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Revista Brasileira de Hematologia e Hemoterapia

versão impressa ISSN 1516-8484versão On-line ISSN 1806-0870

Rev. Bras. Hematol. Hemoter. vol.31 no.2 São Paulo mar./abr. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-84842009000200002 

EDITORIAIS EDITORIALS

 

Queda da ocorrência de doadores chagásicos e significado da sorologia inconclusiva nos serviços de hemoterapia

 

The drop in the number of chagasic donors and the significance of serology in hemotherapy services

 

 

Helio Moraes de Souza

Professor Titular da Disciplina de Hematologia e Hemoterapia da UFTM e Pesquisador da Fundação Hemominas

Correspondência

 

 

A grande migração de chagásicos para os centros urbanos, especialmente a partir dos anos 70, aliada ao combate sistemático ao vetor da doença em vários países da América Latina, fez com que a transmissão transfusional se tornasse, nas décadas de 80 e 90, o principal mecanismo de transmissão da doença de Chagas.1,2

Levantamentos da Organização Pan-americana de Saúde (OPAS), comparando dados sobre a doença de Chagas de 1990 e 2006 na América Latina, mostram que o número de infectados reduziu de 30 milhões para 7,7 milhões, população de risco de 100 milhões para 28 milhões e a incidência anual de novos chagásicos de 700 mil para 41 mil.3

Estes fatos refletiram diretamente sobre a queda da prevalência da infecção chagásica nos doadores. Assim é que, enquanto a prevalência sorológica na América Latina e no Brasil na década de 70 era de 6,06% e 11,08%, respectivamente, em 2006 foi de 1,28% e 0,21%.4 Em Uberaba, a redução na soroprevalência no período foi de 16,02% para 0,14%.5 O estudo de Melo et al.,6 publicado neste fascículo, também demonstra importante queda da infecção chagásica nos doadores de Pernambuco, de 4,4% em 1970, para 0,17% em 2007. A menor prevalência abaixo dos 30 anos, observada pelos autores, é consenso na literatura e reflete os resultados do combate sistemático ao vetor ocorrido no Brasil a partir dos anos 70. Contudo, a maior frequência no gênero masculino (78,36%) possivelmente é explicada pela menor participação das mulheres que representam no Brasil e no nordeste, respectivamente, 34,3% e 29,0%.7 Em contraposição a estes resultados, observamos em Uberaba (MG), frente a uma frequência de doação feminina de 27%, um índice de inaptidão de 0,4% verso 0,28% para os homens.4

Outro fato que atesta a eficácia do combate ao vetor em diversos países da América Latina é a queda acentuada da prevalência sorológica em crianças entre os anos 80 e 90. Na Argentina foi de 82,1%, no Brasil, de 99,1% (18,5% para 0,17%), no Chile de 77,8% e no Paraguai de 58,1%.8 Dados mais recentes mostram que a prevalência em crianças de zero a cinco anos no Brasil é de apenas 0,02%.9 Portanto, a redução drástica da transmissão vetorial e consequentemente da prevalência de doadores chagásicos, aliada ao aumento da cobertura sorológica em bancos de sangue, resulta em sensível diminuição do risco da doença de Chagas transfusional.10

Todavia, enquanto a América Latina caminha célere para o controle da endemia, o fluxo migratório dos países endêmicos para a América do Norte, Europa, Japão e Austrália vem provocando inquietudes devido ao risco evidente e já comprovado de transmissão transfusional e vertical da infecção chagásica, levando-os a submeter seus doadores à triagem sorológica para doença de Chagas. Contudo, paralelamente à baixa prevalência de doadores chagásicos, vem chamando atenção a significativa proporção de doadores inaptos sorológicos em decorrência de sorologia inconclusiva. Estudos de prevalência evidenciaram 69,6% de inconclusão em São Paulo (SP),¹¹ 52% em Uberaba (MG),5 e 74% nos Estados Unidos.¹² No atual estudo de Melo et al,6 foram registrado 60,3% de índice de inconclusão, confirmando os estudos citados e chamando atenção para o seu significado e consequências.

Uma questão que se impõe frente a tais resultados é quanto ao significado de um teste inconclusivo. Estamos diante de um indivíduo chagásico ou não chagásico? Se chagásico, quais procedimentos ou testes serão necessários para comprovar a presença da infecção e/ou a soropositividade? Se não chagásico, o que ou qual doença é responsável pela falsa reatividade?

Várias evidências sugerem que, na maioria das reações inconclusivas ou indeterminadas, o indivíduo não é portador da tripanossomíase chagásica. Contudo, apesar das evidências de ausência de infecção chagásica, a legislação existente no Brasil e, sobretudo, a nossa convicção ética não nos permitem liberar para transfusão os hemocomponentes daqueles doadores ou mesmo readmiti-los para novas doações. Todavia, submeter tais indivíduos à duvida de serem portadores de uma doença estigmatizante é um preço muito alto que lhes impingimos e deve ser evitado.

Concluímos ser evidente a necessidade do aprimoramento das técnicas sorológicas, utilizando antígenos recombinantes cada vez mais específicos para T. cruzi e/ou a introdução de testes confirmatórios, permitindo assim minimizar ou mesmo eliminar resultados sorológicos duvidosos ou inconclusivos, preservando a segurança transfusional.

 

Referências Bibliográficas

1. Dias JC, Silveira AC, Schofield CJ. The impact of Chagas disease control in Latin America: a review. Mem Inst Oswaldo Cruz. 2002; 97(5):603-12.         [ Links ]

2. Schmunis GA. Tripanossomíase Americana: seu impacto nas Américas e perspectivas de eliminação. In: Dias JCP, Coura JR. Clínica e terapêutica da doença de Chagas. Fiocruz. Rio de Janeiro. p.11-23, 1997.         [ Links ]

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4. Organización Panamericana de la Salud. Estimación cuantitativa de la enfermedad de Chagas en las Americas. OPS/HDM/CD/425-06, 2006.         [ Links ]

5. Moraes-Souza H, Martins PRJ, Ferreira-Silva MM, Pereira GA. Perfil sorológico para doença de Chagas dos doadores de sangue do Hemocentro Regional de Uberaba. Rev. Bras. Hematol. Hemoter. 2006;28(2):105-9.         [ Links ]

6. Melo AS, Lorena VMB, Soares AB, Pinto MBA, Leão SC, Soares AKA, et al. Prevalência de infecção chagásica em doadores de sangue no estado de Pernambuco, Brasil. Rev. Bras. Hematol. Hemoter. 2009;31(2):69-73.         [ Links ]

7. Anvisa. Perfil do doador de sangue brasileiro 2004. Disponivel em: http://www.anvisa.gov.br/hotsite/doador_sangue/pdsbfiles/introducao.htm.         [ Links ]

8. Dias JCP, Silveira AC. Enfermedad de Chagas en las Américas: situación actual y perspectivas. Rev. Soc. Bras. Med. Trop. 2005; 38(2):5-13.         [ Links ]

9. Dias JC. Southern Cone Initiative for the elimination of domestic populations of Triatoma infestans and the interruption of transfusional Chagas disease. Historical aspects, present situation, and perspectives. Mem Inst Oswaldo Cruz. 2007;102 Suppl 1:11-8.         [ Links ]

10. Cruz JR. Fifteen years of prevention of T. cruzi transmision through blood transfusion in Latin America. PAHO/HDM/CD/CHA, OMS 2007.         [ Links ]

11. Salles NA, Sabino EC, Cliquet MG, Eluf-Neto J, Mayer A, Almeida-Neto C, et al. Risk of exposure to Chagas' disease among seroreactive Brazilian blood donors. Transfusion. 1996;36(11-12):969-73.         [ Links ]

12. Leiby DA. Blood screening for Trypanosoma cruzi antibodies: US experience. PAHO/HDM/CD/CHA, OMS 2007.         [ Links ]

 

 

Correspondência:
Helio Moraes de Souza
Av. Getúlio Guaritá, nº 250 – Abadia
38025-440 – Uberaba (MG)
E-mail: helio.moraes@dcm.uftm.edu.br

Recebido: 10/03/2009
Aceito: 12/03/2009

 

 

Avaliação: O tema abordado foi sugerido e avaliado pelo editor.

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