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Revista da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia

versão On-line ISSN 1982-0232

Rev. soc. bras. fonoaudiol. vol.16 no.4 São Paulo dez. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-80342011000400004 

ARTIGO ORIGINAL

 

Correlação entre ansiedade e performance comunicativa

 

 

Anna Alice Figueirêdo de AlmeidaI; Mara BehlauII; José Roberto LeiteIII

ICurso de Fonoaudiologia, Universidade Federal da Paraíba - UFPB - João Pessoa (PB), Brasil
IIPrograma de Pós-Graduação de Distúrbios da Comunicação Humana, Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP - São Paulo (SP), Brasil
IIIDepartamento de Psicobiologia, Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP - São Paulo (SP), Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Investigar a correlação entre ansiedade-traço, ansiedade-estado e parâmetros vocais.
MÉTODOS: Participaram 24 adultos, 12 homens e 12 mulheres, com idades entre 19 e 42 anos e sem antecedentes psiquiátricos. O escore do Inventário de Ansiedade Traço-Estado (IDATE), principalmente o Ansiedade-Traço, possibilitou a divisão dos participantes em dois grupos: baixa ansiedade (BA) e alta ansiedade (AA). Foram avaliados parâmetros psicológicos (IDATE) e vocais (auto-avaliação por questionário de sinais e sintomas vocais, QSSV; protocolo de Qualidade de Vida em Voz - QVV; avaliação perceptivo-auditiva-visual do comportamento vocal com a descrição de parâmetros de voz, fala e corpo; e análise acústica). O material de fala analisado foi a emissão sustentada da vogal /a/, contagem de números e um discurso sobre momentos de maior ansiedade ao longo da vida.
RESULTADOS: Quanto maior o traço de ansiedade indicado pelo IDATE, maior a evidência de ansiedade na fala encadeada e no discurso; quanto mais agudo o pitch da voz, maior o comprometimento da articulação da fala, da coordenação pneumofono-articulatória, da movimentação corporal e da expressão facial. Quanto maior o estado de ansiedade, maior a evidência de ansiedade em diversos parâmetros do discurso, com desequilíbrio na ressonância vocal, comprometimento na modulação, na articulação da fala e na expressão facial.
CONCLUSÃO: O traço e o estado de ansiedade diferenciaram o comportamento comunicativo dos indivíduos, envolvendo modificações no corpo, na fala e na voz.

Descritores: Comportamento; Ansiedade/complicações; Ansiedade/psicologia; Barreiras de comunicação; Voz


 

 

INTRODUÇÃO

A ansiedade é uma condição afetiva normal que, quando em excesso, pode acarretar distúrbios do humor, bem como de pensamento, de comportamento e da atividade fisiológica(1).

De acordo com a literatura, o estresse e a ansiedade podem ser tanto primários quanto secundários a um problema na voz, gerando assim um círculo vicioso entre o sintoma emocional e o vocal(2), como, por exemplo, é observado em alguns quadros de disfonia funcional. Muitos estudos revelam que o diagnóstico de disfonia pode estar diretamente relacionado ao estresse, ansiedade, depressão, introversão, neuroticismo e fobias sociais(2,3-7).

Algumas pesquisas que apontaram a relação entre os problemas vocais e as emoções basearam-se em relatos referentes a eventos emocionais ao longo da vida, dados não sistemáticos em prontuário ou questionários gerais que também abordavam o aspecto emocional, porém poucos estudos utilizaram ferramentas psicométricas como questionários, inventários e escalas padronizados e validados(3,7-10). Atualmente, considera-se que apenas o relato de eventos pode não refletir o nível de emoção vivida(11), o que constitui limitação desses estudos.

Pesquisas sistemáticas incluindo ansiedade, estresse e depressão devem ser realizadas, a fim de aprofundar a compreensão de sua implicação na voz e seus distúrbios e para que, a partir de seus resultados, seja possível criar programas de tratamento mais apropriados.

Assim, o objetivo do presente estudo foi investigar a possível correlação existente entre a ansiedade-traço e ansiedade-estado em relação aos parâmetros vocais.

 

MÉTODOS

Este estudo foi inicialmente avaliado e aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa (CEP) da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), protocolo nº 0707/05.

Sujeitos

Inicialmente foi realizado um estudo piloto a fim de analisar o comportamento das variáveis do estudo. A partir dos resultados obtidos, calculou-se o número amostral de 22 participantes, com base em Cochran (1977)*.

Os sujeitos da pesquisa foram recrutados a partir de anúncios em rádio, televisão e jornal realizados pela Assessoria de Imprensa da UNIFESP. Inicialmente, 103 indivíduos inscreveram-se para participar na pesquisa, porém apenas 37 puderam comparecer ao experimento da forma em que ele foi delineado e 13 foram eliminados devido aos critérios de exclusão ou captação da imagem inadequada para posterior análise.

Assim, participaram deste estudo 24 indivíduos, 12 do gênero feminino e 12 do masculino, com idades entre 19 e 42 anos e nível de escolaridade de ensino fundamental completo a pós-graduação.

Os critérios de inclusão adotados nesta pesquisa foram: ter a idade entre 18 e 45 anos - pois se entende que o limite inferior garante o processo final de muda vocal e o superior o início de uma série de alterações estruturais na laringe decorrentes da senescência (menopausa e andropausa), com maior ou menor impacto vocal -; voluntários sem queixas vocais e sem antecedentes psiquiátricos; e com grau de instrução de, no mínimo, ensino médio completo, necessário para a resposta de alguns protocolos de auto-avaliação adotados.

Após a avaliação clínica médica e a resposta a uma entrevista semi-estruturada com base no DSM-IV, que abordava dados de identificação pessoal, saúde geral e questões psíquicas, verificou-se que todos os voluntários gozavam de boa saúde, negavam antecedentes psiquiátricos, abuso de álcool e drogas, não faziam uso de nenhum medicamento prescrito e não relataram problemas vocais. Foram excluídos os fumantes crônicos, sujeitos com paralisias ou doenças neurológicas, com acometimento de vias aéreas superiores, rinite alérgica no momento do experimento, usuários de estimulantes, psicotrópicos, fitoterápicos, ansiolíticos, antidepressivos ou ainda que tivessem ingerido café ou álcool no dia do experimento.

Antes do experimento, cada voluntário ficou a par do objetivo do estudo e assinou o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, de acordo com a resolução 196/96 da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa - CONEP.

Mensurações

Psicológica

Foi utilizado o Inventário de Ansiedade Traço-Estado (IDATE) em sua versão validada para o Português Brasileiro (PB)(12). Esse instrumento possui duas subescalas, cada uma com vinte itens e quatro graus de intensidade; uma com a finalidade de medir a autopercepção do indivíduo em relação à ansiedade-traço (característica de propensão à ansiedade) e a outra à ansiedade-estado (estado emocional transitório - momento da aplicação).

Vocais

Os parâmetros vocais foram obtidos a partir da autoavaliação, avaliação perceptivo-auditiva-visual e avaliação acústica.

Para a autoavaliação vocal, utilizou-se o protocolo de Qualidade de Vida em Voz - QVV(13), e o Questionário de Sinais e Sintomas Vocais - QSSV(14), traduzido/adaptado para o PB (15).

O QVV é um questionário de autoavaliação para mensurar a relação da voz e a qualidade de vida em aspectos relacionados à comunicação e possui dez itens e dois domínios, a saber: sócio-emocional, que se expressa nos itens 4, 5, 8 e 10; e de funcionamento físico, avaliado por meio das demais questões(13). O QSSV tem como objetivo determinar a ocorrência de sinais e sintomas vocais; contém 14 itens e contempla a presença no tempo, frequência e relação do sintoma com o trabalho(15).

Em relação à análise perceptivo-auditiva-visual, os pesquisadores elaboraram dois protocolos de análise perceptivo-auditiva e visual, com base nos estudos que relacionam voz e emoção(16,17). O primeiro protocolo teve como objetivo avaliar o grau de ansiedade observado nos participantes durante as tarefas de fala constituídas de vogal sustentada e fala encadeada, que foram mensuradas por meio da marcação de uma escala analógica. O segundo incluiu a avaliação de parâmetros vocais (qualidade vocal, ressonância, pitch, loudness e modulação), de fala (articulação, velocidade, respiração, coordenação pneumofonoarticulatória e hesitações) e de corpo (movimentação, expressão facial, olhar e gestos).

O material de análise compreendeu a emissão da vogal sustentada /a/, contagem de números de 1 a 10 e um discurso sobre os momentos de maior ansiedade pelos quais o indivíduo teria passado durante a vida. Para a análise perceptivo-auditiva-visual, ao assistir as filmagens, um especialista em voz foi orientado a identificar o grau de ansiedade do indivíduo numa escala analógica de 1 a 10 e destacar os desvios de voz, fala e corpo observados, de acordo com o protocolo mencionado. É importante registrar que o especialista em voz, que analisou as gravações, desconhecia o real grau de ansiedade dos participantes da pesquisa, isto é, foi um estudo cego por parte do avaliador dos dados.

Para a análise acústica, foi utilizado o programa Voxmetria® (CTS Informática, versão 2.5), a partir do qual foram extraídas as seguintes medidas: frequência fundamental média, frequência fundamental mínima, frequência fundamental máxima, variabilidade da frequência e a extensão melódica em semitons.

Procedimento

Após o acesso ao termo de consentimento e esclarecidas as possíveis dúvidas do voluntário, foi aplicado o Inventário de Ansiedade Traço-Estado - IDATE(12) e, a partir dos resultados, os sujeitos foram subdivididos em dois grupos de acordo com o escore que obtiveram na escala de ansiedade-traço. Os indivíduos que apresentaram escores abaixo de 40 pontos foram alocados no grupo considerado de baixa ansiedade (BA) e os que obtiveram escores acima de 41 alocaram-se ao grupo alta ansiedade (AA).

Na sequência, os voluntários responderam ao QVV e ao QSSV e foram realizadas as gravações da vogal sustentada /a/, da contagem de números e do discurso sobre "episódios que mais lhe provocaram ansiedade durante a vida". As gravações foram realizadas por meio de uma filmadora digital, marca Sony®, modelo DCR-HC52 MiniDV, fixada a um pedestal a uma distância de dois metros do voluntário de pesquisa. Optou-se por gravar em filmadora para facilitar o acesso a recursos visuais na avaliação de parâmetros corporais relevantes na comunicação.

O discurso, a gravação da vogal sustentada e a contagem de números foram submetidos à análise perceptivo-auditiva-visual.

Análise dos dados

Inicialmente foram pontuadas as respostas aos instrumentos. Para o IDATE e o QVV, foram utilizados cálculos específicos validados para obtenção da resposta dos mesmos. Por sua vez, a resposta do QSSV é calculada a partir de um somatório simples do número de sinais e sintomas vocais relatados pelo participante da pesquisa.

Em seguida, esses dados foram alocados em um banco de dados digital e analisados a partir de análise estatística descritiva e inferencial.

As variáveis de autoavaliação vocal e perceptivo-auditiva foram avaliadas por meio do teste não paramétrico Mann-Whitney, a fim de comparar os grupos BA e AA. Nas variáveis: número de sintomas vocais, grau de ansiedade por meio da vogal sustentada e fala encadeada, empregou-se o teste paramétrico t de Student.

A Correlação de Spearman foi utilizada, com o intuito de verificar se o grau de relacionamento entre os pares de variáveis: IDATE-T x QVV, IDATE-T x QSSV, IDATE-T x IDATE-T x análise perceptivo-auditiva-visual, IDATE-T x análise acústica, IDATE-E x análise perceptivo-auditiva-visual e IDATE-E x análise acústica.

As diferenças foram consideradas significativas quando apresentaram p<0,05.

 

RESULTADOS

Neste tópico são apresentadas três tabelas com os resultados das medidas realizadas.

A Tabela 1 mostra a média e o erro padrão, advindos dos resultados em pontos a partir do IDATE, do QVV e do QSSV, bem como o grau de desvio encontrado nas tarefas de fala.

 

 

A Tabela 2 mostra a correlação entre a ansiedade-traço e dados da autoavaliação vocal advindos do QVV e do QSSV. Percebeu-se que houve correlação em todos os parâmetros de autoavaliação. Quanto maior é o IDATE-Traço, menor o domínio sócio-emocional (p=0,006), domínio de funcionamento físico (p<0,001) e escore total (p<0,001) do QVV; maior é o comprometimento da autoavaliação vocal (p=0,03), maior o número de sinais e sintomas vocais (p=0,01), maior dificuldade para falar baixo (p=0,04) e dificuldade para projetar a voz (p=0,01).

 

 

A Tabela 3 apresenta a correlação entre a ansiedade-traço e dados da análise perceptivo-auditiva-visual, abrangendo as tarefas vocais de vogal sustentada, fala encadeada e o discurso. Percebeu-se que quanto maior o IDATE-Traço, maior é a evidência de ansiedade durante a tarefa de fala encadeada (p=0,02), durante o discurso (p=0,009) e maior é a percepção do grau de ansiedade no corpo (p=0,02). Em relação aos dados da análise perceptivo-auditiva-visual, abrangendo os parâmetros de voz, fala e corpo durante o discurso, pôde-se perceber que quanto maior o IDATE-Traço, maior comprometimento do pitch vocal (p=0,04), maior é o comprometimento da articulação da fala (p=0,01), há maior incoordenação pneumofonoarticulatória (p=0,02), são maiores os comprometimentos da movimentação corporal (p=0,02) e da expressão facial (p=0,03).

 

 

A Tabela 3 também expõe a correlação entre a ansiedade-estado, durante a tarefa ansiogênica, e dados da análise perceptivo-auditiva-visual, abrangendo as tarefas vocais de vogal sustentada, fala encadeada e o discurso no momento de ansiedade. Pôde-se observar que quanto maior o IDATE-Estado, maior é a evidência de ansiedade durante o discurso (p=0,01), de forma a gerar maior desequilíbrio na ressonância da voz (p=0,01), maior é o comprometimento na modulação da voz (p=0,007), na articulação da fala (p=0,04) e da expressão facial (p=0,04).

Em relação à correlação entre a ansiedade-traço e parâmetros da análise acústica do sinal sonoro, como: frequência fundamental média, frequência fundamental mínima, frequência fundamental máxima, variabilidade da frequência e número de semitons, apesar de ter apresentado uma tendência de correlação entre f0 e traço de ansiedade, não existiu correlação para nenhum dos parâmetros analisados em relação à análise acústica. O mesmo ocorreu na análise da ansiedade estado: não houve correlação para nenhum dos parâmetros analisados.

 

DISCUSSÃO

Como foi visto nos resultados, pôde-se confirmar a hipótese inicial de que quanto maior for a ansiedade-traço e a ansiedade-estado, maior será o comprometimento na comunicação do indivíduo.

Os grupos BA e AA diferenciaram-se entre si devido à resposta ao IDATE-Traço: o grupo AA obteve maior pontuação em relação ao outro grupo. A partir desse resultado houve uma divisão dos grupos para a análise das variáveis e pôde-se perceber diferenças entre elas, como nos resultados referentes ao IDATE-Estado, autoavaliação vocal (escore funcionamento físico e total do QVV e número de sinais e sintomas vocais) e tarefas de fala (vogal sustentada e fala encadeada) (Tabela 1).

Na análise dos resultados do QVV percebeu-se que os grupos apresentaram diferentes impactos nos aspectos da comunicação, sendo os escores do grupo BA mais elevados, quando comparados aos escores do grupo AA, tanto para o domínio de funcionamento físico, quanto sócio-emocional e escore total, isto é, o grupo BA obteve melhor qualidade de vida em relação aos aspectos vocais da comunicação. Assim, verificou-se que o grupo AA apresentou maior comprometimento da qualidade de vida em voz, no domínio do funcionamento físico e no escore total. Ao comparar com a literatura(13,14), percebeu-se que o grupo BA apresentou resultados similares aos indivíduos sem disfonia e o grupo AA apresentou resultados aproximados aos de indivíduos com disfonia funcional.

O grupo AA apresentou maior número de sinais e sintomas em relação ao BA. Uma pesquisa realizada com professores nos Estados Unidos mostrou que o grupo de professores relatou em média 4,3 sinais e sintomas vocais e os não professores uma média de 3,1(14). No Brasil, os professores referiram uma média de 1,7 sinais e sintomas vocais e os não professores 3,5(15). Dessa forma, é possível comparar o grupo de não professores ao grupo BA e o grupo de professores ao grupo AA, devido ao nível elevado de estresse e ansiedade encontrados nessa população.

Em relação à correlação entre o IDATE-Traço e a autoavaliação vocal (Tabela 2), quanto maior o traço de ansiedade, menor os domínios sócio-emocional e de funcionamento físico e o escore total do QVV e maior o número de sinais e sintomas vocais, sobretudo, dificuldade para falar baixo e para projetar a voz. Esses dados vão ao encontro dos apontados na literatura, sobre a relação entre voz e comprometimento emocional. Estresse ou relato de eventos estressantes ao longo da vida são mais frequentes em indivíduos com comprometimento vocal, ou o inverso, indivíduos com problema vocal relatam maior comprometimento emocional em relação aos indivíduos sem queixas ou patologias vocais(8-10).

No tocante à correlação entre o IDATE-Traço e a avaliação perceptivo-auditiva-visual (Tabela 2), quanto maior a ansiedade-traço, maior a evidência de ansiedade na fala encadeada, discurso e principalmente no corpo. Verifica-se que há escassez de trabalhos que incluam análise perceptivo-auditiva-visual e questões emocionais, principalmente com controle de variáveis relacionadas à emoção. Dessa forma, alguns estudos demonstram que há comprometimento da comunicação oral e gestual sob a influência das emoções, sobretudo, a ansiedade e timidez(16-21).

Na correlação entre o IDATE-Traço e as variáveis avaliadas durante o discurso (Tabela 2), quanto maior a ansiedade-traço, mais agudo é o pitch da voz, maior é o comprometimento da articulação da fala, da coordenação pneumofonoarticulatória, da movimentação corporal e da expressão facial. Além da correlação entre o IDATE-Estado e evidência da ansiedade nas tarefas de fala (Tabela 2), verifica-se que quanto maior é a ansiedade-estado, maior é a evidência de ansiedade no discurso: maior é o desequilíbrio na ressonância da voz, comprometimento na modulação da voz, na articulação da fala e da expressão facial.

De acordo com a literatura, os indivíduos sob o efeito da ansiedade podem apresentar alguns problemas da comunicação, como: voz mais aguda ou quebras na frequência, ressonância laringo-faríngea, respiração superficial, aumento da tensão muscular, restrição do vocabulário, disfluência, entre outros(16,22). Alguns desses fatos podem ser explicados pela ativação do sistema cerebral de defesa, ocasionando, entre outras modificações, a tensão dos músculos intrínsecos à laringe, bem como da postura corporal(20,23,24).

As correlações entre o IDATE-Traço e a análise acústica e IDATE-Estado e a análise acústica (Tabela 3) não foram significantes, porém pôde-se perceber que houve uma tendência a haver uma correlação positiva entre frequência fundamental média e ansiedade traço, isto é, quanto maior o traço de ansiedade, maior a frequência fundamental. Dessa forma, acredita-se que se houvesse um maior número de participantes, esses resultados poderiam ser significativos.

A literatura da área refere que ao submeter indivíduos a situações de medo ou de estresse, os parâmetros vocais são caracterizados por aumento da frequência fundamental e variabilidade da frequência e número de semitons(16,18). Ainda assim, é importante destacar que para a análise acústica foram selecionados somente alguns parâmetros, além do fato de a análise acústica não ser uma correspondência especular da análise perceptivo-auditiva, fato que reforça a necessidade de realização de ambas as análises, de forma associada(25,26).

Recomenda-se que estudos posteriores possibilitem a participação de um maior número de voluntários, bem como a coleta digital das vozes para análise acústica mais detalhada.

 

CONCLUSÃO

O presente estudo constatou que tanto a ansiedade-traço quanto a ansiedade-estado interferem na forma de expressão e comunicação do indivíduo, seja em relação ao corpo, fala e/ou voz. Quanto mais ansioso o sujeito for ou estiver, maior a probabilidade dele perceber a sua ansiedade por meio da autoavaliação e do interlocutor notar a influência da ansiedade em sua comunicação.

Assim, o traço e o estado de ansiedade diferenciam o comportamento comunicativo dos indivíduos, pelas modificações no corpo, fala e voz. Percebeu-se que quanto maior o grau de ansiedade-traço, maior o comprometimento da comunicação, da qualidade de vida em voz, maior número de sinais e sintomas vocais referidos pelos indivíduos.

Os achados deste estudo são importantes para se conhecer as limitações vocais desencadeadas pela ansiedade, podendo, assim, auxiliar na formulação de um conjunto de regras para que se alcance um melhor desempenho durante situações ansiogênicas.

 

AGRADECIMENTO

Agradecemos ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), à Associação Fundo de Incentivo à Psicofarmacologia (AFIP) e à Fundação de Apoio à Universidade Federal de São Paulo (FapUNIFESP), pelo apoio financeiro concedido para realização dessa pesquisa, sob processo nº 142932/2006.

 

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Endereço para correspondência:
Anna Alice Figueirêdo de Almeida
Departamento de Fonoaudiologia, Centro de Ciências da Saúde
Cidade Universitária - Campus I, Bairro Castelo Branco
João Pessoa (PB), Brasil, CEP: 58051-900
E-mail: anna_alice@uol.com.br

Recebido em: 21/8/2010
Aceito em: 22/2/2011

 

 

Trabalho realizado no Departamento de Psicobiologia, Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP - São Paulo (SP), Brasil.
* Cochran WG. Sampling techniques. 3rd ed. New York: John Wiley and Sons, 1977.

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