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Revista da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia

On-line version ISSN 1982-0232

Rev. soc. bras. fonoaudiol. vol.17 no.2 São Paulo Apr./June 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-80342012000200005 

ARTIGO ORIGINAL

 

Dificuldades na comunicação entre pessoas com deficiência auditiva e profissionais de saúde: uma questão de saúde pública

 

 

Shamyr Sulyvan de CastroI; Karina Mary PaivaII; Chester Luiz Galvão CésarII

IDepartamento de Fisioterapia Aplicada, Instituto de Ciências da Saúde, Universidade Federal do Triângulo Mineiro – UFTM – Uberaba (MG), Brasil
II
Departamento de Epidemiologia, Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo – USP – São Paulo (SP), Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Descrever a ocorrência de relatos de pessoas com deficiência auditiva e múltipla (auditiva e visual e/ou mobilidade) quanto às dificuldades para ouvir e entender profissionais de saúde.
MÉTODOS: Estudo transversal, do tipo inquérito de saúde, realizado com sujeitos selecionados a partir de outros dois estudos de base populacional. A coleta dos dados ocorreu de forma domiciliar, por meio de entrevistas realizadas por entrevistadores treinados, em São Paulo e região. Foram coletadas informações sobre a dificuldade de ouvir e entender o que os profissionais de saúde disseram no último serviço de saúde usado, além de dados demográficos (idade, gênero e raça), econômicos (renda do chefe da família), tipo de serviço de saúde procurado, uso de plano privado de saúde e necessidade de auxílio para ir ao serviço de saúde.
RESULTADOS: Dos entrevistados, 35% relataram problemas para ouvir e entender os profissionais de saúde no último serviço visitado; 30,6% (IC95%: 23,4-37,8) para entender os médicos; 18,1% (IC95%: 12,0-24,1) para entender as enfermeiras; e 21,2% (IC95%: 14,8-27,6) para entender os outros funcionários. Não houve diferenças quando se considerou as variáveis demográficas, a necessidade de auxílio para tomar banho e se vestir, comer, levantar-se e/ou andar, possuir ou não plano privado de saúde e tipo de serviço de saúde visitado.
CONCLUSÃO: Do total de pessoas entrevistadas, 35% relataram problemas para ouvir e entender o que foi dito por profissionais de saúde. Do total que relatou alguma dificuldade, 34,74% tinham deficiência auditiva e 35,38% deficiência múltipla.

Descritores: Serviços de saúde; Perda auditiva; Pessoas com deficiência; Comunicação em saúde; Equidade em saúde; Administração em saúde


 

 

INTRODUÇÃO

O grupo populacional constituído por pessoas com algum tipo de deficiência totaliza cerca de 600 milhões no mundo, segundo dados da Organização das Nações Unidas(1). No Brasil, aproximadamente 14,5% da população referiu algum tipo de deficiência no censo demográfico do ano de 2000(2). Entre estes, mais de cinco milhões relataram deficiência auditiva, incluindo incapacidade auditiva e dificuldade de ouvir. Observou-se uma porcentagem de 11,1% de pessoas com algum tipo de deficiência e de 4,4% de deficiência auditiva em áreas do estado de São Paulo(3).

A deficiência auditiva caracteriza-se pela perda parcial ou total da capacidade de ouvir e pode se manifestar em diferentes graus (leve, moderado, severo e profundo), em virtude da redução da sensibilidade ou da discriminação auditiva. As consequências mais importantes da deficiência auditiva estabelecidas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) estão relacionadas à incapacidade auditiva e à desvantagem auditiva (handicap). A primeira relaciona-se ao comprometimento do desempenho e da habilidade de utilização da audição nas atividades diárias, como a percepção dos sons de fala e do ambiente. A outra repercute no desempenho das atividades do indivíduo e seu papel na sociedade, quanto as suas aspirações educacionais, sociais e ocupacionais em decorrência da deficiência e da incapacidade auditiva(4).

A deficiência auditiva prejudica a compreensão da fala e, por isso, pessoas que a possuem necessitam utilizar estratégias para melhorar a comunicação. Tais estratégias se constituem em um conjunto de atitudes que facilitam a compreensão da mensagem, garantindo a efetividade da comunicação. O uso da leitura orofacial é uma das principais estratégias quando se apresenta um déficit auditivo, feito de forma inconsciente ao se comunicar por meio da observação da expressão facial, de gestos, modificações de postura e pistas que auxiliam na decodificação da informação. Assim, os indivíduos com deficiência auditiva tendem a apresentar um perfil diferenciado de saúde e de uso dos serviços de saúde, exigindo maior atenção e cuidado no atendimento(5).

O sucesso da comunicação requer uma interação efetiva e competente entre os participantes deste processo. A precariedade na estrutura dos sistemas de saúde pode contribuir para a existência de falhas que se complicam à medida que as barreiras de linguagem se tornam presentes, comprometendo a qualidade da assistência(6).

As pessoas com algum tipo de deficiência necessitam de cuidados especiais em saúde, por constituírem um grupo heterogêneo que reúne indivíduos com peculiaridades inerentes à sua deficiência(5). O conhecimento dessas questões por parte dos profissionais de saúde é essencial na tentativa de se obter sucesso na comunicação, impedindo que essa deficiência possa afetar a troca de informações entre a pessoa que a possui e os profissionais de saúde(7,8).

Iniciativas governamentais têm sido implementadas, buscando a igualdade para as pessoas com deficiência auditiva. Um exemplo delas é a Política Nacional de Atenção à Saúde Auditiva (Portaria nº 2.073/GM, de 6 de setembro de 2004), instituída com a finalidade de atender a população deficiente auditiva, garantindo a melhora da função auditiva e de desempenho comunicativo desse grupo populacional.

Estudos acerca dos problemas de comunicação entre pessoas com deficiência auditiva e profissionais de saúde podem se constituir como um importante subsídio para o planejamento de ações voltadas para o treinamento e capacitação de recursos humanos no atendimento de pessoas com esse tipo de deficiência. Dessa forma, os direitos de uso e acesso integral aos serviços de saúde, instituídos pela Constituição Federal e pelo Sistema Único de Saúde (SUS), poderiam ser garantidos a esse grupo populacional.

O objetivo desta pesquisa foi descrever a ocorrência de relatos de pessoas com deficiência auditiva referida ou deficiência múltipla (auditiva e outra) referida quanto às dificuldades para ouvir e entender profissionais de estabelecimentos de saúde (médicos, enfermeiros, recepcionistas, atendentes e outros funcionários).

 

MÉTODOS

Os dados da presente pesquisa são provenientes do estudo de Acessibilidade aos Serviços de Saúde por Pessoas com Deficiência, AceSS 2007, estudo transversal realizado na região da cidade de São Paulo no ano de 2007. As informações foram coletadas por meio de entrevistas domiciliares, utilizando um questionário semiestruturado como instrumento. O questionário era composto de diferentes blocos, com perguntas específicas para cada tipo de deficiência estudada (mobilidade, visual e/ou auditiva), além de partes que foram respondidas por todos os entrevistados, independentemente da presença da deficiência. Foram utilizadas, no presente artigo, informações referentes à comunicação com os funcionários do serviço de saúde durante o último atendimento utilizado pelas pessoas que referiram deficiência auditiva. Assim, foram avaliados os relatos quanto aos problemas para ouvir e entender completamente o que médicos, enfermeiros, atendentes, recepcionistas e outros funcionários disseram durante os atendimentos. A equipe de entrevistadores de campo, que era composta por graduados em áreas da saúde e das ciências sociais, recebeu treinamento específico para a aplicação do questionário e 10% das entrevistas foram checadas aleatoriamente pelos supervisores de campo.

Os sujeitos do estudo AceSS foram selecionados a partir de dois inquéritos de saúde conduzidos no ano de 2001 (ISA-SP) e 2003 (ISA-Capital)1. As pessoas que referiram alguma deficiência nesses dois inquéritos foram selecionadas, listadas, localizadas e novamente entrevistadas no estudo AceSS 2007. Inicialmente, foram selecionadas 669 pessoas. Um estudo de campo prévio, para localizar os sujeitos a serem entrevistados, verificou que 116 pessoas haviam falecido, 27 haviam se mudado para fora da área estudada e 28 pessoas haviam corrigido suas deficiências2. Esses indivíduos foram excluídos da pesquisa por não apresentarem as características definidas para a amostra. Outras 101 pessoas não foram localizadas, 15 se recusaram a participar, 29 não foram encontradas em casa após três visitas em dias e horários diferentes, três não estavam aptas a responder e 17 não participaram por outras razões. Tais casos foram considerados perdas amostrais da pesquisa. Assim, partindo-se de uma amostra inicial de 498 pessoas, 333 foram entrevistadas no ano de 2007, resultando em uma taxa de resposta de 66,9% seis anos após o primeiro contato. Do total de 333 entrevistados, 160 pessoas tinham algum tipo de deficiência auditiva, e compuseram a amostra do presente estudo. As pessoas com surdez bilateral não foram incluídas na amostra.

Os dados referentes aos problemas para ouvir e entender o que os funcionários dos estabelecimentos de saúde disseram foram coletados em três perguntas específicas referentes ao último serviço de saúde utilizado, da seguinte forma: "Em decorrência de sua dificuldade de audição, o(a) senhor(a) teve algum problema para ouvir e entender o que o médico disse?", tendo como alternativas para a resposta: "1) não; 2) sim; 3) parcialmente; 4) não fez consulta com o médico; 5) Não sabe/Não respondeu". A mesma pergunta foi aplicada ao entrevistado em relação aos enfermeiros e outros funcionários3. Posteriormente, foi definida a variável dependente, problemas para ouvir e entender o que os funcionários disseram, agregando as respostas das três questões. Além disso, foram estudadas também, como variáveis independentes: gênero, idade (em quartis), renda do chefe da família em salários mínimos por mês (<1 sm, 1 sm, 2-4,99 sm, 5-7,99 sm, >8 sm), raça ou etnia (branco, negro/mulato, outros), necessidade de auxílio para tomar banho e vestir-se, comer, levantar-se e/ou andar, possuir ou não plano de saúde privado e tipo de serviço de saúde procurado pela última vez (UBS/AMA/ESF/PSF; consultório médico; ambulatório; emergência; hospital; outros.).

Para as análises estatísticas, foi adotado o nível de significância de 5% e utilizou-se o teste de Qui-Quadrado. O software EpiData foi utilizado para a digitação dos dados e o Stata 9.2 para a análise. A presente pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP), sob o número 1653. A entrevista foi realizada somente depois da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

 

RESULTADOS

A partir da amostra do estudo AceSS 2007, foram estudadas 160 (48%) pessoas que referiram ter deficiência auditiva, incluindo 138 (86,3%) que relataram dificuldade de ouvir e 22 (13,7%), surdez unilateral. Além da deficiência auditiva, 40,6% das pessoas disseram ter outra deficiência (visual ou de mobilidade) associada.

Os resultados mostram as características sociodemográficas da população estudada segundo problemas para ouvir e entender os profissionais de saúde, assim como características do atendimento, como o tipo de plano de saúde, o serviço procurado e a necessidade de auxílio (Tabela 1).

 

 

Entre as pessoas com deficiência, 35% relataram problemas para ouvir e entender o que foi dito por profissionais de saúde no último serviço de saúde utilizado. Desses, 30,6% (IC95%: 23,4-37,8) tiveram problemas para ouvir e entender o que os médicos disseram; 18,1% (IC95%: 12,0-24,1) o que as enfermeiras disseram; e 21,2% (IC95%:14,8-27,6) o que recepcionistas, atendentes e outros funcionários disseram. Um mesmo entrevistado poderia referir dificuldade em entender mais de um profissional.

Foi observada a distribuição da ocorrência de problemas para ouvir e entender o que os profissionais de saúde disseram no uso do último serviço de saúde de acordo com as variáveis sociodemográficas e referentes ao tipo de atendimento e necessidade de auxílio (Tabela 2).

Entre as pessoas que relataram somente a deficiência auditiva, 34,7% tiveram problemas para ouvir e entender o que os profissionais de saúde disseram. Já para o grupo de pessoas com deficiência auditiva associada a outro tipo de deficiência, essa porcentagem aumentou para 35,4%, apesar de não haver diferença. Vale ressaltar que os homens relataram mais problemas para ouvir e entender o que foi dito por profissionais de saúde (35,3%) quando comparados às mulheres (34,7%), porém também sem diferença.

Em relação às características sociodemográficas, a ocorrência de problemas de comunicação foi relatada por 37,2% dos sujeitos com idades entre 70 e 77 anos e por 36,7%, entre 78 e 97 anos; 50% dos entrevistados eram pertencentes a famílias cujos chefes possuíam renda de um salário mínimo e 35% referiram renda do chefe entre 2 e 5 salários. Entre as pessoas que se declararam brancas, 35,4% tiveram algum problema para ouvir e entender o que os profissionais da saúde disseram enquanto entre os declaradamente negros ou mulatos, a porcentagem foi de 35,7%. Tal resultado foi de 28,6% entre os que declararam outras raças ou etnias.

Quanto à necessidade de auxílio para tomar banho e se vestir, comer, levantar-se e/ou andar, 27,8% das pessoas que não precisavam de auxílio relataram ter tido problemas para ouvir e entender o que foi dito pelos profissionais dos estabelecimentos de saúde. Para aqueles que disseram necessitar de auxílio para tais atividades, essa porcentagem foi maior (37,1%), embora não tenha havido diferença. Os entrevistados que disseram possuir plano de saúde privado apresentaram uma porcentagem maior (38,9%) de relatos quanto às dificuldades para ouvir e entender o que foi dito por profissionais de saúde, quando comparados àqueles que não possuíam plano privado (34,5%).

Os dados dos entrevistados que usaram as unidades básicas de saúde e correlatos (UBS/AMA/ESF/PSF) na última visita a um serviço de saúde mostraram que 30,5% deles não conseguiram ouvir e entender o que lhes foi dito. Essa porcentagem é de 23,5% entre os entrevistados que foram ao consultório médico na última vez que usaram um serviço de saúde; de 50% para aqueles que foram a um ambulatório; 50% para os que procuraram por serviço de emergência; 43,2% para os que foram diretamente ao hospital; e 20% para os que compareceram a outros serviços. Não foi observada associação significativa entre os problemas para ouvir e entender o que foi dito pelos profissionais de saúde no último serviço de saúde visitado e as variáveis sociodemográficas e referentes ao tipo de atendimento e à necessidade de auxílio.

 

DISCUSSÃO

Entre as pessoas que relataram dificuldades para ouvir e surdez unilateral, 35% confirmaram dificuldades para ouvir e entender o que os profissionais de saúde disseram na última visita a algum serviço de saúde. Esses relatos sugerem um despreparo dos profissionais de saúde e do próprio serviço para atender essa demanda populacional, no que se refere a recursos alternativos e maior disponibilidade de tempo na tentativa de uma comunicação eficiente, essencial para o sucesso do atendimento. Isto se agrava na medida em que se constata o fato de que não foram incluídos neste estudo os indivíduos que referiram surdez bilateral, situação na qual a comunicação representaria um real desafio devido às barreiras de linguagem.

A maior porcentagem relatada sobre o não entendimento dos profissionais de saúde referiu-se aos médicos (30,6%), o que pode ser apontado como consequência de diversos fatores. Considera-se o curto tempo de realização das consultas nos serviços de saúde decorrente da grande demanda de atendimento, e o despreparo para o atendimento de pacientes com necessidades especiais(9,10).

Não foram verificadas diferenças entre a dificuldade de ouvir o que foi dito pelos profissionais de saúde e as variáveis referentes ao tipo de deficiência, gênero, idade, renda do chefe da família, raça ou etnia, necessidade de auxílio (banho, vestir-se, comer, levantar e/ou andar), existência de plano de saúde privado e tipo de serviço procurado. Entretanto, é necessário ressaltar que, por se tratar de um inquérito de saúde, este estudo não avaliou o tipo e o grau da deficiência auditiva e a presença de acompanhantes durante os atendimentos. O uso de inquéritos populacionais representa uma importante ferramenta de triagem e detecção primária de agravos, por possibilitar a geração de novos indicadores essenciais ao monitoramento das dimensões da saúde da população(11).

As dificuldades relatadas no entendimento do que foi dito por médicos, enfermeiros e outros profissionais dos estabelecimentos de saúde é um fator relevante no que diz respeito a como e com que qualidade o atendimento em saúde é realizado. A comunicação efetiva é um item imprescindível nesse contexto(12), pois além de representar um ponto de interação entre o profissional de saúde e o cliente(13), é um importante alicerce para o vínculo de relação entre médico-paciente(14) e para a aderência ao tratamento(15). Alguns estudos apontam que a comunicação é vista como ferramenta importante da área médica a ponto de ter especial ênfase durante a formação acadêmica dos médicos(16,17).

No processo de comunicação, a partir do momento em que o receptor da mensagem transmitida pelo emissor se torna vulnerável e não consegue entender efetivamente o que lhe é dito, há o comprometimento desse processo e, por consequência, a resposta pode não ser a adequada ou esperada(18). Quando esse evento se aplica à comunicação entre o profissional de saúde e o paciente, fatores como satisfação com o atendimento, aderência ao tratamento, confiança no profissional de saúde, resolução dos sintomas, qualidade de vida, situação de saúde e até mesmo mortalidade podem ser afetados(13).

O não entendimento completo de instruções transmitidas por médicos, enfermeiros e outros funcionários de nível médio de estabelecimentos de saúde não se traduz puramente em uma dificuldade de interpretação do discurso do profissional de saúde, mas em interpretações errôneas que podem acarretar prejuízos ao bem estar e à saúde do indivíduo, comprometendo a acessibilidade aos serviços de saúde. Entende-se por acessibilidade o grau de ajuste entre as características dos serviços de saúde e as das populações, no processo de busca e obtenção da atenção em saúde(18). Desta forma, o grupo de pessoas com deficiência auditiva deve ser alvo de intervenções dirigidas e específicas. Por ser um grupo com características diferenciadas, necessita de intervenções também diferenciadas, para que tenha assegurado o acesso equitativo aos serviços de saúde garantido por lei a todos os brasileiros(19).

Outro fator relevante é a ocorrência da deficiência auditiva com o aumento da idade(20). O número de pessoas idosas está aumentando de forma muito acelerada nos países em desenvolvimento(21). Projeções do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), indicam que no período de 2045-2050 a esperança de vida ao nascer no país será de 80,97 anos contra 72,78 anos registrados em 20084, evidenciando o envelhecimento populacional. Investimentos direcionados para esse grupo populacional, assim como a avaliação das políticas públicas existentes poderiam implementar a qualidade de vida e de saúde dessa parcela da população, garantindo a acessibilidade aos serviços de saúde e diminuindo os obstáculos para obtenção do atendimento em saúde.

De acordo com a Política Nacional de Atenção à Saúde Auditiva, os resultados das ações decorrentes dessa política na atenção básica e nos serviços de média e alta complexidade devem promover uma ampla cobertura no atendimento aos portadores de deficiência auditiva no Brasil, com aprimoramento da gestão, da disseminação de informações e uma visão dinâmica do estado de saúde das pessoas portadoras de deficiência auditiva. Além disso, a capacitação e a educação continuada das equipes de saúde em todos os âmbitos de atenção envolvendo profissionais de diferentes níveis devem estar alicerçadas às diretrizes do SUS e aos polos de educação permanente em saúde(22).

A Política Nacional de Saúde da Pessoa com Deficiência (Portaria MS/GM nº 1.060, de 5 de junho de 2002) estabelece como uma de suas diretrizes a "Atenção integral em saúde", atribuindo ao Sistema Único de Saúde (SUS) e sua rede a responsabilidade direta nos cuidados de saúde das pessoas com deficiências. Para isso, garante o acesso às ações básicas e de maior complexidade, à reabilitação e também ao recebimento de órteses, próteses e meios auxiliares de locomoção(22).

A ocorrência de barreiras no atendimento de pessoas com alguma deficiência auditiva já foi relatada pela literatura(23-25), sendo apontada não como um problema orgânico mas sim como problema social e cultural(26). Para a redução dos impactos desse problema, foi sugerida a implementação de ações de educação e treinamento junto aos profissionais de saúde(27), assim como a presença de um interprete da Linguagem Brasileira de Sinais (LIBRAS) durante o atendimento(28). Isso poderia representar alternativas para a garantia de um sistema de saúde realmente acessível universalmente. A implementação, avaliação e controle das políticas públicas vigentes pode representar uma ferramenta de gestão e regulação, diminuindo as iniquidades no atendimento em saúde de pessoas com deficiências.

As dificuldades na comunicação entre pacientes e profissionais de saúde relatadas neste estudo podem implicar em menor uso dos serviços de saúde. Isso pode comprometer a qualidade de vida e de saúde das pessoas com deficiência auditiva, além de gerar complicações na relação médico-paciente, confiança no profissional de saúde e aderência ao tratamento.

A acessibilidade ao serviço de saúde pode ser prejudicada pela presença de deficiência auditiva. Intervenções específicas e dirigidas junto a esse grupo populacional, assim como a avaliação das políticas públicas vigentes, efetivando tudo o que é garantido por lei, representariam uma forma de minimizar as dificuldades decorrentes dessa deficiência e promover a atenção integral em saúde. O preparo das equipes de saúde também pode ser um fator essencial para o encaminhamento dos deficientes auditivos aos serviços de média e alta complexidade para avaliação audiológica, protetização e reabilitação auditiva, garantindo desta forma os princípios de universalidade, equidade e integralidade do Sistema Único de Saúde (SUS).

Nesta pesquisa, não foram realizados testes para diagnóstico das deficiências e os dados analisados foram autorreferidos pelos entrevistados. A relevância destas informações como subsídio para o planejamento de políticas públicas são ressaltadas na literatura(29-30). A realização de pesquisas com diferentes desenhos pode representar uma forma obter dados referentes a questões que não foram suportadas neste estudo devido às limitações inerentes à metodologia. Assim, pesquisas que busquem os fatores que influenciam o entendimento ou a compreensão por parte dos pacientes sobre o que é dito pelos profissionais de saúde e que considerem a interação entre variáveis como gênero, escolaridade, presença de mais de uma deficiência devem ser estimulados, na tentativa de gerar dados específicos da área e que possam efetivar políticas direcionadas à população com algum tipo de deficiência.

 

CONCLUSÃO

Entre todos os entrevistados, 35% relataram problemas para ouvir e entender o que foi dito por profissionais de saúde. Do grupo de pessoas que relatou dificuldades de compreensão, 34,74% relataram ter deficiência auditiva e 35,38% deficiência múltipla. A ocorrência de dificuldades de comunicação foi aproximadamente a mesma segundo o sexo e de 38,89% entre as pessoas com plano privado de saúde.

 

AGRADECIMENTOS

Aos participantes da pesquisa que atenciosamente responderam às entrevistas e aos entrevistadores que desempenharam adequadamente sua função.

Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq (proc. 409724/2006-8), pelo financiamento da fase de execução da pesquisa e coleta de dados; à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo - FAPESP (proc. 2006/59655-2) pela concessão de bolsa de doutorado ao primeiro autor; e ao Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico – DAAD e ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq (proc. 290006/2008-2) pelo oferecimento de bolsa de doutorado sanduíche na Ludwig Maximilian University, em Munique, Alemanha.

 

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Endereço para correspondência:
Shamyr Sulyvan de Castro
Departamento de Fisioterapia Aplicada, Instituto de Ciências da Saúde
Universidade Federal do Triângulo Mineiro – UFTM.
Av. Getúlio Guaritá, 159, 3º andar, sala 331
Uberaba (MG), Brasil, CEP: 38025-440.
E-mail: shamyrsulyvan@gmail.com

Recebido em: 3/4/2011
Aceito em: 10/12/2011

Conflito de interesses: Não

 

 

Trabalho realizado no Departamento de Epidemiologia, Faculdade de Saúde Pública Universidade de São Paulo – USP – São Paulo (SP), Brasil.
1 www.fsp.usp.br/isa-sp
2 Correções por cirurgias, como de catarata, e/ou outros tratamentos médicos.
3 Recepcionistas, atendentes e outros funcionários de nível médio de ensino.
4 IBGE – Projeção da população do Brasil por gênero e idade – 1980-2050. Acessado em 2009 set 04. Disponível em: http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/projecao_da_populacao/2008/projecao.pdf?bcsi_scan_D2AD62A071FDB58E=0&bcsi_scan_filename=projecao.pdf

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