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Revista da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia

Print version ISSN 1516-8034

Rev. soc. bras. fonoaudiol. vol.17 no.1 São Paulo Jan./Mar. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-80342012000100008 

ARTIGO ORIGINAL

 

Influência de estímulos visuais na produção escrita de surdos sinalizadores com queixas de alterações na escrita

 

 

Natali da Silva LustreI; Karen Barros RibeiroII; Carolina Lima FerreiraII; Maria Silvia CárnioIII

ICurso de Fonoaudiologia, Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo – USP – São Paulo (SP), Brasil
IICurso de Especialização em Fonoaudiologia, Departamento de Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional, Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo – USP – São Paulo (SP), Brasil
IIIDepartamento de Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional, Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo – USP – São Paulo (SP), Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Verificar a influência de dois tipos de estímulos visuais na produção escrita de surdos sinalizadores com queixas de alterações na escrita.
MÉTODOS: Participaram 13 estudantes surdos sinalizadores com queixas de alterações na escrita, sendo sete do gênero masculino e seis do feminino. A média de idade foi de 13 anos, e os sujeitos apresentavam perda auditiva neurossensorial de grau severo ou profundo (pior que 71 dBNA na média das frequências de 500 Hz, 1 e 2 kHz). A escolaridade dos participantes variou de 3ª à 8ª séries do Ensino Fundamental de escolas pública e particular. Os surdos foram avaliados quanto ao desempenho em LIBRAS e realizaram produções escritas com base em estímulos visuais de uma figura de ação e de figuras em sequência, as quais foram analisadas segundo critérios adaptados de acordo com a Teoria das Competências Comunicativas (Genérica, Enciclopédica e Línguística). Os dados foram analisados estatisticamente.
RESULTADOS: Em relação à Competência Genérica, a tipologia do discurso predominante foi a Narração. Quanto às competências Enciclopédica e Linguística, ambas se mostraram prejudicadas independente dos estímulos apresentados.
CONCLUSÃO: Os dois tipos de estímulos visuais estudados não propiciaram produções escritas diferenciadas nos surdos sinalizadores com queixas de alterações na escrita.

Descritores: Educação; Avaliação; Surdez; Redação; Linguagem de sinais


 

 

INTRODUÇÃO

Os surdos usuários da língua de sinais que, desde o nascimento, estão inseridos na comunidade surda, adquirem a linguagem e, consequentemente, o conhecimento de mundo por meio dessa língua. A Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) possui características próprias e, assim como as demais línguas de sinais, tem gramática e estruturas particulares, não se tratando de Português sinalizado(1).

A falta de correspondência entre os sinais e as palavras escritas é uma das causas da dificuldade de aquisição da escrita pelo sujeito surdo, pois o número de palavras escritas e o número de sinais feitos para expressar a mesma frase não são necessariamente iguais, como por exemplo, o fato de a língua de sinais não possuir artigos, conectivos e flexão verbal, elementos presentes na modalidade escrita(2-4).

Estudos mostram que há similaridades entre a escrita inicial de surdos e ouvintes, pois, em um primeiro nível, existe uma relação entre a escrita e o desenho, enquanto no segundo, há uma representação menos figurativa. O terceiro nível é aquele em que se manifestam as diferenças entre a escrita de jovens ouvintes e surdos, pois se inicia a reflexão a respeito da relação entre a fala e a escrita para os ouvintes, e os sinais e a escrita para os surdos(5).

Em seu processo de leitura e escrita, o surdo utiliza o processamento visual e não as correspondências grafo-fonêmicas(6), como são conhecidas até o momento. Contudo, ainda não foi esclarecido se as produções escritas de surdos possuem características peculiares em decorrência da privação auditiva ou se alguns surdos possuem, além desta privação, algum distúrbio de leitura e escrita.

A pedagogia da inclusão defende os diferentes estilos de aprender e a singularidade dos indivíduos, respeitando o ritmo, interesses, desejos e as concepções de mundo de cada sujeito(7). Assim, independente da presença ou não de um distúrbio de leitura e escrita, o surdo necessita de estratégias de intervenções específicas e, de preferência, de programas educacionais individualizados(8).

Uma das estratégias que a literatura tem apontado como eficaz para a ampliação do léxico e o desenvolvimento metalinguístico para surdos sinalizadores é a utilização de recursos visuais, pelo fato de que as imagens geralmente fornecem um contexto autoexplicativo.

Em um estudo de caso realizado com uma jovem surda usuária de LIBRAS(7), os autores observaram que a utilização de imagens aliadas a práticas discursivas em LIBRAS e no Português escrito como recurso pedagógico propiciou a ampliação e o aprimoramento do discurso sinalizado e escrito, estabelecendo relações e inferências entre os assuntos propostos. Neste caso, o uso de estímulos visuais demonstrou ser um recurso substancial na aprendizagem desta jovem, além de propiciar um desenvolvimento cognitivo significativo(7). Entretanto, o efeito do tipo de estímulo visual apresentado (imagens sequenciadas ou isoladas) para eliciar o discurso das crianças ainda não foi esclarecido e precisa ser melhor elucidado(9).

No Brasil, observa-se carência de materiais dirigidos ao ensino da língua portuguesa escrita para surdos usuários de LIBRAS. Dessa forma, torna-se necessário investigar que tipo de estímulo visual daria maior contribuição para a aprendizagem e o aprimoramento da produção escrita desta população específica(10).

Considerando-se o exposto acima e o caráter visuo-espacial da LIBRAS, o presente estudo teve por objetivo verificar a influência de dois tipos de estímulos visuais na produção escrita de surdos sinalizadores com queixas de alterações na escrita.

 

MÉTODOS

Participantes

A presente pesquisa, de corte transversal, foi aprovada pela Comissão de Ética da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo sob nº 1043/08. Os responsáveis pelas crianças assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

Foram sujeitos desta pesquisa 13 estudantes surdos sinalizadores com queixas de alterações na escrita, sendo sete do gênero masculino e seis do feminino, com média de idade de 13 anos; com perda auditiva neurossensorial de grau severo ou profundo (pior que 71 dBNA na média das frequências de 500 Hz, 1 e 2 kHz). É importante ressaltar que o termo "queixas" se refere às dificuldades que o surdo apresentava, não acompanhando o desempenho escolar dos demais estudantes em sala de aula, mesmo com todo o acesso ao conteúdo curricular e aporte linguístico.

Na época da coleta de dados, seis sujeitos cursavam entre a 3ª a 8ª séries do Ensino Fundamental em três escolas públicas municipais especiais para surdos; um cursava a 4ª série em uma classe especial dentro de uma escola pública estadual regular e seis, a 3ª e 4ª séries de uma escola especial para crianças surdas (particular/filantrópica). Todos tinham nível alfabético de escrita, porém apresentavam queixas de alteração de leitura e escrita, sendo que 11 sujeitos tinham histórico referente a terapia fonoaudiológica em leitura e escrita e apenas dois nunca tinham frequentado este tipo de serviço, embora estudassem em escola especial para surdos.

Local

Os dados dos seis escolares que frequentavam a Escola Especial para Crianças Surdas (particular/filantrópica) foram coletados na própria escola. Os demais sujeitos tiveram seus dados coletados no Laboratório de Investigação em Leitura e Escrita do Curso de Fonoaudiologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, uma vez que frequentavam ou estavam em lista de espera para atendimento no referido Laboratório. Ambos os locais forneceram toda infra-estrutura necessária para a realização e concretização da pesquisa.

Procedimentos

Seleção dos sujeitos

Em dias previamente selecionados os pais dos estudantes surdos compareceram ao referido Laboratório para assinar o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e responder a uma anamnese. O mesmo ocorreu com os pais dos alunos surdos que frequentavam a escola especial (particular/filantrópica) para crianças surdas, que compareceram na própria escola.

Os sujeitos foram avaliados por meio do Protocolo de Avaliação de Leitura Escrita* com o objetivo de conhecer e garantir que todos os participantes possuíssem nível alfabético de escrita. O instrutor surdo, que participou da pesquisa, aplicou um protocolo para avaliação da Língua Brasileira de Sinais de Surdos** com a finalidade de se garantir a proficiência em LIBRAS de todos os participantes.

Para os sujeitos com queixas de alteração na escrita, que já estavam em atendimento ou faziam parte da lista de espera do Laboratório, as provas foram realizadas, individualmente, em dias alternados, com horário determinado no próprio Laboratório. Quanto aos sujeitos da escola especial (particular/filantrópica), a coleta de dados também foi realizada individualmente e em dias alternados. A única diferença no procedimento foi a de que os sujeitos foram conduzidos em pequenos grupos para uma sala designada pela direção da escola, mas cujas carteiras foram dispostas de forma a inviabilizar qualquer tipo de comunicação entre eles. Em ambos os locais, as provas foram realizadas na presença de um instrutor surdo, de uma bolsista de Treinamento Técnico e de uma bolsista de Iniciação Científica, sendo que o tempo total de coleta de dados foi de quatro meses.

Coleta de dados

Após as etapas de seleção dos sujeitos, teve início a aplicação das provas de elaboração de textos escritos eliciados por meio de dois tipos de estímulos visuais(11). A prova I foi composta por uma Figura de Ação e a prova II foi composta por Figuras em Sequência.

A figura de ação foi retirada de um livro de história com figuras em sequência(12). Este livro é amplamente utilizado na área de linguagem para eliciar narrativas escritas em crianças(13-15).

As figuras em sequência foram selecionadas de um estudo(3) que utilizou figuras sequenciais para a avaliação de crianças surdas britânicas. O método, incluindo as figuras, foi validado em outro estudo(16).

Os participantes receberam orientações referentes aos procedimentos para a realização de cada uma das provas eliciadas pelos estímulos visuais, por meio de um vídeo gravado pela instrutora surda, contendo instruções sobre a prova I e depois sobre a prova II. Este procedimento permitiu a uniformização das instruções para a realização das provas para os participantes. Em cada carteira estavam disponíveis lápis e folha de papel sulfite com um cabeçalho para preenchimento dos dados pessoais e quatro figuras em sequência (prova II). Em outra ocasião, o mesmo procedimento foi realizado com a figura de ação (prova I).

Não houve limite de tempo para a realização das produções. Contudo, todo o processo da produção escrita foi filmado e cronometrado para contextualizar a situação de coleta de dados e, consequentemente, propiciar dados para a análise qualitativa e complementar a quantitativa.

As produções escritas foram analisadas segundo os critérios de Competências Comunicativas (Linguística, Genérica e Enciclopédica)(17), adaptados em outro estudo(18), em que foi elaborado um protocolo de registro dos dados observados. Cada produção escrita foi analisada qualitativa e quantitativamente, sendo que a pontuação máxima que poderia ser obtida em cada produção era de 22 pontos.

Todas as produções escritas foram analisadas por cinco juízes com a finalidade de se obter fidedignidade dos dados, uma vez que a escrita do surdo apresenta características próprias em virtude das dificuldades com vocabulário e sintaxe. O grupo de cinco juízes era composto pela bolsista de iniciação científica, por duas bolsistas de treinamento técnico, pela orientadora da pesquisa e pela instrutora surda, todos com experiência em leitura e escrita. Inicialmente foi realizada reunião com todos os juízes para treinamento e discussão dos critérios de análise das produções escritas. Após a tabulação das análises foi verificada concordância de 80% entre os juízes, sendo que os casos discordantes foram discutidos pela equipe para se obter um consenso.

Análise estatística

Foram realizados testes estatísticos comparativos entre as produções escritas eliciadas por uma figura de ação e por figuras em sequência. Na maioria dos casos, a distribuição dos resultados não apresentou significância entre os dois estímulos; portanto, de acordo com as possibilidades, aplicaram-se os seguintes testes: teste de McNemar e o teste de Wilcoxon.

 

RESULTADOS

Os resultados relativos às Competências Comunicativas: Genérica, Enciclopédica e Linguística serão apresentados separadamente, de acordo com a competência analisada.

Referente à Competência Genérica (Tabela 1), foi observado que não houve diferença entre as produções escritas, ou seja, a tipologia do discurso predominante foi a Narração para ambos os estímulos.

Na Competência Enciclopédica (Tabela 2), o desempenho dos sujeitos no item referente ao Conhecimento Enciclopédico foi semelhante para ambos os estímulos. Contudo, observa-se que, na figura de ação, apenas um sujeito apresentou Conhecimento Enciclopédico e na figura em sequência, três sujeitos.

Quanto à Fidedignidade ao Tema, os resultados não foram significativos para nenhum dos estímulos visuais, sendo que a maioria dos sujeitos teve uma pontuação parcial.

Observou-se que o Título foi empregado somente na figura de ação e apenas por um sujeito. Além disso, foi constatado que não houve diferença no uso de Intertextualidade em ambos os estímulos, uma vez que nenhum sujeito pontuou neste item.

Quanto à Organização das Ideias, as provas eliciadas por ambos os estímulos visuais apresentaram resultados inadequados e/ou parcialmente adequados, não ocorrendo diferença entre eles.

Em relação ao uso de Inferências não foi possível a aplicação de teste estatístico, uma vez que a maioria dos sujeitos não pontuou, ou usou de forma inadequada este tópico para ambos os estímulos.

No item Vocabulário, o teste estatístico também não foi aplicado, devido ao fato de que todos os participantes fizeram uso de vocabulário simples em suas produções escritas.

Em relação à Competência Linguística (Tabela 3) observou-se a predominância de produções escritas de extensão curta, evidenciada pela ausência de diferença estatística.

No item Pontuação não foi possível aplicar testes estatísticos, pois em ambos os estímulos a maioria dos sujeitos não utilizou sinais de pontuação ou o fez de forma inadequada, sendo que apenas um sujeito utilizou pontuação suficiente e adequada na maioria dos parágrafos, porém, apenas quando o estímulo apresentado foi a figura de ação.

Não houve diferença entre as produções escritas para ambos os estímulos quanto à Ortografia. Pôde-se observar que uma porcentagem maior de sujeitos apresentou menos erros ortográficos na prova eliciada pela figura de ação. No entanto, de forma geral, os sujeitos apresentaram poucos erros.

Em relação à Coesão Global não foi encontrada diferença para ambos os estímulos.

A comparação entre a média de pontuação total obtida nas provas de figura de ação e em sequência (Tabela 4) demonstrou que não houve diferença entre as produções escritas de acordo com os estímulos visuais apresentados.

 

 

DISCUSSÃO

Existe um consenso de que os surdos usuários de língua de sinais geralmente apresentam produções escritas simples, muitas vezes compostas por vocábulos justapostos, que, se analisadas dentro de um contexto incluindo o uso da língua de sinais, têm coerência global.

Entretanto, é importante que esta população conheça e saiba utilizar as estruturas linguísticas do Português escrito de forma adequada, para que possa ter uma melhor evolução acadêmica, inserção social e mais fácil acesso ao mercado de trabalho. Neste sentido, estratégias e metodologias de ensino da língua escrita são fundamentais para o incentivo e a adequação das produções escritas dessa população(3,10,14).

Os resultados quanto à Competência Genérica evidenciaram predominância do gênero narrativo, independente do estímulo visual apresentado. Todos os sujeitos que utilizaram o gênero narrativo para a figura de ação haviam realizado terapia fonoaudiológica. Observou-se o mesmo para a figura em sequência, com exceção de um sujeito que produziu um discurso narrativo e não tinha histórico de terapia fonoaudiológica.

Há indícios de que estes resultados sejam consequência do trabalho realizado em terapia fonoaudiológica, uma vez que a narrativa é um elemento muito utilizado para a organização do discurso escrito e por meio dela o surdo assume a responsabilidade pela coerência daquilo que é dito, condição também chamada de "efeito autor"(19).

A análise da Competência Enciclopédica foi prejudicada pelo fato de que os testes estatísticos só foram aplicáveis nos itens: Conhecimento Enciclopédico, Fidedignidade ao Tema e Organização de Ideias, nos quais observou-se que não houve diferença entre as produções escritas eliciadas pelos dois tipos de estímulos visuais.

No item Conhecimento Enciclopédico apenas três sujeitos demonstraram conhecimento total sobre o tema quando foram apresentadas as figuras em sequência, e somente um sujeito demonstrou tal conhecimento na figura de ação. Esses dados podem ser decorrentes da limitação de vocabulário e do conhecimento de mundo escasso que muitos surdos apresentam(18-23), uma vez que, tanto nas figuras em sequência quanto na de ação, o tema era simples e frequentemente abordado em histórias da literatura.

No item Intertextualidade, notou-se que não houve diferença em ambas as provas, já que nenhum sujeito pontuou neste item. O mesmo foi observado quanto ao uso de Inferências, em que a maioria dos sujeitos não fez uso desta habilidade ou o fez de forma inadequada para ambos os estímulos. Tal ocorrência evidencia escasso conhecimento de mundo(23), e imaturidade dos participantes em relação ao domínio de leitura e escrita(24,25), já que estes itens requerem conhecimento prévio de outros textos e habilidade de inferir uma situação não explícita no texto, por meio do seu próprio conhecimento de mundo(25).

Em relação à Fidedignidade ao Tema, observou-se predominância de manutenção parcial do mesmo para ambos os estímulos. Assim, evidencia-se a dificuldade dos surdos sinalizadores quanto à identificação e manutenção do tema proposto durante a escrita. Tal dado demonstra novamente a dificuldade do sujeito surdo em relação ao conhecimento de mundo e seu letramento social(23). Ressalta-se também a falta de habilidade linguística quando o tema proposto envolve situações não vivenciadas(27).

O Título foi empregado somente na produção escrita eliciada pela figura de ação e apenas por um sujeito. Este fato evidencia a imaturidade do surdo enquanto escritor, não havendo preocupação com o uso deste tipo de recurso, item necessário para a elaboração de uma produção textual(14).

Quanto à Organização de Ideias, as provas eliciadas por ambos os estímulos visuais propiciaram resultados inadequados e/ou parcialmente adequados, não ocorrendo diferença entre eles. Nesse sentido, a literatura mostra que os textos escritos por surdos italianos também são redundantes e fragmentados(28), fato que foi observado no presente estudo e que prejudicou a organização de ideias. Entretanto, nota-se que as figuras em sequência propiciaram resultados melhores em relação à figura de ação.

Todos os participantes fizeram uso de vocabulário simples em suas produções escritas, fato que corrobora os estudos que afirmam que os surdos possuem dificuldade quanto ao uso do vocabulário(22). Dessa forma, notou-se que sete participantes da pesquisa utilizaram o apoio de elementos pictográficos, evidenciando uma tentativa de representar sinais da LIBRAS.

No Brasil, crianças surdas possuem grande dificuldade para adquirir vocabulário escrito, uma vez que muitas escolas empregam a mesma metodologia de ensino da língua portuguesa escrita utilizada na alfabetização de ouvintes(10,28). Sendo assim, a aquisição de linguagem fica prejudicada não só pela privação auditiva, mas também por experiências limitadas no âmbito educacional, que utiliza poucos vocábulos e de maneira repetitiva(21).

Em relação à Competência Linguística, o teste estatístico não foi aplicável para o item Pontuação e nos outros itens os resultados também evidenciaram que não houve diferença nas produções escritas dos surdos para ambos os estímulos apresentados.

Quanto a Extensão do Texto, não houve diferença, pois as provas eliciadas por ambos os estímulos visuais proporcionaram em sua maioria, produções escritas curtas, demonstrando novamente dificuldade referente ao conhecimento de mundo e vocabulário por parte dos sujeitos(21,23).

Quanto à Pontuação, apenas um sujeito fez uso adequado deste recurso, e somente para a figura de ação. Dessa forma, como a maioria dos sujeitos não fez uso adequado da pontuação, esta foi ignorada pelos juízes, tomando-se como início e término das sentenças as unidades significativas(3).

Em relação à Coesão Global, não foi encontrada diferença entre ambos os estímulos, sendo que os sujeitos apresentaram dificuldade nesse aspecto devido à ausência de artigos, conjunções, flexão verbal, uso do plural e voz passiva(2-4,21), elementos inexistentes na língua de sinais e que se fazem presentes na modalidade escrita do Português. Outro item que interferiu na coesão global das produções escritas foi a dificuldade do surdo com relação à sintaxe(22).

É importante salientar que uma possível limitação deste estudo pode ser sido a seleção dos estímulos visuais eliciadores das produções escritas. Tal seleção foi realizada de forma criteriosa por meio de levantamentos de estudos internacionais e nacionais. Entretanto, somente durante a análise das produções escritas notou-se que ambos os estímulos apresentavam ações, sendo que a única diferença entre eles era o fato de um estímulo conter uma figura isolada e o outro ser um conjunto de figuras em ação. Portanto, essa pode ser a razão da predominância do discurso narrativo e da semelhança das produções escritas independente do estímulo visual apresentado.

Ressalta-se, porém, que os dados obtidos neste estudo propiciaram informações relevantes sobre a importância de se buscar temas mais próximos da realidade do surdo sinalizador com queixas de alterações na escrita. Dessa forma, os fonoaudiólogos que trabalham com esta população específica podem ter neste estudo parâmetros de avaliação das Competências Comunicativas.

 

CONCLUSÃO

Conclui-se que as produções escritas dos surdos sinalizadores com queixas de alterações na escrita não foram influenciadas pelo tipo de estímulo visual apresentado de forma significante, nas três competências avaliadas. Contudo, qualitativamente, pôde-se observar que alguns aspectos das Competências Linguística e Enciclopédica parecem ter sido influenciados pelo tipo de estímulo apresentado. Tal fato traz uma contribuição importante para professores e fonoaudiólogos que trabalham com esta população no sentido de que, ao se trabalhar com surdos sinalizadores com queixas de alterações na escrita, diversos tipos de estímulos visuais devem ser utilizados para eliciar produções escritas.

 

AGRADECIMENTOS

Agradecemos à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) pelo apoio concedido para realização dessa pesquisa, sob processo número 2008/11480-5.

 

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Endereço para correspondência:
Maria Silvia Cárnio
R. Cipotânea, 51, Cidade Universitária, São Paulo (SP), Brasil, CEP: 05360-160
E-mail: mscarnio@usp.br

Recebido em: 6/1/2011
Aceito em: 1/9/2011

 

 

Trabalho realizado no Laboratório de Leitura e Escrita, Departamento de Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional, Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo – USP – São Paulo (SP), Brasil.
* Alves D, Cárnio MS. Protocolos para avaliação de leitura e escrita. São Paulo: Departamento de Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo; 1999. [Protocolo não publicado]
** Crato AN, Cárnio MS. Protocolo para avaliação da língua brasileira de sinais de surdos. Elaborado para o Laboratório de Investigação Fonoaudiológica em Leitura e Escrita do Curso de Fonoaudiologia da FMUSP, 2007. [Protocolo não publicado]