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Alea: Estudos Neolatinos

Print version ISSN 1517-106XOn-line version ISSN 1807-0299

Alea vol.11 no.1 Rio de Janeiro Jan./June 2009

https://doi.org/10.1590/S1517-106X2009000100006 

Pensar a partir da literatura - da importância dos estudos ibero-americanos

 

 

Margarida Calafate Ribeiro*

 

 


RESUMO

Pensando a partir da literatura este artigo procura demonstrar a relevância do pensamento latino-americano e dos estudos ibero-americanos para o pensamento contemporâneo português e, em particular, para pensar o pós-colonialismo português.

Palavras-chave: Literatura; estudos ibero-americanos; pensamento português; póscolonialismo.


ABSTRACT

This paper aims to show, from a literary standpoint the relevance of latin american thought and ibero-american studies for modern contemporary portuguese thought, in particular the thinking on portuguese post-colonialism.

Key words: Literature; ibero-american studies; portuguese thought; post-colonialism.


RÉSUMÉ

En réfléchissant à partir de la littérature, cet article cherche à dé montrer l'importance de la pensée latino-américaine et de ses études ibéro-américaines pour la pensée contemporaine portugaise et, en particulier, pour penser le post-colonialisme.

Mots-clé: Littérature; études ibéro-américaines; pensée portugaise; post-colonialisme.


 

 

Falar em literatura e na sua análise a partir de uma perspectiva pós-colonial e relacioná-la com os Estudos Ibero-Americanos pode soar estranho quando sabemos que grande parte do manancial teórico dos estudos pós-coloniais em que hoje nos movemos tem origem anglo-saxónica, não deixando contudo de apontar a sua imensa variedade e os seus distintos lugares de enunciação, ainda que partilhando a língua inglesa. Mas, como nos mostra Enrique Dussel,*1 como silenciar todos os discursos produzidos na América Ibérica desde a primeira modernidade europeia protagonizada pelos reinos ibéricos? Como ignorar que foi a partir desse encontro - dessa dominação colonial trans-oceânica que está na origem da modernidade - que surgiram as grandes questões da modernidade, as grandes dúvidas e as grandes perplexidades que iriam dominar o pensamento europeu mediatizado a partir de Descartes? Como ignorar pensadores como Francisco Suárez, que Descartes irá ler tão atentamente, Pedro da Fonseca, fundador da escolástica barroca, Francisco Sanches, autor de uma obra significativamente intitulada Quod Nihil Scitur (Que nada se sabe) ou Bartolomeu de Las Casas, que se celebrizou ao lançar o debate de Valladollid de 1550, onde se declarou como "não humano o conteúdo das outras culturas"*2 e assim se viabilizou e transladou a guerra justa para outras paragens não mais na perspectiva medieval de cruzada, mas na moderna perspectiva de civilizar? Como ignorar toda a eferverescência intelectual e filosófica dos reinos ibéricos que viviam os "acontecimentos atlânticos" e os discutiam nas suas universidades lançando as bases da filosofia moderna? E finalmente, ainda com Dussel, como ignorar que é da América Ibérica que vem o primeiro discurso crítico à modernidade elaborado a partir do Sul, tendo como enunciador uma das suas vítimas, como é Filipe Guamán Poma de Ayala em A Primeira Nova Crónica e Bom Governo (1616)?*3

Que rastos desta modernidade tão precoce vão prevalecer e ampliar-se na Europa dita central? De que maneira eles se articulam com a contemporaneidade? Antes de mais, se há algo que une os textos de fundação do espaço sul-americano e os seus textos actuais de pensamento social e político, é o seu eterno retorno sobre a questão fundadora, a terra e o território, a origem ou as origens, a formação, e a sua possibilidade de articulação por diferenciação. Como diz Silviano Santiago, "a questão identitária da América Latina e dos seus cidadãos está e continua sendo a produção semântica duma máquina textual de diferenciação."*4 Em As Raízes e o Labirinto na América Latina, o intelectual conduz a sua leitura a partir de dois livros fundadores desta linha pré-anunciados no título: Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda e O Labirinto da Saudade, de Octavio Paz, mas muitos outros poderíamos acrescentar para concluir, sempre com Silviano Santiago, que "A América Latina se diferenciou da Europa e se diferencia dos Estados Unidos e, por essa razão, é. Europa e Estados Unidos se diferenciam daquela e por essa razão, são."*5 É nesta linha que bem precocemente José Martí falava da "nossa América mestiça" como a essência da América Latina e, como mais tarde esclareceu Fernández Retamar citando-o, ao falar da cultura latino-americana como uma cultura de descendentes, etnica e culturalmente falando.*6

Não é meu intuito fazer uma exposição sobre a questão teórica pós-colonial a partir da América Latina, mas tão somente chamar a atenção para a enunciação dos problemas que desde cedo vêm sendo colocados a partir daquele espaço, particularmente vocalizados (ou ouvidos) a partir dos anos 60, e que tão importantes são para pensar o colonial e o pós-colonial no espaço de língua portuguesa. Basta pensarmos na definição dada, nos anos 30, por Buarque de Holanda relativamente a Portugal e Espanha como os "territóriosponte" através dos quais a Europa comunica com os outros mundos, e hoje, em todas as teorias de fronteira ou na visualização de Portugal como semi-periferia, como defende Boaventura de Sousa Santos,*7 para vermos quão fundamentais são estes pensadores latino-americanos quando queremos reflectir sobre a especificidade de Portugal e Espanha em relação ao Novo Mundo e na Europa.

Hoje, se pensarmos a partir de dois pensadores contemporâneos de Portugal, tão distintos como Eduardo Lourenço - autor de um outro Labirinto da Saudade - e Boaventura de Sousa Santos - autor de um outro "Próspero e Caliban", que tanto ressoa o de Fernández Retamar -, verificamos com facilidade a importância das colocações teóricas avançadas pelos pensadores latino-americanos, e quão referencial é o seu pensamento nas reflexões dos dois portugueses evocados. É, de facto, a partir da matriz de diferenciação na identificação das suas realidades - relativamente à Europa e ao cânone europeu - lançada pelos pensadores latino-americanos a partir dos anos 1930-1940, e visivelmente a assumir a partir dos anos 1960, que os pensadores portugueses acima referidos melhor entendem, e dão a entender, as especificidades do caso português e a sua particular situação relativamente à Europa, dita central. A tal "ponte" (Buarque de Holanda), o tal "entre-lugar",*8 por situação também geográfica mas não só, estão na base de Boaventura de Sousa Santos, mediado por outros sistemas de pensamento (que não apenas o referencial Immanuel Wallerstein), a definir Portugal como uma "semi-periferia"; e de Eduardo Lourenço, a falar de uma Europa "mais central", onde Portugal se colocava como "periférico", "menos central",*9 actualizando assim a sua posição de finisterra europeia sobre o Atlântico: posição extrema geograficamente falando, mas historicamente superada e enfatizada por toda a história da expansão portuguesa, que já antes estava inscrita no seu território através de processos de interculturalidade, invasão, colonização e mestiçagem de sinais centro-europeus ou mediterrânicos. Esta intermediação fundadora de um Portugal europeu, posteriormente exportada para terras imperiais, é ainda hoje estruturante da sua identidade atlântica e da sua identidade europeia baseada na diferenciação, e não na excepcionalidade, nomeadamente da excepcionalidade atlântica que Eduardo Lourenço tão bem critica sob a fórmula da "insólita excepção portuguesa".*10

 

Literatura e estudos ibero-americanos - anos 1960 e depois

A partir do final dos anos 1960, princípios dos anos 1970, mercê das grandes transformações geopolíticas, sociais e culturais - a descolonização, primeiro na Ásia, depois em África, os movimentos sociais da América Latina, os feminismos, as lutas pelos direitos civis dos negros na América do Norte e tantas outras convulsões - o mundo abria-se à pluralidade,*11 outros sujeitos afirmavam o seu conhecimento e os grandes questionamentos teóricos impunham-se. Na literatura, na historiografia, na sociologia, e nas ciências sociais e humanas em geral começava-se a questionar, primeiro de forma dispersa e depois de maneira sucessivamente mais sistematizada, sobre tudo o que os "cânones" das várias disciplinas tinham deixado de fora*12 e, consequentemente, sobre as próprias identidades das várias disciplinas.

Relativamente à literatura podemos mesmo dizer que, para além do questionamento das histórias da literatura excessivamente eurocentradas, tratava-se da mutação do próprio objecto de estudo da literatura, numa linha aliás próxima do que na historiografia se veio a designar como "nova história", em que, como assinala Le Goff, se lança o questionamento não só sobre as perspectivas e o modo de narrar a história, mas sobre o próprio objecto de estudo da história, ou melhor sobre a pluralidade de objectos de estudo*13 que o estudo da história e, por extensão, acrescento eu, da literatura envolveriam. São exemplos da mutação e da multiplicação do objecto de estudo: a atenção que a partir de então se passou a dar à história dos homens e mulheres comuns e dos seus quotidianos, contra uma história feita de heróis, reis e feitos militares; o reconhecimento das mulheres como sujeitos históricos nomeadamente na historiografia das grandes guerras mundiais; ou ainda, no campo da literatura, a atenção que se volta para uma literatura escrita por mulheres, o reconhecimento de uma literatura feminista, de uma literatura de minorias étnicas ou sexuais, de uma literatura de cordel, e de outros textos anteriormente considerados exteriores ao cânone literário; enfim, e, sobretudo, a atenção que se volta para uma literatura produzida no que hoje designamos por Sul Global. Assim se iniciava o reconhecimento de tudo o que o cânone tinha excluído. As questões surgiam: Que era afinal literatura? Quais os limites da disciplina? Quais os seus lugares de enunciação?

O problema ligava-se portanto a algumas questões fundamentais para a elaboração das histórias da literatura e, consequentemente, do cânone que elas constroem: a questão do princípio de inclusão e exclusão que está na base da concepção das histórias da literatura, das antologias ou das colectâneas de textos; a permeabilidade do género literário ao poder incluir como textos fundadores de uma literatura, por exemplo, textos historiográficos, que constituem, contudo, momentos únicos de literatura (basta pensarmos na literatura brasileira com a Carta de Caminha, para ver que assim é); a questão da temporalidade cultural e literária ligada à identidade política e cultural de um país; e finalmente, a questão de determinar a partir de que espaço social e geocultural tal literatura fala, ou seja, qual é o seu lugar de enunciação. No domínio das histórias da literatura estas mudanças e questionamentos levaram a uma profunda desestabilização e problematização dos cânones, tanto na Europa, como, de outra forma, na América Latina. Consequentemente, tornaram-se uma prática a procura de tudo o que estava fora do cânone e a leitura crítica da crítica literária até então produzida, avançando assim com apostas mais ousadas, menos positivistas, menos excludentes e sobretudo menos reprodutivas das já existentes.

Estas aberturas teóricas reflectiam portanto um novo conceito, mais alargado, de narrativa e das novas textualidades ou textualidades emergentes, que iam surgindo e que levaram Antonio Candido a falar de "textos indefiníveis": "romances que parecem reportagens, contos que não se distinguem de poemas ou crônicas (...); autobiografias com tonalidade e técnica de romance; (...) textos feitos com justaposição de recortes, documentos, reflexões de todo o tipo".*14 E penso que é também a partir do Sul, na pleiade de escritores e de pensadores da cultura latino-americana, que vão de Jose Martí a Roberto Fernández Retamar, de Angel Rama a Antonio Candido e outros desta importante geração, todos esses que inseriram as expressões literárias e culturais dos seus países nos respectivos contextos nacionais políticos e sociais, que é lançado o grande desafio global. Tratava-se de um desafio não só à América Latina - que então se descobria e se enunciava como sujeito e produtor cultural múltiplo - mas à própria Europa, onde os limites do literário se expandiam e passavam a incluir estas novas textualidades e estes novos sujeitos, não como ex-colonizados, mas como pares, criadores de expressão diferente, independente e perfeitamente autónoma de si própria, ou, para usar uma expressão metafórica cara a esta "história de família",1 uma literatura produzida pelos "filhos de Colombo", que, transladados da Europa para o Novo Mundo e aí reterritorializados, "inventaram um outro Ocidente",*15 transculturalizando-se, para assim voltar ao estruturante conceito veiculado por Angel Rama.*16

O trabalho de identificação, reconhecimento e posterior desconstrução e reconstrução dos factos histórico-literários que os trabalhos destes pensadores trouxeram; o desenvolvimento de um pensamento social da nação na América Latina e no Brasil, em particular, com os grandes pensadores brasileiros como Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Júnior, Fernando Henrique Cardoso e tantos outros; bem como as referidas convulsões teóricas europeias e a simultânea construção da América Latina como um espaço político alternativo à crescente hegemonia norte-americana, particularmente com a Revolução Cubana, foram sem dúvida os primeiros passos de emancipação cultural democrática dos intelectuais latino-americanos. Assim se construiu o húmus onde a cosmopolita e teoricamente viajada - até porque muitas vezes exilada - geração de Roberto Schwarz, Silviano Santiago, Ana Pizarro, António Cornejo Polar, Beatriz Sarlo entre outros, vai colher e erguer o passo definitivo da transformação na forma de dar conta da narrativa da história literária dos seus países e do continente. A partir do que Silviano Santiago irá definir como o entre-lugar latino-americano*17 - que, ao romper com a noção eurocêntrica dos processos culturais latino-americanos, concede ao continente um lugar próprio de enunciação - tudo é posto em questão. O boom de teoria que caracteriza esta fase da vida cultural latino-americana reflecte a procura de caminhos para uma narrativa outra, que coloca sob suspeita a narrativa clássica da história enunciada a partir da Europa, como se de uma hora zero se tratasse.2 Basta ler os interessantes ensaios de Ana Pizarro*18 sobre esta matéria e sobre a construção da importante obra colectiva América Latina: palavra, literatura e cultura.*19 América Latina: palavra, literatura e cultura. 3 vols. São Paulo: Fundação Memorial da América Latina, 1993; Campinas: UNICAMP, 1994.), para ver a riqueza e a novidade dos debates em torno do lugar de enunciação de uma literatura, do fenómeno literário e a forma de o interpretar e historicizar.

Em Portugal, tal como em Espanha, o atraso no pensar todos estes fenómenos era considerável. Sem dúvida que o fechamento cultural e político do país, provocado pela ditadura e a sua correspondente universidade, contribuiu para explicar o atraso e mesmo a retracção da crítica portuguesa em abordar, ainda hoje, as questões que, no campo da literatura e da teoria literária, começaram a ser formuladas já no final dos anos 1960.

E, talvez por isso, este primeiro questionamento tenha vindo pela mão de vários estudiosos que se encontravam em academias estrangeiras. Relembro só, a título de exemplo, e muito rapidamente, a recuperação de textos e a atenção dirigida a áreas até então inexistentes, como a literatura escrita por mulheres, ou as releituras críticas de textos e escritores canónicos, como os cancioneiros medievais, as crónicas da expansão ou de Fernão Lopes, Camões, Bernardim Ribeiro, Oliveira Martins ou Fernando Pessoa. As leituras, então avançadas por críticos como Luís de Sousa Rebelo, Jorge de Sena, Maria de Lourdes Belchior, Helder Macedo, Eduardo Lourenço entre outros, vieram desestabilizar o mar manso dos estudos portugueses medievais, renascentistas, modernos e contemporâneos, e ainda hoje afirmam uma diferença crítica cultural dentro da crítica universitária portuguesa. E basta pensarmos na História da Literatura Portuguesa, de Óscar Lopes e António José Saraiva, para percebermos o nosso estrutural atraso. Publicada pela primeira vez em 1953 e republicada inúmeras vezes em edições revistas ao longo de cinco décadas, esta História da Literatura Portuguesa - apesar das conhecidas edições escolares que circulavam no ensino técnico e liceal durante o Estado Novo*20 - tornou-se o instrumento de estudo e análise do imaginário histórico-literário português para gerações de portugueses. Curiosamente escrita por dois oposicionistas ao regime de Salazar, esta história da literatura sobreviveu à ditadura, ultrapassou a revolução de 25 de Abril de 1974 e todas as sucessivas reformas de ensino, e continua em 2007 a ser tida como referência, hoje ao lado das iniciativas de Carlos Reis*21 e de Isabel Allegro de Magalhães.*22

Nos anos 1980 com o advento dos estudos pós-coloniais, inspirados pelo pronunciamento crítico lançado por Edward Said e por outras vozes vindas de outras designadas periferias culturais, a reflexão crítica intensifica-se e espalha-se aos mais variados campos do conhecimento, procurando desta vez a história, a palavra e o rosto de todos aqueles sujeitos e produtores de cultura que ficaram excluídos da história do Ocidente, aquela que até então detinha o poder de narrar a história. Movimentos vários a partir de diferentes lugares de enunciação despoletam esta profunda revisão epistemológica do mundo: por um lado, os questionamentos teóricos inerentes à matéria em estudo advindos do mundo europeu e dos pensadores alternativos das suas grandes universidades, por vezes "perdidos" na redefinição não só do seu objecto de estudo, mas também das fronteiras do seu próprio campo de estudos;3 por outro lado, os questionamentos vindos da designada periferia, nomeadamente da América Latina, da Índia e da África, ou seja, do que hoje designamos por Sul Global. Mas se em África os movimentos de intelectuais se congregavam à volta das lutas pela libertação do jugo colonial rumo a uma descolonização política, e se a Índia, a partir do grupo dos Subaltern Studies, visava o questionamento da colonialidade do poder e a luta pela autonomia total, os movimentos sociais e culturais da América Latina discutiam intensamente a sua identidade, interrogavam a sua "dependência cultural" (para reutilizar a expressão de Silviano Santiago no seu importante título, Uma Literatura nos Trópicos - ensaios sobre a dependência cultural) e pugnavam por um quadro epistemológico capaz de descrever as suas diversidades e as suas especificidades.

Como Enrique Dussel tão bem mostra a urgência em escrever a história dos excluídos da grande narrativa do Ocidente - aqui entendidos como sujeitos subalternos,*23 sem história - e em analisar criticamente a historiografia influenciada pelo colonialismo converteu-se no dado intelectual da luta por uma descolonização global: uma descolonização política, do saber (Mignolo), do poder (Quijano) e do ser (Maldonado-Torres) em todo o mundo, como bem mostra o pensamento dos estudos descoloniais, cuja colocação vanguardista nos faz antever o desafio que lançam e o contributo inestimável que trazem para pensar os mundos pós-coloniais.

Tratar-se-á assim de conceber os estudos pós-coloniais não apenas a partir do seu importante dispositivo de origem anglo-saxónica, encabeçado pelo pioneiro e estruturante trabalho de Edward Said, mas também os estudos pós-coloniais como o grande desafio das novas modernidades emergentes - como defende o antropólogo Don Robotham*24 - ideia aliás confirmada por aquilo que se poderia chamar o segundo passo político, com grande visibilidade pública, do mundo pós-colonial: o momento em que o Ocidente quis comemorar Colombo e os cinco séculos da sua descoberta da América, e a América quis "matar Colombo", não apenas pela mão daqueles que a chegada de Colombo exterminou, mas também por aqueles que a aventura de Colombo transladou da Europa para o Novo Mundo. Nesse momento, como sublinhou Eduardo Lourenço, o continente descoberto por Colombo "reescreve a sua própria história e remeta-a para a hora-zero de uma 'outra história'".*25 Não se trata portanto do fim da História, ou do fim da literatura como concebida nos termos das clássicas histórias da literatura europeia, mas de uma mudança da ordem da História, das narrativas que a compõem e do pensamento crítico que as interpreta. De certa forma os pensadores da América Latina têm sido, em grande parte, os grandes arquitectos da criação desta narrativa outra da história, uma história que procura ser inclusiva de todos os sujeitos destas sociedades que vivem sob fortes heranças coloniais expressas hoje no conceito estruturante de muitos destes pensadores de "colonialidade".

Hoje o chamado pensamento decolonial*26 protagonizado por vários intelectuais latino-americanos constitui uma teoria crítica que se exprime a partir da América Latina, mas que não se circunscreve a ela, e que se relaciona com a tradição das ciências sociais e humanas da América Latina e das Caraíbas. Constitui-se como um pensamento articulado à volta da ideia da colonialidade desenvolvida por Walter Mignolo e declinada por vários intelectuais latinoamericanos como Quijano e Maldonado-Torres. Propõe uma leitura crítica das narrativas saídas do paradigma ocidental e outros princípios de inteligibilidade da história e do presente, das hierarquias dos conhecimentos estabelecidos e dos silenciamentos sobre os quais se fundam e se desenvolvem as narrativas dominantes.

Hoje, quando interrogamos o político, o histórico e o social a partir da literatura, temos naturalmente que ter em conta essas mudanças, esses questionamentos teóricos, essas outras viagens dos olhares, 4 sob pena de não estarmos a entender as práticas literárias de Garcia Marquez, Vargas Llosa, Guimarães Rosa, Assia Djebar, Salman Rushdie, V. S. Naipaul, Chinua Achebe, Simbene Ousmane, José Luandino Vieira, Manuel Rui, Mia Couto, Ana Paula Tavares, Conceição Lima, José Saramago, António Lobo Antunes ou Lídia Jorge, e tantos outros que têm transformado não só a nossa visão dos processos históricos, sociais e políticos como estão também desafiando o conceito ocidental de conhecimento e o lugar social de enunciação, enquanto espaço de enunciação cultural da história colectiva de uma nação, como sempre nos lembraram as vozes literárias de outras geografias que aqui trago brevemente pela voz poética de Conceição Lima,*27 em "Afroinsularidade", um poema que acusa a recepção da acção colonial vista a partir do outro lado:

Deixaram nas ilhas um legado
de híbridas palavras e tétricas plantações
Engenhos enferrujados proas sem alento
nomes sonoros aristocráticos
e a lenda de um naufrágio nas Sete Pedras

Aqui aportaram vindos do Norte
por mandato ou acaso ao serviço do seu rei:
navegadores e piratas
negreiros ladrões contrabandistas
simples homens
rebeldes proscritos também
e infantes judeus
tão tenros que feneceram como espigas queimadas

Nas naus trouxeram
bússolas quinquilharias sementes
plantas experimentais amarguras atrozes
um padrão de pedra pálido como o trigo
e outras cargas sem sonhos nem raízes
porque toda a ilha era um porto e uma estrada
sem regresso
todas as mãos eram negras forquilhas e enxadas
(...)

Às vezes penso em suas lívidas ossadas
seus cabelos podres na orla do mar
Aqui, neste fragmento de África
onde, virado para o Sul,
um verbo amanhece alto
como uma dolorosa bandeira. (Lima, 2004)

 

 

Recebido em 29/03/2009
Aprovado em 30/06/2009

 

 

* Margarida Calafate Ribeiro é investigadora no Centro de Estudos Sociais, da Universidade de Coimbra, docente dos programas de doutoramento do Centro de Estudos Sociais/ Faculdade de Economia, "Pós-Colonialismos e Cidadania Global" e "Democracia no Século XXI" e co-editora da publicação electrónica dos programas de doutoramento do CES, Cabo dos Trabalhos. Responsável da cátedra Eduardo Lourenço, do Instituto Camões e da Universidade de Bolonha; Visiting Researcher Associate do King's College, Universidade de Londres. Das suas publicações, destacam-se os livros África no Feminino: as mulheres portuguesas e a Guerra Colonial (Porto: Afrontamento, 2007); Uma História de Regressos: Império, Guerra Colonial e Pós-Colonialismo (Porto: Afrontamento, 2004); Atlantico Periferico - Il Postcolonialismo Portoghese e Il Sistema Mondiale (org. Margarida Calafate Ribeiro, Roberto Vecchi, Vincenzo Russo) (Reggio Emilia, 2008); Lendo Angola (org. com Laura Cavalcante Padilha) (Porto: Afrontamento, 2008); Moçambique: das palavras escritas (org. com Maria Paula Meneses) (Porto: Afrontamento, 2008); Fantasmas e Fantasias Imperiais no Imaginário Português Contemporâneo (org. com Ana Paula Ferreira) (Porto: Campo das Letras, 2003).
*1 (DUSSEL, Enrique. "Meditações anti-cartesianas sobre a origem do anti-discurso filosófico da modernidade", in SOUSA, Boaventura Santos de & Meneses, Maria Paula. Epistemologias do Sul, Coimbra: CES/ Almedina, 2008: 296)         [ Links ]
*2 (Ibidem: 296)
*3 (DUSSEL, op.cit; MIGNOLO, Walter. The Darker Side of the Renaissance: Literacy, Territoriality and Colonization. Ann Arbor: University of Michigan Press, 1995,         [ Links ] e MIGNOLO, Walter Local Histories/ Global Designs: Coloniality, Subaltern Knowledge, and Border Thinking. Princepton, NJ: Princepton University Press, boaventura, 2000.         [ Links ])
*4 (SANTIAGO, Silviano. As raízes e o labirinto da América Latina. Rio de Janeiro: Rocco, 2006: 34)         [ Links ]
*5 (Ibidem: 34)
*6 (RETAMAR, Roberto Fernández. Caliban and Other Essays, Minnesota University Press, 1989: 4.         [ Links ])
*7 (SANTOS, Boaventura de Sousa. "O Estado, as relações salariais e o bem-estar social na semiperiferia: o caso português". In: ___ (org.) Portugal: Um Retrato Singular. Porto: Afrontamento/ Centro de Estudos Sociais, 1993: pp. 17-56: 20.         [ Links ])
*8 (SANTIAGO, Silviano. Uma Literatura nos Trópicos - ensaios sobre dependência cultural. Perspectiva: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo, 1978.         [ Links ])
*9 (LOURENÇO, Eduardo. Nós e a Europa ou as Duas Razões, Lisboa: INCM, 1994.         [ Links ])
*10 (LOURENÇO, Eduardo. Portugal como destino: dramaturgia cultural portuguesa, Lisboa: Gradiva, 1999 : 11.         [ Links ])
*11 (Pizarro, Ana. O Sul e os Trópicos: ensaios de cultura latino-americana. Niterói: EDUFF, 2006: 26.         [ Links ])
*12 (ZILBERMAN, Regina. "Discursos e Marginalidade". In: Banco de Dados Literários. César Giusti. (org.) Catalogação: BDL: CUL-4-008 (disponível em http://www.cesargiusti.bluehosting.com.br/Litbnkdata/hist.htm)         [ Links ]
*13 (PIZARRO, op.cit: 28)
*14 (CANDIDO, Antonio. Textos e Comentários. São Paulo: FCE, 1995: 310.         [ Links ])
*15 (Lourenço, ibidem: 16)
*16 (RAMA, ángel. Transculturación en América Latina. México D.F.: Siglo xxI Editores, 1987.         [ Links ])
*17 (SANTIAGO, Silviano (1978), Uma Literatura nos Trópicos - ensaios sobre dependência cultural. Perspectiva: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo.         [ Links ])
*18 (PIZARRO, Ana, op.cit)
*19 (PIZARRO, Ana (org.)
*20 (SERUYA, Teresa; MONIZ, Maria Lin Sousa. "História literária e traduções no Estado Novo. Uma introdução possível". In: Carlos J. F. Jorge et alii (coord.). Estudos Literários/Estudos Culturais (IV Congresso Internacional da Associação Portuguesa de Literatura Comparada). évora: Universidade de évora/A.P.L.C, 2004. http://www.eventos.uevo-ra.pt/comparada/VolumeII/HISTORIALITERARIAETRADUCOESNOESTADONOVO.pdf. Acedido a 15 de Agosto de 2007.         [ Links ])
*21 (REIS, Carlos (coord.) História Crítica da Literatura Portuguesa, 9 volumes. Lisboa: Editorial Verbo, 1993-2005.         [ Links ])
*22 (MAGALHÃES, Isabel Allegro (coord.). História e Antologia da Literatura Portuguesa. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1997-2007.         [ Links ])
*23 (MIGNOLO, Walter. Opus, cit.: 2000)
*24 (ROBOTHAM, Don (s/d), "El poscolonialismo el desafío de las nuevas modernidades", http://www.cesc.cl/pdf/centrodedocumentacion/GLOBALIZACION-HIBRIDACION-POSCOLONIALISMO/ELPOSCOLONIALISMOELDESAFIODELASNUEVASMODERNIDADES.pdf. Acessado em 15 de Agosto de 2007.         [ Links ])
*25 (LOURENÇO, Eduardo. A Morte de Colombo. Op. cit.: 16)
*26 (MALDONADO-TORRES, Nelson. "Sobre la colonialidad del ser: contribuciones al desarrollo de un concepto". In: CASTRO-GóMEZ, Santiago e GROSFOGUEL, Ramón (eds.). El giro decolonial. Reflexiones para una diversidad epistémica más allá del capitalismo global. Bogotá: Iesco-Pensar-Siglo del Hombre Editores, 2007: p. 127-167.         [ Links ])
*27 (Lima, Conceição (2004), "Afroinsularidade", in: O Útero da Casa, Lisboa: Editorial Caminho.         [ Links ])
1 A expressão é de SOMMER, Doris. "Irresistible romance: the foundational fictions of Latin America". In: BHABHA, Homi K. ed. Nation and narration. London/New York: Routledge, 1990;         [ Links ] e é re-utilizada por PERRONE-MOISÉS, Leyla. "Paradoxos do nacionalismo literário na América Latina". Estudos Avançados, vol. 11, no 30, May/Aug, 1997;         [ Links ] e por LOURENçO, Eduardo. A Morte de Colombo: metamorfose e fim do Ocidente como mito. Lisboa: Gradiva, 2005: 17.         [ Links ])
2 Eduardo Lourenço utiliza noutro contexto esta expressão que agora reutilizo: LOURENçO, Eduardo. A Morte de Colombo: metamorfose e fim do Ocidente como mito. Lisboa: Gradiva, 2005: 16.
3 Refiro-me aos designados Estudos Culturais e toda a polémica envolvente, que não interessa aqui desenvolver. Sobre esta questão ver: RIBEIRO, António Sousa; RAMALHO, Maria Irene. "Dos estudos literários aos estudos culturais?", Revista Crítica de Ciências Sociais, 1998: 52-53.         [ Links ]
4 Evoco aqui a obra de Helder Macedo e Fernando Gil. MACEDO, Helder e GIL, Fernando Viagens do Olhar - Retrospecção,Visão e Profecia no Renascimento Português, Porto: Campo das Letras, 1998,         [ Links ] relativa a estudos do Renascimento português.

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