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Alea : Estudos Neolatinos

versão impressa ISSN 1517-106X

Alea vol.13 no.1 Rio de Janeiro jan./jun. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1517-106X2011000100001 

EDITORIAL

 

Em um mundo em que os fluxos de linguagem se sobrepõem e nos assaltam de toda parte, mesclando-se e constituindo incessantemente novas configurações de formas e pensamentos, e problematizando, assim, cada vez mais a noção de obra e sua relação com a memória, a interrogação do contemporâneo e de sua tensão com o extemporâneo, de seus modos de solicitá-lo e profaná-lo, parece inevitável. Ao propormos como tema para este volume "Literatura e artes na contemporaneidade", defrontamo-nos com um rico panorama que, se não é, evidentemente, exaustivo, apresenta linhas de forças interessantes do que se vem produzindo e pensando a respeito em nossa área

Abre o volume Raúl Antelo, abordando duas exposições de artes realizadas em 2010-2011, curadas respectivamente por Georges Didi-Huberman – no museu Reina Sofia, em Madri – e Diana Wechsler – na Fundação MAPFRE, em Madri, e no Centro Cultural Recoleta, em Buenos Aires. O pesquisador mostra como nelas predomina a lógica anacrônica da montagem, em que o arranjo dos objetos e imagens expostos, longe de organizar o presente a partir de sua relação com o passado, vem desestabilizá-lo, indiciando justamente o logro de toda perspectiva cronológica e logocêntrica de figuração do contemporâneo. Na sequência, Georges Didi-Huberman explora a tensão entre linguagem e imagem na obra de Maurice Blanchot para problematizar o idealismo que atravessa a noção de semelhança. Evocando, a partir do diálogo com Blanchot, pensadores como Heidegger, Lévinas, Sartre, Bataille e Nancy, o filósofo propõe um pensamento da imagem não como síntese, como na tradição do esquematismo kantiano, mas como "imprevisível epidemia de semelhanças impossíveis de serem reunidas". Jérémie Marjorel propõe-se a apresentar o pensamento da filósofa contemporânea americana Avital Ronell, ainda pouco conhecida entre nós. Fortemente marcada pelo pensamento de Derrida, Ronell dialoga com as mais variadas tradições filosóficas e literárias (Platão, Rousseau, Flaubert, Marx, Nietzsche, Freud, Heidegger...) para discutir e pensar a contemporaneidade por meio de objetos de reflexão relativamente insólitos: a comunicação telefônica, a tendência a toda espécie de vícios ou a obsessão pelos mais diversos tipos de teste, por exemplo. Fabio Akcelrud Durão retoma criticamente, a partir da obra de Roland Barthes, toda a tradição que se formou, a partir dos anos 1960, em torno do conceito de texto, que o pesquisador associa à tendência contemporânea à proliferação de fluxos, para propor um conceito de obra em que "forma e rompimento do fluxo se determinem mutuamente". O escritor francês Philippe Beck, a seu turno, discute o desejo de expressão que se dissemina na tradição ocidental ao menos desde Dante, explorando as nuanças dos "combates espirituais" num movimento de aproximação e distanciamento em relação à cena contemporânea. Em uma reflexão sobre o lugar e a função das revistas literárias, Sandra Raguenet acompanha em particular a revista Banana Split, publicada no sul da França ao longo dos anos 1980. A pesquisadora analisa os procedimentos de experimentação possibilitados pela proposta intermidial da revista, antecipando a discussão cada vez mais inevitável sobre o "jogo de metamorfoses recíprocas" entre o suporte e as produções artísticas por ele veiculadas. Inês Oseki-Dépré parte de uma análise semiológica de sua tradução para o francês de uma das Galáxias de Haroldo de Campos para discutir não apenas as especificidades da escrita haroldiana e sua apropriação do barroco, mas também, e sobretudo, as relações entre língua e memória. Encerrando a sessão de artigos, Angela Maria Dias se lança sobre alguns contos da jovem escritora brasileira Veronica Stigger, investigando criticamente a emergência de uma voz contemporânea na apropriação distanciada de uma dicção expressionista e melodramática.

Para fechar o volume, Masé Lemos entrevista o poeta, ensaísta e professor Marcos Siscar, que fala de sua formação como poeta e pesquisador, de sua visão da poesia e da literatura contemporânea, e de seu próprio trabalho como poeta.