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Alea: Estudos Neolatinos

Print version ISSN 1517-106XOn-line version ISSN 1807-0299

Alea vol.10 no.1 Rio de Janeiro Jan./June 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S1517-106X2008000100010 

A crítica genética hoje

 

 

Philippe Willemart*

 

 


RESUMO

O artigo desenha o quadro do estado atual da crítica genética no Brasil. Resume livros e revistas recentes, anais de congressos ou colóquios publicados por membros da Associação dos Pesquisadores em Crítica Genética (APCG), ex-APML (Associação dos Pesquisadores do Manuscrito Literário), mostrando as tendências que dominam a pesquisa no universo sem fim da criação humana. Destaca também o objeto da crítica genética que não é necessariamente o que antecede a obra, mas os processos de criação e, enfim, ressalta o lugar essencial da crítica genética na era do computador, já que o disco rígido mantém todas as mudanças provocadas pelas rasuras ou substituições se tiver o software adequado.

Palavras-chave: manuscrito; processo de criação; crítica genética.


ABSTRACT

This article reviews the literature to provide the current state of the genetic critic in Brazil. It lists the currently available books and periodicals, annals of congresses or symposia published by members of the Association of Researchers in Genetic Critic (APCG), showing the tendencies that guide the research in the endless universe of human creation. It also highlights the object of study of the genetic critic, which is not necessarily the one that precedes the word but the processes of creation. Finally, it shows the essential role of genetic critic even in the computer era, since the hard disk maintains all the changes made in the text by obliterations and substitutions if the adequate software is installed.

Key words: manuscript; process of creation; genetic critic.


RÉSUMÉ

L'article dresse le cadre de l'état actuel de la critique génétique au Brésil. Il résume les livres ou les revues récentes, les annales de congrès ou de colloques publiés par les membres de l'Association des Chercheurs em Critique Génétique (APCG), indiquant les tendances qui dominent la recherche dans l'univers sans fin de la création chez les hommes. Il souligne aussi l'objet de la critique génétique qui n'est pas nécessairement l'étude de ce qui précède l'oeuvre, mais les processus de création et enfin, insiste sur la place essentielle de la critique génétique à l'ère de l'ordinateur puisque le disque dur maintient tous les changements provoqués par les ratures ou les substitutions si le software adéquant y est installé.

Mots-clés: manuscrit; processus de création; critique génétique.


 

 

Desenhar o estado atual da crítica genética hoje no Brasil é um desafio. A Associação dos Pesquisadores em Crítica Genética (APCG), ex-APML (Associação dos Pesquisadores do Manuscrito Literário) reúne a maioria dos grupos, elencados em parte no número especial dedicado à crítica genética na revista da SBPC de janeiro de 2007,*1 mas, se olharmos os grupos de pesquisa do CNPq, veremos que outros pesquisadores trabalham com a crítica genética.

Desde sua fundação em 1985, a APML estava concentrada no estudo dos manuscritos literários. No entanto, no decorrer das pesquisas e com a integração de novos membros, notadamente pesquisadores da PUC de São Paulo que estudam as artes e as mídias, a APML operou três mudanças, e percebeu, primeiro, que o estudo da crítica genética não abrange necessariamente e somente os manuscritos literários, mas o universo sem fim da criação humana, incluindo as artes, a literatura e até mesmo a mídia; segundo, que o objeto da crítica genética se concentra no estudo dos processos de criação que podem ser captados tanto nos rascunhos, croquis ou esboços quanto na obra exposta para o pintor, no texto publicado para o escritor, na dança executada para o dançarino ou no jogo do ator para o teatro etc., sem o estudo obrigatório do que antecede as obras; terceiro, que a crítica genética ainda é possível na era do computador, já que o disco rígido mantém todas as mudanças provocadas pelas rasuras ou substituições do escritor.

O nome da associação deveria explicitar as mudanças. Portanto, em 2006, a APML decidiu, com o acordo da maioria dos sócios, propor o nome de Associação dos Pesquisadores em Crítica Genética (APCG).

 

Quem pratica a crítica genética no Brasil?

Consultando o site dos grupos de pesquisas do CNPq e o dossiê da SBPC já citado, a crítica genética é praticada por cerca de 250 pesquisadores em 21 instituições no Brasil. Os pesquisadores pertencem na sua maioria às universidades federais, desde a do Rio Grande do Sul até a do Amazonas, passando por Alagoas, Pernambuco, Bahia, Espírito Santo, Maranhão, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, São Carlos, a Federal Fluminense até a PUC de Recife e de São Paulo, a Estadual do Sudoeste da Bahia, a Mackenzie e a Universidade Anhembi Morumbi de São Paulo, a Universidade Luterana do Brasil em Canoas e as três universidades públicas paulistas, a UNESP, a UNICAMP e a USP, sem esquecer a Casa de Rui Barbosa no Rio de Janeiro.

Além dos congressos trienais da APCG e das teses defendidas (ver no site: http://www.fflch.usp.br/dlm/napcg), e sem tirar o mérito de cada equipe, devo ressaltar as atividades de dois grupos que favorecem a reflexão e a produção em crítica genética: o GT da ANPOLL e o Núcleo de Apoio em Crítica Genética (NAPCG) da Universidade de São Paulo.

O GT, convocado pela ANPOLL a cada dois anos, reúne os sócios interessados ao redor de um tema, tendo já publicado as comunicações e debates do XXI Encontro Nacional de 2006 em 2007.*2

O NAPCG reúne as equipes da PUC-SP, da Universidade Federal de Espírito Santo e as cinco equipes da USP, duas das quais são do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) e três do Departamento de Letras Modernas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas.

O NAPCG publicou Criação em Processo em 2002,*3 com colaborações de pesquisadores franceses do Institut des Textes et Manuscrits Modernes do CNRS e de membros do próprio Núcleo; em 2007, publicou o dossiê da SBPC.

Desde 1990, a APCG edita a revista anual Manuscrítica, aberta não só aos sócios, mas a qualquer pesquisador que trabalhe com os processos de criação. Editada pela Annablume até o número 14, teve o número 15 publicado pela editora Humanitas da Faculdade de Filosofia da USP em março deste ano.

Os anais de seus congressos realizados desde 1985 são publicados em geral pela instituição que hospedou o evento, em Salvador, João Pessoa, Niterói, Vitória e São Paulo ou na Manuscrítica.

 

Quais são os campos estudados pela crítica genética?

Os anais dos congressos relacionados em nota dão uma idéia dos campos estudados desde 1985, data de fundação da APML,1 enquanto os assuntos abordados nas últimas publicações, o dossiê da SBPC,2 o Criação em debate da ANPOLL e obras recentes, informam em parte o teor atual dos estudos.

 

Os congressos da APML/APCG

É difícil traçar um movimento linear através dos anais, já que há continuamente bifurcações que impedem o historiador de seguir uma só lógica. Os três primeiros encontros insistem na integração do manuscrito nas edições críticas, não somente como complemento de leitura, mas como meio de confronto e de retificação para edições fidedignas. O terceiro encontro foi marcado por uma tentativa de articulação com a filologia e a ecdótica. Já havia algumas aberturas ao processo de criação por parte dos pesquisadores franceses convidados e alguns brasileiros, mas eram raras. A semiótica e a psicanálise já aparecem como ponto de apoio teórico em várias comunicações.

O quarto encontro Gênese e memória abriu o leque das pesquisas e apresentou comunicações sobre cinema, teatro, produção plástica, arquitetura, folclore e uma conferência sobre ciência.

O quinto encontro ofereceu um debate inédito entre a nova abordagem dos textos literários e a filologia italiana representada por um de seus ícones: Giuseppe Tavani, da Universidade de Roma.

O sexto encontro, Fronteiras da criação, principiou com a palestra de Daniel Ferrer indicando o horizonte da crítica genética: A crítica genética do século XXI será transdisciplinar, transartística e transemiótica ou não existirá. Pela primeira vez, o encontro comportava uma mesa redonda inteiramente dedicada aos processos de criação e uma sessão de pôsteres para jovens pesquisadores. A comissão científica do sétimo congresso hesitou entre Poética da criação e Poética da incerteza, mas acabou definindo-se pelo primeiro título, indicando assim sua preocupação com o fazer criativo que inclui a incerteza, já que ambos envolvem o processo de criação.

O oitavo encontro, Leituras do processo, celebrava os vinte anos da APML e visava ampliar as reflexões a respeito dos processos de criação na literatura, nas artes e nas ciências, sendo este último campo o tema da conferência de abertura.

O nono encontro ainda por vir estudará as interações do processo criativo. Assim, a APCG tenta corresponder ao rumo traçado por Ferrer às vésperas do século XXI e faz do estudo do processo o objeto da crítica genética.

 

O dossiê da SBPC de 2007

Os temas escolhidos pelos participantes abrem a crítica genética a campos bem diferenciados, como a crítica literária, a correspondência e a biblioteca dos escritores, a história e a sociedade, os acervos de músicos brasileiros, as artes plásticas, a dança, o teatro, a fotografia, a música, a arquitetura, o jornalismo, a publicidade e as ciências da mente, mostrando as interações do processo com o pensamento e com todas as atividades do ser humano.

 

O GT da ANPOLL

Criação em debate reúne contribuições das equipes das universidades de Porto Alegre, São Paulo e Salvador que levantaram vários problemas suscitados nesses 20 anos da nova disciplina no XXI Encontro da ANPOLL de 2006 em São Paulo. Dependendo das escrituras estudadas, se se trata de um autor do século XIX, XX ou XXI, as interpretações genéticas não coincidem nas suas conclusões. Haveria uma gênese para cada século? Eu seria tentado a dizer que sim, e iria mais longe, afirmando que há uma gênese para cada autor. Se no caso de Mallarmé, por exemplo, o pesquisador tem vantagem em estudar os diálogos intelectuais que integram a constituição de seu pensamento, o manuscrito de Perec, pelo contrário, pode ser lido como forma de destruir as referências iniciais; se no Mulato a linguagem inicial se modifica de versão em versão, não ocorre o mesmo na maioria das escrituras; se a criação de vazios sem respostas é reconhecida em Perec, muitos autores respondem aos problemas suscitados no decorrer da redação.

Há princípios, no entanto, que parecem sustentar a crítica genética em qualquer estudo: a vantagem do recorte operado pelo pesquisador que se opõe ao estudo cronológico do manuscrito; a inserção progressiva do documento na rede de criação, articulando as lógicas distintas que surgiram no processo; o inacabamento inerente a qualquer texto; a visão dos manuscritos como palimpsestos; a vertigem do autor equilibrada pela busca da exatidão; a dissipação das estruturas anunciadas, reestruturadas sob a ação da racionalidade e da invenção; a produção de possibilidades nos manuscritos aventada pela busca do escritor; a tradução diferente da transcrição; o manuscrito visto como um sistema complexo e instável ou como uma reestruturação dos espaços.

 

As publicações recentes

Se a crítica genética iniciada no Brasil em 1985 era quase inteiramente baseada em estudos de autores particulares, alguns geneticistas já tentavam, na época, elaborar uma teoria da criação. Não vou lembrar os primórdios desta teorização, mas apenas algumas publicações recentes que confirmam a pesquisa mais teórica.

Gesto inacabado: processo de criação artística (1998)*4 e Redes da criação: construção da obra de arte (2006), de Cecília Almeida Salles,*5 elaboram "uma possível teoria da criação com base na semiótica de Charles S. Peirce, que teve como ponto de partida os estudos singulares de documentos de processos e, ao mesmo tempo, alimenta-se dessas mesmas pesquisas. São guias flexíveis e gerais o suficiente para retornarem depois aos processos específicos. Semelhante à busca de Eisenstein, procura por uma morfologia 'volátil e não um cânone inflexível'."*6 A maioria das teses desenvolvidas na PUC-SP a partir das obras de artistas e literários estão elencadas no site: http://www.pucsp.br/pos/cos/cecg/apresenta%e7%e3o.html.

Crítica genética e psicanálise (2005), de minha autoria,*7 tenta, sobretudo, responder a duas perguntas: como se formou a crítica genética e como se constitui a escritura literária? A primeira resposta supõe uma concepção diferente da história literária, e a segunda se constrói aos poucos por meio do estudo dos manuscritos de Freud, Flaubert e Proust, tendo como base os aportes anteriores da crítica genética e da morfodinâmica e a concepção do homem desenvolvida pela psicanálise.

Escrever sobre escrever - uma introdução crítica a crítica genética, de Claudia Amigo Pino e Roberto Zular (2008),*8 tem como escopo principal discutir as bases teóricas da prática dos geneticistas. O livro está dividido em quatro capítulos. No primeiro, concentra-se a autora na teoria dos estudos genéticos e especialmente na noção de processo, tentando entender o surgimento desse conceito e seu uso, e propondo trabalhar a escrita não mais como um processo, mas como espaço de descontinuidades, hesitações, rupturas. Para abordar esse espaço, seguindo Michel Foucault, faz-se necessário estudar as práticas que o geraram, tema no qual se centra o segundo capítulo. Especificamente, trata-se aí de entender a escrita como tecnologia, o papel dessa tecnologia no Brasil, as relações com a oralidade e o caráter performativo da escrita literária. O terceiro capítulo centra-se na própria prática da crítica genética. Procura-se ali responder às dúvidas básicas dos iniciantes: por onde começar um estudo genético se devemos partir da obra ou dos documentos, se é possível trabalhar com manuscritos transcritos, como elaborar recortes de pesquisa e como podem ser lidos esses recortes. O livro fecha com uma volta à teoria, especificamente à teoria literária. A preocupação com o manuscrito, com as suas descontinuidades e com as práticas em que elas estão inseridas nos afastou das questões relativas à forma literária. Daí a indagação: por que os estudos genéticos e os outros estudos que trabalham com a noção de processo têm abandonado a preocupação com a forma? Não seriam necessários novos modos de inteligibilidade que dessem conta dessa tensão entre processo e forma?

 

A difusão da crítica genética no Brasil e no exterior

No Brasil, a experiência mostrou que a difusão e o debate ao redor da crítica genética não dependem de conferências ou palestras para eventuais interessados, colegas ou alunos. Basicamente, e sem desprezar os modos de informação, o estudo da crítica genética resulta de grupos de pesquisa, liderados por um orientador preocupado com a pesquisa, que transfere não só conhecimentos, mas perguntas que aguçam a mente de seus orientandos e os fazem produzir dissertações e teses. É o que aconteceu na maioria das equipes do país.

A crítica genética desenvolvida no Brasil suscita chamadas de colaborações ou de informações de outros países. Uma pesquisadora da Universidade do Porto (Portugal) convidou três membros da APCG para falar da crítica genética no colóquio internacional Crítica Textual e Crítica Genética em Diálogo - Texto e Manuscrito Modernos (Séculos XVIII, XIX e XX), em outubro de 2007. A partir dos laços estabelecidos, esperamos criar um convênio através do programa CAPES-GRICES para selar o intercâmbio.

A Universidade de Santa Barbara na Califórnia convidou recentemente um dos membros da APCG para falar de crítica genética em dois departamentos.

 

Há diferenças entre a crítica genética praticada no Brasil e na França?

Esta foi a pergunta de uma pesquisadora italiana no colóquio do Porto. Claudia Pino já levanta algumas divergências teóricas entre pesquisadores dos dois países em Escrever sobre escrever, ao qual remeto os leitores, mas diria que, com objetos de estudo e, fatalmente, processos de criação diferentes, Flaubert não é Picasso nem Proust Eisenstein nem Houellenbecq Guimarães Rosa: os críticos não teorizam do mesmo modo.

Não podemos por isso falar de "escola francesa" nem de "escola brasileira". Há pesquisadores que trabalham com Peirce ou com a psicanálise dos dois lados do oceano, uns somente com o manuscrito, esboços ou cadernos de anotações, outros incluem o texto publicado nas suas pesquisas, outros com marginálias, com correspondências ou com edições críticas. A pesquisa não está ligada necessariamente a um centro, São Paulo, Porto Alegre, Salvador, Paris ou a um país, mas a um estudioso que pratica essa nova abordagem dos processos de criação e que no decorrer de colóquios, seminários ou reuniões debate as questões levantadas com os participantes. Mesmo que haja tendências, em certos grupos de doutorandos, em insistir em Peirce ou na psicanálise para abordar a crítica genética, logo após a defesa da tese, os novos doutores tomam seu rumo e criam outras linhas de leitura. As práticas dependerão mais do objeto estudado do que do fato de pertencerem a uma equipe ou a um país.

 

A prática da crítica genética

No campo literário, devemos separar os estudos com ou sem manuscritos de rascunhos. Estes começaram a aparecer em abundância nos séculos XIX e XX até o surgimento do computador. No entanto, nos séculos anteriores, encontramos rascunhos de Pascal,*9 as várias edições das obras de Ronsard e de Erasmo de Rotterdam,*10 que permitem o estudo dos processos de criação.

Hoje, embora bastantes escritores continuem com a caneta e o papel, a maioria digita, deleta e imprime somente a última versão. Ainda é possível a crítica genética nestas condições?

Retomando livremente as palavras de Pierre-Marc de Biasi, o atual diretor do ITEM-CNRS, direi que a situação do crítico é bem melhor do que antes:

Graças à salvaguarda automática e programada [...] sem custo adicional de papel e de tinta, a memória do computador registrará todas as modificações que, adicionadas umas às outras, contarão a gênese da escritura [...] será um manuscrito numérico igual ao manuscrito no papel com acréscimos, substituições, supressões e deslocamentos. Não precisará mais legar às bibliotecas nacionais volumes intermináveis de manuscritos, mas apenas o disco rígido no qual todos os gestos da escritura, classificados e datados, estarão lá, esperando um leitor [...]. A era digital não será o fim dos rascunhos, mas talvez seu verdadeiro começo, sua idade de ouro. [...] Até aqui a abordagem genética se ocupava apenas de exceções: arquivos miraculosamente salvos da destruição, uma centena de corpora completos por século [...] O que acontecerá quando tivermos a integralidade de todos os rascunhos? [...] numéricos por natureza, os rascunhos de hoje têm uma estrutura pronta para o cálculo. Eles esperam as máquinas que saberão nos ajudar na interpretação.*11

A primeira etapa de qualquer estudo genético com manuscritos - decifrar, datar, classificar e transcrever de um modo legível os textos - será dispensável. Nem precisará do estudo das filigranas, da análise da tinta e do papel para ajudar na datação das versões.

Vencida esta primeira etapa, terminam as diferenças entre os geneticistas que têm ou não o manuscrito no papel. Todos se reencontram na mesma luta, à procura dos processos de criação, mas dependendo do objeto pesquisado, eles se separam uns dos outros. Um pesquisador estudará os processos de tradução adotados por Mallarmé ou por Baudelaire, um cognitivista tentará reconstituir o processo mental atuando na escritura, um crítico próximo da psicanálise tentará descobrir em que os processos de criação descobertos enriquecem o conhecimento do ser falante, outro crítico inspirado por Peirce tentará ler os processos seguindo a teoria do filósofo, outro ainda tentará descobrir como uma estrutura social afetou os processos etc.

Concluindo, sublinho a expansão gradativa da crítica genética que oferece ao crítico literário e artístico um novo campo promissor que, espero, animará novas gerações de estudiosos.

 

 

Recebido em 15/02/2008
Aprovado em 15/04/2008

 

 

* De formação literária e psicanalítica, é professor titular de literatura francesa na FFLCH-USP e coordenador científico do Laboratório do Manuscrito Literário (LML) e do Núcleo de Apoio à Pesquisa em Crítica Genética (NAPCG) da Universidade de São Paulo. Além de vários livros editados na França e no Canadá, publicou no Brasil, entre outros, Universo da criação literária (Edusp, 1993), A pequena letra em teoria literária (Annablume, 1997), Além da psicanálise: a literatura e as artes (Nova Alexandria, 1995), Bastidores da criação literária (Iluminuras, 1999), Proust, poeta e psicanalista (Ateliê Editorial, 2000), A educação sentimental em Proust (Ateliê Editorial, 2003) e Crítica genética e psicanálise (Perspectiva, 2005).
*1 (PINO, Claudia Amigo. (org.) Ciências e Cultura v. 59, n.1, São Paulo: SBPC, 2007.         [ Links ])
*2 (PINO, Claudia Amigo. (org.) Criação em debate. São Paulo: Humanitas, 2008.         [ Links ])
*3 (ZULAR, Roberto. (org.) Criação em processo, Ensaios de Crítica Genética. São Paulo: Iluminuras, 2002.         [ Links ])
*4 (SALLES, Cecília A. Gesto inacabado: processo de criação artística. São Paulo: Annablume, 1998.         [ Links ])
*5 (SALLES, Cecília A. Redes da criação: construção da obra de arte. Vinhedo: Horizonte, 2006.         [ Links ])
*6 (SALLES, Cecília Almeida; CARDOSO, Daniel Ribeiro. "Crítica genética em expansão", Ciências e cultura v. 59, n.1, São Paulo: SBPC, 2007: 46.         [ Links ])
*7 (WILLEMART, Philippe. Crítica genética e psicanálise. São Paulo: Perspectiva, 2005.         [ Links ])
*8 (PINO, Claudia Amigo; ZULAR, Roberto. Escrever sobre escrever. Uma introdução crítica à crítica genética. São Paulo: Martins Fontes, 2007.         [ Links ])
*9 (LEBRAVE, Jean-Louis. "La critique génétique: une discipline nouvelle ou un avatar moderne de la philologie?" Genesis nº1, Paris: Jean-Michel Place, 1992: 33-72.         [ Links ])
*10 (JEANNERET, Michel. "Chantiers de la Renaissance. Les variations de l'imprimé au XVIº siècle". Genesis nº6, Paris: Jean-Michel Place, 1994: 25-45.         [ Links ]
*11 (BIASI, Pierre-Marc de. "Le cauchemar de Marcel Proust", no site http://www.item.ens.fr/index.php?id=187315.         [ Links ])
1 1985: O manuscrito moderno e as edições. São Paulo: FFLCH-USP, 1986;         [ Links ] 1988: II Encontro de edição crítica e crítica genética. São Paulo: FFLCH-USP, 1990;         [ Links ] 1991: III Encontro de ecdótica e crítica genética. João Pessoa: Idéia,1993;         [ Links ] 1994: Gênese e memória. São Paulo: Annablume,1995;         [ Links ] 1996: Memória cultural e edições. Salvador: UFBA, 2000;         [ Links ] 1999: Fronteiras da criação. São Paulo: Annablume, 2000;         [ Links ] 2002: "Poética da criação", Manuscrítica nº 11, São Paulo: Annablume, 2003;         [ Links ] 2005: "Leituras do Processo", Manuscrítica nº 14, São Paulo: Annablume, 2008;         [ Links ] 2008: A natureza interativa do processo. Vitória: Universidade Federal de Espírito Santo, no prelo.         [ Links ]
2 Pino, Claudia Amigo, "Gênese da gênese"; Galíndez-Jorge, Verónica, "Crítica genética e crítica literária"; Moraes, Marcos Antonio de, "Epistolografia e crítica genética"; Lopez, Telê Ancona, "A criação literária na biblioteca do escritor"; Zular, Roberto, "Crítica genética, história e sociedade"; Willemart, Philippe, "As ciências da mente e a crítica genética"; Salles, Cecilia Almeida, Cardoso, Daniel Ribeiro, "Crítica genética em expansão"; Salles, Cecilia Almeida, Cardoso, Daniel Ribeiro, "Crítica de processo: um estudo de caso"; Toni, flávia Camargo, "A crítica genética e os acervos de músicos brasileiros".

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