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Revista Brasileira de Hematologia e Hemoterapia

versão impressa ISSN 1516-8484versão On-line ISSN 1806-0870

Rev. Bras. Hematol. Hemoter. v.28 n.4 São José do Rio Preto out./dez. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-84842006000400017 

CARTA AO EDITOR

 

Avaliação laboratorial da toxicidade molecular em eritrócitos talassêmicos

 

Laboratorial evaluation of molecular toxicity in thalassemic erythrocytes

 

 

Paulo Cesar Naoum; Sheldon S. S. Querino; Nathália M. Cury; Cristiane G. Toledo; Flávio Augusto Naoum

Academia de Ciência e Tecnologia de São José do Rio Preto, SP

Correspondência

 

 


ABSTRACT

Oxygen-derived free radical damage is associated with the molecular toxicity of hemoglobin. Especially in thalassemia syndromes, this toxicity has a relationship with "free" alpha globin concentrations. This study of beta thalassemia trait blood samples from 39 individuals shows that the evaluation of methemoglobin is a sensitive method of indicating molecular toxicity and the superoxide dismutase concentration revealing the intensity of oxidative stress of this process. Rev. bras. hematol. hemoter. 2006;28(4):301-302.

Key words: Beta thalassemia; molecular toxicity; methemoglobin; superoxide dismutase.


 

 

Sr. Editor:

Os eritrócitos talassêmicos se caracterizam notadamente pelo acúmulo de globinas alfa e beta despareadas que, por sua vez, induzem a formação de produtos oxidativos provenientes das reações entre elétrons livres liberados das globinas despareadas e do oxigênio molecular (O2) não utilizado devido ao baixo conteúdo intra-eritrocitário da hemoglobina corpuscular média.1 As reações entre elétrons livres e oxigênio molecular disponíveis causam a geração de radicais livres por meio de reações redox que formam as espécies ativadas de oxigênio: íon superóxido (O2), peróxido de hidrogênio (H2O2) e radical hidroxila (HO). Destaca-se que, no curso normal desses eventos biológicos ocorrem auto-oxidações espontâneas da hemoglobina, com produção diária de 107 radicais de íon superóxido.2,3 Esses processos são, entretanto, neutralizados naturalmente pelas defesas antioxidantes dos eritrócitos.4 Qualquer situação patológica que estimule o processo oxidativo da hemoglobina, como são os casos das talassemias alfa e beta, heterozigotas, homozigotas ou interativas, aumentará a geração de radicais livres nos eritrócitos. Esses radicais livres, e em especial o íon superóxido, causam o início da toxicidade molecular da oxi-hemoglobina (oxiHb) desencadeando a formação de subprodutos protéicos como são os casos da metaemoglobina (metaHb) e dos corpos de Heinz. Essa toxicidade molecular da hemoglobina, tomando a talassemia beta como exemplo, pode ser representada esquematicamente pela figura 1.

 

 

Por essas razões se torna possível avaliar a toxicidade molecular da hemoglobina nas talassemias por meio de análises que determinam as concentrações da superóxido dismutase (SOD) e metaemoglobina, presença de corpos de Heinz, grau de anemia e resposta hematopoiética por meio da contagem de reticulócitos. A presente comunicação, portanto, se refere ao estudo que realizamos em eritrócitos de portadores de talassemia beta menor com o objetivo de estimar diferentes marcadores laboratoriais sensíveis aos efeitos causados pela toxicidade molecular da hemoglobina.

A casuística que apresentamos é de amostras de sangue de indivíduos adultos com talassemia beta menor (n= 39) previamente diagnosticados clinica e laboratorialmente. O grupo controle (n= 10) foi constituído por indivíduos adultos saudáveis. As amostras de sangue foram coletadas com anticoagulante EDTA e submetidas a análises padrões de hemograma, eletroforeses alcalina para hemoglobina, dosagens de Hb A2 e Hb Fetal, contagem de reticulócitos, pesquisa intra-eritrocitária de corpos de Heinz e dosagem de metaemoglobina.5 A atividade da SOD foi determinada por meio do reagente Ransod (Randox®, Antrim, Inglaterra), que se baseia no método elaborado por Mc Cord e Fridovich.6

Os resultados obtidos entre as 39 amostras de sangue analisadas de portadores de talassemia beta menor, por meio de eletroforese de hemoglobina, dosagens de HbA2 e Hb Fetal, e dos índices hematimétricos, comprovaram que todos eram portadores de talassemia beta menor. Nesse grupo, 37 amostras (ou 94,87%) estavam com a concentração de hemoglobina total (g/dL) abaixo dos valores considerados normais para idade e sexo; 30 (ou 76,92%) mostraram reticulocitose acima de 2,5%; 20 (ou 51,28%) tinham níveis elevados de metaemoglobina acima de 3,0%; 12 (ou 30,76%) produziram aumento do número de corpos de Heinz acima de 0,01% por eritrócito; 39 (ou 100%) estavam com atividade elevada da enzima superóxido dismutase acima de 500 U/g Hb. No grupo controle, todos os resultados foram considerados normais por estarem dentro dos padrões específicos de cada análise estimada. A tabela 1 apresenta os resultados referentes à avaliação das análises indicativas de toxicidade molecular da hemoglobina nos dois grupos estudados.

 

 

Os resultados da análise da SOD nos permitem observar que a toxicidade molecular da hemoglobina afeta os eritrócitos de todos os portadores de talassemia beta menor, fato coincidente com relatos na literatura científica.7,8 Conforme mostra a figura 1, o íon superóxido (O2 ) inicia o processo oxidativo da hemoglobina, desencadeando a degradação molecular em subprodutos da hemoglobina (meta Hb) e de globina precipitada (corpos de Heinz). A elevada concentração da SOD, aproximadamente o dobro da média normal (Tabela 1), torna evidente o esforço biológico intra-eritrocitário para a manutenção do equilíbrio antioxidativo. A elevação dos níveis de metaemoglobina em cerca da metade dos portadores de talassemia beta menor e de corpos de Heinz em 1/3 deles, é indicativo que, entre o início da toxicidade molecular da hemoglobina até o processo de hemólise, as defesas antioxidantes eritrocitárias desempenham suas funções para conservarem a integridade eritrocitária. Apesar disso, os efeitos cumulativos das lesões oxidantes podem estar relacionados com a anemia observada em quase todos os portadores de talassemia beta menor.3,4

Do conjunto das análises efetuadas é possível concluir que a dosagem de metaemoglobina constitui sensível marcador da toxicidade molecular em portadores de talassemia beta menor, enquanto a avaliação da SOD revela a intensidade do estado oxidativo desse processo.

 

Referências Bibliográficas

1. Grinberg LN, Rachmilewitz EA, Kitrossky N et al. Hydroxyl radical generation in Beta-thalassemia red blood cells. Free Radical Biol Med 1995;18:611-615.        [ Links ]

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3. Naoum PC. Radicais livres em eritrócitos falcêmicos e talassêmicos. Bol Soc Bras Hematol Hemot 1996;18:75-81.        [ Links ]

4. Kassab-Chekir A, Loradi S, Ferchichi S et al. Oxidant, antioxidant status and metabolic data in patients with beta-thalassemia. Clin Chim Acta 2003;338:79-86.        [ Links ]

5. Naoum PC. Hemoglobinopatias e Talassemias. Editora Sarvier, São Paulo, 1997, 220p.        [ Links ]

6. McCord JM, Fridovich I. Superoxide dismutase: an enzymic function for erythrocuprein (hemocuprein). J Biol Chem 1969;244:6.049-6.055.        [ Links ]

7. Livrea MA, Tesoriere L, Pintaudi A, Calabrese A et al. Oxidative stress and antioxidant status in beta-thalassemia major: iron overload and depletion of lipid-soluble antioxidant. Blood 1996;88:3.608-3.614.        [ Links ]

8. Meral A, Tuncel P, Surmen-Gor E. Lipid peroxidation and antioxidant status in beta thalassemia. Pediatr Hematol Oncol 2000;17:687-693.        [ Links ]

 

 

Correspondência:
Paulo Cesar Naoum
Academia de Ciência e Tecnologia
Rua Bonfá Natale, 1860
15020-130 — São José do Rio Preto-SP — Brasil
Tel/Fax.: (17) 3233-4490
E-mail: a.c.t@terra.com.br

Recebido: 19/05/2006
Aceito: 30/05/2006

 

 

Avaliação: Editor e dois revisores externos
Conflito de interesse: não declarado

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