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Revista Brasileira de Hematologia e Hemoterapia

Print version ISSN 1516-8484

Rev. Bras. Hematol. Hemoter. vol.32 no.2 São Paulo  2010  Epub May 07, 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-84842010005000040 

ARTIGO ARTICLE

 

Transplante alogênico de células-tronco hematopoéticas em leucemias agudas: a experiência de dez anos do Hospital das Clínicas da UFMG

 

Allogeneic hematopoietic stem cells transplantation in acute leukemia: ten years of experience in the Hospital das Clínicas - UFMG

 

 

Rosana M. LamegoI; Nelma C. D. ClementinoII; Ângela L. B. CostaIII; Marçal J. M. OliveiraIII; Henrique BittencourtIV

IMédica hematologista do Serviço de Transplante de Medula Óssea do Hospital das Clínicas da UFMG - Belo Horizonte-MG
IIMédica hematologista.Professora Associada do Depto. de Propedêutica Complementar da UFMG - Belo Horizonte-MG
IIIAluno do Curso de medicina da UFMG - Belo Horizonte-MG
VMédico hematologista. Professor do Depto. de Clínica Medica da UFMG e coordenador do Serviço de Transplante de Medula Óssea do HC da UFMG - Belo Horizonte-MG

Correspondência

 

 


RESUMO

As leucemias agudas são doenças com alta morbimortalidade para as quais o transplante alogênico de medula óssea é uma opção terapêutica eficaz. Neste artigo, relatamos a experiência de um centro brasileiro com pacientes apresentando leucemia aguda que receberam um enxerto de medula óssea ou células-tronco periféricas de um doador familiar HLA idêntico no período de julho de 1995 a dezembro de 2005. Foi realizado um estudo de coorte retrospectivo, analisando dados de 125 pacientes com mediana de idade de 28,7 anos. Oitenta e um pacientes (64,8%) apresentavam leucemia mieloide aguda; 38 (30,4%), leucemia linfoide aguda; e seis (4,8%), leucemia bifenotípica. Trinta e dois pacientes encontravam-se em primeira remissão completa, 23 em segunda remissão e 70 com doença avançada (refratários, recidivados ou além da segunda remissão). A sobrevida global estimada em 10 anos foi de 22,9%. Em relação à situação clínica do paciente no momento do transplante, a sobrevida global em dez anos foi de 56,3% para pacientes em primeira remissão, 38% para os pacientes em segunda remissão, e 3,7% para os pacientes com doença avançada. Considerando-se os pacientes transplantados em primeira e segunda remissão, a evolução foi semelhante aos dados disponíveis na literatura. Entretanto, os resultados dos pacientes transplantados em fase avançada foram ruins, devendo-se discutir o papel do transplante para este grupo.

Palavras-chave: Leucemia; transplante de medula óssea.


ABSTRACT

Acute leukemias are a group of diseases with high morbimortality. Allogeneic bone marrow transplantation is an efficacious therapeutic option for their treatment. We report the experience of a Brazilian center in respect to acute leukemia patients who received a bone marrow or peripheral blood allograft from a HLA-matched sibling from July 1995 to December 2005. Data were retrospectively collected. The median age of the 125 patients included in the study was 28.7 years. Eighty-one patients presented with acute myeloid leukemia, 38 with acute lymphocytic leukemia and six patients with biphenotypic leukemia. Thirty-two patients were in first complete remission, while 23 were in second remission and 70 were transplanted in an advanced disease stage (refractory, relapsed, or beyond second remission). Overall expected survival at 10 years was 22.9%; the expected survival was 56.3%, 38%, and 3.7% for patients in first remission, second remission and for patients with advanced disease, respectively. In conclusion, the evolution of patients transplanted in first or second remission was similar to other published studies. On the contrary, patients with advanced disease showed a dismal prognosis. The role of allogeneic transplantation in this group of patients should be further discussed.

Key words: Leukemia; bone marrow transplantation.


 

 

Introdução

As leucemias agudas são neoplasias do sistema hematopoético que, apesar da sua rápida evolução, são potencialmente curáveis. Aquimioterapia, base do tratamento, muitas vezes é incapaz de controlar a doença a longo prazo. O transplante de células-tronco hematopoéticas (TCTH) alogênico é uma modalidade terapêutica eficaz na consolidação da remissão das leucemias agudas. Entretanto, o TCTH alogênico apresenta alta morbimortalidade. A mortalidade relacionada a ele em cinco anos encontra-se entre 24% e 34%.1,2 Os pacientes podem, ainda, apresentar complicações a longo prazo, destacando-se a doença do enxerto contra o hospedeiro (DECH) crônica, responsável muitas vezes por piora significativa na qualidade de vida. A decisão de se encaminhar um paciente para TCTH alogênico baseia-se hoje nas características da doença, principalmente na citogenética da medula óssea ao diagnóstico.3-5 Dessa maneira, pode ser oferecida a melhor terapia para os pacientes com alto risco de recidiva, evitando a intensificação desnecessária do tratamento em pacientes com bom prognóstico. Por outro lado, pacientes com doença refratária à indução encontram no TCTH alogênico a única possibilidade de cura.

As publicações nacionais sobre TCTH alogênico são escassas.6,7 O Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (HC-UFMG) é um serviço de referência para o tratamento de leucemias agudas e realização de TCTH alogênico em Minas Gerais. A necessidade de se conhecer o perfil e a evolução dos pacientes encaminhados para o HC-UFMG motivou a realização deste estudo.

 

Casuística e Método

Foi realizado um estudo de coorte retrospectivo com todos os pacientes transplantados com o diagnóstico de leucemia aguda - mieloide, linfoide ou bifenotípica - que receberam um transplante de células-tronco hematopoéticas não manipulado de um doador familiar HLA idêntico naUnidade de Transplante de Medula Óssea do HC-UFMG entre julho/1995 e dezembro/2005.

As variáveis avaliadas estão resumidas na Tabela 1. As características da leucemia aguda analisadas foram: tipo de leucemia (linfoide, mieloide ou bifenotípica); classificação FAB (Franco-Americano-Britânica) para leucemia mieloide aguda (LMA); imunofenótipo (B versus T) para leucemia linfoide aguda (LLA); leucemia primária versus secundária. Os pacientes foram divididos em três grupos prognósticos conforme a citogenética da medula óssea: favorável, intermediário e desfavorável.4,8 Quanto à situação da doença no momento do transplante, os pacientes foram agrupados da seguinte forma: primeira remissão, segunda remissão e pacientes com doença avançada (em recidiva, refratária ou terceira ou mais remissão).

Os desfechos estudados foram: sobrevida global, recidiva, mortalidade relacionada ao transplante, recuperação de neutrófilos (considerado o primeiro de três dias com contagem de neutrófilos acima de 0,5x109/l), recuperação de plaquetas (considerado o primeiro de sete dias com contagem de plaquetas acima de 50x109/l, sem transfusão durante todo o período), DECH aguda e DECH crônica (avaliada nos pacientes vivos no dia +100 de acompanhamento).

Os dados foram coletados até o dia 31/07/07. Variáveis categóricas foram analisadas pelo teste do qui quadrado. Para os fatores prognósticos influenciando a recuperação de neutrófilos e plaquetas, o tempo de ocorrência de DECH aguda e crônica, o tempo para mortalidade relacionada ao transplante e o tempo para recidiva, foi utilizada análise univariada comparando-se as curvas de incidência cumulativa com o teste de Fine e Gray. Para a análise de sobrevida global foi utilizada a estimativa de Kaplan-Meier e o teste de Log-Rank. Todas as variáveis com um p menor ou igual a 0,20 foram incluídas em um modelo multivariado de regressão de Cox. Todos os testes estatísticos foram bicaudais e um p menor ou igual a 0,05 foi considerado como de significância estatística. A análise estatística foi realizada através dos programas SPSS 13.0 e S-PLUS.

 

Resultados

Dados demográficos

Foram transplantados 125 pacientes portadores de leucemia aguda com doador familiar HLA idêntico no período de julho/1995 a dezembro/2005. A mediana de idade foi de 28,7 anos e 52% deles eram do sexo masculino. Apenas 61 (48,8%) pacientes apresentavam dados referentes à citogenética ao diagnóstico. De acordo com a citogenética destes pacientes, 22 (36%) eram de prognóstico desfavorável, 32 (52,5%) intermediário e sete (11,5%) de bom prognóstico.

No momento do transplante, as medianas de leucócitos e plaquetas eram 4 x109/l e 120x109/l, respectivamente. Trinta e dois pacientes (25,6%) estavam em primeira remissão, 23 (18,4%) em segunda remissão e 70 (56%) com doença avançada.

Oitenta e seis (68,8%) pacientes receberam condicionamento utilizando bussulfano e ciclofosfamida (Bu-Cy). Em relação à fonte de células empregada, 108 (86,4%) pacientes receberam células-tronco periféricas (CTP). A profilaxia para a DECH incluiu a combinação de ciclosporina e metotrexato em 114 (91,2%) pacientes.

As características dos pacientes e dos doadores estão resumidas na Tabela 2.

 

 

Desfechos

As variáveis que apresentaram p menor ou igual a 0,20 em relação a cada um dos desfechos estudados foram incluídas em análise multivariada e estão descritas na Tabela 3.

A mediana para recuperação de neutrófilos foi de 15,5 dias. A incidência cumulativa de recuperação de neutrófilos no dia +60 foi de 90,4 %. Na análise univariada, observou-se recuperação mais rápida dos neutrófilos com o uso de CTP (p=0,001), assim como na análise multivariada (HR: 4,28; IC95%: 1,95-9,42; p<0,001 - Tabela 4). Por outro lado, condicionamento com Bu-Cy associou-se com recuperação mais lenta dos neutrófilos (HR: 0,64; IC95%: 0,41-0,99; p=0,05 - Tabela 4)

 

 

A mediana para recuperação de plaquetas foi de 14 dias. A incidência cumulativa de recuperação de plaquetas no D+100 foi de 74,2%. Na análise multivariada, nenhuma variável influenciou a recuperação das plaquetas.

Sessenta pacientes apresentaram DECH aguda (graus I-IV) com incidência cumulativa de 47,2% no D+100. Na análise univariada, observou-se maior incidência de DECH aguda I-IV em pacientes que receberam CTP em comparação à infusão de medula óssea (MO) (p=0,008), bem como naqueles com doador masculino (p=0,05). Em análise multivariada, apenas o uso de CTP correlacionou-se com maior incidência de DECH I-IV (HR: 3,83; IC95%: 1,11-13,25; p=0,03 - Tabela 4).

As incidências cumulativas de DECH graus II a IV e graus III e IV foram 35,2% e 23,2%, respectivamente. Para a DECH aguda graus II a IV, a única variável que influenciou o resultado, tanto na análise univariada (p=0,05) como na multivariada (HR: 0,52; IC95%: 0,28-0,98; p=0,04 - Tabela 4), foi o regime de condicionamento, sendo encontrada menor incidência de DECH nos casos que utilizaram Bu-Cy. Já em relação à DECH aguda graus III e IV, nenhuma variável influenciou sua incidência na análise univariada ou multivariada.

Vinte e nove pacientes apresentaram DECH crônica, sendo a incidência cumulativa em dez anos igual a 34,5%. As variáveis que influenciaram a DECH crônica na análise univariada, reduzindo sua incidência, foram: idade do doador < 18 anos (p=0,05), utilização de MO (p=0,02) e doença avançada no transplante (p=0,001). Nenhuma variável influenciou a incidência de DECH crônica em análise multivariada.

Quarenta e sete pacientes foram a óbito por causas relacionadas ao transplante. A incidência cumulativa de morte relacionada ao transplante (MRT) em um ano foi de 37,6%. A principal causa de MRT foi a DECH aguda (n=16). Na análise multivariada, apenas idade do receptor no momento do transplante > 18 anos influenciou a mortalidade (HR: 5,13; IC95%: 1,34-19,60; p=0,02 - Tabela 4).

Quarenta e oito pacientes recidivaram após o transplante (43 com recidiva medular exclusiva). A mediana de tempo do transplante até a recidiva foi de 128 dias. A incidência cumulativa de recidiva foi de 40,3% em 10 anos. Foram fatores que aumentaram a incidência de recidiva na análise univariada: idade do doador < 18 anos (p=0,005), utilização de MO (p=0,002), idade do receptor < 18 anos (p=0,001), paciente masculino (p=0,05), leucemia aguda em estágio avançado no transplante (p=0,001) e leucemia bifenotípica (p=0,02). Em análise multivariada, o sexo masculino do receptor (HR:2,01; IC 95%:1,02-3,94; p=0,04) e a situação clínica da doença ao transplante (HR: 3,15; IC95%: 1,84-5,40; p<0,001) influenciaram a recidiva (Tabela 4).

Trinta e três pacientes (26,4%) encontravam-se vivos em 31/07/2007. A sobrevida global estimada em 10 anos foi de 22,9% (Figura 1). Noventa e dois pacientes evoluíram com óbito, sendo óbito por recidiva em 45 pacientes e complicações associadas ao transplante em 47 casos.

 

 

As seguintes variáveis associaram-se à redução da sobrevida global na análise univariada e multivariada: leucemia em estágio avançado no transplante (p<0,001 em análise univariada; HR: 1,91; IC95%: 1,412,57; p<0,001 em análise multivariada) e incompatibilidade ABO maior (p=0,03 em análise univariada; HR: 1,77; IC95%: 1,05-3,01; p=0,03 para análise multivariada - Tabela 4).

A sobrevida estimada em dez anos foi de 56,3% para pacientes em primeira remissão; 38% para os pacientes em segunda remissão e 3,7% para os demais pacientes (Figura 2).

 

 

Discussão

Um dos grandes desafios no tratamento das leucemias agudas é evitar a recidiva. Com esse objetivo, muitos pacientes com leucemia aguda têm sido encaminhados para transplante alogênico, sendo hoje a principal indicação para sua realização.9

Existem poucos estudos brasileiros relatando a evolução dos pacientes com leucemia aguda submetidos a TCTH alogênico. Dois estudos retrospectivos foram publicados recentemente. No primeiro6 foram avaliados 731 pacientes portadores de leucemia mieloide aguda (LMA), sendo 205 submetidos a transplante autólogo e o restante a transplante alogênico. A mediana de sobrevida foi maior nos pacientes submetidos a transplante autólogo (1.035 versus 466 dias), mas os grupos eram heterogêneos. O grupo do transplante alogênico apresentava um número maior de pacientes com doença avançada (60%) em relação àqueles submetidos a transplante autólogo. O segundo artigo7 incluiu pacientes com leucemia linfoide aguda (LLA) transplantados em 15 centros. Foram analisados 405 transplantes (379 alogênicos e 26 autólogos). A sobrevida dos pacientes submetidos ao TCTH alogênico foi de 25% em 15 anos. Os fatores que influenciaram favoravelmente a sobrevida foram: transplante em primeira remissão completa e utilização de sangue de cordão umbilical.

O objetivo do nosso estudo foi contribuir para se conhecer o perfil do paciente que é encaminhado para o serviço deTransplante de Medula Óssea do HC-UFMG e sua evolução após o procedimento. Esse conhecimento permite o desenvolvimento de estratégias para melhorar a qualidade do atendimento, através da identificação dos potenciais fatores prognósticos locais.

A maior parte dos dados demográficos deste estudo assemelha-se aos encontrados na literatura.2,3,10-13 Aproximadamente metade dos pacientes não apresentava citogenética ao diagnóstico disponível, provavelmente pela impossibilidade de realizá-lo no serviço de origem. A indicação da realização do TCTH alogênico, principalmente para pacientes em primeira remissão, apóia-se em fatores prognósticos, dos quais a citogenética é o mais importante.3,4,8 A ausência dessa informação dificulta a indicação do TCTH alogênico em primeira remissão e contribui para que os pacientes sejam encaminhados em estágios de doença mais avançados.

Um grande número de pacientes foi transplantado com doença avançada. Estudo brasileiro analisando dados de 16 centros mostrou que, no momento do transplante, 36% dos pacientes com LMA e 31% dos pacientes com LLA apresentavam doença em fase avançada.7 Outro estudo, avaliando 182 pacientes com LLA transplantados entre 1990 e 1997 em Seattle, já mostrou um número maior de pacientes com doença avançada: 52% dos pacientes foram transplantados recidivados.2 De maneira geral, os grandes ensaios clínicos descritos na literatura apresentam um grupo selecionado de pacientes, com número restrito de doença avançada, sendo o encaminhamento para o transplante realizado precocemente. 14-17

As medianas de recuperação de neutrófilos e plaquetas foram comparáveis às descritas na literatura, considerandose o grande número de pacientes que utilizou CTP como fonte de células. Como relatado em vários estudos,14,15,17,18 a fonte de células influenciou a recuperação dos neutrófilos, sendo a recuperação mais rápida com o uso de CTP.

A incidência de DECH aguda encontra-se entre 35% e 59% em pacientes submetidos ao TCTH alogênico com doador aparentado segundo dados da literatura.1,7,14,17,19 Os dados encontrados neste estudo foram semelhantes, tendo o uso de CTP aumentado a incidência da DECH aguda graus I a IV, sem entretanto influenciar as formas graves. Há controvérsias a respeito do impacto da fonte de células nodesenvolvimento da DECH aguda. Schmitz et al relataram incidência de DECH aguda significativamente maior com a utilização da CTP.20 Duas metanálises realizadas com um grande número de pacientes confirmaram esse resultado.18,21 Outros estudos, porém, não mostraram influência da fonte de células utilizada na incidência de DECH aguda.14,15,17

A incidência de DECH crônica oscila entre 30% e 50% na maioria dos estudos,16,18,22,23 sendo maior quando se utiliza CTP como fonte de células. Em nosso estudo, encontramos incidência de 34,5% em dez anos. Embora a análise univariada tenha mostrado associação entre DECH crônica e uso de CTP, esse dado não foi confirmado em análise multivariada. O pequeno número de pacientes que utilizou MO, a elevada taxa de recidiva e o grande número de óbitos podem justificar tal achado.

A incidência cumulativa de óbito por causas relacionadas ao transplante nesse estudo (37,6% em um ano) foi maior que a descrita na literatura (24% a 34% em cinco anos).1,2 A DECH aguda foi a principal causa de mortalidade relacionada ao tratamento. Estudo brasileiro em pacientes transplantados por LMA mostrou a DECH responsável por apenas 7,5% dos óbitos.6 Deve-se ressaltar que, neste trabalho, a DECH aguda foi considerada como causa de óbito mesmo que o evento final tenha sido uma complicação infecciosa. As formas mais graves da DECH aguda (graus III e IV) foram encontradas numa parcela significativa de pacientes (23,2% no presente estudo versus 6% a 19% em outros estudos).1,14,17,18,24 O fato do estudo ser retrospectivo deve ser considerado, podendo ter dificultado a correta classificação da DECH aguda.

A recidiva tem sido o principal problema no tratamento das leucemias agudas a longo prazo,2,7,24 mantendo taxas constantes ao longo do tempo.1,2 Neste estudo, a incidência cumulativa de recidiva em dez anos foi de 40,3%, aumentando significativamente em pacientes transplantados com leucemia avançada. A situação clínica da doença no momento do transplante é, sabidamente, o fator de risco mais importante para recidiva.1,2,14

A sobrevida global encontrada assemelhou-se a alguns estudos brasileiros,25,26 mas foi inferior à descrita na literatura (40% a 55%).1,14 Entretanto, na maioria dos estudos, apenas um número pequeno de pacientes apresenta doença avançada no momento do transplante. Ao se incluir uma proporção maior de pacientes com doença avançada, a sobrevida observada torna-se significativamente menor, como demonstrado em estudo realizado por Doney et al.,2 que encontrou uma sobrevida livre de doença de 21% em cinco anos. Estratificando a sobrevida pela situação clínica da doença no momento do TCTH alogênico, encontramos dados semelhantes aos de outros estudos. Os pacientes transplantados em primeira remissão apresentaram sobrevida global em dez anos de 56,3% versus 46% a 59% em relatos da literatura.1,12,24,27 Em relação aos pacientes em segunda remissão no momento do TCTH alogênico, a sobrevida global encontrada (38%) também foi semelhante à descrita na literatura (32% a 36%).1,28 Os pacientes com doença avançada apresentaram sobrevida global muito ruim (3,7%). A heterogeneidade dos pacientes com doença avançada incluídos nos diversos estudos dificulta sua comparação, com sobrevida em cinco anos oscilando entre <10%29 a 23%30 dependendo das características da população estudada.

A revisão da casuística do programa de transplante alogênico de células-tronco hematopoéticas permite identificar dificuldades específicas de cada serviço, propiciando assim intervenções no sentido de melhorar a qualidade do atendimento. Duas abordagens poderiam ser realizadas na tentativa de melhorar nossos resultados. A primeira delas seria selecionar melhor os pacientes com doença avançada que são encaminhados para transplante. Possivelmente, apenas um subgrupo desses pacientes se beneficia do procedimento. Outro dado observado é a maior mortalidade relacionada ao procedimento em nosso serviço, sendo a DECH aguda responsável por um terço desses óbitos. Nesse sentido, pode-se tentar modificar a profilaxia da DECH nos grupos de maior risco, além de avaliar melhor o uso de CTP como fonte de células e estudar o emprego de outros condicionamentos.

 

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Correspondência:
Rosana Morais Lamego
Serviço de Transplante de Medula Óssea do Hospital das Clínicas da UFMG
Av. Alfredo Balena, 190
30130-100 - Belo Horizonte-MG - Brasil
Tel: (55 31) 3409-9490
E-mail: rosanalamego@gmail.com

Recebido: 12/07/2009
Aceito: 31/08/2009
Avaliação: Editor e dois revisores externos

Conflito de interesse: sem conflito de interesse

 

 

Serviço de Hematologia do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Faculdade de Medicina da UFMG -Belo Horizonte, MG

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