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Revista da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia

On-line version ISSN 1982-0232

Rev. soc. bras. fonoaudiol. vol.17 no.2 São Paulo Apr./June 2012

https://doi.org/10.1590/S1516-80342012000200018 

ARTIGO ORIGINAL

 

Influência do tipo de estímulo visual na produção escrita de surdos sinalizadores sem queixas de alterações na escrita

 

 

Maria Gloria Gomes RodriguesI; Anila Gabriela Rotger AbdoI; Maria Silvia CárnioII

ICurso de Fonoaudiologia, Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo – USP – São Paulo (SP), Brasil
II
Departamento de Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional, Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo – USP – São Paulo (SP), Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Analisar a influência do tipo de estímulo visual sobre a produção escrita de surdos sinalizadores sem queixas de alterações na escrita.
MÉTODOS: Participaram 14 surdos, de ambos os gêneros, com idades entre 8 e 13 anos, usuários da Língua Brasileira de Sinais, alunos da terceira e quarta séries do Ensino Fundamental de uma escola especial para surdos. Foram avaliados por meio de produções escritas baseadas em dois tipos de estímulos: uma sequência de quatro figuras e uma figura de ação. Cada produção foi pontuada de acordo com critérios adaptados da teoria das Competências Comunicativas (Genérica, Enciclopédica, e Linguística).
RESULTADOS: Na análise da Competência Genérica não houve diferença entre as produções a partir da sequencia ou da figura de ação. Entretanto, notou-se que a figura de ação propiciou mais produções de gênero narrativo, enquanto as figuras em sequência eliciaram mais descrições. Quanto às Competências Enciclopédica e Linguística, ambos os estímulos visuais proporcionaram resultados semelhantes nas produções escritas. Tanto na Competência Enciclopédica quanto na Linguística, o desempenho dos surdos foi aquém do esperado para a faixa de escolaridade, demonstrando conhecimento parcial sobre a língua portuguesa escrita. No entanto, observou-se que as figuras sequenciadas propiciaram organização de ideias e coesão global um pouco mais elaboradas.
CONCLUSÃO: Nenhum dos tipos de estímulo visual, seja figura de ação ou sequência de figuras, propicia melhores desempenhos de produção escrita de surdos sinalizadores sem queixas de alterações na escrita para a maior parte dos aspectos analisados.

Descritores: Linguagem de sinais; Avaliação; Pessoas com deficiência auditiva/educação; Redação; Surdez


 

 

INTRODUÇÃO

A escrita é uma atividade complexa tanto para estudantes ouvintes quanto para surdos. Entretanto, não se pode afirmar quais seriam os fatores preditores de um bom desempenho na escrita de surdos sem levar em consideração as seguintes variáveis: grau de perda auditiva; tipo de escola frequentada; método de ensino; língua utilizada para comunicação e presença de um intérprete e/ou de professores proficientes em língua de sinais, no caso de surdos usuários desta língua(1). Portanto, a análise da escrita de surdos torna-se mais difícil pelo fato de existirem muitas variáveis que podem interferir neste processo.

Estudos internacionais(2-4) e nacionais(5,6) mostraram que muitos surdos chegam à idade escolar sem uma língua adquirida, ou seja, não desenvolveram a língua oral ou a língua de sinais. Consequentemente, a ausência de uma língua de base pode interferir no processo de alfabetização(5), bem como contribuir para a produção de escritas com estrutura sintática simples, vocabulário restrito e dificuldades quanto à flexão e concordância verbal(5,7,8).

A língua de sinais propicia uma importante base linguística para a alfabetização dos surdos sinalizadores(2,9). Contudo, o acesso ao currículo do ensino comum nem sempre é alcançado somente por terem sido colocados em sala de aula. É necessário que se esclareça como a língua escrita é adquirida por estes sujeitos e como tem sido avaliada; que seja garantida uma comunicação efetiva entre os estudantes surdos e seus professores e que sejam feitas modificações didáticas e outras acomodações importantes para o alcance do sucesso acadêmico(10).

Estudos realizados no Brasil(2,11) demonstraram que os elementos ausentes nas produções escritas de surdos são, em grande parte, aqueles que inexistem ou se manifestam de outra maneira na língua de sinais. Contudo, tais pesquisas enfatizaram que os indivíduos surdos são capazes de aprender a utilizar estratégias de referência na língua portuguesa escrita durante a interação com um interlocutor que tenha domínio desse idioma.

Pelo fato de os surdos usuários da língua de sinais utilizarem muito o canal visual, o emprego de imagens tem sido uma estratégia para eliciar produções escritas nesses indivíduos. Além disso, trata-se de um método que proporciona um estímulo normatizado, que propicia o início da produção das crianças tanto na língua de sinais quanto na língua
escrita(12).

Aprender a língua escrita para os surdos vai além de conhecer as regras ortográficas e de funcionamento da língua. Para atingir um nível proficiente de produção escrita, é necessário o desenvolvimento da capacidade de selecionar tópicos, planejar e organizar ideias(1). Nesse sentido,vários estudos demonstram que as produções escritas dos surdos são focadas em sentenças e não apresentam uma estrutura textual coesa e coerente(1,5).

Dessa forma, um estudo(13) sugeriu que se mude o foco de investigação da produção de surdos para a análise das Competências Comunicativas, que tem demonstrado que as dificuldades dos surdos em relação aos seus pares ouvintes não estão tão díspares. A capacidade de organizar o conteúdo da narrativa referencialmente tem sido investigada como uma marca do desenvolvimento das competências no discurso desses indivíduos.

No referido estudo(13), foi proposto que as competências linguísticas possam ser uma boa base para a intervenção no desenvolvimento da alfabetização. Além disso, os autores acrescentaram a necessidade do desenvolvimento de estudos que comparem produções escritas eliciadas por uma sequência de imagens com as produções feitas a partir de uma imagem não sequenciada, para testar o efeito do uso do estímulo visual no discurso das crianças.

Com base nestes dados, a intenção inicial desta pesquisa era obter um parâmetro para caracterizar as produções escritas de surdos sinalizadores sem queixas de alterações na escrita, de acordo com o tipo de imagem utilizada para essa produção. Pretendia-se, também, possivelmente, validar um instrumento de avaliação da escrita para essa população específica. Contudo, a limitação no tamanho da amostra, também observada em outros estudos com surdos(13,14) e o número de variáveis estudadas impossibilitou tal padronização.

É necessário um maior número de pesquisas para obtenção de dados sobre a avaliação e as práticas pedagógicas que atendam as necessidades dos surdos usuários de língua de sinais, tendo em vista que o domínio da escrita por esta população é uma tarefa árdua. Entretanto, considera-se que esta não é uma tarefa impossível, desde que sejam elaboradas estratégias que direcionem para a produção de textos mais elaborados e coesos, tendo em vista a realidade bilíngue e a sua relação não sonora com a escrita. Estudos(1,7,14,15) demonstraram que o desenvolvimento das competências em leitura e escrita é um importante fator para o sucesso acadêmico, profissional e social desta população.

Dessa forma, essa pesquisa teve por objetivo analisar a influência do tipo de estimulo visual sobre a produção escrita de surdos sinalizadores sem queixas de alterações na escrita, tendo como foco a análise das competências comunicativas(16).

Teve-se por hipótese inicial o fato de que as figuras em sequência, por conterem mais informações visuo-temporais do que a figura de ação, propiciariam aos surdos melhores produções escritas do gênero narrativo.

 

MÉTODOS

O presente estudo, prospectivo e transversal, foi desenvolvido no Departamento de Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional, e aprovado pela Comissão de Ética para Análise de Projetos de Pesquisa (CAPpesq), da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), sob o número 1013/08. Após serem informados sobre os objetivos e implicações da pesquisa, os responsáveis pelos participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

Participantes

Para seleção dos sujeitos foram utilizados como critérios de inclusão: apresentar perda auditiva neurossensorial de grau severo ou profundo (acima de 71 dBNA na média das frequências de 500 Hz, 1 e 2 kHz); não ter queixas de alterações na escrita, segundo informações dos pais e professores; cursar a terceira série (quarto ano) ou quarta série (quinto ano) do Ensino Fundamental em escola especial; possuir nível alfabético de escrita; e não frequentar terapia fonoaudiológica específica em leitura e escrita.

Inicialmente a amostra contou com 23 sujeitos. Porém, sete surdos foram excluídos devido aos critérios estabelecidos e dois por não estarem presentes em uma das datas de aplicação das provas. Portanto, 14 sujeitos foram selecionados para participar da pesquisa, sendo oito do gênero feminino e seis do gênero masculino, com idades entre 8 e 13 anos.
Trata-se de escolares de terceira e quarta séries do Ensino Fundamental (com a finalidade de se obter maior número de sujeitos). A série não foi uma variável estudada nesta pesquisa.

Apesar de todos os sujeitos estudarem em uma escola bilíngue, apenas seis foram considerados pelas professoras como tendo um nível fluente (ótimo) em Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS), três tinham nível bom e cinco, nível regular. Por outro lado, observou-se que na avaliação do rendimento escolar, com exceção de dois estudantes, todos acompanhavam a classe. Apenas cinco alunos referiram usar próteses auditivas.

Local

Os dados foram coletados em uma escola especial para surdos. A Instituição, pautada por uma perspectiva educacional bilíngue, tem uma equipe composta por profissionais surdos e ouvintes, todos fluentes em LIBRAS e oferece atendimento gratuito a crianças e jovens surdos.

Materiais e procedimentos

Os participantes foram selecionados por meio de um Protocolo de Avaliação de Leitura e Escrita1, que avalia o nível alfabético e as habilidades dos estudantes em leitura e escrita. Os prontuários escolares foram consultados para obtenção de informações sobre a evolução do desempenho acadêmico. Foi aplicado um Questionário Informativo para Professores2 com o objetivo de coletar dados sobre o desempenho escolar dos estudantes surdos. O instrumento foi constituído de informações fornecidas pelos professores sobre o nível de LIBRAS dos estudantes e seus desempenhos acadêmicos individuais. Foi realizada anamnese com os pais, com a finalidade de coletar dados gerais relativos à utilização de próteses auditivas, leitura orofacial (LOF) e histórico de atendimento fonoaudiológico para leitura e escrita.

Para a investigação referente ao objetivo principal do estudo foi elaborado um vídeo para realização das provas de produção escrita contendo instruções em LIBRAS direcionadas aos surdos sinalizadores. Contou-se com a colaboração de uma instrutora surda fluente em LIBRAS. Tal procedimento garantiu que todos os surdos sinalizadores recebessem instruções padronizadas para a realização das provas.

Uma prova de produção escrita foi elaborada com base na apresentação de uma figura, aqui denominada como "figura de ação"(17), que continha vários elementos estimuladores para elaboração textual. A outra prova de produção escrita foi feita com base em uma sequência(12) de quatro figuras para eliciar a produção escrita, que foram utilizadas com sucesso em um estudo anterior(12).

As provas foram aplicadas em sala de aula composta por no máximo 12 alunos. Contudo, cada aluno deveria elaborar sua produção escrita individualmente.

As aplicações das provas escritas com base na figura de ação e nas figuras de sequência foram realizadas de forma alternada para evitar um possível efeito do treinamento (o desempenho dos sujeitos poderia ser melhor na segunda prova por já terem experienciado melhor a atividade proposta). Dessa maneira, em um primeiro dia, os sujeitos da terceira série realizavam a produção escrita com base nas figuras em sequência e os da quarta série faziam a prova escrita com a figura de ação. Em uma segunda data, ocorria o inverso.

Não houve limite de tempo para a realização das produções escritas. A coleta de dados foi filmada (filmadora Sony® Digital SR 47 com HD interno) e, ao final de cada prova, os sujeitos foram orientados a sinalizar a sua história. Este procedimento contribuiu para análise qualitativa do presente estudo, bem como contribuirá para investigação da relação entre a Língua de Sinais e o Português escrito em estudo futuro.

Os dados coletados foram analisados qualitativa e quantitativamente de acordo com as Competências Comunicativas (Linguística, Genérica e Enciclopédica)(16), tomando-se por base as ideias do autor referenciado. Cada produção recebeu uma pontuação de acordo com protocolo adaptado(18), sendo que a pontuação máxima para cada produção era de 22 pontos (Quadro 1).

Critérios de análise dos resultados

Durante a análise quantitativa e qualitativa dos resultados, houve dificuldade para avaliar o conteúdo das produções escritas sem o apoio da interpretação do vídeo em LIBRAS (no qual os sujeitos sinalizaram a história que escreveram). Esta dificuldade ocorreu devido à utilização de recursos distintos do comumente utilizado nas produções textuais habituais. Dessa forma, foi necessária a inclusão e treinamento de cinco juízes com experiência em leitura e escrita, participantes do mesmo grupo de pesquisa da orientadora do presente estudo, os quais analisaram as produções escritas de todos os sujeitos. Cada juiz analisou e pontuou as produções escritas de figuras de ação e sequência individualmente e, posteriormente, foi feita uma reunião para consenso dos casos discordantes.

Foram aplicados testes estatísticos comparativos entre as produções escritas com base na figura de ação e nas figuras em sequência. Em alguns casos, a distribuição dos resultados impediu a aplicação de testes estatísticos específicos. Quando possível, aplicou-se o teste McNemar, indicado para verificar a diferença entre dois grupos de mesma classificação com nível de mensuração categorizada em amostras pareadas, ou o teste de Wilcoxon, indicado para comparação de dois grupos com nível de mensuração numérica. Adotou-se o nível de significância de 5%. As produções escritas também foram avaliadas de forma qualitativa com intuito de complementar as avaliações quantitativas.

 

RESULTADOS

Quanto à competência genérica, não houve diferença entre as pontuações das produções escritas de ambos os estímulos visuais, no que diz respeito à Tipologia do Discurso (p=0,45) (Tabela 1).

 

 

Em relação à competência enciclopédica, as produções com base em figura de ação e figuras em sequência não apresentaram diferença (p=1,00), no que concerne ao conhecimento enciclopédico (Tabela 2).

Quanto aos demais aspectos da competência enciclopédica (fidedignidade ao tema, uso de título, intertextualidade, uso de inferências e vocabulário), não foi possível a aplicação de testes estatísticos, pois o desempenho dos sujeitos foi concordante para ambos os estímulos. A maior parte dos sujeitos não empregou o título, não fez uso de intertextualidade e inferência e utilizou vocabulário simples nas produções, independentemente do estímulo visual apresentado. Quanto à organização de ideias, os dados sugerem que as figuras em sequência produziram resultados um pouco melhores.

Foram obtidos os resultados referentes à competência linguística: extensão do texto e ortografia (aplicação do Teste de McNemar), e pontuação e coesão global (testes estatísticos não aplicáveis) (Tabela 3).

Em relação à extensão do texto e ortografia, não houve diferença na distribuição dos resultados entre as produções escritas com base na figura de ação e sequência (p=1,00 e p=0,15, respectivamente). Em relação à pontuação, a maior parte dos sujeitos (nove) teve desempenho parcial em ambas as provas, ou seja, utilizaram-na de forma inadequada e/ou insuficiente.

Quanto à coesão global, a maioria dos sujeitos (nove) teve um desempenho parcial para os dois tipos de estímulos visuais. Contudo, houve indícios de que as produções em sequência proporcionaram resultados um pouco melhores neste aspecto. Além disso, na análise qualitativa das produções escritas, observou-se a utilização de estruturação frasal não convencional e dificuldade no emprego dos elementos frasais, conforme pode ser exemplificado no trecho a seguir: "Menino ver árvores, cão muito medo, muito cão medo, rato ver árvores bonito ar bom".

A comparação entre a média de pontuação total obtida pelos participantes em cada prova demonstrou que não houve diferença quanto ao tipo de estímulo visual apresentado (Tabela 4).

 

 

DISCUSSÃO

Optou-se pela realização da análise quantitativa de cada competência comunicativa separadamente, pois a literatura(19) aponta que a competência linguística se encontra prejudicada nos surdos usuários de LIBRAS, o que provavelmente interfere nas demais competências. Na competência genérica isso pode dificultar a organização de um texto mais elaborado e na competência enciclopédica pode comprometer a organização de ideias e a utilização adequada do vocabulário.

No que concerne à competência genérica, a hipótese inicial de que as figuras em sequência propiciariam produções escritas com um maior número de elementos do gênero narrativo não foi confirmada, uma vez que o desempenho dos surdos foi semelhante para ambos os estímulos visuais apresentados. Contudo, houve predomínio do gênero narrativo nas produções escritas com base nas figuras de ação e do gênero descritivo durante a utilização de figuras em sequência, contrariando os dados da literatura(20).

No estudo mencionado(20), foram comparadas narrativas eliciadas por figuras em sequência e figura de ação, realizadas por crianças com distúrbio de linguagem. Os resultados evidenciaram que os sujeitos obtiveram melhor desempenho nas narrativas produzidas com base nas figuras em sequência, pois elas propiciaram uma organização prévia das ideias, e consequentemente, uma menor demanda linguística. Além disso, os autores consideraram um possível efeito de treinamento, já que a prova com figuras em sequência foi aplicada após a figura de ação. No presente estudo, cuidados foram tomados para que esse efeito não interferisse na produção escrita dos surdos.

Apesar de não ter havido diferença em relação à competência genérica, qualitativamente observou-se que os escolares mesclavam a narrativa com a descrição de elementos presentes nas figuras. Isso parece indicar que a maioria dos surdos tem algum conhecimento sobre a importância de se contextualizar a escrita(2,18,21). Porém, talvez não souberam como registrar o cenário, o que pode explicar a presença de dados descritivos dentro das narrativas. Algumas vezes, teve-se a impressão de que por não saber referenciar os nomes dos personagens, estes eram descritos em função de suas características físicas e/ou das ações que estavam realizando, como uma forma de dar uma coesão referencial ou de caracterizar o local onde a história acontecia.

Quanto à competência enciclopédica, os resultados demonstraram que para ambos os estímulos visuais, a maioria dos surdos apresentou conhecimento parcial, não ocorrendo diferença entre eles. Embora os surdos possam apresentar conhecimento enciclopédico bem desenvolvido em língua de sinais, de modo geral não sabem como expressar suas ideias por meio do Português escrito.

Em relação aos demais aspectos da competência enciclopédica, mesmo sem a possibilidade de análise estatística, observou-se que os resultados foram baixos e próximos para ambos os estímulos, demonstrando que nenhum sujeito conseguiu aplicar conhecimentos de intertextualidade. Além disso, a maioria não soube fazer uso de inferências e título, e todos usaram vocabulário simples. Esses resultados sugerem um afastamento dos surdos quanto aos hábitos de leitura e escrita, uma vez que a intertextualidade, a inferência e a ampliação lexical, são habilidades que dizem respeito à coesão e coerência textual, cuja compreensão e utilização se concretiza em atividades interativas entre os usuários na construção da textualidade(22,23).

Quanto à fidedignidade ao tema, a maior parte dos sujeitos conseguiu manter, mesmo que parcialmente, o tema proposto independentemente do estímulo visual apresentado. Isso demonstra que os sujeitos não perderam o foco temático, provavelmente por esse aspecto não ser tão dependente do conhecimento da língua portuguesa escrita e por estar expresso nas figuras. O mesmo ocorreu para a organização de ideias, item no qual a maioria teve um desempenho parcial. Para as sequências de figuras, observou-se que alguns sujeitos conseguiram conectar suas ideias de forma um pouco mais elaborada, talvez pelo apoio da sequencialização das figuras.

Em relação à competência linguística, no que diz respeito à extensão do texto, é importante enfatizar que foi utilizada a definição de "parágrafo" proposta na literatura(23), que o define como uma das unidades de construção de um texto escrito, composto por um ou mais períodos relacionados por uma ideia. Quando um texto está bem redigido os parágrafos são marcados por recursos visuais e delimitam uma ideia relevante.

Nas produções escritas dos surdos, a maior parte desses recursos visuais não foi observada, uma vez que o uso de pontuação em muitas produções foi ausente e, de modo geral, insuficiente e/ou inadequado para ambos os estímulos. Entretanto, utilizou-se a construção das unidades em torno das ideias para determinar o número de parágrafos presentes nos textos e, assim, caracterizar sua extensão.

Quanto à extensão do texto, não houve diferença entre as produções com figura de ação e em sequência. Geralmente, para as figuras em sequência os sujeitos escreviam uma sentença para cada um dos elementos visuais. Para a figura de ação, a maior parte dos textos foi curta. Tal fato corrobora a discussão a respeito da dificuldade do surdo em construir textos em Português escrito, tanto pelo distanciamento da língua, quanto pelo despreparo dos professores em trabalhar com os surdos em sala de aula(24,25).

Ainda em relação à competência linguística, no que concerne ao número de erros ortográficos, os resultados foram semelhantes nas duas provas. Apesar de a maioria dos surdos ter escrito textos curtos, o que resultaria em menor número de erros ortográficos, apenas quatro sujeitos atingiram a pontuação máxima, que corresponde à presença de no máximo dois erros ortográficos. Esse dado corrobora os achados da literatura(19,26), que demonstram que os surdos apresentam erros ortográficos na escrita.

Quanto à coesão global, notou-se que a maioria dos sujeitos apresentou coesão parcial para ambos os estímulos. Entretanto, observou-se que as produções em sequência proporcionaram resultados um pouco melhores, confirmando a relevância do apoio visual sequenciado. Sobre esse assunto, pesquisadores(6) constataram a presença de elementos coesivos nas produções escritas de um grupo de adultos surdos sinalizadores, ainda que de forma comprometida.

Analisando-se a competência enciclopédica juntamente com a linguística, constatou-se que os resultados foram semelhantes aos dados encontrados na literatura em relação às características das produções escritas dos surdos(7,8,24). Os participantes apresentaram produções escritas de difícil análise considerando somente o Português escrito, tanto com base na figura de ação quanto nas figuras em sequência. O fato de ter havido cinco juízes para análise das produções escritas, com posterior discussão sobre os casos discordantes, propiciou maior fidedignidade na análise dos resultados encontrados e na análise qualitativa.

A análise qualitativa complementou quantitativa e permitiu identificar que a maioria dos sujeitos utilizou estruturação frasal não convencional, com sintaxe inadequada e inversão ou ausência de elementos (artigos, preposições e conjunções). Este fato sugere, além da influência da língua de sinais no Português escrito, hábitos limitados de leitura e produção escrita, uma vez que a coerência e coesão textual são fortemente influenciadas por eles(5,18,22,24). De acordo com a literatura, esses dados devem ser analisados com cautela, uma vez que a produção escrita por si só pode não expressar o conhecimento linguístico e enciclopédico dos surdos quando não se considera a influência da língua de sinais nessas produções(27,28).

Nesse sentido, um estudo comparativo(12) sobre as diferenças entre a Língua Britânica de Sinais (BLS) e a língua inglesa escrita demonstrou que a língua de sinais é uma língua visual multicanal, não havendo correspondência de "um-para-um" entre os sinais e palavras escritas. Assim, uma frase não terá o número de sinais correspondentes ao número de palavras. Por isso, muitos autores têm descentralizado a atenção de aspectos gramaticais nas produções escritas de surdos, por considerarem que crianças surdas sempre têm dificuldades com a escrita(27).

No Brasil, foi realizada uma pesquisa(19) para analisar a produção escrita de surdos universitários com base nas competências comunicativas. Os autores concluíram que a competência genérica estava adequada, porém as competências enciclopédica e linguística estavam aquém do esperado para a faixa etária.

Enfatiza-se que o ensino da língua portuguesa escrita é fundamental para esta população, uma vez que as competências enciclopédica e linguística podem ser resgatadas se forem consideradas as estratégias utilizadas pelos surdos(13,22). Portanto, o maior desafio dos pesquisadores que trabalham com surdos usuários da língua de sinais é identificar e caracterizar as possibilidades e limitações das produções escritas dessa população. Nesse sentido, sugere-se a realização de novas pesquisas, com um número maior de sujeitos e com a utilização de imagens bastante diferenciadas para que se possa obter um parâmetro da escrita de surdos sinalizadores.

 

CONCLUSÃO

Nenhum dos tipos de estímulo visual, seja figura de ação ou sequência de figuras, propicia melhores desempenhos de produção escrita de surdos sinalizadores sem queixas de alterações na escrita para a maior parte dos aspectos analisados.

 

AGRADECIMENTOS

Agradecemos à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), pelo apoio concedido para realização dessa pesquisa (processos nº 2008/114780 e nº 2009/112775).

 

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Endereço para correspondência:
Maria Silvia Cárnio
Laboratório de Investigação Fonoaudiológica em Leitura e Escrita.
R. Cipotânea, 51, Cidade Universitária
São Paulo (SP), Brasil, CEP: 05360-160.
E-mail: mscarnio@usp.br

Recebido em: 29/9/2010
Aceito em: 26/9/2011

Conflito de interesses:
Não

 

 

Trabalho realizado no Laboratório de Leitura e Escrita, Departamento de Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional, Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo – USP – São Paulo (SP), Brasil.
1 Alves DC, Cárnio MS. Protocolos para avaliação de leitura e escrita. São Paulo: Departamento de Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo; 1999. [Protocolo não publicado].
2 Cárnio MS. Questionário informativo para os professores. São Paulo: Curso de Fonoaudiologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo; 2000. [Protocolo não publicado].

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