SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.13 número2Apraxia da fala adquirida e desenvolvimental: semelhanças e diferençasCochlear implantation in deaf children with associated disabilities: challenges and outcomes índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Indicadores

Links relacionados

Compartilhar


Revista da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia

versão On-line ISSN 1982-0232

Rev. soc. bras. fonoaudiol. v.13 n.2 São Paulo abr./jun. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-80342008000200016 

REFLETINDO SOBRE O NOVO

 

Feminine after cricothyroid approximation?

 

 

Comentado por: Mônica Medeiros de Britto Pereira

Professora Adjunto da Universidade Veiga de Almeida - UVA - Rio de Janeiro (RJ), Brasil

Endereço para correspondência

 

 

O transexualismo, também chamado de disforia de gênero, ou ainda desordem de identidade de gênero se constitui em um distúrbio de identidade sexual, onde há uma incompatibilidade entre o sexo anatômico do indivíduo e sua identidade de gênero. Apesar de este ser um distúrbio conhecido há muito tempo, sempre foi cercado de tabus. Atualmente este assunto tem tido uma melhor aceitação na sociedade e mais recursos de tratamentos como o psiquiátrico, endocrinológico, cirúrgico e fonoaudiológico estão disponíveis para o indivíduo transexual. No que se refere ao tratamento fonoaudiológico, este pode ser um novo campo de atuação, ainda não explorado no Brasil.

No transexualismo masculino para feminino (M > F) a pessoa apesar de ser anatomicamente do gênero masculino apresenta identidade do gênero feminino. Em relação à voz, se faz necessária uma adequação, pois a freqüência fundamental (F0) do homem é mais baixa do que a da mulher, sendo este parâmetro o maior responsável pela diferença entre os padrões vocais de homens e mulheres. Neste caso pode ser utilizado o recurso da Aproximação Cricotireoidea, também denominada de Tireoplastia tipo IV, que promove a elevação da freqüência fundamental tornando a voz mais feminina. Entretanto, o aumento da F0 apenas terá valor se indicar com clareza que se trata de uma voz feminina, caso contrário o indivíduo irá necessitar de uma terapia vocal e da fala. Neste sentido, o artigo em questão teve por objetivo investigar a efetividade da Aproximação Cricotireoidea (CA) na feminização da voz do ponto de vista perceptivo. O que se pretendeu investigar é o quão feminino uma voz pode ser percebida, após a cirurgia de Aproximação Cricotireoidea.

O método da pesquisa envolveu um grupo de juízes que deveriam julgar a voz de indivíduos transexuais M > F após a cirurgia de Aproximação Cricotireoidea em comparação com a voz de homens e mulheres biológicos. O grupo de juizes foi constituído por 42 estudantes, distribuídos igualmente em homens e mulheres, com média de idades em torno de 21 anos. Os participantes da pesquisa foram nove transexuais M > F (média de idade 43,7 anos) com diagnóstico confirmado de disforia de gênero recrutados na Ghent University Hospital. Todos haviam sido submetidos ao procedimento de Aproximação Cricotireoidea a pelo menos um mês antes. A F0 média durante a leitura, extraída antes da cirurgia, variava de 96,64 Hz a 148,78 Hz, o que situava os participantes em um intervalo de pitch considerado como masculino. Após a cirurgia a F0 subiu de 96,64 para 241,7 Hz (média 169,1 Hz).

Participaram também do estudo nove indivíduos do sexo masculino e nove do sexo feminino. Todos os 27 participantes, vestidos de mulher, tinham o holandês como língua nativa e foram filmados sentados de forma que apenas a cabeça e o ombro pudessem ser visualizados, lendo um texto.

Os 27 vídeos foram apresentados de forma aleatória ao grupo de juizes, em um primeiro momento apenas em áudio e depois também na modalidade audiovisual, com um intervalo de 15 minutos entre as duas apresentações. Os juizes não foram informados sobre os propósitos da pesquisa e sabiam apenas que deveriam julgar a voz dos participantes em uma escala visual de 100 mm onde os extremos correspondiam a "muito masculina (0)" e "muito feminina (100)".

Os dados demonstraram que os juizes classificaram as vozes dos transexuais M > F entre as vozes dos participantes do sexo masculino e feminino, nas duas modalidade de apresentação, sendo a diferença entre os grupos significativa (Mann-Whitney Utest, p<0,001). Visando descobrir de qual gênero a voz dos transexuais de aproximava mais, foi calculado para cada um dos nove participantes transexuais a diferença em relação às médias dos escores dos grupos de homens e mulheres biológicos. A diferença em relação aos dois grupos foi calculada estatisticamente nas duas modalidades de apresentação (áudio e audiovisual). Foi observado que na modalidade áudio a diferença em relação aos participantes do sexo masculino foi menor do que em relação ao sexo feminino, mas esta diferença não foi significativa. Para a modalidade audiovisual não foi observada diferença com relação aos escores do sexo feminino e masculino.

As análises ainda buscaram investigar a extensão da correlação da percepção de feminilidade com a média da F0. Correlações positivas foram observadas em ambas as modalidades de apresentação, no entanto foram mais altas para o grupo de participantes do sexo masculino do que para o grupo de transexuais. Para o grupo do sexo feminino, não foi observado correlação significativa em nenhuma das duas modalidades.

Finalmente, foi observado que os juízes tenderam a julgar a voz dos transexuais como mais feminina na modalidade audiovisual demonstrando a influência da aparência física.

O estudo concluiu que o procedimento de Aproximação Cricotireoidea é uma opção viável para elevar o pitch da voz de indivíduos transexuais M > F, mas não suficiente para criar uma voz que é percebida como totalmente feminina. Além do pitch outras características vocais devem ser modificadas. Além disso, no presente estudo, a aparência física também demonstrou ser importante na percepção da voz.

 

 

Endereço para correspondência:
Mônica Medeiros de Britto Pereira
R. Ibituruna, 108, casa 3, conj. 202
Tijuca, Rio de Janeiro - RJ, CEP 20271-020
E-mail: monicabp@uva.br

Creative Commons License Todo o conteúdo deste periódico, exceto onde está identificado, está licenciado sob uma Licença Creative Commons