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Revista Brasileira de Hematologia e Hemoterapia

Print version ISSN 1516-8484

Rev. Bras. Hematol. Hemoter. vol.29 no.2 São José do Rio Preto Apr./June 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-84842007000200004 

EDITORIAIS EDITORIALS

 

Ferro endovenoso no tratamento da anemia ferropriva – seguro e eficaz

 

Intravenous iron infusion in the treatment of iron–deficiency anemia – its safety and effectiveness

 

 

Antonio Fabron Júnior

Professor assistente, Doutor da Disciplina de Hematologia e Hemoterapia da Faculdade de Medicina de Marília, Famema. Diretor técnico do Hemocentro da Famema

Endereço para correspondência

 

 

Na sociedade moderna, distúrbios no balanço do ferro são extremamente comuns. Diminuição da oferta de ferro na dieta ou, principalmente, condições que dificultam a absorção (gastrectomia, doenças inflamatórias crônicas intestinais) ou causam perda (menstruação, sangramento gastrintestinal) podem levar à deficiência de ferro. A anemia ferropriva, manifestação tardia da carência, surge quando as reservas de ferro do organismo esgotam–se em virtude do balanço negativo. Considerada um problema importante de saúde pública, a anemia ferropriva acomete aproximadamente 20% da população de países em desenvolvimento.1

É importante enfatizar que, concomitante ao tratamento de reposição do ferro, é fundamental, sempre que possível, a identificação e a remoção da causa que levou ao quadro de ferropenia.

Embora o tratamento de escolha seja a reposição de ferro por via oral, existem vários fatores que podem limitar sua eficácia. A absorção insuficiente de ferro pelo intestino e, principalmente, os sintomas gastrintestinais, como dor epigástrica, náuseas, cólicas e diarréia, podem levar a uma baixa adesão e tolerância do paciente ao medicamento e, conseqüentemente a uma má resposta ao tratamento. Dessa forma, a reposição de ferro por via parenteral, principalmente por via endovenosa, pode ser uma ótima opção para os pacientes que comprovadamente não toleram ou não respondem ao tratamento oral. Utilizados desde os anos 80, por via endovenosa, os complexos de ferro–dextran apresentavam uma incidência elevada de reações adversas e complicações após administração, gerando, na época, temores quanto a este tipo de terapia.2 Contudo, na década de 90, dois novos complexos, o gluconato férrico de sódio e, principalmente, o sacarato de hidróxido de ferro III, mostraram ser altamente eficazes com excelente tolerabilidade e toxicidade mínima, no tratamento endovenoso da deficiência de ferro.3

A deficiência de ferro é uma condição comum observada em pacientes com doença renal crônica (DRC). Essa deficiência ocorre devido à insuficiente absorção e mobilização do ferro e pela aumentada necessidade de ferro, quando agentes estimulantes da eritropoiese são administrados.4 Além disso, a deficiência de ferro é a causa mais comum da não responsividade a agentes estimulantes da eritropoiese na fase final de pacientes com DRC.5 Portanto, a correção da deficiência de ferro é necessária para otimizar o manejo da anemia em pacientes com DRC, potencializando a resposta à terapia com eritropoitina.6

Infusões endovenosas de gluconato férrico de sódio têm sido extensivamente usadas no tratamento de pacientes com anemia ferropriva submetidos à hemodiálise nos Estados Unidos. Utilizada num grande número de pacientes, essa terapia mostrou ser segura e eficaz na reposição de ferro e esteve associada a uma baixa incidência de efeitos adversos.6 Recentemente, foi demonstrado que a correção da deficiência de ferro em pacientes com DRC pode ser facilmente conseguida com a infusão endovenosa de sacarato de hidróxido de ferro III e mostrou–se ser mais efetiva que a suplementação oral.5

Neste fascículo é apresentado o artigo de Cançado DF e colaboradores – "Avaliação da eficácia do uso intravenoso de sacarato de hidróxido de ferro III no tratamento de pacientes adultos com anemia ferropriva". Neste estudo, os autores avaliaram cinqüenta pacientes adultos com anemia ferropriva que apresentavam intolerância e/ou resposta inadequada ao tratamento com ferro por via oral e/ou valor de hemoglobina inferior a 7 g/dl. Os pacientes receberam uma dose semanal de 200 mg de sacarato de hidróxido de ferro III diluído em 250 mL de soro fisiológico a 0,9% e administrado por via endovenosa durante trinta minutos.

O estudo de Cançado e colaboradores confirma o que é visto na prática, onde a maior causa de anemia ferropriva, na idade adulta é a perda de ferro, caracterizada por sangramento uterino anormal em mulheres, em idade reprodutiva (abaixo dos 55 anos) e sangramento gastrintestinal ou má absorção de ferro, em homens.

Embora o regime de tratamento proposto, baseado em fórmula apropriada, tenha sido de uma infusão semanal, na dose de 200 mg de sacarato de hidróxido de ferro III, recentemente foi demonstrado que pacientes com anemia por deficiência de ferro, devido a sangramento gastrintestinal, toleram doses maiores de ferro endovenoso, tais como 500 mg de sacarato de hidróxido de ferro III /semana.7

A menor resposta ao tratamento nos pacientes do sexo feminino, 26/40 (65%), quando comparada com a resposta observada no sexo masculino, 9/10 (90%), poderia ser explicada pela manutenção do fator de perda durante as menstruações, o que não acontece nos pacientes do sexo masculino, cuja principal etiologia da anemia é a má absorção devida à gastrectomia sofrida por estes pacientes (70%).

Como visto pelos autores, também observamos freqüentemente mulheres com quadros de menorragias, com conseqüente anemia ferropriva, de difícil resposta ao tratamento com a reposição de ferro por via oral, devido à manutenção da perda excessiva de sangue a cada ciclo menstrual e que poderiam se beneficiar da infusão endovenosa de ferro como tratamento clínico ou no preparo pré–operatório de eventual histerectomia. Nesta última situação, a reposição de ferro parenteral, endovenoso, nos dias que antecedem ao procedimento cirúrgico, pela rápida correção da hemoglobina circulante, poderia ser o tratamento de escolha, evitando–se a utilização de transfusões e seus possíveis riscos.

Num estudo feito com 27 pacientes que seriam submetidos à cirurgia de prótese ortopédica, o uso de ferro endovenoso melhorou os níveis de hemoglobina pré–operatória, reduzindo a necessidade de transfusão de unidades alogênicas de glóbulos vermelhos.8 Portanto, a reposição endovenosa de ferro parece ser também uma ótima opção de tratamento para pacientes com anemia ferropriva, que serão submetidos a cirurgias eletivas.

É importante lembrar que, embora a avaliação da eficácia do uso endovenoso de ferro, publicado neste fascículo, tenha sido feita em pacientes adultos com anemia ferropriva, a alta prevalência da deficiência de ferro e a intolerância ao uso de ferro oral tem levado pediatras a utilizar, cada vez com mais freqüência, infusões endovenosas de ferro no tratamento de anemia ferropriva em crianças e adolescentes.

Concluindo, a reposição de ferro por via endovenosa pode ser uma opção segura e eficaz para os pacientes que comprovadamente não toleram ou não respondem ao tratamento com ferro oral. Além disso, a terapia endovenosa tem permitido evitar ou minimizar a possibilidade de uso de transfusões de glóbulos vermelhos.

 

Referências Bibliográficas

1. Reynoso–Gomez E, Salina–Rojas V, Lazo–Langner A. Safety and efficacy of total dose intraveous iron infusion in the treatment of iron–deficiency anemia in adult non–pregnant patients. Rev Invest Clin. 2002;54(1):12–20.

2. Gandler G, Harchowal J, Macdougall IC. Intravenous iron sucrose: establishing a safe dose. Am J Kidney Dis. 2001;38:988–91.

3. Cook JD. Newer aspects of the diagnosis and treatment of iron deficiency. Hematology. 2003;53–61.

4. Rastogi A, Nissenson AR. New approaches to the management of anemia of chronic kidney disease: Beyond Epogen and Infed. Kidney Int Suppl. 2006;(104):S14–6.

5. Horl WH. Iron therapy for renal anemia: how much needed, how much harmful? Pediatr Nephrol. 2007; [Epub ahead of print].

6. Michael B, Fishbane S, Coyne DW, Agarwal R, Warnock DG. Drug insight: Safety if intravenous iron supplementation with sodium ferric gluconate complex. Nat Clin Pract Nephrol. 2006; 2(2):92–100.

7. Schroder O, Schorott M, Blumenstein I, Jahnel J, Dignass AU, Stein J. A study for the evaluation of safety and tolerability of intravenous high–dose iron sucrose in patients with iron deficiency anemia due to gastrointestinal bleeding. Z Gastroenterol. 2004;42(8):663–7.

8. Bisbe E, Rodriguez C, Ruiz M, Saez M, Castillo J, Santiveri X. Preoperative use of intravenous iron: a new transfusional therapy. Rev Esp Anestesiol Reanim. 2005;52(9):536–40.

 

 

Correspondência:
Antonio Fabron Junior
Rua Antonio Rossini, 555
17513–380 – Marília–SP – Brasil
Tel.: (14) 3402–1866
E–mail: fabron@famema.br

Recebido: 10/03/2007
Aceito: 10/03/2007

 

 

Avaliação: O tema abordado foi sugerido e avaliado pelo editor
Conflito de interesse: não declarado