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Alea : Estudos Neolatinos

versão impressa ISSN 1517-106X

Alea vol.13 no.2 Rio de Janeiro jul./dez. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1517-106X2011000200009 

TRADUÇÃO

 

Sobre a incompreensibilidade

 

 

Friedrich Schlegel

Apresentação, tradução e notas: Bruno C. Duarte

 

 

Apresentação

I

Durante os anos da sua publicação, entre 1798 e 1800, o Athenäum, principal órgão do chamado Primeiro Romantismo Alemão, sofreu violentos ataques públicos da parte de vários autores, quer através de recensões em revistas de literatura, quer sob a forma de sátiras destinadas a ridicularizar em particular os irmãos August Wilhelm e Friedrich Schlegel. Tais acusações visavam essencialmente os fragmentos, tidos por incompreensíveis, e ditaram em grande medida o fim da revista.

No último número do Athenäum, em 1800, Schlegel publicou um ensaio, começado aparentemente em setembro de 1798 e retomado com maior intensidade no inverno do ano seguinte, a que deu o título "Sobre a incompreensibilidade". A estrutura aparentemente irregular desse texto desenvolve a fundo sua dupla motivação. Por um lado, o gesto de Schlegel é claramente polemista, na medida em que constitui uma reacção imediata à hostilidade manifestada pelos seus detractores. Por outro lado, a essa questão propriamente circunstancial ou histórico-literária - a pergunta pelas razões particulares do suposto carácter incompreensível do Athenäum -, sobrepõe ele de imediato uma outra, a que se poderia chamar estrutural ou teórica, que tenta pensar em termos gerais o problema da origem da incompreensibilidade. Na lacuna entre os dois registos - polémico e argumentativo, particular e geral -, na linha descontínua da sua coexistência, agita-se algo de decisivo para todo o pensamento moderno.

O ensaio enuncia abertamente sua questão: a comunicação de ideias é ou não possível? Dessa interrogação genérica parte um rasto programático, que enumera os vários momentos do seu propósito:

a) provar o carácter relativo da incompreensibilidade, isto é, refutar a posição da incompreensão como razão evidente e fundamento intocável do incompreensível.

b) denunciar o modo como a "mais pura e genuína incompreensibilidade" emerge do espaço mais inesperado, a saber, da hegemonia da linguagem como aspiração à compreensibilidade total: a ciência e a arte, a filosofia e a filologia.

c) mostrar a autonomia reflexiva da língua ou a reflexividade da linguagem na compreensão intrínseca de si mesma: "as palavras compreendem-se muitas vezes melhor a si próprias do que aqueles que delas fazem uso".

II

O método de Schlegel consiste essencialmente em pôr à prova as hipóteses de resolução da sua questão, fazendo a rotação da incompreensão para a incompreensibilidade: sempre que esta última é posta em movimento, vê-se reconduzida à pergunta pelo seu começo. À medida que vai avançando em sua exposição, Schlegel recupera de cada vez o seu tema através da subtracção das variações que o constituem.

Desde o início, o problema divide-se continuamente entre a incompetência do leitor para compreender o texto e a incapacidade do texto em fazer-se compreender pelo leitor. Dessa cisão decorre nomeadamente a diferenciação qualitativa entre os vários tipos de incompreensão: a dos que nada compreendem, por um lado, e a dos que tudo querem ou creem compreender, por outro.

Fixando-se desse modo na figura da receptividade, Schlegel começa por considerar, nomeadamente a partir da ideia providencial do diálogo ou da conversa, Gespräch, a formação (a "construção" ou a "dedução", nas suas palavras) de um novo leitor, constituído pelo próprio confronto que o liga ao texto - uma instância de projecção a que ele chamará também, noutro lugar, "um autor na 2ª potência", um sujeito actuante da "verdadeira crítica", ou no qual verá (no fragmento 112 do Lyceum) a obra viva de um "escritor sintético".

A essa primeira solução, deixada em suspenso, junta-se uma evocação dúbia: a utopia de uma linguagem universal, universalmente compreensível por todos em todos os instantes, cuja relação de imediatez com as palavras, e destas com as próprias coisas, a aproximaria intimamente da realidade ou a faria mesmo, no grau superlativo de sua artificialidade, coincidir com ela. Assim é posta em jogo - e, logo, em causa - uma segunda construção, visando desta vez uma linguagem "real" ou verdadeira, situada na origem da acção propriamente dita e capaz de dar à parte impalpável e fugaz do pensamento uma clara articulação.

Essas duas hipóteses, enunciadas sob o signo da deslocação - do sujeito para o objecto da incompreensão, da manifestação subjectiva para a origem material da incompreensibilidade -, resumem todo o dilema, retraindo-o. Pois, se a incompreensibilidade não for imputável nem ao poeta, isto é, a uma dada intenção do autor, nem, por outro lado, ao leitor, incapaz de apreender essa intenção, e por isso mesmo alheio ao significado que ela traz em si, resta o próprio meio da comunicação, o lugar em que se manifesta a incompreensibilidade enquanto tal.

A questão que põe a questão sobre a possibilidade de comunicar ideias desloca-se assim do uso da linguagem para a própria linguagem, que desse modo se torna indefesa, isto é, incontrolável. Uma formulação inicial da questão, normativa ou reguladora, passa a dar-se como uma interrogação plana sobre o tempo e o espaço próprios da incompreensibilidade, cuja relatividade é dirigida pelos dois focos - receptivo-dedutivo (as figuras do leitor presente e do leitor futuro) e produtivo-indutivo (a aspiração a uma objectividade de princípio da linguagem) - e deixada a pairar sobre ambos.

O modo como Schlegel se defronta com a insuficiência dessas duas instâncias, passando muito rapidamente de uma leve desconfiança ao sarcasmo mais declarado, da maior sobriedade ao tom escarnecedor, anuncia a continuação e, na verdade, o ímpeto, o que equivale a dizer: a ambição prática de seu texto.

Com efeito, quando regressa ao motivo particular de sua contenda, o Athenäum, é para tudo fazer convergir num conceito cuja ubiquidade era aí notória: a ironia. O que parecia apresentar-se como um exame pontual da incompreensibilidade, subordinado por inerência à categoria do discursivo, transforma-se assim repentinamente num método rasante de decomposição da ironia: das suas características, do seu sistema, dos seus géneros, da localização do seu início e do seu fim, do tempo da sua manifestação e do enigma do seu desaparecimento.

III

Schlegel avança cumulativamente, sem hesitações, em sua definição conceptual da ironia. O exercício de autocitação, o estudo da letra dos seus fragmentos julgados "incompreensíveis" fazem-no chegar com facilidade às duas figuras exemplares - a "dissimulação inteiramente voluntária e inteiramente reflectida" e a "forma do paradoxo" - que configuram o ponto preciso em que as duas questões, ironia e incompreensibilidade, se tornam numa única. Tudo, na observação da ironia e das suas gradações, aponta para essa afinidade: a incompatibilidade lógica dos opostos, a suspensão do juízo, a ruptura com o circuito fechado da ordem semântica, a neutralização da intenção e do determinismo autorais, e assim por diante.

Ora, o essencial em tudo isso consiste em ver o modo como as conclusões a que chega Schlegel alastram na verdade ao interior de seu texto. O próprio da ironia, defende ele, é sua proliferação indomável, para a qual não há remédio. Sua natureza autorreflexiva, seu mover-se no espaço da própria oposição, levam-na a disseminar-se sem fim por todo lado: nada lhe é imune, nem mesmo o discurso que disserta sobre ela. O mesmo se aplica, por inerência, ao incompreensível.

Não muito longe do início de seu texto, Schlegel antecipa esta dificuldade inerente ao seu objecto: qualquer discurso sobre a incompreensibilidade aspira na sua raiz a ser compreensível, e tem por isso de tomar as maiores precauções, para que todo o seu esforço não se ponha "a girar num círculo demasiado palpável". Tal circularidade corresponde concretamente àquele que seria, na enumeração tipológica que propõe Schlegel das várias escalas da ironia, o género dos géneros: a "ironia da ironia", isto é, um grau extremo da reflexividade que é impossível conter ou controlar e que introduz, por sua vez, a forma do paradoxo elementar subjacente a todo o ensaio, a saber, a pergunta pelo grau de compreensibilidade que pode existir num texto sobre a incompreensibilidade.

Numa palavra, dir-se-ia, simplificando os termos, como é possível garantir uma inteligibilidade - um postulado inequívoco de clareza - no discurso sobre a incompreensibilidade, quando ambas, palavra incompreensível e palavra sobre o incompreensível, recorrem ao próprio órgão no qual nasce exemplarmente, sob o signo da ironia, a sombra da própria incompreensibilidade, isto é, não a abstracção da linguagem, mas o enigma e a propriedade incalculáveis da língua?

IV

Parece tratar-se aqui de algo da ordem da evidência: um texto sobre a incompreensibilidade, e sobre a ironia que a precede, nunca poderia estar a salvo de ser literalmente apanhado, cingido por essa mesma incompreensibilidade. Ao pôr a questão, ele deixa-se enredar, fica deposto nela, torna-se cativo de seu objecto. Era essa, certamente, a percepção de Schlegel quando, numa carta a Schleiermacher, dizia do seu "velho ensaio sobre a incompreensibilidade" que este tinha degenerado em grande medida numa "fuga de ironia", tendo-se despedaçado e ficado "em nacos".

Não obstante, o grande exercício do seu texto está no modo como ele faz desse embaraço, dessa vulnerabilidade - a cedência à ironia devoradora e a incompreensibilidade à espreita - o próprio móbil não apenas da sua escrita, mas do efeito de irrisão que ela implica. É esse também o último reduto, a consequência derradeira da argumentação curvilínea de Schlegel, que espelha liminarmente a elasticidade do conceito de reflexão: a coragem da autoinclusão no seu objecto, que deixa assim necessariamente de lhe pertencer, ou ainda, para o dizer de outro modo, a renúncia a uma exterioridade determinada face ao desdobramento em que vive o pensamento na sua relação com as palavras.

Terá Schlegel escrito uma apologia da incompreensibilidade, como o sugere um dos seus parágrafos finais, que dela faz depender a preservação da comunidade, da estrutura política e dos sistemas de pensamento? Na sua exposição insinua-se por várias vezes a ideia, recorrente em muitos dos seus escritos e contígua aos fundamentos da sua crítica hermenêutica, de uma compreensão superior ou alargada, que assume por princípio o incompreensível como algo de intrínseco ao acto da compreensão, vendo neste último, à imagem do que sucede com um texto clássico, uma tarefa interminável que não pode já ser reduzida à simples recepção, produção ou transporte do sentido. Da mesma maneira, a incompreensão teria de ser algo mais do que um mero valor indeterminado, uma pura inversão do valor absoluto que seria seu contrário. "Há um não compreender puramente negativo, e um não compreender positivo", diz um fragmento desse período. Numa tal negatividade produtiva do acto da compreensão, que excede a mera racionalidade discursiva, a logicidade conceptual do pensamento no sentido estrito, é deixado intacto um resto incompreensível e contraditório: um "limite sagrado" no qual esbarra o entendimento, um traço obscuro que deve permanecer na obscuridade e que é errado transgredir, visto que dele depende também o princípio de constituição do mundo como totalidade, a sua reserva de infinitude, o ponto do seu caos originário. Daí a asserção categórica, contida num esboço de 1798, que poderia servir de mote a toda a inquietação de Schlegel: "Ficar frente a frente com a esfera da incompreensibilidade e da confusão constitui um elevado grau, talvez o derradeiro, da formação do espírito."

V

O traço fundamental do ensaio "Sobre a incompreensibilidade" reside antes de mais nada na forma como leva a cabo a destituição de um conceito geral, abstracto da linguagem, escolhendo renunciar à ideia de uma compreensibilidade universal (de tudo por todos). Admitindo que toda a compreensão se resume a uma aproximação sem fim, a uma pulsão sem cumprimento ou a um supremo engano, a necessidade da aspiração à absolutização da compreensibilidade tem de ser proporcional ao grau de sua impossibilidade.

Schlegel põe à prova, numa mistura de autojustificação e escárnio, circunspecção e zombaria, a possibilidade que lhe está reservada de se subtrair à incompreensibilidade reflectindo sobre ela. O seu texto é uma descrição trocista e séria - ainda de acordo com uma das suas muitas definições da ironia - da condição que rege não apenas o sujeito, mas a matéria na qual se move a "comunicação das ideias". Sua ambição mais própria consiste em transformar-se a si mesmo no corpo experimental da experiência que pretende realizar, a saber, a tentativa de examinar o hiato entre a linguagem e a língua, universal e particular. A sua finalidade imediata resume-se a tornar impossível a detecção conclusiva do tom "trocista" e do tom "sério", da vocação subversiva da ironia e da sua negação, respectivamente. O seu fulcro implica pois uma magnificação da ironia da ironia, cujo movimento consiste em revirar-se, saindo continuamente para fora de si mesma e subtraindo-se à sua fixação derradeira.

Para concluir seu texto, Schlegel entrega-se a uma breve e fulgurante descrição de um cenário de tempestade que faz ribombar os trovões "no horizonte da Poesia", provocando uma cisão de cima abaixo no curso da história, fazendo luz e difundindo clareza. O Iluminismo prepara-se para ser iluminado: o novo século, assim parece, trará consigo a cura para o mal da incompreensibilidade. Na sua obliquidade, e sob o signo do paradoxo, a paródia do optimismo histórico é aqui ostensiva. O tom enfático da profecia ironizada sobre a "nova época" não esconde o sinal claro de uma renúncia ao páthos: a falência da universalidade, da circunscrição completa das ideias na linguagem, é agora não simplesmente negada, mas posta a ridículo, por assim dizer, de forma imanente.

Torna-se por fim visível o fundo relativo pelo qual a linguagem cede à língua, que se dá então como uma instância única, incerta e incalculável, na qual as palavras se compreendem entre si à revelia daquele que acredita exercer domínio sobre elas. Tal como o autor é desapropriado da sua autoridade pela ironia que se espalha nas palavras que inscreveu - ou deixou que se inscrevessem - no papel, assim o leitor é levado ao desequilíbrio, deixado a fitar o tempo oscilante do sentido que corre na latência do texto. O mesmo é dizer que o sentido é sempre corruptível, a exterioridade absoluta, sempre impossível, a linguagem universal, sempre ilusória: o movimento estonteante criado pela ironia da ironia - uma das funções da língua na sua resistência à linguagem - impede sucessivamente o desígnio de uma compreensibilidade omnisciente, inerente ao que seria a comunicação total.

No seu epílogo, Schlegel articulará ainda, uma última vez, a metáfora da compreensão como figuração do precipício da língua. Sua inferência é distinta, e aguçada: aquele que crê ter encontrado seu equilíbrio, e que por isso confia sem reservas na solidez de sua própria compreensão, está prestes a encontrar o aturdimento que o fará girar - que o fará reincidir na incompreensibilidade. O ponto da compreensão não pode ser fixado a não ser sob o risco do seu desmoronamento. Aquele que tenta compreender está exposto à incompreensão; aquele que se ergue e fica de pé está sujeito ao pior, arrisca-se a perder o ponto de apoio, a vacilar, e a tombar. "E quem estiver de pé, que não caia", conclui Schlegel, parafraseando Goethe. A compreensibilidade move-se no limite da sua vertigem, o entendimento é giratório: vive na tentação do equilíbrio, mas apresta-se à queda.