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Revista Brasileira de Hematologia e Hemoterapia

Print version ISSN 1516-8484On-line version ISSN 1806-0870

Rev. Bras. Hematol. Hemoter. vol.24 no.2 São José do Rio Preto Apr./June 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-84842002000200010 

Carta ao editor / Letter to editor

Leucemia Mielóide Aguda t(8;21) após tratamento de hipertiroidismo com iodo radioativo: Leucemia secundária?

 

Daniella M.M. Bahia1
Maria L.F. Chauffaille1
Maura S. Romeo1
Magnus R. Dias-Silva2
José Kerbauy1

1 - Disciplina de Hematologia e Hemoterapia. Escola Paulista de Medicina/UNIFESP
2 - Disciplina de Endocrinologia. Escola Paulista de Medicina/UNIFESP

 

 

Sr. Editor,

Paciente do sexo feminino de 33 anos foi diagnosticada com hipertiroidismo assintomático em setembro de 1992 (TSH<0,05; T4L=1,6) e em maio 1993 recebeu 10mCi de Iodo131 (370MBq) com normalização da função tireoidiana. Três anos após, apresentou pancitopenia e o mielograma revelou LMA-M2, de acordo com classificação morfológica FAB e a citogenética apresentou 46, XX, t(8; 21) (q 22; q22) [20]. Foi iniciada quimioterapia com citosina arabinosídeo e daunorrubicina, evoluindo a óbito por sepsis durante o período de granulocitopenia pós terapia de indução.

A leucemia Mielóide Aguda (LMA) após terapia com agentes alquilantes, radioterapia e inibidores da topoisomerase II é uma condição bem reconhecida. LMA pós tratamento com agentes alquilantes e radioterapia geralmente apresenta uma fase mielodisplásica antes de evoluir para leucemia e tem como achados citogenéticos característicos a deleção ou perda do cromossomo 5 ou 7. Enquanto a LMA relacionada ao uso de epipodofilotoxinas, inibidores da topoisomerase II, já se apresenta como franca LMA, sem história prévia de mielodisplasia, com translocações balanceadas envolvendo os cromossomos 11q23 e 21q22 (1).

Leucemia pós-tratamento com Iodo radioativo é um fato raro, com poucos relatos na literatura e incidência em torno de 2% em pacientes com câncer de tireóide. Em hipertiroidismo, os dados são mais conflitantes, tempo e dose de exposição ao Iodo131 são fatores importantes na leucemogênese (2, 3, 4). Hall e Holm estudando 47.712 pacientes avaliaram o risco de desenvolver câncer pós exposição a Iodo131 para fins diagnósticos, tratamento de câncer de tireóide e hipertiroidismo, não demonstrando uma associação convincente entre Iodo131 e risco aumentado de câncer ou leucemia, à exceção do câncer de estômago. Outras neoplasias hematológicas têm sido relatadas após exposição a Iodo131, como leucemia linfóide crônica e leucemia mielóide crônica (LMC). A LMC é descrita após exposição a diferentes doses de iodo e com intervalo de tempo entre exposição e diagnóstico variável, mas ainda assim nem todos os casos foram confirmados com o achado do cromossomo Philadelphia, sendo, portanto, este diagnóstico questionável.(5)

 

 

A LMA secundária com t(8;21)(q22;q22) é um evento raro e se caracteriza por um curto período de latência, sem sinais de mielodisplasia ou relato de tratamento prévio com agentes inibidores da topoisomerase II e radioterapia (6).

Relatamos um caso de LMA com t(8;21)(q22;q22) após tratamento com Iodo131 para hipertiroidismo, cuja apresentação clínica foi semelhante às demais LMAs secundárias com t(8;21). Embora o potencial carcinogênico do Iodo131 ainda seja questionável, a intenção é ressaltar aqui que esta associação pode não ser ao acaso, uma vez que Bloomfield et al também demonstraram um caso de LMA-M2 pós tratamento com Iodo131 para hipertiroidismo que, no entanto, apresentava cariótipo normal.(7)

Por outro lado, não podemos deixar de considerar que estes eventos podem não estar diretamente relacionados e esta LMA t(8;21) ser uma leucemia de novo, reafirmando a dificuldade em estabelecer relação entre estes tipos de leucemias e seus prováveis agentes causais. Diante disso não podemos deixar de relatar este caso, já que mais estudos são necessários para elucidar esta questão.

 

 

Acute Myeloid Leukemia t(8;21) after treatment for hyperthyroidism using radioactive iodine: Secondary Leukemia?

Abstract

Acute leukemia following treatment with Iodine131 is a rare event. The possible carcinogenic effect of Iodine131 is still not clear and a large series of cases did not show an increased incidence of cancer. A case of AML t(8;21), three years after Iodine131 treatment for hyperthyroidism, is reported.
Secondary AML with t(8;21) is described following exposure to drugs that target topoisomerase II and radiotherapy. The controversial potential of Iodine131 as a leukemogenic agent and the fact that t(8;21) is also found in de-novo AML, emphasize the problem in establishing a relationship between these events although this potential can not be ruled out.

 

 

Referências Bibliográficas

1 .Pedersen-Bjergaard J, Pedersen M, Roulston D, Philip P. Different genetic pathways in leukemogenesis for patients presenting with therapy-related myelodysplasia and therapy-related acute myeloid leukemia. Blood, 1995; 86(9):3542-52.         [ Links ]

2. Hall P, Holm LE. Cancer in iodine-131 exposed patients. J Endocrinol Invest 1992; 18: 147-9.         [ Links ]

3. Laurenti L, Salutari P, Sica S, Piccirillo N, Zini G, Zollino M, Leone G. Acute Myeloid Leukemia after iodine-131 treatment for thyroid disorders. Ann Hematol, 1998; 176:271.         [ Links ]

4. Bitton R, Sachmechi I, Benegalrao Y, Schneider BS. Leukemia after a small dose of radiodine for metastatic thyroid cancer. J Clin Endocrinol Metabol 1993; 77(5):1423-26.         [ Links ]

5. Shimon I, Kneller A, Olchovsky D. Chronic myeloid leukemia following 131I treatment for thyroid carcinoma: a report of two cases and review of the literature. Clin Endocinol, 1995; 43:651-4.         [ Links ]

6. Leseve JF, Schneider P, Dolgopolov I, Bastard C, Lenormand B, Cambon-Michot E, Callat MP, Caveleier B, Tron PH, Vannier JP. Therapy-related acute myeloid leukemia with t(8;21) in a child with previous Ewing's Sarcoma. Med Ped Oncol 1997; 29:132-4.         [ Links ]

7. Bloomfield CD, Shuma C, Regal L, Philip PP, Hosfeld DK, Hagemeijer AM, Garson OM, Peterson BA, Sakurai M, Alimena G, Berger R, Rowley JD, Ruutu T, Mitelman F, Dewald GW, Swansbury J. Long term survival of patients with acute myeloid leukemia: a third follow-up of the forth international workshop on chromosomes in leukemia. Cancer 1997; 80(11):2191-8.         [ Links ]

 

 

Recebido – 07/03/2002
Aceito – 17/06/2002

 

 

Correspondência para: Maria de Lourdes F. Chauffaille
Disciplina de Hematologia e Hemoterapia
Escola Paulista de Medicina/UNIFESP
Rua Botucatu, 740
CEP: 04023-900. São Paulo. SP
Fone: (11) 5579-1550/ 5576-4240
Fax: (11) 5571-8806
E-mail: chauffaill@hemato.epm.br

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