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Alea : Estudos Neolatinos

Print version ISSN 1517-106X

Alea vol.10 no.1 Rio de Janeiro Jan./June 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S1517-106X2008000100003 

Linguagem e interdisciplinaridade

 

 

José Luiz Fiorin*

 

 


RESUMO

Depois de mostrar que a interdisciplinaridade é da natureza dos estudos lingüísticos, porque a linguagem é multiforme e heterogênea, este trabalho expõe os dois modos básicos de fazer ciência, um regido pelo princípio da exclusão e outro governado pelo princípio da participação, que produzem, respectivamente, a especialização e a sua ultrapassagem. A partir daí, discute as vantagens e os problemas da disciplinaridade, apresenta as razões pelas quais hoje a interdisciplinaridade é um universal positivo do discurso e conceitua, com base na etimologia, os termos interdisciplinaridade, multidisciplinaridade, pluridisciplinaridade e transdisciplinaridade. Examina os vínculos da lingüística com outras ciências, para terminar traçando um histórico das relações entre lingüística e literatura no Brasil.

Palavras-chave: lingüística; estudos literários; interdisciplinaridade; multidisciplinaridade; transdisciplinaridade.


ABSTRACT

Since language is multifaceted and heterogeneous, interdisciplinarity is natural to linguistic studies. In this article, after demonstrating that, I present two basic ways of doing science. One is ruled by the principle of exclusion, whereas the other is ruled by the principle of participation. The former leads to specialization, whereas the latter leads to the surpassing of specialization. From that, I discuss the advantages and problems of disciplinarity, and present the reasons why nowadays interdisciplinarity is a positive universal in scientific and pedagogical discourses. Also, based on etymology, I discuss the concepts of interdisciplinarity, multidisciplinarity, pluridisciplinarity and transdisciplinarity. Finally, I examine the bonds between linguistics and other sciences, by drawing a brief history of the relations between linguistics and literature in Brazil.

Key words: linguistics; literary studies; interdisciplinarity; multidisciplinarity; transdisciplinarity.


RÉSUMÉ

Après avoir montré que l'interdisciplinarité est de l'ordre des études linguistiques, car le langage est multiforme et hétérogène, cet essai expose les deux façons de faire de la science, l'une régie par le principe de l'exclusion et l'autre gouvernée par le principe de la participation. Ces deux principes produisent, respectivement, la spécialisation et son dépassement. A partir de là, on discute les avantages et les inconvénients de la disciplinarité, on avance les raisons selon lesquelles l'interdisciplinarité est aujourd'hui un universel positif du discours et on définit, en s'appuyant sur l'étymologie, les termes d'interdisciplinarité, multidisciplinarité, pluridisciplinarité et transdisciplinarité. On analyse les rapports de la linguisitique avec d'autres sciences et on finit par tracer l'historique des relations entre la linguistique et la littérature au Brésil.

Mots-clés: Linguistique; études littéraires; interdisciplinarité; multidisciplinarité; transdisciplinarité.


 

 

Kiakudikila, kiazanga...
(O que se mistura separa)*1
Luandino Vieira

... Le cose tutte quante
Hann'ordine tra loro; e questo è forma
Che l'universo a Dio fa simigliante.
Dante, Paraíso, I, 103-105

 

A multiformidade e a heterogeneidade da linguagem

A linguagem é onipresente na vida de todos os homens. Cerca-nos desde o despertar da consciência, ainda no berço; segue-nos durante toda a nossa vida, em todos os nossos atos, e acompanha-nos até na hora da morte. Sem ela, não se pode organizar o mundo do trabalho, pois é ela que permite a cooperação entre os seres humanos e a troca de informações e experiências. Sem ela, o homem não pode conhecer-se nem conhecer o mundo. Sem ela não se exerce a cidadania, porque ela possibilita influenciar e ser influenciado. Sem ela não se pode aprender. Sem ela não se podem expressar sentimentos. Sem ela, não se podem imaginar outras realidades, construir utopias e sonhos. Sem ela não se pode falar do que é nem do que poderia ser.

A linguagem é objeto de estudo de várias disciplinas. A lingüística, por exemplo, tem por finalidade a explicação dos mecanismos da linguagem por meio da descrição das diferentes línguas faladas no mundo.

Todas as línguas têm em comum certas propriedades e características universais, que definem o que é inerente à natureza mesma da linguagem. Através da extraordinária diversidade das línguas do mundo, hoje se busca a unidade da linguagem humana, aquilo que faz sua especificidade em relação aos códigos não humanos. A busca de uma origem única das línguas, o mito da torre de Babel, que seria responsável pela diversidade lingüística, a nostalgia do paraíso perdido onde se falava uma só língua, é isso que está na base, no plano mítico, da pesquisa contemporânea dos universais da linguagem, das operações mentais que presidem ao funcionamento de todas as línguas. Podemos estudar esses universais e essas operações, bem como a perda da capacidade de linguagem por lesões no cérebro. Nesse caso, a lingüística confina com a biologia e as ciências cognitivas.

Podemos debruçar-nos sobre as diferenças entre as línguas e então a lingüística faz fronteira com a antropologia e a etnologia. Podemos ocupar-nos da variação no espaço, como fazem a dialetologia e a geolingüística, e aí a lingüística acerca-se da geografia. Podemos examinar a variação de grupo social para grupo social e, nesse caso, a lingüística limita-se com as teorias sociológicas. Podemos observar a variação de uma situação de comunicação para outra e então a lingüística faz limites com a teoria da comunicação. Podemos pesquisar a mudança lingüística e a evolução de uma língua ou de uma família de línguas e aí a lingüística avizinha-se da história. Podemos analisar a aquisição da linguagem e aí, dependendo da posição teórica com que se faz a análise, a lingüística confina com a biologia ou a antropologia. Podemos ver a linguagem como um sistema formal e então a lingüística se aproxima da matemática e da computação. Podemos investigar as unidades maiores do que a frase, isto é, o discurso e o texto. Nesse caso, quando se põe acento na dimensão lingüística, os estudos do discurso têm vizinhança com a retórica, com a dialética, com a teoria da literatura. Quando se enfatiza a dimensão histórica do discurso, a análise do discurso é limítrofe da história.

Poderíamos continuar a dar exemplos de formas de abordagem do fenômeno da linguagem, mas cremos que os elementos expostos acima são suficientes para mostrar que a linguagem é, como dizia Saussure, "multiforme e heteróclita"; está "a cavaleiro de diferentes domínios"; é, "ao mesmo tempo, física, fisiológica e psíquica"; "pertence (...) ao domínio individual e ao domínio social".*2 Por isso, confina com diferentes campos do saber, não só das ciências humanas, mas também das ciências exatas e biológicas.

A lingüística pelo próprio objeto parece ter uma função interdisciplinar. Antes de avançar é preciso pensar outra questão. Nas Letras, o campo dos estudos da linguagem tradicionalmente divide-se em, de um lado, os estudos de língua e, de outro, as investigações sobre a literatura. Cada um desses domínios é presidido por uma disciplina teórica: a lingüística para o primeiro e a teoria da literatura para o segundo. O primeiro, como já se disse acima, tem por objeto o estudo dos mecanismos da linguagem humana por meio do exame das diferentes línguas faladas pelo homem. O segundo tem por finalidade a compreensão de um fato lingüístico singular, que é a literatura. Embora claramente distintos, esses dois módulos dos estudos da linguagem deveriam manter relações muito estreitas. De um lado, um literato não pode voltar as costas para os estudos lingüísticos, porque a literatura é um fato de linguagem; de outro, não pode o lingüista ignorar a literatura, porque ela é o campo da linguagem em que se trabalha a língua em todas as suas possibilidades e em que se condensam as maneiras de ver, de pensar e de sentir de uma dada formação social numa determinada época. A literatura é a súmula de toda a produção do espírito humano ao longo da História. Já lembrava o grande lingüista Roman Jakobson em texto antológico:

Esta minha tentativa de reivindicar para a Lingüística o direito e o dever de empreender a investigação da arte verbal em toda a sua amplitude e em todos os seus aspectos conclui com a mesma máxima que resumia meu informe à conferência que se realizou em 1953 aqui na Universidade de Indiana: Linguista sum; linguistici nihil me alienum puto. Se o poeta Ranson estiver certo (e o está) em dizer que "a poesia é uma espécie de linguagem", o lingüista, cujo campo abrange qualquer espécie de linguagem, pode e deve incluir a poesia no âmbito de seus estudos. A presente confe rência demonstrou que o tempo em que os lingüistas, tanto quanto os historiadores literários, eludiam as questões referentes à estrutura poética ficou, felizmente, para trás. Em verdade, conforme escreveu Hollander, "parece não haver razão para a tentativa de apartar os problemas literários da Lingüística geral". Se existem alguns críticos que ainda duvidam da competência da Lingüística para abarcar o campo da Poética, tenho para mim que a incompetência poética de alguns lingüistas intolerantes tenha sido tomada por uma incapacidade da própria ciência lingüística. Todos nós que aqui estamos, todavia, compreendemos definitivamente que um lingüista surdo à função poética da linguagem e um especialista de literatura indiferente aos problemas lingüísticos são, um e outro, flagrantes anacronismos.*3

Este trabalho pretende pensar o problema da interdisciplinaridade, depois discutir, de maneira mais aprofundada, a questão da interdisciplinaridade em lingüística, para terminar debatendo a problemática das relações entre lingüística e literatura.

 

Interdisciplinaridade

Parece haver duas formas básicas de fazer ciência: uma é regida por um princípio de exclusão e a outra, por um princípio da participação.1 *4 Esses dois princípios criam dois grandes regimes de funcionamento das atividades de pesquisa. O primeiro é o da exclusão, cujo operador é a triagem. Nele, quando o processo de relação entre objetos atinge seu termo leva à confrontação do exclusivo e do excluído. As atividades reguladas por esse regime colocam em comparação o puro e o impuro.*5 O segundo regime é o da participação, cujo operador é a mistura, o que leva ao cotejo do igual e do desigual. A igualdade pressupõe grandezas intercambiáveis; a desigualdade implica grandezas que se opõem como superior e inferior*6

Assim, há dois tipos fundamentais de fazer científico: o da exclusão e o da participação, ou, em outras palavras, o da triagem e o da mistura.

O fazer governado pelo princípio da triagem tem um aspecto descontínuo e tende a restringir a circulação de objetos, que será pequena ou mesmo nula e, de qualquer maneira, desacelerada pela presença do exclusivo e do excluído. É um fazer do interdito. Já a atividade gerida pelo princípio da mistura apresenta um aspecto contínuo, favorecendo o "comércio" entre objetos, métodos, conceitos. Nela, o andamento é rápido. É a atividade do permitido.*7

A triagem e a mistura variam em termos de tonicidade: átona e tônica. Há triagens mais ou menos drásticas e misturas mais ou menos homogêneas, o que daria o seguinte esquema:*8

Cada um desses fazeres opera com um tipo de valor diferente: os da triagem criam valores de absoluto, que são valores da intensidade; os da mistura, valores de universo, que são valores da extensidade. Os primeiros são mais fechados, tendendo a concentrar os valores desejáveis e a excluir os indesejáveis; os segundos são mais abertos, procurando a expansão e a participação.*9

Até meados do século XVII, embora houvesse uma disciplinarização do conhecimento, que remontava aos gregos, predominava o fazer científico regido pelo princípio da mistura. Num certo tempo, por exemplo, não há diferença nítida entre alquimia e química ou entre astronomia e astrologia. A ciência busca menos o modo de funcionamento do mundo do que seus grandes fins, menos o como dos fenômenos do que seu porquê. Assim, Kepler, ao estabelecer as leis da mecânica celeste, queria menos saber como se estrutura o universo e muito mais demonstrar que um mundo matematicamente perfeito só poderia ressoar a perfeição divina.

A partir do século XVIII, começa um movimento de especialização nas atividades científicas, ou seja, uma atividade de investigação gerida pelo princípio da triagem. Estabelecem-se objetos muito precisos, que não se misturam. O ecletismo constitui um grave erro. Os objetos são puros, são autônomos. Assim, por exemplo, Saussure estabelece que o objeto da lingüística é a langue. Esse objeto não se contamina da física, da fisiologia, da psicologia, etc. A língua será estudada em si mesma e por si mesma.*10 O gesto científico fundamental é dividir o objeto, para examinar seus elementos constituintes e, a partir daí, recompor o todo. Assim, a lingüística começa por dividir os períodos em orações; estas, em palavras; estas, em morfemas; estes, em sílabas; estas, em fonemas. Estudam-se, exaustivamente, esses componentes para chegar à compreensão do objeto, a língua. Esse movimento de triagem chegou a seu apogeu no século XIX e atingiu dimensões alarmantes no século XX, com especializações cada vez mais restritas, mais particulares. Não é preciso dizer que a especialização e a conseqüente disciplinarização2 *11 produziram resultados notáveis. São elas que explicam o extraordinário desenvolvimento científico a que se assistiu nesse período. O método da divisão e recomposição produz análises muito finas e possibilita a ampliação do conhecimento. Mas principalmente é preciso dizer que opera uma mudança radical do que se compreende como ciência: é a atividade que pretende descobrir o funcionamento das coisas.

A especialização não produziu só maravilhas. De um lado, é preciso considerar que o próprio desenvolvimento da ciência propõe novos problemas que não cabem nesse programa científico. De outro, ela deu lugar a uma institucionalização danosa do fazer científico, regulada também pelo princípio da triagem. Os grupos de pesquisa atuam cindidos num regime de concorrência selvagem, cada um competindo com outros. A pesquisa torna-se secreta, o que é avesso ao ideal científico da construção do conhecimento num processo de comunicação universal. Com a especialização, a triagem continua a operar e aí surgem os dogmas, as igrejas, as purezas, as heresias, as excomunhões, os sumos sacerdotes, os cães de guarda... No entanto, não são esses os aspectos mais ruinosos da especialização. O mais grave é o que ela produz sobre a formação e a cultura dos homens de ciência. Nos anos 20 do século passado, Ortega y Gasset, de modo premonitório, pois estávamos longe do auge do processo, já denunciava a "barbárie da especialização":

Porque outrora os homens podiam dividir-se, simplesmente, em sábios e ignorantes, em mais ou menos sábios e mais ou menos ignorantes. Mas o especialista não pode ser submetido a nenhuma dessas duas categorias. Não é um sábio, porque ignora formalmente o que não entra na sua especialidade, mas tampouco é um ignorante, porque é "um homem de ciência" e conhece muito bem sua porciúncula do universo. Devemos dizer que é um sábio-ignorante, coisa sobremodo grave, pois significa que é um senhor que se comportará em todas as questões que ignora, não como um ignorante, mas com toda a petulância de quem na sua questão especial é um sábio.*12

No domínio do conhecimento da linguagem, separam-se nitidamente os estudos lingüísticos e os literários. Ficam de costas um para o outro. Embora, como se mostrou acima, Jakobson considere essa atitude um verdadeiro anacronismo, lingüistas e especialistas em literatura ignoram-se. Isso produziu uma conseqüência devastadora: de um lado, é constrangedor verificar a ignorância literária dos lingüistas e, mais ainda, constatar que eles não dão à literatura nenhuma importância; de outro, é ainda mais embaraçoso ouvir especialistas em literatura enunciando, com a petulância dos sábios-ignorantes, banalidades do senso comum, eivadas de preconceito e de falsidade, sobre a língua.

Num texto famoso, Snow mostrava o distanciamento progressivo das ciências naturais das humanidades, com prejuízo para uma e outra.*13 É curioso que, no domínio dos estudos da linguagem, parece reproduzirem-se essas duas culturas. Com efeito, algumas especialidades da lingüística aproximaram-se das ciências biológicas ou das ciências exatas, enquanto a literatura permanece solidamente ancorada entre as humanidades. Um jovem professor de literatura, com a arrogância dos que têm um solene desprezo pelos outros, assim resumiu essa dupla cultura no campo das Letras: os lingüistas marcham e os especialistas em literatura sambam. Qualquer brasileiro sabe o que é eufórico e o que é disfórico na perspectiva desse jovem ignorante.

Mas não são apenas filósofos, humanistas e cientistas sociais que se preocupam com as conseqüências da especialização selvagem. Norbert Wiener, o criador da cibernética, diz:

Atualmente, podem contar-se nos dedos de uma mão os cientistas que não sejam exclusivamente matemáticos, físicos ou biólogos. Pode haver topólogos, especialistas em acústica ou coleopteristas, que dominam o jargão de sua especialidade e conhecem toda a literatura de sua área e suas ramificações, porém na maioria das vezes considerarão qualquer outra disciplina como algo que pertence a um colega, que trabalha no mesmo corredor, três portas adiante, e crerão que qualquer interesse de sua parte pelo tema é uma injustificável violação de privacidade.*14

Na lingüística, essa especialização faz-se sentir fortemente. Já não se encontram mais lingüistas, mas foneticistas, sintaticistas, fonólogos, semanticistas, analistas do discurso e assim por diante. Num processo de cissiparidade, talvez já não se encontrem mais semanticistas, mas semanticistas formais, semanticistas lexicais, etc. Torna-se cada vez mais difícil encontrar alguém com uma formação lingüística abrangente.

A preocupação, mesmo dos cientistas, com a especialização crescente, deriva do fato de que os especialistas trabalham apenas no domínio restrito, fazem progredir a ciência somente no interior de um dado paradigma. No entanto, as grandes criações científicas não foram feitas por especialistas, mas pelos sábios, que tinham uma formação abrangente, multidisciplinar, aberta a todos os campos do saber. Gilbert Durand mostra que, se olharmos, na história da ciência, para cada um dos grandes criadores, vamos verificar que eles não eram especialistas, mas cultivavam a mistura, com sua abertura, sua amplitude, sua largueza e sua profundidade:

Os sábios criadores do fim do século XIX e dos dez primeiros anos do século XX, esse período áureo da criação científica em que se perfilam nomes como os de Gauss, Lobohevsky, Riman, Poincaré, Becquerel, Curie, Pasteur, Max Planck, Niels Bohr, Einstein, etc., tiveram todos uma larga formação pluridisciplinar, herdeira do velho trivium (as "humanidades") e quadrivium (os conhecimentos científicos e também a matemática) medievais, prudente e parcimoniosamente organizados pelos colégios dos jesuítas e dos frades oratorianos e pelas pequenas escolas jansenistas do novo humanismo de Lakanal.*15

Atualmente, estamos num momento de mudança da forma de fazer ciência. Estamos passando de um fazer científico regido pela triagem para um fazer investigativo governado pela mistura. Fala-se em interdisciplinaridade, pluridisciplinaridade, multidisciplinaridade, transdisciplinaridade e mesmo indisciplinaridade. Hoje, esses termos são universais positivos do discurso, enquanto a especialização é vista como algo fora de moda, relacionada a um pensamento autoritário. Afinal, a destruição das fronteiras é um fenômeno contemporâneo: as grandes entidades transnacionais, como a União Européia e o MERCOSUL, derrubaram as fronteiras econômicas, permitindo a livre circulação de bens e de capitais; a queda do muro de Berlim deitou abaixo uma linha semântica divisória entre duas visões de mundo, a famosa cortina de ferro; o espaço Shengen demoliu alfândegas e controles entre os estados nacionais. Por outro lado, estamos num tempo do elogio das margens, do descentramento, da alteridade, da heterogeneidade, do dialogismo, vivemos num tempo de mestiçagens e de imigrações, de recusa da pureza. Esse ar do tempo leva a pôr em questão as divisões disciplinares, as fronteiras rígidas entre os campos do saber. Ao mesmo tempo, o desenvolvimento da ciência, impulsionado por essa epistemé do que foi chamado a pós-modernidade, leva os pesquisadores a começar a pensar problemas que estão situados na fronteira das disciplinas e que, durante muito tempo, foram deixados de lado.

No entanto, que é realmente interdisciplinaridade? E multidisciplinaridade? E pluridisciplinaridade? Transdisciplinaridade, então? E essa tal de indisciplinaridade? Ninguém sabe direito. Vamos tentar uma definição a partir da etimologia das palavras.3 Esse conjunto de termos tem um radical comum, -disciplina, um sufixo comum, -dade, e prefixos distintos in-, multi-, pluri-, inter-, trans-. Não se criam diferentes palavras para expressar o mesmo sentido. A distinção do sentido está na parte diversificada e não na parte idêntica dos vocábulos. Disciplina provém do latim disciplina, formada do radical indo-europeu dek-, que significa "receber" e está na base de discere, "aprender", discipulus, "o que aprende"; disciplina, "o que se aprende". Modernamente, a palavra tem dois grandes sentidos: a) ramo do conhecimento, principalmente entendido como componente de um currículo; b) normas de conduta. O sufixo -dade é formador de substantivos abstratos a partir de adjetivos. Para definir os termos, a questão é pensar os prefixos, todos de origem latina, sempre a partir das raízes indo-européias: in < ne (indica negação e aparece em palavras como nulo, neutro, negar, ninguém, inútil); inter < en (denota "dentro de", "entre" e ocorre, por exemplo, em interior, íntimo, interno, entrar, intestino); pluri < pel 4 (remete ao sentido de "encher", "abundância", "grande número" e está presente em vocábulos como plural, plenitude, plenipotenciário, cheio, pleno, suprir); multi < mel (traduz a noção de "abundância quantitativa ou qualitativa" e aparece em muito, multidão, múltiplo, multiplicação, melhor, etc.); trans < ter (quer dizer, "atravessar, chegar ao fim" e ocorre em termo, término, determinar, traduzir, transportar, trás-os-montes e assim por diante). Observando a etimologia das palavras em que aparecem os prefixos pluri e multi, pode-se dizer que há um matiz diferenciador entre eles: o primeiro indica abundância de elementos homogêneos, enquanto o segundo não traz essa idéia de homogeneidade. No entanto, essa nuança de sentido perdeu-se na história. Podemos, pois, dizer que multidisciplinaridade e pluridisciplinaridade querem dizer a mesma coisa. Além disso, se deixarmos de lado o termo indisciplinaridade, porque, apesar do charme dado pela conotação libertária, indica apenas uma negação, sem qualquer valor positivo, temos três termos a definir: pluri e multidisciplinaridade, interdisciplinaridade e transdisciplinaridade. Pode-se pensá-los como o continuum de um processo.

Na multidisciplinaridade (ou pluridisciplinaridade), várias disciplinas analisam um dado objeto, sem que haja ligação necessária entre essas abordagens disciplinares. O que se faz é pôr em paralelo diferentes maneiras de enfocar um tema, que são coordenadas com vistas ao conhecimento global de uma determinada matéria. Tomemos, por exemplo, o caso da energia. Esse assunto deve necessariamente ser enfocado multidisciplinarmente: a física estuda as formas e transformações da energia; a biologia investiga os processos para obtenção da biomassa; a geologia examina as formas de descobrir jazidas de recursos não renováveis de produção de energia, como o carvão mineral, o xisto, o petróleo e o gás natural; as engenharias pesquisam como aproveitar a energia, como extraí-la, como distribuí-la; a economia analisa a oferta e a procura de energia, as vantagens e desvantagens econômicas do uso de uma dada forma de energia; a ecologia avalia os efeitos do uso de certo tipo de energia no meio ambiente; a sociologia e a antropologia observam os efeitos do uso da energia em determinada comunidade humana e assim por diante.

A interdisciplinaridade pressupõe uma convergência, uma complementaridade, o que significa, de um lado, a transferência de conceitos teóricos e de metodologias e, de outro, a combinação de áreas. Assim, por exemplo, a sociologia pode utilizar conceitos da economia, como faz Pierre Bourdieu quando se serve dos conceitos de capital, mercado e bens para todas as atividades sociais e não somente as econômicas, ou quando faz largo uso da noção de troca. Com muita freqüência, a interdisciplinaridade dá origem a novos campos do saber, que tendem a disciplinarizar-se.*16 A bioquímica, unindo biologia e química, estuda os processos químicos que ocorrem nos organismos vivos. A sociobiologia é a tentativa de explicar biologicamente os comportamentos sociais.

Quando as fronteiras das disciplinas se tornam móveis e fluidas num permeável processo de fusão, temos a transdisciplinaridade. É transdisciplinar uma poética da ciência. Na poesia, percebem-se analogias, observam-se correspondências, não se respeita a autoridade dos códigos, das estruturas, da tradição, dos significados, do discurso. Da mesma forma, a transdisciplinaridade é domínio da audácia, que leva a examinar todo o conhecimento, não somente a partir dos três axiomas da lógica clássica (o do terceiro excluído, o da identidade e o da não contradição) nem apenas com base nos princípios que fundam a ciência moderna (o da ordem, que engloba o da determinação; o da separação e o da redução), mas a partir de fundamentos analógicos, de conceitos como caos, irreversibilidade, degradação. As interciências, como as Ciências Cognitivas e a Ecologia, são transdisciplinares. A ecologia é o campo transdisciplinar emblemático, pois contém um saber científico diversificado, utilizado numa concepção generosa, universalizante e redentora da vida do homem no planeta.

Examinemos mais detidamente a interdisciplinaridade, que é uma das formas mais interessantes e produtivas de trabalho científico de nossa época. Poderíamos dizer que temos, basicamente, duas práticas interdisciplinares: a) transferência, que é a passagem de conceitos, metodologias e técnicas desenvolvidos numa ciência para outra; b) intersecção, em que duas ou mais disciplinas se cruzam para tratar de determinados problemas. Como se vê, a interdisciplinaridade não pressupõe a diluição das fronteiras disciplinares num ecletismo frouxo. Assim, a interdisciplinaridade da lingüística com outras ciências não é o apagamento dos contornos da ciência da linguagem e sua transformação em outros campos do conhecimento. Não é a biologização, a matematização, a sociologização, a antropologização, etc. da lingüística. Como dizia Sírio Possenti, em recente conferência, o papel dos lingüistas não é fazer uma história ou uma sociologia de segunda, mas uma lingüística de primeira. A interdisciplinaridade supõe disciplinas que se interseccionam, que se sobrepõem, que se reorganizam, que buscam elementos noutras ciências.

 

Relação da lingüística com outras ciências

Como se disse, a interdisciplinaridade pressupõe, de um lado, a transferência de conceitos teóricos e de metodologia e, de outro, a intersecção de áreas. Mostremos, com alguns exemplos, como isso se deu na lingüística.

Transferência de conceitos da lingüística para outras ciências

A antropologia estrutural importa da lingüística, antes de tudo, um modelo de cientificidade. Toma métodos e noções da lingüística, considerada então ciência piloto das ciências humanas. Antes de Lévi-Strauss, a antropologia estava ligada às ciências da natureza e comprometida com toda sorte de racismos e com a noção de determinismo biológico. O antropólogo francês, para estudar as estruturas elementares de parentesco, toma da fonologia a idéia da busca de constantes presentes sob a imensa variabilidade da realidade. Sob as múltiplas práticas matrimoniais, aparecem as invariantes, as estruturas elementares, que determinam, basicamente, com quem se pode e com quem não se pode casar. Lévi-Strauss coloca a proibição do incesto como um universal, entendido não como um interdito moral, mas como uma regra de positividade social, destinada a proteger a espécie contra os efeitos funestos dos casamentos consangüíneos. Assim, ele desbiologiza o fenômeno do parentesco, deslocando a questão das relações consangüíneas para o caráter de transação, de comunicação, que se instaura com a aliança matrimonial. Diz ele que a "proibição do incesto exprime a passagem do fato natural da consangüinidade ao fato cultural da aliança".*17 A antropologia deixa a natureza e é colocada no terreno exclusivo da cultura. A lingüística, em particular a fonologia, permite, com seus métodos, suas teorias, suas noções, ultrapassar o estágio dos fenômenos conscientes para atingir aquilo que é inconsciente; possibilita não ver os termos em sua positividade, mas apreendê-los em suas relações internas, ou seja, tomar por base da análise as relações entre os termos e não os próprios termos; propicia descobrir os sistemas e pôr em evidência suas estruturas; proporciona desvendar leis gerais. Lévi-Strauss mostra que se podem analisar certos fenômenos sociais, como, por exemplo, o parentesco, de maneira análoga à da fonologia, porque eles são elementos dotados de significação, integram-se em sistemas inconscientes, resultam de leis gerais, dado que se encontram fenômenos similares em regiões bastante afastadas umas das outras.5 Diz o antropólogo francês que, como os fonemas, os termos de parentesco só adquirem significação quando se integram em sistemas.*18 Na busca das invariantes para além da multiplicidade das variedades percebidas, ele põe de lado todo recurso à consciência do sujeito.6 Dá prevalência à sincronia. Da mesma forma, os mitos formam estruturas: as variantes de um mesmo mito integram-se num sistema no qual cada elemento se opõe a todos os outros.

Lacan teve, para a psicanálise, o mesmo papel que Lévi-Strauss para a antropologia. A lingüística oferece para a psicanálise lacaniana um modelo de cientificidade. Por volta dos anos 50 do século passado, na França, reinava uma biologização das conquistas freudianas e a psicanálise dissolvia-se na psiquiatria. Lacan denuncia também o behaviorismo, dominante nos Estados Unidos, como uma adaptação do indivíduo às normas sociais, como uma teoria que tem uma função de ordem, de normalização. Deseja a desmedicalização e a desbiologização do discurso freudiano e a retirada do inconsciente do seio das estruturas psicologizantes behavioristas. Propõe uma ruptura enraizada na obra de Freud, uma volta a Freud.*19 Esse retorno dar-se-ia, levando em conta o modelo da lingüística.*20 Para Lacan, há uma prevalência da dimensão sincrônica na organização do inconsciente. Portanto, ele não considera essencial em Freud a teoria dos estágios sucessivos, mas a existência de uma estrutura edipiana de base, caracterizada por sua universalidade, indiferente às contingências de tempo e de espaço. Para ele, o homem só existe enquanto tal pela função simbólica. Ele é, pois, produto da linguagem, efeito dela. Isso permite ao psicanalista francês criar sua famosa fórmula: "O inconsciente é estruturado como uma linguagem." A existência simbólica do ser humano deixa clara a importância dada à linguagem, à relação com o outro. Dessa forma, ele desmedicaliza a abordagem do inconsciente, objeto da psicanálise, considerando-o como um discurso. A psicanálise deixa de ser uma disciplina médica e passa a ser uma disciplina analítica.

Lacan fundamenta-se na teoria saussuriana do signo, aportando-lhe uma série de modificações e mesmo de torções.*21 Saussure mostrara que o signo não une um nome a uma coisa, mas um conceito a uma imagem acústica. Ele separou, portanto, o signo de qualquer relação com o referente.*22 O signo, sem qualquer vínculo com o referente, é, para Lacan, o fundamento da condição humana. No entanto, diferentemente de Saussure, ele relega o significado a um lugar acessório. A fala, cortada de qualquer acesso ao real, veicula apenas significantes que remetem uns aos outros. O inconsciente, objeto que funda a identidade científica da psicanálise, é uma cadeia de significantes.

O inconsciente é um efeito da linguagem, de suas regras, de seu código. Lacan recorre aos conceitos de metáfora e de metonímia desenvolvidos por Jakobson e assimila-os aos dois processos de funcionamento do inconsciente: a condensação e o deslocamento.

Além desses modelos gerais, Lacan toma conceitos particulares da lingüística: por exemplo, de Damourette e Pichon vem a divisão entre o je e o moi e o conceito de forclusão.7 O primeiro serve para pensar a divisão entre o sujeito do inconsciente e o da consciência com seu imaginário; o segundo, para mostrar que há um processo de fracasso do recalcamento originário, em que não se conserva o que se recalcou, porque o recalcado é excluído ou barrado pura e simplesmente, o que produz a psicose.*23

O recurso da psicanálise a conceitos lingüísticos não era novidade. Freud baseara-se em Sperber e Carl Abel, para justificar suas teses de que o simbolismo é sempre sexual, mesmo quando parece que falamos de outra coisa, e de que os símbolos são ambivalentes, porque são aptos a significar dois conteúdos opostos.*24 De Sperber tomou o longo ensaio "Da influência dos fatores sexuais na formação e na evolução da linguagem" e utilizou-o como base para demonstrar que, se a linguagem se funda na sexualidade, então não existe contradição entre o funcionamento da linguagem e o simbolismo. A Carl Abel dedica um estudo, intitulado "Sobre o sentido antitético das palavras primitivas".*25 O que interessava a Freud era a tese de Abel de que as línguas primitivas tinham uma só palavra para denotar sentidos opostos. Isso comprovava sua tese sobre a ambivalência dos símbolos, que podem representar qualquer coisa pelo seu contrário. No caso de um sonho, não se pode, em princípio, saber se um elemento traduz um conteúdo positivo ou negativo.

Transferência de conceitos de outras ciências para a lingüística

A lingüística histórica toma das ciências históricas, ao longo de seu desenvolvimento, três conceitos de história: a) a história como decadência; b) a história como progresso; c) a história como mudança.

O primeiro vem da Antigüidade e é expresso na doutrina das idades do gênero humano: por exemplo, em Hesíodo, a humanidade vai da idade de ouro, em que os homens viviam como deuses, até a idade do ferro, em que os homens estão sujeitos a toda espécie de males, passando pelas idades da prata, do bronze e dos heróis.*26 Muitos comparatistas, por exemplo, Schleicher,*27 defendiam que as línguas antigas estavam num estágio superior de desenvolvimento em comparação com as línguas modernas, que representariam uma fase de decadência, de degeneração. Isso se devia à organização morfológica mais densa (declinações e conjugações), que, segundo eles, implicava uma maior capacidade de expressão, por realizar um número maior de distinções gramaticais. A História seria, então, um processo degenerador, porque degradava as estruturas da língua. Daí a relevância da reconstituição de seu passado, para buscar atingir o que seria o período áureo das línguas.

O conceito da história como progresso é uma idéia iluminista, que aparece, por exemplo, em Voltaire.*28 Herbert Spencer concebe a história humana como um processo contínuo e linear de evolução.*29 Em Comte, aparece um determinismo sociológico. Sua lei dos três estados - o teológico, o metafísico e o positivo - opera na ontogênese e na filogênese. Ela indica que, assim como os indivíduos, todas as sociedades caminham para atingir o mais alto estágio de desenvolvimento.*30 Otto Jespersen*31 sustenta que, na história das línguas, há progresso, há uma marcha na direção de formas mais aperfeiçoadas. Como as formas se abreviaram, estruturas analíticas tomaram lugar das formas sintéticas, as formas irregulares regularizaram-se, a ordem das palavras tornou-se fixa, a língua ficou cada vez mais apta para a expressão, porque adquire maior clareza e precisão e exige do usuário menor esforço de memória e, até mesmo, menor esforço muscular na fala. O modelo de Jespersen era o inglês, língua da qual escreveu uma monumental gramática.*32 Vendryès termina sua obra, Le langage, expondo a idéia de que a história das línguas é um aperfeiçoamento constante desse instrumento criado pelo homem.*33

A idéia da história como mudança, não governada por nenhuma teleologia, rege as concepções atuais em lingüística histórica. Já Lucrécio negava o finalismo,*34 aduzindo que ele põe antes o que vem depois. A lingüística atual não trabalha mais com as idéias de decadência e de progresso. Mattoso Câmara diz que: "a palavra evolução, em lingüística, pressupõe apenas um processo de mudanças graduais e coerentes."*35

Schleicher, que, além de lingüista, era botânico, preconizava que a ciência da linguagem deveria estar entre as ciências da natureza. Importa uma série de princípios da biologia. Seu objetivo era estabelecer leis gerais e rigorosas do desenvolvimento das línguas. Schleicher contrapunha a lingüística à filologia. Esta é um ramo da história, enquanto aquela, não. As três idéias que traz das ciências da natureza são: a) a língua é um organismo natural e, portanto, ela desenvolve-se até um certo ponto e, depois, entra em decadência; b) a mudança lingüística deve ser entendida como uma evolução natural no sentido darwiniano; c) a língua depende de traços físicos do cérebro e do aparelho fonador e varia segundo as raças do mundo, sendo, portanto, um critério adequado para elaborar uma classificação racial.*36 Mesmo que hoje essas idéias nos pareçam completamente erradas, Schleicher teve uma importante influência em temas como a classificação das línguas indo-européias, a reconstrução do indo-europeu, os estudos de fonética, a classificação tipológica das línguas baseada na estrutura da palavra.*37 Para Schleicher, o ápice da evolução lingüística era o indo-europeu; depois dele, começava a degeneração.

A chamada lingüística matemática trouxe desta ciência diversos instrumentos para a realização da análise lingüística: teoria dos conjuntos, álgebra de Boole, topologia, estatística, cálculo de probabilidades, teoria dos jogos. Zellig Harris, por exemplo, publica um estudo da gramática em termos de teoria dos conjuntos.*38 Devem-se lembrar ainda os usos da estatística nos estudos de lexicologia e lexicografia. Da computação a lingüística toma programas e técnicas para aplicá-los a aspectos da linguagem humana, fazendo um tratamento automático das línguas: tradução automática, correção ortográfica, recuperação de informações e busca nos textos, resumos automáticos, reconhecimento de voz, síntese vocal para o estabelecimento da interface homem-máquina, etc.

Intersecção de áreas

A sociolingüística estuda a língua como instrumento de integração social. Em primeiro lugar, interessa-se pela questão da variação lingüística, examinando a covariância sistemática entre a estrutura lingüística e a estrutura social. Estuda, assim, a variação por grupos sociais. Analisa também a língua como classificador social e como fator de coesão social para as etnias, as classes ou outros grupos sociais. Estuda as relações entre as línguas em função de fatores sociais, bem como toda a problemática do contato das línguas e do bilingüismo. Como se vê, da sociologia vem a questão dos fatores sociais e da lingüística, a análise da língua. O que a sociolingüística faz é estabelecer a correlação entre fatores sociais e fatos de linguagem.

A antropolingüística estabelece uma correlação entre língua e cultura. Não estão mais em pauta grupos sociais como na sociolingüística, mas fatores culturais. Estuda-se a língua no contexto cultural. Interessa à antropolingüística a questão da língua em relação ao sagrado (por exemplo, línguas cultuais), as teorias populares e os mitos a respeito da linguagem, os tabus e as fórmulas mágicas e encantatórias, a visão das relações entre a palavra e a coisa, as taxionomias, os sistemas de percepção e de categorização do mundo.

A psicolingüística estuda o conjunto de operações mentais ligadas à linguagem. Assim, ocupa-se da retenção e do esquecimento de informações verbais, da aquisição da linguagem, do processamento da informação pelo cérebro, etc.

A geolingüística é um campo interdisciplinar, em que se unem a linguística e a geografia. A geolingüística ocupa-se de estudar as línguas no seu contexto geográfico. Preocupa-se com a identificação e a descrição de áreas lingüísticas (domínios lingüísticos, áreas dialectais, etc.), com a análise das dinâmicas geográficas das variações internas do idioma, com o estudo da importância territorial das línguas e das suas variedades em diferentes escalas (local, regional, nacional, continental, mundial), com a análise das dinâmicas territoriais das línguas e das suas variedades (evolução demolingüística, territórios onde são faladas, dinâmicas de expansão e retrocesso territorial), com o estudo de situações de conflito territorial causado pelas diferenças lingüísticas, com o conhecimento das representações que as pessoas têm dos espaços lingüísticos, das suas falas e da sua dinâmica territorial.

A neurolingüística, compartilhamento da neurologia e da lingüística, durante muito tempo, estudou (e continua ainda a fazê-lo) as lesões no córtex cerebral e as deficiências afásicas daí resultantes. No entanto, ela não se restringe a isso, pois estuda a elaboração cerebral da linguagem. Ocupa-se com o estudo dos mecanismos do cérebro humano envolvidos na compreensão e na produção lingüística e no conhecimento da língua. Ocupa-se tanto da elaboração da linguagem normal como das alterações lingüísticas causadas por distúrbios. A neurolingüística leva a uma compreensão das bases biológicas da linguagem.

Como se mostrou acima que a linguagem é multiforme e heteróclita e, portanto, a interdisciplinaridade é da sua natureza, poderíamos continuar a mostrar a interdisciplinaridade da lingüística com outras ciências, em suas diferentes formas, ao longo da história. No entanto, é preciso chegar ao ponto final: a discussão da relação entre lingüística e literatura, os dois ramos em que se dividem as Letras.

 

Relação da lingüística com a literatura

Até por volta dos anos 60, a relação entre a lingüística e a literatura era bastante simples: de um lado, na medida em que a análise do texto literário era o estudo da substância do plano do conteúdo em sua relação com uma realidade extralingüística, não era preciso recorrer a qualquer categoria lingüística e, portanto, não havia qualquer ligação entre esses dois campos do conhecimento, em que, tradicionalmente, se dividem os estudos da linguagem; de outro, no estabelecimento de textos e na estilística, havia certa vinculação, mas bastante rudimentar, entre esses dois domínios. Expliquemos melhor essas afirmações.

Quando, por exemplo, a crítica machadiana mostra as tradições de que se valeu o autor para compor sua obra; quando o acusa de "macaqueação de Sterne", como faz Sílvio Romero;*39 quando detecta temas comuns a seus romances, vinculados a sua biografia, como mostra Lúcia Miguel Pereira;*40 quando demonstra, como Astrojildo Pereira,*41 que Machado é o "romancista do segundo reinado"; quando desvela que as formas dos grandes romances machadianos imitam processos histórico-sociais, como faz Roberto Schwarz*42 e assim por diante, não há necessidade de recorrer à linguagem para estudar uma obra literária, já que ela não é vista como linguagem, mas como representação de uma realidade exterior a ela.

Por outro lado, havia uma relação entre lingüística e literatura, quando se estabeleciam textos antigos. A literatura, nesse trabalho filológico, valia-se das categorias e das descobertas da lingüística histórico-comparada do século XIX, considerada como algo pronto e acabado. A relação entre língua e literatura ocorria também no domínio da estilística. Inicialmente, a estilística era o estudo dos meios de expressão dos conteúdos afetivos da língua, pois um fato de estilo era entendido como uma ocorrência lingüística que provocava um dado efeito no leitor. Nessa estilística, estudavam-se, fragmentariamente, os fatos de estilo e, numa análise de textos, o que se procurava observar era a soma de efeitos que os fatos estilísticos nele presentes produziam. Essa estilística, tal como foi praticada por Bally*43 e, entre nós, por Rodrigues Lapa*44 e Mattoso Camara,*45 valia-se de uma retórica reduzida, porque restrita à dimensão tropológica, e de uma análise lingüística elementar, que se encontra na gramática tradicional. Nada, além disso. Por isso, também se considerava que não havia progresso a fazer no domínio dos estudos lingüísticos. Tudo estava feito e acabado. Lembra-me que, uma vez, uma professora de grego me consultou sobre o que eu achava do desejo de um orientando seu de estudar o sistema temporal do grego clássico. Antes que eu respondesse que achava interessante fazer um estudo desse sistema do ponto de vista das teorias da enunciação, ela asseverou, com muita certeza, que nada mais havia a estudar na gramática grega, porque os alemães do século XIX haviam feito tudo nessa matéria. Que concepção de ciência!

Mais tarde, a estilística, com Leo Spitzer*46 e Damaso Alonso,*47 torna-se mais orgânica, porque, para eles, o estilo reflete o mundo interior de um dado autor, seu "conteúdo espiritual", sua intuição, suas vivências. Apesar de ampliar seu escopo, a estilística continua valendo-se das descrições lingüísticas elementares de qualquer gramática escolar.

A lingüística era algo que se aplicava no estudo do texto literário, de maneira errática, segundo o arbítrio do analista, para justificar uma interpretação que não tinha sido dada pela descrição lingüística. O ensino seguia as orientações de pesquisa. Nos cursos de línguas estrangeiras dava-se ênfase ao estudo da literatura em detrimento dos estudos de língua. Essa orientação nitidamente literária levava a um estudo de textos com abordagens estilísticas e filológicas.*48 Pierre Hourcade, no Anuário da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, de 1934-1935, traça as diretrizes gerais do ensino de Língua e Literatura Francesa na Faculdade. O aluno precisa ter uma visão geral da Literatura Francesa. Os exercícios por excelência eram a explicação de textos e a dissertação, que era chamada, nos relatórios da cadeira, dissertação francesa.*49 Portanto, o conhecimento lingüístico era simplesmente instrumental, destinava-se a permitir que os alunos lessem os textos no original.*50 Pierre Hourcade previa a criação de um curso de Literatura Medieval e História da Língua.*51 O fato de o curso de História da Língua estar atrelado ao de Literatura Medieval fazia com que ele fosse subsidiário para o acesso aos textos medievais.

Nos anos 60, o panorama muda. Com o apogeu do estruturalismo, a literatura apóia-se nas aquisições da lingüística para a elaboração de uma teoria do texto literário. Desloca-se o foco do autor (sua biografia, sua subjetividade, o contexto social em que criou) para o texto. Isso se fez, apesar das críticas acerbas e dos lamentos amargurados de muitos estudiosos da literatura. Alguns chegavam, com base numa visão conspiratória da História, a dizer que o estruturalismo lingüístico era um programa de estudos financiado pela CIA, para naturalizar a linguagem e, assim, afastar a História, com vistas a aumentar a alienação. Deixando de lado esses pontos de vista que hoje nos parecem no mínimo estranhos, deve-se notar que, nesse período, a literatura não mais buscava, na lingüística, descrições de fatos próprios das línguas naturais nem explicações de tropos, mas conceitos gerais, como conotação/denotação, significado/significante, sintagma/paradigma etc. Na verdade, o que a literatura transfere da lingüística são os conceitos que explicam como se estruturam os sistemas significantes, quaisquer que eles sejam. Mais do que a lingüística, o que mantém relações com a literatura é uma semiologia, tal como fora proposta por Saussure.*52 Nesse período, duas vertentes dos estudos literários desenvolvem-se: a poética e a teoria da narrativa. A primeira, uma teoria da poeticidade, deriva do programa dos formalistas russos e encontra em Jakobson seu grande formulador, que assim enuncia o princípio da função poética: "projeta o princípio de equivalência do eixo de seleção sobre o eixo de combinação."8 *53 A segunda vertente busca, com base na idéia de sistema, as invariantes paradigmáticas e sintagmáticas, que ocorrem sob a diversidade quase infinita das narrativas realizadas. Esses dois ramos dos estudos literários tiveram um desenvolvimento notável, apesar da acusação de muitos, fundados ainda numa ideologia romântica, que, como diz Régine Robin, é anterior a Marx e a Freud,*54 de que esses modelos eram redutores.9 Para esses estudiosos, os produtos humanos não podem ser examinados do ponto de vista de suas invariantes, porque os seres humanos, em sua infinita criatividade, não estão submetidos a quaisquer coerções sociais e psíquicas. Afinal, para eles, o sujeito é neutro, mestre de si mesmo, sem qualquer determinação sócio-ideológica.

No entanto, o mais importante não foi o fato de que a literatura passou a utilizar-se de conceitos da lingüística, mas sim de que ela começou a fundar sua concepção de literatura na noção de arbitrariedade do signo, princípio basilar da ciência da linguagem. A obra é construção e não representação direta e imediata da realidade, seja ela a consciência do autor ou a consciência de uma classe social ou de uma fração de classe. Se a literatura é construção, ela é linguagem, regida, portanto, por códigos, que é preciso descobrir no estudo da obra literária. Não se buscam mais as fontes extralingüísticas do texto literário e afasta-se a ideologia de que a linguagem representa o real, de que a linguagem é reflexo da realidade. Isso não deveria causar, como provocou, espanto ou fortes reações, pois, afinal, Antonio Candido, considerado o expoente da análise sociológica, já dissera que a "mimese é sempre uma forma de poiese".*55 Mais que o contexto da criação, interessa o estudo da obra em si mesma.

Entre o final dos anos 70 e o início dos 80, há um novo rompimento entre a lingüística e a literatura. De um lado, os estudiosos de literatura consideram que a lingüística nada tem de interessante a dizer sobre a literatura e voltam a utilizar a velha e elementar gramática tradicional para justificar algum fato de língua que sirva de apoio a suas conclusões. Muito da produção lingüística, por sua vez, abandona a perspectiva mais ampla da semiologia, que se ocupava de explicar os sistemas de signo em geral, a fim de voltar-se para os fatos de língua. É o período do apogeu das idéias formalistas, como as da gramática gerativa. Mesmo a pragmática, que se consagra ao estudo do uso da linguagem, dedica-se à análise da linguagem verbal - cf., por exemplo, os trabalhos de Austin,*56 Searle,*57 Grice,*58 Ducrot.*59 Mas o campo da lingüística vai ampliando-se. A partir dos trabalhos de Benveniste sobre a enunciação, a ciência da linguagem cria um novo objeto teórico, o discurso.*60 Diversas teorias do discurso são criadas. Uma delas, a semiótica francesa, busca construir o projeto saussuriano de uma semiologia, agora tendo como objeto não mais os sistemas de signo, mas a significação. Debruça-se sobre os textos, manifestação do discurso. A obra de Bakhtin e a análise do discurso de linha francesa procuram, com os conceitos de dialogismo e de interdiscursividade, mostrar o modo de funcionamento real do discurso, sua inscrição na História. Paralelamente às teorias do discurso, aparece uma lingüística do texto, que se debruça sobre os fatores de textualidade, como a coesão, a coerência, a intertextualidade.

Uma relação entre lingüística e literatura, atualmente, não se fundará no uso pela literatura de rudimentos de uma gramática elementar nem em princípios de organização gerais sobre os quais assentar os estudos literários, mas em conceitos que explicam a organização do discurso literário e seu modo de funcionamento. Isso quer dizer que os conceitos lingüísticos devem ser um instrumento de investigação do texto literário, que será estudado como processo enunciativo e totalidade textual. É preciso que o recurso aos conceitos desenvolvidos pela lingüística do discurso sirva para desvelar novas camadas de sentido. Não pode ser nunca um meio de validar conclusões oriundas da intuição do analista. Por isso, não serão suficientes as descrições morfológicas e sintáticas. É preciso recorrer a todos os estudos de fenômenos enunciativos (figurativização, isotopia, modalização, temporalização, actorialização, espacialização, modulação tensiva, meta-enunciação, aspectualização, contrato enunciativo;*61 atos de fala, gêneros do discurso, pressupostos e subentendidos, leis do discurso, conectores argumentativos, cenografia,*62 interdiscursividade, heterogeneidade, espaços discursivos, campos discursivos, dialogismo,*63 éthos,*64 estilo*65 e assim sucessivamente), bem como àqueles a respeito dos mecanismos de textualização (categorias plásticas, semi-simbolismo, etc.*66). Mas as teorias do discurso permitem ainda ver o próprio processo de criação literária como um ato enunciativo, como uma atividade, como uma práxis discursiva, o que possibilita analisar a adoção ou rejeição de usos inovadores ou cristalizados e a criação dos cânones e dos best-sellers, o desgaste e a cristalização das formas, a ressemantização de fórmulas desgastadas ou cristalizadas, etc.

Pensemos agora a questão do lado contrário: o que a lingüística importa da literatura. É necessário colocar o texto literário e os estudos literários no coração da lingüística para pensar a natureza da linguagem humana como um mecanismo que contém as regras de sua própria subversão, bem como para ampliar a compreensão da linguagem e dos mecanismos lingüísticos. É a leitura de João e Maria, de Chico Buarque, com seu uso do pretérito imperfeito pelo presente ("Agora eu era herói/ E o meu cavalo só falava inglês"), ou do poema Profundamente, de Manuel Bandeira,*67 com sua presentificação do passado, que nos leva a ver a temporalização não como um decalque do tempo do mundo, mas como a construção lingüística de uma vertigem temporal, em que presente se torna passado, em que passado se presentifica, em que futuro é passado e assim por diante. A leitura da Profissão de fé, de Bilac,*70 um poeta que hoje não goza de qualquer favor da crítica universitária, permite apreender o modo de funcionamento real do discurso com suas recusas, aceitações, deslizamentos, ressignificações, retomadas. É a leitura de um poema de Manoel de Barros, como o que se inicia com o verso "A menina apareceu grávida de um gavião",*71 que possibilita pensar os deslimites da referenciação e as possibilidades, com o processo de figurativização, de criação de realidades na linguagem. O capítulo XV, intitulado "Marcela", de Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, mostra para nós os processos de tematização e figurativização.*72 A forma como Riobaldo revela à pessoa com quem conversa seus sentimentos por Diadorim e seu verdadeiro sexo obriga a postular uma distinção entre o narrador e o observador.*73 Manuel de Barros, no poema O apanhador de desperdícios,*74 leva a recusar o caráter utilitário da linguagem, mostrando que ela é uma fonte de prazer:

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

Poderíamos continuar a desfiar exemplos para mostrar que a literatura tem que estar no coração da reflexão lingüística, tem que ser nutrida por ela, pois não é possível construir uma teoria lingüística com frases como Maria compra arroz e João passeia pelo Rio de Janeiro. No entanto, resta uma última pergunta: é possível renovar o diálogo entre a lingüística e a literatura, ele tem chance de acontecer?

A resposta é pessimista: nenhuma. Para que houvesse uma interdisciplinaridade entre as duas áreas, seria preciso disposição para mudar hábitos intelectuais, respeito pela diferença, abertura para a alteridade, vontade de abandonar a comodidade de trilhar os sendeiros já batidos. Seria necessário olhar para nossos vizinhos de sala sem desprezo; admitir que, em ciência, não há feudo, não há exclusividade; reconhecer a legitimidade do outro para tratar do assunto em que se é especialista. Entretanto, a ciência desertou de nossas escolas, pois, quando um ponto de vista teórico ou um campo do saber são vistos como a totalidade do conhecimento, como a verdade, estamos longe do discurso científico e muito perto do discurso religioso. Aí a aventura da interdisciplinaridade some, porque aparecem sumos sacerdotes, dogmas, interdições, excomunhões... A triagem sobreleva a mistura. É isso que vivemos em nossas "igrejas", que estão fazendo estiolar qualquer projeto científico.

 

 

Recebido em 15/03/2008
Aprovado em 15/04/2008

 

 

* É mestre e doutor em Letras (Lingüística) pela Universidade de São Paulo. Fez pós-doutorado na École des Hautes Études en Sciences Sociales (Paris) (1983-1984) e na Universidade de Bucareste (1991-1992). Atualmente é Professor Associado do Departamento de Lingüística da FFLCH da Universidade de São Paulo. Foi membro do Conselho Deliberativo do CNPq (2000-2004) e Representante da Área de Letras e Ligüística na CAPES (1995-1999). Publicou muitos artigos em revistas especializadas e diversos livros. Entres estes, citam-se As astúcias da enunciação, Lições de texto, Para entender o texto, Elementos de análise do discurso, Discurso e ideologia, Introdução ao pensamento de Bakhtin.
*1 (VIEIRA, José Luandino. Lourentinho, Dona Antónia de Sousa Neto & eu. Estórias. Luanda: Edições Maianga, 2004: 60.         [ Links ])
*2 (SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de lingüística geral. São Paulo: EDUSP/Cultrix, 1969: 17.         [ Links ])
*3 (JAKOBSON, Roman. Lingüística e comunicação. São Paulo: Cultrix, 1969: 162.         [ Links ])
*4 (FONTANILLE, Jacques; ZILBERBERG, Claude. Tensão e significação. São Paulo: Discurso Editorial, Humanitas, 2001: 27.         [ Links ])
*5 (Idem: 29.)
*6 (Idem: 29.)
*7 (Idem: 20-30.)
*8 (Idem: 33.)
*9 (Idem: 53-54.)
*10 (Op. cit.: 15-25)
*11 (COMTE, Auguste. Cours de philosophie positive. Paris: J. B. Baillière et Fils, 1869, t.1 e 6. Cf. t. 1: 47-88.         [ Links ])
*12 (GASSET, José Ortega y. A rebelião das massas. Rio de Janeiro: Livro Ibero-Americano, 1962: 174.         [ Links ])
*13 (SNOW, Charles Percy. As duas culturas e uma segunda leitura: uma versão ampliada das duas culturas e a revolução científica. 2 ed. São Paulo: EDUSP, 1995.         [ Links ])
*14 (WIENER, Norbert. Cibernetica o el control y comunicación en animales y máquinas. Barcelona: Tusquets Editores, 1985: 24.         [ Links ])
*15 (DURAND, Gilbert. "Multidisciplinarités et heuristique". Em: PORTELLA, Eduardo. (org.). Entre savoirs. L'interdisciplinarité en acte: enjeux, obstacles, perspectives. Toulouse: Ères/UNESCO, 1991: 36.         [ Links ])
*16 (cf. PIAGET, op. cit.: 369.)
*17 (LÉVI-STRAUSS, Claude. As estruturas elementares de parentesco. Petrópolis: Vozes, 1976: 70.         [ Links ])
*18 (Idem: 48)
*19 (LACAN, Jacques. Écrits I. Paris: Seuil, 1966: 145.         [ Links ])
*20 (Idem: 165.)
*21 (Idem: 250-289.)
*22 (SAUSSURE, Op. cit.: 79-81.)
*23 (LACAN, Jacques. Le séminaire. Livre III: les psychoses, 1955-1956. Paris: Seuil, 1981: 229 e 361.         [ Links ])
*24 (cf. ARRIVÉ, Michel. Lingüística e psicanálise: Freud, Saussure, Hjelmslev, Lacan e os outros. São Paulo: EDUSP, 2001: 79-91.         [ Links ])
*25 (FREUD, Sigmund. "Sobre el sentido antitético de las palabras primitivas". Em: Obras completas. Buenos Aires: Amorrortu Editores, 2001, v. 11: 143-154.         [ Links ])
*26 (HESÍODO. Os trabalhos e os dias. 4 ed. São Paulo: Iluminuras, 2002: v. 106-201.         [ Links ])
*27 (cf. CAMARA Jr., Joaquim Mattoso. História da lingüística. 4 ed. Petrópolis: Vozes, 1986: 54-55.         [ Links ])
*28 (VOLTAIRE, François-Marie. Oeuvres historiques. Paris: Gallimard, 2000.         [ Links ])
*29 (SPENCER, Herbert. Do progresso, sua lei e sua causa. Lisboa: Editorial Inquérito, 1939.         [ Links ])
*30 (COMTE, Auguste. Cours de philosophie positive. Paris: Schleicher Frères, 1908, t. 4: 328-387.         [ Links ])
*31 (JESPERSEN, Otto. Progress in Language. Amsterdam: E. John Benjamins, 1993.         [ Links ]) (JESPERSEN, Otto. Efficiency in Linguistic Change. Copenhaguen: E. Munksgaard, 194.         [ Links ])
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*34 (LUCRÉCIO. De la nature. Paris: Les Belles Lèttres, 1948, t. II: IV, 822-842.         [ Links ])
*35 (CAMARA Jr., Joaquim Mattoso. Princípios de lingüística geral. Rio de Janeiro: Livraria Acadêmica, 1970a: 192.         [ Links ])
*36 (Camara Jr., 1986: 50-51.)
*37 (Idem: 52-55.)
*38 (HARRIS, Zellig S. Mathematical Structures of Language. Nova York: Wiley-Interscience, 1968.         [ Links ])
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*40 (PEREIRA, Lúcia Miguel. Machado de Assis: ensaio crítico e biográfico. 6 ed. Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/EDUSP, 1988.         [ Links ])
*41 (PEREIRA, Astrojildo. Interpretações. Rio de Janeiro: CEB, 1944.         [ Links ])
*42 (SCHWARZ, Roberto. Ao vencedor as batatas: forma literária e processo social nos inícios do romance brasileiro. São Paulo: Duas Cidades, 1977.         [ Links ]) (SCHWARZ, Roberto. Um mestre na periferia do capitalismo: Machado de Assis. São Paulo: Duas Cidades, 1990.         [ Links ])
*43 (BALLY, Charles. Le langage et la vie. Paris: Payot, 1926.         [ Links ]) (BALLY, Charles. Traité de stylistique française. 3 ed. Genebra: Georg & Cie., 1951.         [ Links ])
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*48 (Anuário da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras 1952. São Paulo: Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, 1954: 275.         [ Links ])
*49 (Anuário da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras 1934-1935. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1937, p. 204).         [ Links ]
*50 (Anuário, 1937: 198-206.) (Anuário da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras 1951. São Paulo: Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, 1952: 245.         [ Links ]) (Anuário da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras 1939-1949. São Paulo: Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, 1953, v. I e II: 481.         [ Links ])
*51 (Anuário, 1937: 203.)
*52 (Op. cit.: 23-25.)
*53 (Idem: 130.)
*54 (ROBIN, Régine. História e lingüística. São Paulo: Cultrix, 1977: 25.         [ Links ])
*55 (CANDIDO, Antonio. Literatura e sociedade: estudos de teoria e história literária. 4 ed. São Paulo: Editora Nacional, 1975: 12.         [ Links ])
*56 (AUSTIN, John Langshaw. Quando dizer é fazer. Palavras e ação. Porto Alegre: Artes Médicas, 1990;         [ Links ])
*57 (SEARLE, John R. Os actos de fala: um ensaio de filosofia da linguagem. Coimbra: Almedina, 1991.         [ Links ])
*58 (GRICE, H. Paul. "Logique et conversation". Communications. Paris, 30, 1979: 57-72.         [ Links ])
*59 (DUCROT, Oswald. Princípios de semântica lingüística: dizer e não dizer. São Paulo: Cultrix, 1977.         [ Links ])
*60 (BENVENISTE, Emile. Problemas de lingüística geral. São Paulo: Nacional/ EDUSP, 1976, t. 1: 284-296.         [ Links ])
*61 (GREIMAS, Algirdas Julien; COURTES, Joseph. Sémiotique. Dictionnaire raisonné de la théorie du langage. Paris: Hachette, 1979.         [ Links ]) (FIORIN, José Luiz. As astúcias da enunciação. São Paulo: Ática, 1996; Bertrand, 2003.         [ Links ])
*62 (cf. MAINGUENEAU, Dominique. Pragmatique pour le discours littéraire. Paris: Bordas, 1990;         [ Links ] e MAINGUENEAU, Dominique. O contexto da obra literária. São Paulo: Martins Fontes, 1995.         [ Links ])
*63 (cf. MAINGUENEAU, Dominique. Sémantique de la polémique. Discours religieux et ruptures idéologiques au XVIIe siècle. Lausanne: L'Age d'Homme, 1983;         [ Links ] MAINGUENEAU, Dominique. Genèses du discours. Bruxelas: Pierre Mardaga, 1984;         [ Links ] e MAINGUENEAU, Dominique. Nouvelles tendances en analyse du discours. Paris: Hachette, 1987.         [ Links ])
*64 (cf. BAKHTIN, Mikhail. La poétique de Dostoïewski. Paris: Seuil, 1970a;         [ Links ] e BAKHTIN, Mikhail. L'oeuvre de François Rabelais et la culture populaire au Moyen Âge et sous la Renaissance. Paris: Gallimard, 1970b.         [ Links ])
*65 (MAINGUENEAU, Dominique. Cenas da enunciação. Curitiba: Criar, 2006.         [ Links ]) (FIORIN, José Luiz. "O éthos do enunciador" Em: CORTINA, Arnaldo; MARCHEZAN, Re-nata Coelho. Razões e sensibilidades. Araraquara: Cultura Acadêmica Editora, 2004: 117-138.         [ Links ])
*66 (DISCINI, Norma. O estilo nos textos. São Paulo: Contexto, 2003.         [ Links ])
*67 (cf. TEIXEIRA, Lucia. Leitura de textos visuais na escola. Comunicação apresentada no III Encontro Franco-Brasileiro de Análise do Discurso. Rio de Janeiro: UFRJ, 1999.         [ Links ]
*68 (Fontanille e Zilberberg, Op. cit.)
*69 (BANDEIRA, Manuel. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1983: 217-218.         [ Links ]
*70 (BILAC, Olavo. Poesias. 19 ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1942: 5-7.         [ Links ])
*71 (BARROS, Manoel de. Retrato do artista quando coisa. Rio de Janeiro: Record, 1998: 77.         [ Links ])
*72 (ASSIS, Machado de. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1979, v. I: 534.         [ Links ])
*73 (ver, por exemplo, ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. 22 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986: 469, 471, 560.         [ Links ])
*74 (BARROS, Manuel de. Memórias inventadas: a infância. São Paulo: Planeta, 2003.         [ Links ])
1 Zilberberg e Fontanille desenvolvem os conceitos de regimes de mistura e de triagem, para mostrar como os valores tomam forma e circulam no discurso e não para analisar os modos de fazer ciência. Tomamos as noções dos dois semioticistas para estudar os valores relativos à disciplinarização e a sua superação.
2 Comte, na 60ª lição do Curso de filosofia positiva (t. 6: 723-774.), mostra que a ciência é especulação ou ação: no primeiro caso, ela desvenda as leis dos fenômenos e a possibilidade de prevê-los; no segundo, descobre sua utilidade e sua aplicação; foi essa formulação que distinguiu a ciência pura da aplicada.
3 Essas definições elaboradas a partir da etimologia não diferem do que avança Piaget em seu lúcido ensaio sobre a interdisciplinaridade. (PIAGET, Jean. "Problèmes géneraux de la recherche interdisciplinaire et mécanismes communs". Em: Épistémologie des sciences de l'homme. Paris: Gallimard, 1970: 253-377.         [ Links ])
4 A forma primeira da raiz é -pel, o que explica o inglês full (cheio), fill (encher), o alemão Fülle (abundância), füllen (encher), voll (cheio), o grego pólys (muito) e pólis (cidade). Essa forma transforma-se em -ple.
5 Diz Lévi-Strauss que "o sistema de parentesco é uma linguagem" (LÉVI-STRAUSS, Claude. Antropologia estrutural. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1975: 65.         [ Links ]); afirma ainda: "postulamos que existe uma correspondência formal entre a estrutura da língua e a do sistema de parentesco" (Idem: 79).
6 Esse é o modo de proceder de um fonólogo. Observe-se, por exemplo, a argumentação de Mattoso Camara, para explicar por que o português não tem vogais nasais (CAMARA Jr., Joaquim Mattoso. Estrutura da língua portuguesa. Petrópolis: Vozes, 1970: 48-50).         [ Links ]
7 Pichon era, além de gramático, psicanalista. A forclusão é um fenômeno gramatical que diz respeito à negação. O francês faz uma negação com um morfema descontínuo. O primeiro elemento da negação é considerado por Damourette e Pichon da ordem da discordância. O segundo elemento da negação é denominado "forclusivo". Seu semantismo originário é o de uma ocorrência mínima (pas, goutte, miette, aucun, nul, personne, rien). Essa ocorrência remete a um paradigma: personne, por exemplo, é a ocorrência mínima que remete ao paradigma dos animados humanos; rien, ao paradigma dos não animados; pás, assim como nullement, ao paradigma das quantificações. O que é dado por forclos (ou excluído, isto é, localizado num exterior nocional) é então a representação de um paradigma, evocado em intensão, qualitativamente; em outras palavras, definido por uma propriedade e não construído em extensão (DAMOURETTE, Jacques; PICHON, Edouard. Des mots à la pensée. Essai de grammaire de la langue française. Paris: Éditions d'Artrey, 1970, t. 6: 113-143).         [ Links ]
8 Um belo exemplo de análise poética, com base nos conceitos da lingüística, é o estudo feito pelo próprio Jakobson, com a colaboração de Luciana Stegagno Picchio, sobre os oxímoros em Fernando Pessoa (JAKOBSON, Roman. Lingüística, poética, cinema. São Paulo: Perspectiva, 1970: 93-118).         [ Links ] Um livro teórico, editado no Brasil, sobre poética foi Teoria da literatura. Formalistas russos, organizado por Dionísio de Oliveira Toledo (TOLEDO, Dionísio de Oliveira. Teoria da literatura. Formalistas russos. Porto Alegre: Globo, 1971).         [ Links ]
9 Um exemplo brasileiro de análise estrutural da narrativa, realizada com competência, é o livro de Affonso Romano de Sant'Anna, intitulado Análise estrutural de romances brasileiros (SANT'ANNA, Affonso Romano de. Análise estrutural de romances brasileiros. 2 ed. Petrópolis: Vozes, 1973).
        [ Links ]