. Muitos deles investigaram essa relação de forma periférica a seus objetivos principais, não encontrando diferenças significativas entre os sexos quanto ao desempenho em tarefas de CF(14-17).

Como exceção, há uma pesquisa(18), que teve como objetivo principal avaliar 30 pré-escolares do terceiro período (turma de alfabetização) de escola particular, com idades entre cinco e seis anos, e comparar seu desempenho quanto ao sexo. Não foram encontradas diferenças significativas na maioria das tarefas de CF, a não ser na tarefa de segmentação silábica, na qual houve desempenho significativamente superior no grupo formado pelas meninas.

A presente pesquisa pretende contribuir com o esclarecimento da relação entre desempenho em CF e sexo, à medida que investiga a possível relação entre o desempenho em atividades de CF em seus diversos níveis (palavras, rimas, sílabas e fonemas) e a variável sexo, em crianças pré-escolares. Com isso, pretende-se obter mais informações acerca do desenvolvimento da CF nessa faixa etária.

 

MÉTODOS

O presente estudo trata-se de uma pesquisa de investigação exploratória, em campo, com enfoque quantitativo e qualitativo, que teve sua aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa da instituição de origem, sob registro número 091/2005. A pesquisa foi realizada a partir da análise dos dados de 60 triagens fonoaudiológicas escolares, realizadas com crianças de escolas particulares de Educação Infantil.

As escolas receberam o Termo de Autorização Institucional, por escrito, a ser assinado pela direção e um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido a ser assinado pelos pais ou responsáveis pelos alunos da pré-escola, conforme o estabelecido pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), na Resolução 196/96.

Para a seleção da amostra, foram obedecidos os seguintes critérios de inclusão: ter a permissão dos pais ou responsáveis, para que a criança pudesse participar do estudo; não apresentar alterações neurológicas, emocionais e/ou perceptivas aparentes, e/ou doenças congênitas; ter idade entre cinco anos e seis meses e sete anos; apresentar desempenho satisfatório em triagem audiológica e fonoaudiológica, sem alterações na anatomofisiologia dos órgãos fonoarticulatórios, de linguagem expressiva e compreensiva, e da audição, visando a afastar fatores que pudessem interferir no desempenho em tarefas de CF. As informações sobre o nível intelectual e sobre aspectos emocionais dos alunos foram coletadas com as psicólogas que atuavam nas escolas, auxiliando na seleção da amostra.

Fizeram parte da triagem fonoaudiológica escolar: uma triagem audiológica, avaliações de linguagem, fala e motricidade oral, e avaliação do nível de escrita e das habilidades em CF.

A triagem audiológica foi realizada em conformidade com a Resolução 274/2001 do Conselho Federal de Fonoaudiologia. Assim, as crianças foram submetidas à inspeção do meato acústico externo de cada orelha, para verificar a presença de corpos estranhos, de tampão ou excesso de cerume, que poderiam estar obstruindo a via aérea. Aquelas que apresentaram esse tipo de obstrução foram encaminhadas ao médico otorrinolaringologista e excluídas do estudo. A avaliação audiológica foi realizada por meio do audiômetro Interacoustics® AD 229, calibrado conforme as normas do Inmetro, em uma sala silenciosa da própria escola, utilizando-se a pesquisa dos limiares de Via Aérea de 1000 a 4000 Hz (técnica de varredura em 20 dB). As crianças que não responderam aos estímulos sonoros foram encaminhadas para avaliação otorrinolaringológica e excluídas do estudo.

A avaliação fonoaudiológica foi realizada por meio da observação dos seguintes aspectos: fala, voz, linguagem, órgãos fonoarticulatórios e funções estomatognáticas, a fim de detectar desvios que pudessem se constituir em variáveis intervenientes. A fala e a linguagem foram avaliadas informalmente durante todo o processo de triagem, observando-se a articulação dos fonemas, a construção de frases, os aspectos semânticos, pragmáticos e sintáticos da linguagem e a compreensão das orientações da pesquisadora. A criança também foi incentivada a contar uma história por meio das gravuras de um livro infantil e a nomear figuras expostas em cartões. Foram considerados os padrões de normalidade de desenvolvimento da linguagem oral, fala e voz, consolidados no meio fonoaudiológico(19-21).

Os órgãos fonoarticulatórios foram avaliados por meio de exame intra e extra-oral das estruturas moles e intra-oral das estruturas duras(22). No exame das funções estomatognáticas, avaliaram-se respiração, mastigação e deglutição. As crianças que apresentaram alterações em algumas dessas estruturas foram encaminhadas para avaliação fonoaudiológica clínica e excluídas do estudo.

Após esse processo de amostragem, iniciaram-se as avaliações da linguagem escrita e das habilidades em CF. Quanto à escrita, as crianças foram avaliadas de acordo com a proposta de Ferreiro e Teberosky(23) e classificadas nos níveis ou nas hipóteses de escrita: pré-silábico, silábico, silábico-alfabético e alfabético. Comparou-se o desempenho dos sujeitos quanto à variável sexo, dividindo-os em dois grupos: Grupo 1 (G1) - sujeitos com nível de escrita pré-silábico e silábico, e Grupo 2 (G2) - sujeitos com nível de escrita silábico-alfabético e alfabético. Essa divisão em diferentes grupos justifica-se pela possibilidade de investigar se o sexo e o nível de escrita são fatores que, sozinhos ou juntos, interferem no desempenho em tarefas de CF.

Posteriormente, foi realizada a avaliação das habilidades em CF, por meio do Teste de Consciência Fonológica(1-2), do qual foram aplicadas apenas as tarefas indicadas para a faixa etária dos cinco aos sete anos de idade (Anexo 1). Dessa forma, as crianças foram solicitadas a realizar as seguintes tarefas: segmentação de frases em palavras (T1) - utilizando-se frases de duas, três e quatro palavras; realismo nominal (T2); detecção de rimas (T3) - utilizando-se palavras dissílabas e trissílabas; síntese silábica (T4) - utilizando-se palavras dissílabas, trissílabas e quadrissílabas; segmentação silábica (T5) - utilizando-se palavras dissílabas, trissílabas e quadrissílabas; detecção de sílabas (T6) - utilizando-se palavras com sílabas iguais na posição inicial, final e medial; reversão silábica (T7) - utilizando-se apenas palavras dissílabas; detecção de fonemas (T9) - utilizando-se palavras com fonemas iguais na posição inicial e final.

Todas as tarefas utilizadas foram aplicadas conforme normas do teste(1-2) e tabuladas como corretas na primeira tentativa (1ªT) com valor 2; corretas na segunda tentativa (2ªT) com valor 1; e incorretas com valor 0 (zero). Cada subtipo de tarefa poderia ter, no máximo, dez pontos. Cabe esclarecer que, neste trabalho, o desempenho em cada tarefa de CF é considerado como o saber-fazer, uma habilidade em comportamento observável e mensurável. O trabalho não teve o objetivo de verificar e mensurar competências.

Foi utilizado o programa estatístico SPSS 13.0 for Windows (Statistical Package for the Social Science) para compilação e análise dos dados. O cálculo do poder da análise foi realizado juntamente com a ANOVA de Duas Vias, indicando a possibilidade ou não de realização do teste. Com a finalidade de verificar possíveis relações entre o desempenho em cada tarefa de CF e o sexo dos sujeitos, utilizaram-se os testes estatísticos ANOVA de Duas Vias e de Uma Via, considerando que as variáveis apresentaram distribuição normal pelo teste de Kolmogorov-Smirnov e possuem homogeneidade das variâncias avaliadas, mediante o Teste de Levene. Os dados são apresentados em forma de média e desvio padrão (DP). Para todos os testes estatísticos foi utilizado o nível de significância p<0,05.

 

RESULTADOS

A amostra selecionada resultou em 43 sujeitos, sendo 19 do sexo masculino e 24 do sexo feminino, com faixa etária entre cinco anos e oito meses e sete anos de idade. Para se verificar se o sexo e o nível de escrita são fatores que interferem na CF, conjuntamente ou não, realizou-se ANOVA de Duas Vias. Em todas as tarefas de CF, a interação entre os fatores sexo e nível de escrita não demonstrou influência significativa (p>0,05). Quando se avaliou a interferência dos fatores separadamente, o sexo manteve-se sem influência sobre as variáveis em estudo, porém o nível de escrita mostrou ser um fator importante no desempenho das seguintes tarefas de CF:

- segmentação de frases em palavras (T1) com três palavras (F=4,57; gl=3; p=0,008) e com quatro palavras (F=3,89; gl=3; p=0,017);

- realismo nominal (T2): (F=4,92; gl=3; p=0,006);

- síntese silábica (T4): com quadrissílabos (F=3,60; gl=3; p=0,023);

- detecção silábica (T6): em posição final (F=7,63; gl=3; p=0,001);

- reversão silábica (T7): com palavras dissílabas (F=2,98; gl=3; p=0,045);

- detecção de fonemas (T9): posição inicial (F=7,04; gl=3; p=0,001) e final (F=2,94; gl=3; p=0,047),

A partir desses resultados, comparou-se o desempenho dos sujeitos quanto à variável sexo, dividindo-os em dois grupos: Grupo 1 (G1) - sujeitos com nível de escrita pré-silábico e silábico e Grupo 2 (G2) - sujeitos com nível de escrita silábico-alfabético e alfabético. Optou-se por essa divisão, considerando-se a afinidade entre os grupos, em termos de evolução na escrita e, também, com base na análise estatística, que comparou o desempenho em cada tarefa entre os níveis de escrita de cada grupo, constatando-se não haver diferença significativa (p>0,05), no desempenho dos sujeitos dessa amostra, entre os níveis de escrita propostos para o G1, e entre os propostos para integrar o G2. Dessa forma, justifica-se a subdivisão em apenas dois grupos. O cálculo do poder do teste, ou seja, o quanto o resultado da amostra infere sobre a verdade, reaplicado para os novos grupos, obteve como resultado 80% de confiabilidade.

Além disso, ao analisar as características de cada grupo, obteve-se homogeneidade entre G1 e G2, no que se refere à idade das meninas e dos meninos, não sendo possível, nessa amostra, atribuir qualquer diferença à influência do fator idade.

Reaplicando a análise estatística entre G1 e G2, encontrou-se interferência significativa da variável sexo apenas no G2. A amostra de G2 foi composta por 27 sujeitos (10 meninos e 17 meninas), e nela foi possível observar diferença estatisticamente significativa entre o sexo masculino e feminino, no desempenho das seguintes tarefas de consciência fonológica: tarefa de segmentação de frases com três palavras - T1-3 palavras (p=0,002), com desempenho favorável aos meninos; e tarefa de segmentação silábica com trissílabos - T5 trissílabos (p=0,027), com desempenho favorável às meninas. Esses achados podem ser observados na Tabela 1, que mostra a média de acertos em cada tarefa, por sexo, o desvio padrão e o nível de significância.

Os dados do G1, expostos na Tabela 2, mostram que não houve diferenças estatisticamente significativas entre meninos e meninas, nas tarefas de CF analisadas. A amostra do G1 foi composta por 16 sujeitos (nove meninos e sete meninas), com idades entre cinco anos e oito meses e sete anos.

 

DISCUSSÃO

Inicialmente, faz-se necessário pontuar que, na primeira análise, com todos os sujeitos da amostra, não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas entre os sexos, no desempenho de tarefas de CF, corroborando os estudos anteriores(14-17). Já na segunda análise estatística, utilizando-se o agrupamento dos sujeitos em G1 (pré-silábicos e silábicos) e G2 (silábico-alfabéticos e alfabéticos), apenas os sujeitos com níveis de escrita mais avançados (G2) obtiveram diferença estatisticamente significativa entre os sexos. Essa diferença pôde ser observada no desempenho de duas tarefas de CF, o que corresponde a 11,1% das tarefas avaliadas.

Uma possível explicação pode estar relacionada à relação entre CF e níveis de escrita, evidenciando que, à medida que a criança evolui no seu processo de construção da escrita, apresenta níveis mais elevados de CF(1-2,5,13,24). Além disso, o presente estudo reforça os achados das pesquisas mencionadas, nas quais o nível de escrita da criança é um fator que interfere significativamente no desenvolvimento da CF.

Conforme mostra a Tabela 1, o sexo masculino apresentou desempenho significativamente maior na tarefa de segmentação de frases em três palavras (T1 3 palavras). Além disso, apesar de não apresentar diferença estatisticamente significativa em T1 2 palavras e T1 4 palavras, é importante considerar que a média de acertos também foi mais elevada no sexo masculino, mostrando uma tendência à maior habilidade em consciência de palavras nesse sexo. Dessa forma, observa-se que há uma tendência apontando para um melhor desempenho dos meninos nas tarefas descritas acima. Os meninos apresentaram maior facilidade para perceber palavras como unidades dentro do fluxo auditivo contínuo da frase, uma vez que, além de obterem desempenho significativamente melhor em T1 3 palavras, também obtiveram média relativamente maior em T1 2 palavras e T1 4 palavras, apesar de não ter havido significância estatística.

Também é possível afirmar que a média de desempenho de ambos os sexos em T1 4 palavras é inferior a 50% de acertos (equivalendo a 05 pontos), evidenciando que essa habilidade não está plenamente desenvolvida aos seis anos de idade. Esse dado corrobora um estudo(1) que afirma que a capacidade de segmentação de frases em quatro palavras ou mais se desenvolve a partir dos sete anos de idade, ou seja, concomitantemente com o ensino formal da escrita.

Quanto a esse aspecto, também é importante considerar que, com o crescimento, a criança atinge maior capacidade de memória, apresentando maior facilidade para analisar conteúdos de maior extensão. Fica claro, pelos dados apresentados, que a habilidade em consciência de palavras existe nas crianças pré-escolares, já que apresentaram bom desempenho em tarefas envolvendo menos unidades na frase. Quando a tarefa sobrecarrega a memória (T1 4 palavras) parece haver dificuldade, por parte das crianças pré-escolares, em prestar atenção à quantidade de palavras na frase. Em relação ao efeito de extensão de palavras e frases(25), o tamanho das palavras ou frases influencia o armazenamento das informações, pois quanto mais extensa for a unidade a ser analisada, mais difícil será seu armazenamento. A retenção de informações verbais pela memória de trabalho é essencial para a compreensão de orações faladas e escritas e para manipular os elementos das palavras(26). Tais estudos corroboram os achados da atual pesquisa.

Na tarefa de segmentação silábica com trissílabos (T5 trissílabos), a média de acertos foi maior no sexo feminino, evidenciando melhor desempenho desse grupo. Pode-se supor que as meninas tiveram maior facilidade em lidar com as unidades menores da língua, no caso, as sílabas. Tal dado remete ao fato de que são exatamente as meninas que apresentam menores índices de ocorrência de desvios fonológicos(12,27-28). A habilidade em segmentarem palavras trissílabas em unidades menores, mostrando maior percepção das partes das palavras, pode ter relação com o fato de as meninas apresentarem menos trocas na fala. Portanto, se existe uma correlação de reciprocidade entre sexo, desempenho nas tarefas em CF e desvios fonológicos, parece possível entender o baixo escore de desempenho em CF, como um fator de risco para os desvios fonológicos e os problemas de escrita. No entanto, para que se possa afirmar essa relação, há necessidade de se confirmar esse achado também em outras tarefas e subtarefas de consciência silábica, em estudos envolvendo amostras maiores.

Embora exista uma longa tradição de estudos da variação lingüística, tendo como variáveis dependentes a classe social e/ou a região geográfica do(a) falante, poucas pesquisas foram realizadas tendo como variável as diferenças de sexo.

Contudo, afirma-se(29) que homens e mulheres não falam exatamente da mesma maneira. As mulheres, independentemente da classe social, usam uma maior porcentagem de formas lingüísticas de prestígio do que os homens, sugerindo que elas seriam mais sensíveis ao significado social da pronúncia do que eles. Em relação à fala das crianças, as meninas preferem as formas mais próximas do padrão da língua culta, enquanto os meninos optam por formas não-padronizadas.

Além disso, nos processos dialógicos que ocorrem entre adulto e criança, durante o período de aquisição lingüística, os adultos adaptam sua linguagem ao sexo do destinatário. Assim, poder-se-ia supor que os meninos recebem um input lingüístico distinto daquele recebido pelas meninas.

As considerações sobre as diferenças de uso da fala entre homens e mulheres e a adaptação da fala quanto ao sexo do interlocutor(29) podem apoiar os achados de maior ocorrência de desvios fonológicos em meninos (relacionada aos níveis mais baixos de CF). Também, podem servir de apoio para os resultados da presente pesquisa quanto ao melhor desempenho das meninas em tarefas de CF, relacionadas a níveis mais segmentais da fala do que o nível lexical, uma vez que essa atenção às formas padrão da fala pode supor uma atenção aos detalhes da fala, ou seja, aos aspectos mais relacionados às menores unidades.

Em relação à maior facilidade de o sexo feminino prestar atenção aos detalhes da fala, um estudo realizado com base na análise de tomografias pode também servir de apoio para justificar as diferenças encontradas. A pesquisa constatou que, quando o cérebro do homem está em repouso, sua atividade elétrica é interrompida em pelo menos 70%, enquanto que o cérebro da mulher mantém 90% de atividade durante o mesmo estado, confirmando que as mulheres estão constantemente recebendo e analisando informações. Além disso, as mulheres recebem e analisam informações com seu equipamento sensorial de alta qualidade, e sua capacidade cerebral de fazer rapidamente transferências entre os hemisférios lhes permite integrar e decifrar com eficiência sinais visuais e verbais, além de outros. Além disso, o cérebro feminino tem a capacidade de isolar e selecionar sons e de tomar decisões a respeito de cada um deles, enquanto nos meninos a visão é o sentido melhor desenvolvido(30).

Outra relação presente na literatura é a existente entre desvios fonológicos e memória de trabalho, referindo que o desempenho da memória fonológica apresenta relação positiva com o grau de severidade do desvio fonológico. Isso permite aceitar a idéia de que a memória fonológica está relacionada com a produção de fala e com a escolha dos fonemas para a produção de fala(25). Poder-se-ia supor, portanto, que diferenças no nível de memória de trabalho poderiam explicar as dificuldades encontradas entre os sexos no presente estudo. No entanto, um estudo com pré-escolares, sem alterações de fala e linguagem, entre quatro anos e dez meses e cinco anos e nove meses(31), afirma que a maioria dos indivíduos foi capaz de repetir palavras sem significado com cinco ou seis sílabas, independentemente de seu sexo. A autora reforça que não houve diferença significativa quanto à variável sexo, no desempenho de tarefas de seqüência de dígitos, escore escolar e repetição de palavras sem significado. Neste estudo, também não se observaram diferenças significativas entre o desempenho em tarefas que apresentavam maior número de elementos solicitando mais a memória, entre meninos e meninas.

A análise dos resultados permite concluir que há relação estatisticamente significativa, quando se consideram apenas crianças com níveis de escrita silábico-alfabético e alfabético. Nesse grupo, a consciência de palavras mostrou-se mais desenvolvida no sexo masculino, enquanto em tarefas de segmentação silábica com trissílabos, houve melhor desempenho do sexo feminino, evidenciando uma tendência das meninas para lidarem mais facilmente com a análise das sílabas.

Os achados do atual estudo são de importância para fonoaudiólogos, educadores e estudiosos das habilidades em CF, na medida em que permitem um maior entendimento do desenvolvimento da CF em cada sexo, relacionando-o com o processo de alfabetização e com o desenvolvimento da fala.

Novos estudos, envolvendo amostras maiores, são necessários para analisar mais profundamente a relação entre sexo e as habilidades em CF em crianças, permitindo conclusões acerca das tendências apontadas aqui. Parece claro, no entanto, que o nível de escrita da criança interfere nessa relação.

 

CONCLUSÕES

Foi possível verificar, por meio deste estudo, que:

- não houve diferença estatisticamente significativa entre o desempenho dos meninos e das meninas pré-escolares em tarefas de CF;

- quando se considerou a hipótese de escrita dos sujeitos, houve diferença estatisticamente significativa a favor dos meninos do grupo silábico-alfabético e alfabético, na tarefa de segmentação de frases de três palavras, e a favor das meninas do mesmo grupo, na tarefa de segmentação silábica com palavras trissílabas;

- não se observaram diferenças significativas entre o desempenho de meninos e meninas em tarefas que apresentavam maior número de elementos, solicitando mais a memória;

- apesar de não haver significância estatística, houve uma tendência de melhor desempenho por parte dos meninos em tarefas envolvendo unidades lexicais, enquanto nas meninas, a tendência foi de melhor desempenho em tarefas envolvendo segmentos menores.

 

AGRADECIMENTOS

Ao Dr. Jaime Luiz Zorzi e à Dra. Helena Bolli Mota, pelas importantes considerações realizadas, como membros argüidores deste trabalho.

 

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Endereço para correspondência:
Carla Andreazza-Balestrin
R. Guilherme Adamatti, 436/203
Caxias do Sul - RS, CEP 95034-070
E-mail: carla.a.b@bitcom.com.br

Recebido em: 23/4/2007; Aceito em: 25/3/2008

 

 

Trabalho realizado no Programa de Pós-graduação em Distúrbios da Comunicação da Universidade Federal de Santa Maria - UFSM - Santa Maria (RS), Brasil.