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Alea : Estudos Neolatinos

versão impressa ISSN 1517-106X

Alea vol.13 no.2 Rio de Janeiro jul./dez. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1517-106X2011000200004 

Les Cinq Continents, a antologia de Goll - apelo (po)ético cosmopolita1

 

 

Maria Aparecida Barbosa

 

 


RESUMO

Este artigo trata de alguns trabalhos poéticos de Ivan Goll, publicados em alemão, francês e inglês, nos quais o diapasão cosmopolita e o apelo a uma poesia supranacional representaram um grito marginal de resistência frente às tendências totalizantes e às categorias nacionais da primeira metade do século XX. Busca-se compreender se o grito encontra respaldo nas reflexões atuais, pensando-o como um antecedente questionador de taxonomias de gênero literário e de forma artística, um transgender. Assinala que o modernista brasileiro Mário de Andrade não somente acompanhou a querela entre Goll e Breton sobre a herança do conceito Surréalisme legado por Apollinaire, como também se correspondeu e trocou livros com o poeta alsaciano, tendo recebido com entusiasmo a antologia Les Cinq continents. Ao final, este artigo apresenta a tradução de dois poemas afinados com a noção cosmopolita: "O Negro do Teatro de Variedades" e "A Canção de João Sem-Terra, O Duplo".

Palavras-chave: Ivan Goll; antologia Les Cinq continents; "A Canção de João Sem-Terra, o Duplo"; "O Negro do Teatro de Variedades"; transgender.


ABSTRACT

This article discusses some poetic works of Ivan Goll, published in German, French and English, in which the cosmopolitan appeal to a supranational poetry represented a marginal cry of resistance against the totalizing tendencies and categories of the first half of the twentieth century. It seeks to understand if such cry can be related to contemporary reflections on literary genre and multiple art forms, as well as if Goll can be thought of as a 'transgender' artist. It also remarks that Brazilian modernist Mário de Andrade not only followed the dispute between Goll and Breton concerning the inheritance of the concept Surréalisme from Apollinaire's legacy, but also exchanged letters and books with the alsacian poet, enthusiastically praising the anthology Les cinq Continents. Finally, this article presents a translation of two poems related with the cosmopolitan notion: "O Negro do Teatro de Variedades" and "A Canção de João Sem-Terra, O Duplo".

Keywords: Ivan Goll; anthology Les Cinq continents; La Chanson de Jean sans Terre/Das Lied des Johann Ohneland; "João Sem-Terra, o Duplo"; "Der Varieté-Neger", transgender.


RESUMEN

Esta comunicación trata sobre algunos trabajos poéticos de Ivan Goll, publicados en alemán, francés e inglés, en los cuales el tono cosmopolita y el llamamiento a una poesía supranacional representaron un grito marginal de resistencia frente a las tendencias totalizantes y a las categorías nacionales de la primera mitad del siglo XX. El artículo busca comprender si el grito reverbera y encuentra respaldo en las reflexiones actuales, pensándolo como un antecedente cuestionador de taxonomías de género totalitario y, de forma artística, como un "transgender". El texto también incide en la relación establecida con el escritor modernista brasileño Mário de Andrade, que no sólo acompañó la querella entre Goll y Breton sobre la herencia del concepto "Surréalisme" legado por Apollinaire, sino que mantuvo contacto epistolar e intercambio de libros con el poeta alsaciano, y recibió con entusiasmo la antología Les Cinq continents. Finalmente, este artículo presenta dos traducciones de poemas afinados con la noción cosmopolita: "O Negro do Teatro de Variedades" y "A Canção de João Sem-Terra, O Duplo".

Palabras-llave: Ivan Goll; antología Les Cinq continents; "A Canção de João Sem-Terra, o Duplo"; "O Negro do Teatro de Variedades"; transgender.


 

 

Esse deve ser o aspecto do anjo da História.
Ele tem a face voltada para o passado.
WALTER BENJAMIN ("Sobre o conceito da História")

Como âncora reduzo as letras do alfabeto
Ao esquecimento eu planto as raízes das palavras
Nos sulcos de minha fronte.
IVAN GOLL (Os círculos mágicos)

 

Para início de conversa, uma imagem. De 1949. Defronte a La Rotonda de Andrea Palladio em Vicenza, os poetas Claire (1890-1977) e Ivan Goll (1891-1950) se acomodam sobre a relva: assim os descreve Edschmid no prefácio da coletânea epistolar do casal. No contexto do congresso internacional do Pen-Clube em Veneza, uma tensão antecedeu a saída dos escritores para a ópera de Monteverdi a Vicenza: o escritor italiano Ignazio Silone quis a todo custo impedir que a ex-amante de Mussolini e autora da biografia Dux (1926), Margherita Sarfatti, participasse da excursão.*1 Provocações, apesar de tudo.

Goll retornava à Europa depois de dez anos de exílio nos Estados Unidos, onde viveu como editor da revista Hemisphere e, sobretudo, poeta. Ivan, Iwan, Yvan etc. São muitos os pseudônimos do cidadão do mundo.

Nasci em Saint-Dié (França), de pai alsaciano e mãe Lorena, quer dizer, em constante contradição comigo mesmo, com o leste e o oeste. Passei a maior parte de minha vida em Paris, levo agora com minha mulher Claire pura existência de poeta... No verão de 1939, eu vim para os Estados Unidos, trazendo na bagagem as três plaquetas de Jean sans terre, Chansons malaises e Lucifer viellissant e a resistência passiva do poeta.*2

Após terminar os estudos e defender a tese de doutorado, Goll se refugia na Suíça, a fim de burlar o serviço militar na Alemanha de Wilhelm II, que acabava de entrar na recém-deflagrada Primeira Guerra Mundial. As coletâneas poéticas Films,2 sob o pseudônimo Tristan Torsi, e Der Panama-Kanal,3 sob o pseudônimo Iwan Lassang, ambas de 1914, o tornam conhecido. Durante a guerra, ele vive e publica como um pacifista convicto.

É que, para Goll, o nascimento (em Lorena), a ascendência (era alsaciano e loreno, além de duplamente judeu), a formação (francesa e alemã), a relação pouco religiosa com o judaísmo, foram mais vantagens que obstáculos, a condição prévia à percepção universalista da humanidade. [...] O expressionismo alemão, não na acepção caótica, e a Suíça como espaço cosmopolita por excelência, constituíram espaços onde se forjaram durante certo tempo suas convicções.*3

Em Genéve, ele participa de um grupo internacional de escritores pacifistas, entre os quais se encontravam Stefan Zweig, Romain Rolland e James Joyce. Com Joyce entabula amizade duradoura, até a morte do irlandês em 1941, conforme se verá adiante. No livro Elégies Internationales - pamphlets contre cette guerre, de 1915, se dirige aos povos europeus, guerreiros, sonhadores, trabalhadores, tecelões, e indaga a razão pela qual os soldados da cavalaria se imiscuem por caminhos e brumas espalhando dor, amargura, provocando o pranto das crianças na noite e o êxodo das viúvas abandonadas, como se não bastasse ao povo heroico a terrível guerra das minas, das fábricas de algodão e do cultivo do trigo.*4 Em busca da grande vitória na batalha, os guerreiros europeus perdiam a própria Europa.

Outro livro no mesmo estilo panfletário e patético é dedicado em 1916 ao escritor francês Rolland, Requiem pour les morts de l'Europe, editado em Genéve por Henri Guilbeaux. Novamente, tem-se o retrato da guerra que se arrastava por "dias, meses, anos, sempre a mesma batalha retornando, com seu ódio febril, no circo europeu".*5

Em novembro de 1919, no pós-guerra, o escritor se muda com a mulher Claire para Paris e releva a paixão dos anos anteriores, ao admitir que o expressionismo (1910-1920) não é forma artística, mas sim uma visão de mundo inevitável durante a guerra, quando nenhum expressionista foi reacionário, tampouco renunciou à fé na fraternidade humana.*6 Agora, o engajamento expressionista se lhe afigura grotesco e através da poesia tenta arrefecer a hostilidade inscrita na fronteira política. A instância se inicia com artigos que buscam a aproximação entre a intelectualidade francesa e a alemã: "na França, durante anos se fez como se do outro lado, no antigo país inimigo, não existissem bons poetas ou artistas."*7 Ou a publicação em Berlim, 1919, do livro de ensaios Die Drei guten Geister Frankreichs (Os três bons espíritos franceses) sobre Denis Diderot, Paul Cézanne e Stephane Mallarmé.

Ele se dedica fecundamente à tradução de poetas franceses ao alemão e vice-versa. Entre outras versões, contam-se Element Premier (Urgesicht) e Morgue, do poeta expressionista alemão Gottfried Benn; Gold - Die Fabelhaft Geschichte des Generals Johann August Suter, do surrealista Blaise Cendrars; Bebuquin oder die Dilettanten des Wunders - ein Roman, do cubista Carl Einstein; Die Aussätzige und die Heilige, de François Mauriac; e Le Chant de Bernadette, de Franz Werfel, além de Russische Revolutionslyrik. Igualmente de Iwan Goll é a tradução ao alemão em 1929 do polêmico livro de 1928, Terre d´ebène ("Terra do ébano", mas na edição alemã de: Schwarz und Weiss: Die Wahrheit über Afrika, ou seja, "Preto e branco: A verdade sobre a África"), do jornalista francês Albert Londres, que denuncia abusos da política colonial francesa nos territórios da África, resultado de uma viagem de quatro meses pelos países Nigéria, Alto Volta - hoje Burquina Fasso -, Costa do Marfim, Senegal etc.

A clara motivação em prol do armistício entre as nações de sua origem perpassa a publicação em 1919 da tradução ao francês de dezesseis poemas contemporâneos alemães: Le Coeur de l'ennemi (O coração do inimigo), acompanhado por dezesseis gravuras de Louis Moreau. Um ano mais tarde, ele publica em Munique a recíproca apresentação de poesia francesa traduzida ao alemão: Das Herz Frankreichs (O coração da França).

Ao escritor brasileiro Mário de Andrade (1893-1945), leitor e interlocutor de Goll, não passou despercebida a busca de solução para o impasse:

Cada um de nós leva o céu no peito!
Gentes dos pólos e do equador dai-vos as mãos!
Misturai-vos como as águas dos oceanos!

...

Inesgotáveis as geleiras do mundo,
Inesgotáveis os corações dos homens!

O poeta é alsaciano. Sente-se que ama de igual paixão a França e Alemanha. Diante dessa trapalhada de sentimentos antagônicos é natural que cante a paz.*8

Ampliando os horizontes do repertório em direção ao leste europeu, Goll passa a atuar ativamente no movimento de vanguarda servo-croata Zenitismo, cujo logotipo era uma flecha unindo os cardeais leste e oeste. Entre 1921 e 1926, foram publicados 42 números da revista Zenit, com artigos nas línguas originais dos colaboradores. Na revista de orientação cosmopolita, ele acerta contas com o passado expressionista e se expande vers mundo eslavo.

Na França, onde eu vivo, ninguém virou sentimental durante a guerra [...]. Novos países gritam atrás dos Urais, atrás dos Bálcãs, atrás de todos os oceanos sua vontade de viver, sua força. Países jovens. Povos jovens. A primeira palavra que nos dirigem vibra elétrica.*9

Em correspondência ao poeta russo Maiakóvski, cuja poesia está representada na antologia Les Cinq continents, o editor Ivan se apresenta da seguinte maneira: "eu escrevo em alemão e em francês, mas na verdade pertenço à Europa."*10 Mais que restrito às fronteiras da Europa, entretanto, o poeta lançava-se a empreitadas poéticas arrojadas, afinadas com a estética do extremo oriente japonês, como a sistemática composição de haicais no final dos anos 1920.

A renúncia ao páthos nas circunstâncias pacíficas é compreensível, não obstante a República de Weimar fosse ainda marcada pelas precariedades econômicas e pelas tensões sociais e políticas. Logo, a poesia (e a dramaturgia) de Goll denuncia a figura do burguês enriquecido na guerra por finda. Os romances Eurokokke (O micróbio europeu) e Sodom Berlin (Berlim e Sodoma) atestam seu ceticismo concernente às condições vigentes na Europa e prenunciam tempos ainda mais sombrios.

A queima de livros em maio de 1933 estabelece o início do poder do Partido Nacional-Socialista na Alemanha. O temperamento apaixonado de Goll sofre um abalo irremediável e isso se refletirá na sua poesia. Nessa ocasião, em carta de 18 de maio de 1933, ele confidencia à amante Paula Ludwig como o episódio o abate:

Eu morro, minha vida. Após o golpe que nós poetas recebemos na Alemanha - o Micróbio Europeu também queimou na fogueira - a mim pessoalmente todo e qualquer grito ficou preso na garganta. Como você mesma escreve: antes eu lutei, vaticinei, ajoelhei o bastante. Hoje - eu me quietei quase completamente. Eu me afastei e não consigo mais lutar. Nunca passaria pela cabeça me confrontar com os nazis num manifesto ou numa entrevista. Entenda, isso eu não consigo, estou desesperançado demais para isso...4,*11

Além de desempenhar o papel de interlocutor entre culturas, através das traduções de poetas seus contemporâneos, Goll se revela um leitor sensível à literatura universal e inovadora. Para o romance Ulisses, por exemplo, livro que Joyce escreve entre 1914 e 1921 e publica na Paris de 1922, ele reivindica um lugar de destaque dentro da literatura europeia. Ele vê com bons olhos a divulgação dessa obra em língua alemã, o que seria fundamental para calar definitivamente discussões entre estilos irrelevantes e querelas atinentes ao Expressionismo.*12

De fato, o Ulisses é traduzido por Georg Goyert e publicado em 1927. No combativo jornal Die Weltbühne, o jornalista Kurt Tucholski (sob o pseudônimo Peter Panter) se pronuncia com ceticismo sobre o trabalho do autor e do tradutor: "Quando 1585 páginas despencam de uma hora para outra, então é preciso antes de tudo fazer respeitoso silêncio. Nada de maravilhoso ou assombroso."*13

Ao ver questionado tanto o valor da obra de Joyce como da respectiva tradução ao alemão, Goll volta a se pronunciar a respeito do assunto, dessa vez com uma réplica no periódico de Tucholski. Referindo-se à leitura superficial e ao precipitado julgamento do jornalista e poeta ("justo ele, um malabarista das palavras"), lamenta que o leitor e o crítico de seu tempo tenham livros triviais como parâmetro de leitura, o que chama de "livros presenteados no Natal". Com bons olhos, prevê que o leitor do futuro se debruçará sobre complexas obras da literatura mundial, semelhantes ao modelo joyceano, a fim de estudá-las. Pois o Ulisses exigiria decifração semelhante à Cabala, mesmo sendo divertido como Rabelais e hermético feito um tratado jesuítico.

[...] é preciso lê-lo, para libertar a alma. O Ulisses não é comparável a outra obra da literatura mundial: é único e original. Essa prosa é a linguagem e o ritmo da poesia vindoura. Uma arquitetura lógica e geométrica, suas transgressões não fogem à regra métrica e rítmica, mas sim às marcas intrínsecas da palavra e da gramática. [...] construído com as pedras da lógica, mas iluminado sob a luz da poesia.5,*14

Goll estava fascinado pelas possibilidades que a velocidade e a técnica representavam para o trabalho artístico. No ensaio "Kinodrama", assina então o próprio manifesto futurista, de apologia à "síntese", ao "jogo entre contrários" das formas artísticas. Enquanto sublinha o movimento como a característica intrínseca e essencial da dramaturgia, em detrimento da emancipação da forma tradicional literária, ele pondera ousadas aproximações em direção ao modelo do cinema. O Kinodrama contaria com a atuação mais expressiva da poesia, aliada a pintura, música, artes plásticas, dança e projeções de filme.*15

Escreve o livro Pascin (Jules Pascin, 1885-1930), com 32 pinturas do artista francês. Como editor do Archipenko-Album, com 33 ilustrações dos trabalhos do escultor russo, ele apresenta o artista na introdução. O álbum contém, além disso, um poema de Blaise Cendrars, que vitalizava obras plásticas com poesia. A fascinação pelo trabalho artístico que alia várias formas artísticas é bem característica do modernismo europeu.6

O pensamento inovador e modernista de Goll o colocava em sintonia com artistas que trabalhavam com concepções similares. Um deles, Fernand Léger. Logo, não surpreende que ambos tenham somado suas concepções intermediais de poesia em movimento, de balé mecânico, ao comporem em conjunto a Chaplinade - un poéme cinématographique en six tableaux (Carlitos - um poema cinematográfico em seis quadros).7

Na verdade, vários poemas de Goll são compostos por gravuras, aquarelas ou desenhos de artistas célebres. Zehntausend Morgenröten - Gedichte einer Liebe (Dez mil alvoradas vermelhas - poemas de um amor), publicado em Wiesbaden, pela Limes, em 1954, traz quatro desenhos de Marc Chagall. Em 1962, Francis J. Carmody editou pela Allen Press de San Francisco uma coletânea dos diálogos entre as artes plásticas e a poesia de Goll traduzida do francês ao inglês por Louise Bogan. Four Poems of the occult Goll contém "The Myth of the Pierced Rock" ("O mito da pedra cindida"), ilustrado por Yves Tanguy; "The Magiques Circles", ilustrado por Léger; "Ihpetonga Elegy and Masks of Ashes", com desenhos de Pablo Picasso; e "Multiple Woman", com ilustrações de Jean Arp. As parcerias ilustres transformam a pesquisa bibliográfica de Goll num capítulo à parte, uma sofisticada aventura atrás de misteriosas raridades de antiquários.

Artista eclético, Goll é figura de destaque no teatro dos anos 1920. George Grosz, o verista corrosivo que denunciou com caricaturas as arbitrariedades da República de Weimar, ilustrou o livro de poemas Der neue Orpheus (O novo Orfeu), bem como participou com seis figurinos para a peça teatral de Goll, Matusalém ou O eterno burguês - drama satírico, de 1922. Nessa peça, que muitos críticos comparam aos dramas absurdos de Ionesco, os animais falantes - gato, cachorro, urso, cuco, macaco, papagaio e cervo -, a cisão do protagonista - em eu, ele e tu -, além de seus três sonhos (que devem ser projetados cinematograficamente, segundo o livro), acentuam o surrealismo com imagens do inconsciente. No elenco da encenação francesa, no Teatro Michel, de 1923, estava Antonin Artaud, ainda bem jovem, que mais tarde criará o Teatro Alfred Jarry e o Teatro da Crueldade.

Em 1924, Goll escreve a "Lettre a Guillaume Apollinaire", a fim de justificar o resgate do termo Surréalisme na designação da revista da qual publicou um único número, em 1924: "você deu, Guillaume [...] sentido teórico e ao mesmo tempo o nome de batismo: o surrealismo, que nada tem em comum com o naturalismo realista."*16 Mas já antes disso ele empregou o termo em outros contextos, por exemplo em 1922 no prefácio à peça "Matusalém". A querela entre Goll, juntamente com o escritor Paul Dermée, e o grupo de artistas liderados por André Breton (1896-1966), concernente à herança da tradição surrealista do poeta francês Guillaume Apollinaire (1880-1918), se escala gradativamente durante os anos 1920 através de trocas de correspondências e insultos. A revista L'Esprit Nouveau toma o partido do alsaciano e do belga, justificando que Dermée já empregava desde 1920 o termo em artigos publicados naquele periódico.

A discussão atinge o clímax em 1926, durante um sarau artístico da dançarina Valeska Gert, organizado por Goll no teatro parisiense Folies Bergére, quando a polícia precisou intervir para amainar os ânimos.

As minuciosas anotações de Mário de Andrade às margens de seus exemplares da revista francesa atestam o quanto o paulistano estava atento e bem-informado sobre as discussões da intelectualidade europeia.*17 Pela correspondência abaixo, endereçada a Sérgio Milliet, de São Paulo, 2 de agosto [1923], depreende-se ademais que ele e Goll trocaram correspondências epistolares:

Ivan Goll escreveu-me. Compensações. Mandou-me o Nouvel Orphée. Mais Compensações. Devo escrever-lhe. Para onde? Traga-me a direção dele. Tenho Les Cinq continents. Como todas as antologias tem o defeito de não ter um milhão de páginas. Mas porque não tem um milhão de páginas chama-se antologia. É a mais antiga das manifestações dadaístas: são poemas de vários autores, como o abecedário que já fora feito antes do lindo poema de Aragon; mas como Aragon pôs o seu nome sob o abecedário, há autores de antologias. Minha antologia teria outros poemas. A tua: outros. Há o coeficiente pessoal que é inútil discutir. E Ivan Goll (seu gesto mais futurista) quis renovar a lenda de Atlas. Suspendeu o mundo na... assinatura.

O livro é o que é. O esforço foi digno. Por ele estimo Ivan Goll. Mas quando o nome Ivan Goll assina Paris Brennt (prefiro o original alemão) ou assina Chaplinade ou Gare Montparnasse eu amo Ivan Goll e sou o bombo em que ele bate."*18

Além dessa conexão de Goll com escritores do Brasil, Waldmann menciona que Paulo da Silva Prado, colaborador financeiro da Klaxon, cogitava substituir a revista modernista por uma nova, a Knock-out, da qual participariam Blaise Cendrars, Goll, Chagall e outros, mas a publicação não logra.*19

A poesia de Goll inspira a música erudita. Com base na figura medieval Melusine, ao longo de sua vida, ele compõe várias versões do libreto de ópera homônima. Em 1927, estreiam no palco de Berlim dois trabalhos seus em parceria com Kurt Weill - compositor que colaborou com o dramaturgo e poeta Bertolt Brecht entre outras composições musicais com a Ópera dos três vinténs para a peça homônima, a ópera Royal Palace e a cantata Der neue Orpheus.

Em 1922, Ivan Goll edita Les Cinq continents - anthologie mondiale de poésie contemporaine. Envolvendo o trabalho de 45 tradutores, o livro integra contribuições de poetas provenientes de cinco grupos: anglo-saxão, eslavo, germânico, oriental - composto por países como: Japão, China, Índia, "Judeus", Turquia, índios do sudoeste americano e negros da África -, e o grupo latino, com os nomes da França, Bélgica, Espanha, Catalunha, Itália, Portugal, Grécia, Romênia e América Latina. Da última região, seria importante especificar os poetas participantes: Ruben Dario (Nicarágua), Amado Nevo e Santos Chocano (México), José M. Egurén e Alberto Guillén (Peru), André Chabrillon (Argentina) e Vicente Huidobro (Chile).

No prefácio à antologia, Goll conclama o leitor a somar a própria imaginação à leitura. Destaca como os poetas revelam através dos poemas os verdadeiros valores dos países longínquos, a vida autêntica; mais do que as ciências e a política, a arte seria a consciência do mundo - que é o próprio artista. O ambicioso objetivo expresso é fazer do projeto um símbolo do tempo, quando tecnologias dinâmicas e modernas possibilitavam o dinamismo e a velocidade imprescindíveis à iminente substituição das literaturas nacionais pela literatura mundial. "Recomecemos sempre", reporta-se ele ao lema de Heródoto. "Eis a poesia, o eterno refúgio de quem é ciente da ilusão. Sim, pois não há nada de novo na face da Terra. O homem está sempre carente de poesia."*20

Goll, um poeta. Para encerrar este artigo em sintonia com o propósito que movia o artista, apresento duas traduções de poemas afinados com a noção cosmopolita. O primeiro é "A Canção de João Sem-Terra, O Duplo", um segmento do longo poema épico "La Chanson de Jean sans Terre"/"Das Lied des Johann Ohneland", traduzido do francês e do alemão, já que o próprio poeta bilíngue escrevera ambas as versões. O segundo, traduzido a partir da versão alemã "Der Varieté-Neger", é "O Negro do Teatro de Variedades", inspirado na figura do negro artista dos palcos europeus nos anos 20.

O longo poema "Jeans sans Terre" alude ao mito cristão do judeu errante e pode ser lido como referência autobiográfica do poeta, igualmente um cidadão inquieto e itinerante, que morou em tantos lugares diferentes. Abaixo, a apresentação de Claire e Yvan, os primeiros versos, que trazem a apresentação do personagem bem no início do périplo, e a seguir um dos capítulos:

O herói do poema não é um famoso monarca inglês, mas um contemporâneo, o indivíduo, o sonhador, que foi expulso de todos os países e vaga de continente em continente à procura de Deus e da própria alma, com o profundo desejo de um dia libertar-se de sua sombra simbólica. João Sem-Terra sabe que o homem cá na Terra nada pode possuir, principalmente a si mesmo, já que é cativo de forças desconhecidas. A canção conta da ansiosa viagem de um homem em torno do irrequieto planeta e em torno de seu eu. Esse peregrino percorre não somente os caminhos da crosta terrestre, mas também da Via Láctea. [...]

Em suma, João Sem-Terra é o homem que queima os olhos no planeta carregado de eletricidade. Que fere a testa nos espinhos das nuvens e as mãos nos arames farpados de fronteiras passadas e futuras. O peregrino de mil faces que oscila de sonho a sonho teme encontrar-se ou ser encontrado. O peregrino suspeito de olhos estrelados que em vez de passaporte apresenta o coração e por isso nunca tem permissão para entrar. O vagabundo sem nome, sem teto, que come à mesa servida sobre o abismo ou sobre a cratera de um vulcão, o estrangeiro do além, que nada deseja senão a passagem invisível: a do compassivo poeta que sente a dor de todos.

***

Eu sou João, o apátrida
Da velha origem
Que anda pela vida
Sem bagagem ou fim.

Quantos ancestrais
Um dia me precederam

***

A canção de João Sem-Terra, o Duplo

À deriva
Entre rios rivais,
A margem do desejo, a margem do esquecimento,
Minha vaga divaga
Minha vida flui
À mercê do rio incandescente.

Eu sou o único e o ser duplo
O rio do coração em verso e anverso
Altos e baixos cruzando ao revés de sorte e morte
Sou o eu d'agora e já memória

Mire o rio: tu vês corpo e alma
Se te umedeces a mão, ela se cobre de nuvens,
A lua floresce em meio a algas alvas
O peixe chispa entre esferas de fogo

Eu sou o instante com dupla mensagem
Embora minha margem direita ignore a da esquerda
Meu nome casa oeste e leste
Sou as bodas entre o sim o não

Dos peitos de Leda bebi inocência e experiência
Da inocência à experiência trama a fatal aranha
Que tece pontes proibidas, as pontes de sonho
Malditas encantadas, as pontes do meio-dia.

O presente passa por santidade e sabedoria
A corrente liga ambos os polos de morte e vida
E entre a rosada aurora e o crepúsculo púrpura
O rio tenebroso afixa um bloqueio espesso

Da mão esquerda de carne à mão pálida da alma
O rio de sangue conta as vagas do tempo
O rei do coração sou há muito a passagem
Jogando em dois lados ganharei a morte

Homem às duas margens sou eu, homem
De dois perfis: o santo e o assassino
Meu tronco heroico aporta nuca indolente
Meu fêmeo seio cerra meu viril flanco

Mão direita, que fazes de tua mão esquerda?
Ombro, não ludibrias a esquerda coxa?
As mãos direitas não se dão que às direitas
Solitárias como mãos d'árvore são mãos de coração.

Como minha mão esquerda alcança a direita?
É preciso atravessar o mundo para tocar a outra margem
Todavia, entre ambas, corre o cego rio
Pleno de imortalidade e de justiça.*21

Entusiasmado com a vitalidade e a espontaneidade dos artistas do espetáculo "Neger-Revue", Goll noticia seu encantamento: "os negros conquistam Paris. Os negros conquistam Berlim." E, no final do artigo, reflete que o problema africano ainda dará o que falar: "os negros precisam de nós? Ou somos nós que precisamos deles?"*22 O espetáculo inspirou, além do artigo mencionado, o poema abaixo:

O Negro do Teatro de Variedades (1924)

Desbunda na Europa!
Pousa a cabeça sobre volumes almiscarados de putas!
Cigarros Manoli evolando-se azulados!
A vida é doce, meu irmão!

Mas eu sei, quando o piano arrota
E os bandolins arranham-te o coração
Vibra profunda tua floresta.
Sombras de búfalos migram milenares por corredeiras pedregosas,
Sol pisoteando dourado verão.

Infinda então cresce a saudade!
Lágrimas pingam no Tipperary,
Garçons pairam sobre ixoras rubras, feito deus um dia,
E o hipopótamo em seu peito urra mundo afora!*23

 

 

Recebido em 31/07/2011
Aprovado em 10/09/2011

 

 

Maria Aparecida Barbosa

Professora do Curso de Alemão e do Programa de Pós-Graduação em Literatura da UFSC. Crítica e tradutora de literatura, publicou pela Globo Livros a tradução de Rainer Maria Rilke, Cartas natalinas à mãe; pela Editora Hedra, contos de Ludwig Tieck, Feitiço de amor e outros contos; e pela Cosac Naify A janela de esquina do meu primo. Tem várias traduções de E. T. A. Hoffmann no prelo. Em pós-doutorado na Alemanha, prepara um livro de textos literários de Kurt Schwitters. aparecidabarbosaheidermann@gmail.com.

 

 

*1 (EDSCHMID, Kasimir. "Vorwort". In: Goll. Iwan Goll Claire Goll Briefe. Mainz/Berlin: Florian Kupferber, 1966: 7.         [ Links ])
*2 (GOLL, Iwan. "View Poets: Iwan Goll". View. Ed. Charles Henri Ford, [1]. New York (December 1940-January 1941):4.         [ Links ])
*3 (VALENTIN, Jean-Marie apud GLAUERT-HESSE, Barbara. "Je n'appartiens qu'à l'Europe". In: Europe Revue. Paris: Charles Dobzynski, 2004: 116.         [ Links ])
*4 (GOLL, Yvan. Die Lyrik in Vier Bänden. Editado e comentado por Barbara Glauert-Hesse. Berlim: Argon, 1996: 27/I.         [ Links ])
*5 (Ibidem: 37.)
*6 (GOLL, Ivan. "Der Expressionismus stirbt". In: Zenit 1-8, 1921: 8. Disponível na Biblioteca Digital Mundial on-line em 01/02/2012:http://www.wdl.org/en/item/2327/zoom/#group=1&page=8.)
*7 (GOLL, Ivan. "Von neuer französischen Dichtung". In: Die Neue Rundschau 31 [Freie Bühne], 1. Berlim, 1920: 103-110.         [ Links ])
*8 (ANDRADE, Mário de. A Escrava que não é Isaura - discurso sobre algumas tendências da poesia modernista. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010: 31.         [ Links ])
*9 (GOLL, Ivan. "Der Expressionismus stirbt". In: Zenit 1-8, 1921: 8. Disponível na Biblioteca Digital Mundial on-line em 01/02/2012:http://www.wdl.org/en/item/2327/zoom/#group=1&page=8.         [ Links ])
*10 (GOLL apud SCHMIDT, Heike. Art mondial: Formen der Internationalität bei Yvan Goll. Würzburg: Könighausen & Neumann, 1999: 44.         [ Links ])
*11 (GOLL, Ivan. Ich sterbe mein Leben: Briefe 1931-1940. Literarische Dokumente zwischen Kunst und Krieg. Editado e comentado por Barbara Glauert-Hesse pela Fondation Goll. Frankfurt e Berlim: Limes, 1993: 184.         [ Links ])
*12 (GOLL, Ivan. "Homer unserer Zeit - über James Joyce" (Homero de nosso tempo - sobre James Joyce). In: Die Literarische Welt, 3º, ano 24, 1927: 1-2.         [ Links ])
*13 (Tucholski, Kurt. "Ulisses". In: Die Weltbühne, 47, 1927: 788. Disponível on-line em 28/11/2011: http://www.textlog.de/tucholsky-ulysses-joyce.html.         [ Links ])
*14 (GOLL. "Ulisses: sub specie aeternitatis". In: Die Weltbühne, 52, 1927: 960. Disponível on-line em 28/11/2011: http://www.archive.org/stream/DieWeltbhne2321927#page/n971/mode/thumb.         [ Links ])
*15 (GOLL, Iwan. "Kinodrama". In: Kaes, Anton (editor). Kino-Debatte - Literatur und Film 1909-1929. Tübingen: Max Niemeyer, 1978: 136.         [ Links ])
*16 (GOLL, Iwan. "Lettre a Guillaume Apollinaire". In: Iwan Goll Oeuvres em 4 volumes, vol. I. Paris: Emile-Paul, 1968: 82.         [ Links ])
*17 (ESCOREL, Lílian. "Escritura à margem: criação poética de Mário de Andrade nas páginas da revista L'Esprit Nouveau". In: Mário Scriptor. Edição Telê Ascona. São Paulo: EdUSP, 2010.         [ Links ])
*18 (DUARTE, Paulo. Mário de Andrade por ele mesmo. 2ª. Ed. São Paulo: Hucitec/PMSP, 1985: 292.         [ Links ])
*19 (WALDMAN, Thais Chang. "Espaços de Paulo Prado: tradição e modernismo". In: artelogie, n. 1. Paris: EHESS, 2011.         [ Links ])
*20 (GOLL, Ivan. Les Cinq continents - anthologie mondiale de poésie contemporaine. Paris: La Renaissance du Livre, 1922.         [ Links ])
*21 (GOLL, Yvan. Die Lyrik in Vier Bänden, vol. 3. Editado e comentado por Barbara Glauert-Hesse. Berlim: Argon, 1996.         [ Links ])
*22 (GOLL, Ivan. "Die Neger erobern Europa". In: Die literarische Welt 2-3, 1926: 19.         [ Links ])
*23 (GOLL, Iwan. "Der Varieté-Neger". In: Ba
βler, Moritz (editor). Literarische Moderne - das groβe Lesebuch. Frankfurt: Fischer, 2010: 578.         [ Links ])
1 As traduções incluídas neste artigo são de minha autoria, com exceção da citação de Goll que Mário fez em português e do resumen, presente de Meritxell Hernando Marsal.
2 O poema abaixo integra o livro Films:
"Brasileira"

Antigas florestas azuis, caudais anis...
Admiro teus sombreados verões!
Teus olhos mistos de negros venenos
Esganam-me o profundo sofrimento.

Tu farejas alga e mar,
Vibrante praça ao porto com chapéus de cores.
Teu andar, um marrom sussurro de cafezais floridos.
E teus escravos me trazem ante teu amor.

E com cachos cálidos te cerco de friagens
Para teu encanto solar...
(GOLL, Yvan. Die Lyrik in Vier Bänden. Editado e comentado por Barbara Glauert-Hesse. Berlim: Argon, 1996: 14 I.         [ Links ])
3 A concepção mística e utópica de esperança na união entre os povos é sintetizada no Canal do Panamá:
A Festa
Tudo, o que é teu, Terra, será fraterno um dia,
Toda água, as amargas e as doces,
Efervescentes fontes, as correntes frias,
Todas confluentes.
(GOLL 1996: 23 I.)
4 Paula Ludwig morava em Ehrwald, na Áustria. A partir de 1938, a pintora e poetisa muda-se para a Suíça, depois vai para a França. Entre 1940 e 1953, mora no Rio de Janeiro e em São Paulo. Essa carta de Goll a Paula tem sobrescrito de Paris.
5 Quando Joyce morre em 1941, Goll lhe rende a homenagem póstuma, com a lembrança sobre o aniversário de 1939 do poeta irlandês. Embora adoentado, conta Goll, Joyce estava alegre como um menino por ter recebido de presente do editor o Finnegans Wake impresso. (GOLL, Ivan. "Odysseus Joyce". In: Aufbau - das jüdische Monatsmagazin, n. 3, 1941: 5.)
6 No Brasil, podemos pensar o conjunto arquitetônico da Pampulha, ou o projeto da cidade de Brasília, como síntese do propósito da arte modernista de reunir várias formas.
7 Um antecedente dessa cômica mélange de formas é a novela Princesa Brambila, de E. T. A. Hoffmann, escrita cem anos antes da obra de Goll/Léger, e que conjuga literatura, commedia dell'arte e gravuras do ilustrador francês Jacques Callot. Minha tradução ao português continua inédita.