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Alea: Estudos Neolatinos

Print version ISSN 1517-106XOn-line version ISSN 1807-0299

Alea vol.21 no.1 Rio de Janeiro Jan./Apr. 2019

http://dx.doi.org/10.1590/1517-106x/211361377 

Artigos

Os dicionários de dúvidas: ferramentas para o falante nativo

Language usage guides: language tools for the native speaker

Félix Valentín Bugueño Miranda1 
http://orcid.org/0000-0001-6234-101X

1Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS - Brasil

Resumo

Os dicionários de dúvidas são obras quer almejam auxiliar os falantes de uma língua quando estes apresentam alguma dificuldade em lidar com algum determinado uso e/ou quando os mesmos julgam que podem ter cometido uma incorreção linguística. A partir de uma avaliação de três obras do gênero, pertencentes às tradições de língua espanhola, francesa e portuguesa, o objetivo do presente trabalho é estabelecer sob quais condições o auxílio ao consulente seria realmente eficiente. As condições básicas para tanto são: a) uma doutrina no uso da língua; b) uma orientação explícita; e c) uma confiança recíproca entre os falantes de uma língua e as instituições que orientam o seu uso, tais como as academias de língua e os próprios dicionários de dúvida, por exemplo.

Palavras-chave: Orientação no uso da língua; Dicionários de dúvidas; Português; Espanhol; Francês

Abstract

Language Usage guides are reference works designed to help speakers when they have doubts employing the language or believe they have made a mistake. This paper aims to determinate under what conditions some user guide may indeed help users in an efficient way. The evaluation´s scope included three user guides of Spanish, French and Portuguese. Basic conditions for a successful help are a solid theoretical framework in using a language, an explicit orientation how to use it and a mutual confidence between the speakers of a language and the institutions that consolidate its use such as Language Academies or the reference works that assume this task.

Keywords: Language use orientation; Language usage guides; Portuguese; Spanish; French

Resumen

Los diccionarios de dudas son obras de referencia que aspiran a auxiliar al hablante nativo en casos de dificultad en el uso de la lengua o cuando percibe que comete una incorreción lingüística. A partir de una evaluación de tres obras de este género, provenientes de las tradiciones de lengua española, francesa y portuguesa, el objetivo del presente trabajo es establecer bajo qué condiciones el auxilio sería realmente eficiente. Condiciones básicas para este auxilio son una doctrina del uso de la lengua, una orientación explícita y una confianza recíproca entre los hablantes y las instituciones que orientan su actividad lingüística, esto es, las academias y las propias obras que ejecutan esta tarea.

Palabras claves: Orientación en el uso de la lengua; Diccionarios de dudas; Portugués; Español; Francés

Introdução

Bugueño Miranda (2013, p. 32) salienta que todo dicionário tem sempre um efeito normativo, seja essa a intenção explícita do lexicógrafo ou não. No entanto, é verdade também que nem sempre o dicionário orienta seu potencial usuário de forma efetiva, seja porque a orientação no uso da língua não é clara1, seja porque o próprio consulente não sabe como procurar apropriadamente informação na obra lexicográfica2, ou seja, porque não consegue tampouco compreender essa orientação3. É em função desse fato que existe uma classe específica de obras lexicográficas que tem por objetivo orientar o usuário da língua quando surge uma dificuldade ou dúvida no uso da mesma. Nesse sentido, razão tem Tarp (2013, p. 56) ao afirmar que “[...] obras lexicográficas [...] são [...] tipos de texto produzidos [...] para satisfazer necessidades específicas de informação”4. Essa classe de obras recebe designações tão variadas como dicionário de dúvidas, dicionário de incorreções ou dicionário de dificuldades etc. (DLexPr - Diccionario de Lexicografía Práctica, 1995, s.v. diccionario de incorreciones). A essas designações deve acrescentar-se também a de guia de uso [usage guide] (DLex - Dictionary of Lexicography, 2001, s.v. usage guide). Além da variação designativa, essas obras de referência apresentam um conjunto bastante heterogêneo de informações.

O objetivo do presente trabalho é avaliar três obras que se preocupam com as dúvidas em torno do uso da língua. Algumas estão destinadas para o auxílio em caso de dúvidas na própria língua materna. Outras estão desenhadas especificamente para solucionar dúvidas que surgem de situações de ensino-aprendizagem de uma língua estrangeira. Este tipo de obra não será avaliado nesta oportunidade.

1. A incorreção

Primeiramente, no entanto, é fundamental se questionar em que âmbito se situa a incorreção idiomática.

No que diz respeito à língua materna, Moreno de Alba (1995, p. 113) distingue entre o correto e o exemplar, precisando que o correto se refere à propriedade no uso de uma forma linguística em relação com o conjunto de línguas funcionais que constitui uma língua histórica (norma ideal / norma real). Essa propriedade no uso está legitimada pela norma ideal, ou seja, uma norma que serve de orientação no uso da língua em determinadas circunstâncias. No caso da língua espanhola, um exemplo do correto é introduzir, sem elemento intermediário algum, as orações subordinadas de complemento direto de verba dicendi. Assim, por exemplo, a forma correta é “Me dijo que vendría”. Incorretamente, há falantes que introduzem a preposição de entre o verbum dicendi e a oração subordinada de complemento direto: “*Me dijo de que vendría”. Este uso é julgado como incorreto em todo o conjunto de línguas funcionais que constituem o espanhol (GRAMÁTICA DE LA LENGUA ESPAÑOLA - GRAM, 2010, §43.2.5a-b).

O exemplar, por sua vez, se refere à validade de uma determinada forma atrelada a uma ou várias línguas funcionais, mas não em todas. Assim, por exemplo, e ainda no âmbito do espanhol, há um tipo de oração comparativa que exprime um incremento quantitativo proporcional entre duas magnitudes paralelas: “Cuanto más se demoraba, más inquietos se ponían todos” [Quanto mais tardava, mais intranquilos ficavam todos]. No espanhol do México, no entanto, se emprega a variante “Entre más se demoraba, más inquietos se ponían todos”. Segundo Gram (2010, § 45.4.1a), e empregando a distinção proposta por Moreno de Alba (1995), essa variante é exemplar em parte do México e da América Central, mas é incorreta em outros pontos do diassistema do espanhol.

A dimensão que interessa neste trabalho é a orientação no uso da língua em relação à incorreção.

Em Neves (2003, p.11) temos que a orientação no uso da língua sem embasamento algum redunda em uma desconfiança e até rejeição a um repertório de dúvidas. O sucesso de um dicionário de dúvidas estriba-se justamente na fundamentação teórico-metodológica sólida em que esteja ancorado. Essa fundamentação teórico-metodológica, por sua vez, obedece não só a uma teoria sobre a língua e, particularmente, sobre o que se entende por incorreção, mas também, e não menos importante, à confiança que uma comunidade de fala deposite no órgão ou instituição que conceba e aplique essa teoria para as inúmeras dúvidas que surgem no falar de cada um dos membros de dita comunidade. Dito em outros termos, a confiança na orientação surge do fato que os falantes conseguem “se enxergar” também nessa modalidade que se denomina norma ideal; embora não a realizem sempre, é parte deles também.

2. A orientação em três dicionários de dúvidas

Em Bugueño Miranda (2014, p. 219) é proposta uma classificação de obras lexicográficas em função de princípios taxonômicos articulados em fundamenta divisionis. Para efeitos de classificação e seguindo o modelo estabelecido (BUGUEÑO MIRANDA, 2005, p. 228), a subdivisão pertinente arranca da haste “dicionário dianormativo de norma ideal”, que se subdivide segundo a macroestrutura, seja alfabético progressiva (BUGUEÑO MIRANDA, 2005, p. 25) ou de ordenação sistêmica [systematic macrostructure]5 (SVENSÉN, 2009, p. 377). Neste trabalho, só serão avaliadas as obras de progressão alfabética.

Em relação a estes dicionários, ditas obras possuem uma definição macroestrutural qualitativa que pode estar fundamentada em uma recopilação de erros e/ou dúvidas e dificuldades. No primeiro caso, se cumpre cabalmente com o preceito proposto por Bergenholtz; Bergenholtz (2013, p. 187) no sentido de que um dicionário “deve ser desenhado para um propósito específico e limitado” [must be designed for a specific and limited purpouse].

A essa linhagem lexicográfica pertence o Diccionario Panhispánico de Dudas (DPD, 2005) para o espanhol6. Na Introdução (p.1), se afirma que o repertório de dúvidas, que corresponde à definição macroestrutural qualitativa, é a resposta às dúvidas concretas que os falantes de língua espanhola comunicaram à Real Academia Española (RAE). Desta forma, o dicionário possui um propósito específico (solucionar dúvidas e orientar no uso da língua) e limitado (são elencados só casos que oferecem real dificuldade para os falantes).

Ainda no âmbito macroestrutural qualitativo, o DPD (2005) presta especial atenção aos neologismos, particularmente quando se trata de unidades léxicas exógenas à língua. Nesses casos, a orientação acontece em duas direções: ou o estrangeirismo é rejeitado por contar o espanhol com uma unidade léxica vernácula:

  • singles “partido de tenis en el que se enfrentan solo dos jugadores” é um uso “desnecessário” [innecesario], já que, no espanhol, existe a forma “individual(es)” (s.v. single);

  • password → contraseña7;

  • ou plenamente aceito, por exemplo, byte “Por tratarse de una unidad de medida internacional, se emplea normalmente como extranjerismo crudo, con su grafía y pronunciación originales” (s.v. byte).

As unidades de léxicas de origem estrangeira, que já constituem empréstimos, recebem sempre uma representação ortográfica de acordo com os padrões fonológico-ortográficos vernáculos: delicatesen (al. Delikatessen), paspartú (fr. passe-partout).

Além do nível léxico, o DPD (2005) oferece também orientação nos níveis de organização da língua fonológico, ortográfico, morfológico e sintático (HENNE, 1982 para esse conceito), seja por uma correção explícita a partir da incorreção:

  • *ideosincracia, *ideosincrasiaidiosincrasia (s.v.);

  • número. sin númerosinnúmero (s.v.); ou seja por informações contidas nos próprios verbetes;

  • desdecir(se): “1. Verbo irregular: se conjuga como decir [...] (s.v.)”;

  • herir(se): “2. [...] Como transitivo, además del complemento directo de persona, puede llevar un complemento introducido por en [...] (s.v.)”.

Ao se tratar de um dicionário que conjuga as incorreções, dificuldades e dúvidas dos falantes com a doutrina no uso da língua da Real Academia Española, manifestada através de textos como Gram (2010), Ort ( Ortografía de la Lengua Española - ORT, 2010) e o Diccionario de la Lengua Española (DRAE, 2014), o DPD (2005), possui também verbetes temáticos, tais como acentuación, laísmo8, leísmo9, tilde etc.

Um exemplo notável de orientação, produto das dúvidas que acometem o falante, é o caso da articulação e correspondente representação ortográfica do grupo consonantal ps- (psicologia, psicoanálisis, psicosis), já que a articulação desse grupo em posição inicial absoluta é alheia aos padrões fonológicos do espanhol. S.v. p, o consulente é informado de que se admite a redução de ps > s na escrita, já que é essa a pronúncia geral dos falantes, muito embora se frise, também, que no registro formal da língua exista a tendência a manter a grafia ps. Em outros termos, o DPD (2005) reconhece a existência de uma variação diamésica [diamedial]10.

A tarefa da orientação no uso da língua é complexa, já que é necessário conciliar a atividade linguística de uma comunidade de fala (o érgon, segundo COSERIU, 1992, p. 254), e as vicissitudes que emanam dessa atividade, com a doutrina proposta por uma instituição, à qual a própria comunidade delegou um papel de orientação no uso da língua. Essa tarefa está sempre em um equilíbrio lábil, já que, em última instância, o falar modelar, para que efetivamente cumpra a tarefa de orientar, só se pode obter a partir do consenso da própria atividade dos falantes. Alarcos Llorach (1994, p. 18) lembra que tudo aquilo que o Appendix Probi condenou (“calidus non caldus”) acabou se impondo em grandes zonas da România. O DPD (2005) não escapa tampouco à aporia de ser juiz, testemunha e acusado no próprio processo de sanção idiomática.

Um exemplo disso é o substantivo ogro. Segundo o DRAE (2014, s.v.), o feminino de ogro se forma com o sufixo -esa (ogresa). Na acepção de “persona insociable o de mal carácter”, se pode empregar também como substantivo comum (el / la ogro). O DPD (2005, s.v.), no entanto, destaca que para essa mesma acepção, a palavra corresponde a um caso de epiceno (“suele emplearse el masculino para referirse a personas de ambos sexos”). As concordâncias de ogro em CORPES XXI demonstram que, nos poucos casos em que o referente é feminino, se utiliza o epiceno, de modo que a expressão “costuma-se empregar” em DPD (2005) não é completamente correta, já que, na verdade, a forma em masculino para designar tanto um referente masculino como feminino é a única opção possível. A opção de gênero comum marcada em DRAE (2014) não pode ser documentada.

No que diz relação à língua francesa, trata-se de uma língua com uma cultura da correção no uso da língua plasmada na expressão bom uso [bon usage] (BUGUEÑO MIRANDA, 2015). Nessa mesma esteira, Gouvert e Heidemeier (2015, p. 568-569) salientam que essa tradição de orientação é de longa data na história da língua francesa. Ao igual que no caso da língua espanhola (especificamente a Real Academia Española - RAE), é evidente que a preocupação do ente público (na forma das academias da língua) desempenha um papel fundamental em uma cultura de orientação no uso da língua, fato que se reflete tanto na confiança que o falante deposita nessas instituições como na presença, quantidade e qualidade das obras que desempenham a função de orientação.

BeDiff (2011) aborda praticamente todos os níveis de organização da língua: fonológico, ortográfico, léxico, morfológico e sintático. Segundo se afirma na Introdução [Avant-propos] (p.5), “Le Dictionnaire des Difficultés Bescherelle alerte sur les erreurs le plus fréquentes à nes pas commetre”. Não é possível, no entanto, estabelecer se os erros, armadilhas [pièges]11, e dúvidas sobre a língua que conformam a macroestrutura foram produto de uma recopilação ou não. Como salientado já, a compilação de incorreções e dúvidas a partir de situações reais de uso dos falantes confere aos dicionários de dúvidas uma funcionalidade extrema.

Um aspecto interessante de BeDiff (2011) é oferecer um corpo doutrinal em que há duas ordenações macroestruturais: a primeira corresponde a um repertório de dúvidas propriamente ditas, denominado, curiosamente, de “Dicionário de ortografia” [Dictionnaire d’orthographie], muito embora se tratem outros problemas de língua também. A segunda ordenação, também de ordenação alfabética, é um dicionário de termos gramaticais [Grammaire alphabétique] em que se alterna a descrição de cada fenômeno com orientações explícitas de uso.

Dentre as particularidades do francês, está a dificuldade dos próprios falantes em saber quando uma consonante em posição final se pronuncia ou não, fenômeno que se inscreve no âmbito das dúvidas ou vacilações frente ao uso da língua. BeDiff (2011) lematiza vários exemplos desse fenômeno tais como abrupt (“On prononce le p et le t”), (s.v.), fait (“Au pluriel on ne prononce pas le t”) (s.v.), plaid (“On prononce le d”) (s.v.).

No âmbito ortográfico, é perceptível a ponderação para julgar a tensão e vacilação em que se encontram, por exemplo, os nomes de origem estrangeira. Para a orientação nesta matéria, BeDiff (2011) segue o princípio type/token12. É prudente lembrar que em matéria de contribuições léxicas exógenas à língua, o francês conta com uma legislação específica que promove sempre a escolha de unidades léxicas vernáculas em detrimento daquelas exógenas à língua (WALTER, 1988, p. 330). No entanto, também é um fato ontológico da linguagem que as contribuições léxicas estrangeiras não se podem simplesmente eliminar, pois, há casos em que a comunidade decide consolida-las no uso (estrangeirismos ou empréstimos, segundo o grau de assimilação). Assim, por exemplo, em BeDiff (2011 s.v. féria) se reconhece também como opção ortográfica a variante original espanhola feria. De forma análoga, o estrangeirismo fjord admite também como variante secundária a forma fiord (s.v.). Estes exemplos demonstram que a avaliação da forma ortográfica canônica segue como critério o estágio de incorporação à língua em que se encontra cada unidade léxica. No primeiro caso, o type é a forma afrancesada féria, ficando como token a forma com a grafia espanhola. No segundo caso, o type é o estrangeirismo, fjord e o token é a forma afrancesada fiord. Evidentemente, a orientação se estende também ao léxico vernáculo, reduplicando-se muito frequentemente o segmento informativo de indicação ortográfica: jeûne (“Avec û”), littoral (“Avec tt”), querelle (“Avec un seul r”).

Sem dúvida alguma que a sintaxe corresponde também a um âmbito em que a orientação é fundamental. S.v. frère há uma orientação explícita em relação à regência: “[...] On dit le frère de Jacques et non x à Jacques”; s.v. obéir há uma indicação sobre genus verbi: “remarque Contrairement aux autres verbes transitifs indirects, obéir peut se mettre au passif [...]”.

No âmbito léxico, o fenômeno que recebe especial atenção é a paronímia: accident (“[...] Ne pas confondre avec incident”), reinette (“ [...] Ne pas confondre avec rainette”). Há também alguns casos de polissemia, como fabuleux, -euse: “Un animal fabuleux (= de legende) - Une fortune fabuleuse (= extraordinaire)”; romantique: “Une histoire romantique (= qui émeut, qui touche la sensibilité) - Un poète romantique , un romantique (= qui appartiant au mouvement du romantisme)”. Note-se que as Lesearten13 se obtêm a partir de combinações sintagmáticas que se poderiam denominar de prototípicas para cada uma delas.

Na junção entre léxico e sintaxe, se encontram os fenômenos das colocações e coligações. Embora BeDiff (2011) não explicite uma preocupação específica com essas classes de combinatórias léxicas, há casos claros de apresentação dos mesmas. Exemplos de padrões colocacionais são encontrados s.v. abroger: “v.t. On abroge une loi, un décret, mais on abolit un usage”; s.v. flambant: “flambant neuf: Un costume flambant neuf […]. On peut faire varier neuf, mais flambant est toujours inavariable”. Em relação a padrões coligacionais, um exemplo s.v. aussi: “[...] Comme conjonction, au sense de «c´est pourquoi», aussi entraîne l´inversion du sujet en langue soutenue […]”.

Está plenamente justificado afirmar que BeDiff (2011) é um dicionário que cumpre cabalmente com a função de orientação no uso da língua. Assim, por exemplo, no âmbito morfológico, se apresentam informações específicas para alguns tempos irregulares em determinados verbos (nourrir, perpétrer, veiller). Na mesma esteira, e retomando a problemática dos estrangeirismos, e, particularmente, a relação do francês com a aceitação de anglicismos é cautelosa. Quando a doutrina de tratamento dessas unidades léxicas (substituição do anglicismo por uma unidade léxica vernácula) não encontra respaldo no uso, BeDiff (2011) não duvida em assinalar o fato, como s.v. sponsorier “(...) remarque Les termes recommandés pour remplacer ces anglicismes (parraineur, parrainer; commanditaire, commanditer) ne sont pas répandus dans l’usage”. Outra manifestação de uma orientação explícita é o fato de repetir um segmento informativo, como acontece com as observações corretivas no âmbito ortográfico, ou a interdição clara de determinados usos, como s.v. fomenter (“ Bien dire fo et non x fro”), premier (“S’abrège en 1 er et 1re et non x 1 ère au fémenin”) e vous (“ Achetez-vous-en une et non x achetez-en-vous une”) demonstram que o dicionário assume claramente que a sua missão é guiar de forma clara e precisa.

No que diz respeito ao âmbito brasileiro, GUPB (2003, p. 13) é uma obra que “[...] tem como público-alvo qualquer pessoa [...] que [...] sinta algum tipo de dificuldade na formulação de seu enunciado”. A obra procura “[...] informar exatamente como estão sendo usadas pelos falantes as formas da língua portuguesa”. Nessa formulação, encontra-se sintetizada a sua metodologia, que é comparar a doutrina emanada de gramáticas e manuais (sem que, no entanto, se saiba quais obras são essas) com um corpus de 80 milhões de ocorrências, que corresponde à “norma culta escrita” (GUPB, 2003, p. 10).

Em termos de definição macroestrutural qualitativa, aparecem lematizados latinismos (ab ovo, in vino veritas etc). Os estrangeirismos, por outro lado, encontram também, evidentemente, uma generosa acolhida na obra. No entanto, seu tratamento não ajuda particularmente o consulente. Assim, por exemplo, lematiza-se gabardina, gabardine. Em relação ao seu uso, informa-se que “a forma francesa gabardine [...] é muito mais usada (75%)” (s.v.). Poder-se-ia pensar que se lematizou primeiro a forma aportuguesada (-ina) e logo o estrangeirismo (-ine) para respeitar a progressão alfabética. S.v. Patois, patoá, entretanto, assinala-se que tanto a forma francesa quanto a forma portuguesa apresentam a mesma proporção de representação ortográfica (50%). Desta vez, a progressão ortográfica não foi respeitada (-ois, -oá). Uma das tarefas básicas de qualquer dicionário é orientar o consulente em relação às unidades exógenas à língua, tanto no que diz relação à pertinência do seu uso, quanto a sua representação morfo-fonológica. Corresponde ao lexicógrafo estabelecer se, havendo duas formas (o estrangeirismo e o empréstimo), ambas estão igualmente legitimadas pelo uso (ambas são formas type) ou uma está mais legitimada que a outra (type / token). Do ponto de vista da lematização, a forma preferencial se lematiza primeiro e a secundária depois. Nos dois verbetes transcritos parcialmente, o consulente não tem como resolver a dúvida. No primeiro, se lematiza primeiro o empréstimo gabardina, mas no verbete se comenta que o estrangeirismo possui mais ocorrências no corpus. No segundo caso, se lematiza primeiro o estrangeirismo e depois empréstimo, indicando-se que ambas as formas possuem praticamente igual número de ocorrências. Fica por conta do consulente inferir que decisão tomar, o que não parece condizente com uma obra do gênero, por muito que se insista em que o consulente pode seguir as normas estabelecidas pela gramática ou se orientar pelo uso estatístico indicado (GUPB, 2003, p. 14). Na verdade, o consulente não tem como tomar uma decisão, e a falta de critérios para estabelecer type / type ou type /token tampouco ajuda14.

Como é de se esperar, GUPB (2003) dá grande atenção à ortografia. No entanto, considerando que a obra é anterior à entrada em vigência do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (2009), esse âmbito não será avaliado.

No âmbito fonológico, há uma clara atenção à ortoépia, que abarca unidades léxicas tanto vernáculas (dolo:” Indica-se tradicionalmente o O tônico como aberto, no singular e no plural” (s.v.)), imposto: (“O plural é impostos com O aberto” (s.v.)) como estrangeiras (fair play: “[...]. A pronúncia aproximada é fér-plêi” (s.v.).

Muito mais proveitosa é a análise de problemas morfológicos em que se esclarecem dúvidas tais como o plural de abaixo-assinado (pl. abaixo-assinados) (s.v.). No entanto, observa-se também uma ausência de uma orientação mais clara s.v. face a, face a face: “1. As lições tradicionais não recomendam a expressão face a (“em face de”, “ante”). Entretanto, ela é de uso corrente, e não apenas na linguagem popular”. É para se questionar o porquê não há uma orientação mais clara. Em relação à marcação do gênero nos substantivos que referem espécies animais, há verbetes como faisão, para os quais se assinalam duas formas de feminino: faisoa e faisã, advertindo-se que “a segunda forma não ocorreu [sc. no corpus]”15 (s.v.).

Não menos importantes são as dúvidas referentes à sintaxe. S.v. abdicar, por exemplo, o consulente é informado de que o verbo se pode construir com a preposição de, e menos frequentemente com a preposição a e também sem preposição (objeto direto). Um aspecto que merece destaque é atrelar a regência a determinadas Lesearten. No caso do mesmo verbo, indica-se que “[...] com o significado de ‘renunciar voluntariamente a poder soberano ou investidura’, também se usa -e comumente- sem complemento” (s.v.). Orientações semelhantes se encontram também s.v. indagar; informar(-se); lembrar, lembrar-se; obrigar; partilhar etc.

É perceptível que um dos traços definidores de GUPB (2003) é o extremo cuidado no momento de expor usos que demonstram uma divergência entre o que o cânon gramatical propõe e o que os falantes efetivamente realizam. Sem dúvida alguma que esse zelo constitui uma posição “corretiva” frente a uma tradição na orientação do uso da língua na qual os falantes de português parecem não se reconhecer mais. O Front Matter de GUPB (2003, esp. p. 9-12) expõe de forma clara que o dicionário almeja se distanciar claramente tanto da dicotomia certo / errado, associada a uma postura prescritiva, como da noção de que a língua (formal) serve para marcar a superioridade de um grupo sobre outro (GUPB, 2003, p. 9).

Em relação ao exposto acima, cabem duas considerações. Em primeiro lugar, é evidente que lidamos mal na comunidade luso-brasileira com a noção de norma ideal e, consequentemente, com incorreção no uso da língua. A norma ideal nunca poderia cumprir a sua função, que é a de orientar os falantes em determinadas circunstâncias da sua atividade linguística, se não refletisse o que os próprios falantes julgam como um registro mais esmerado da sua própria língua. Em segundo lugar, é perceptível que falta, em muitos casos, uma orientação explícita em relação a muitos usos, o que até certo ponto, constitui um contrassenso ao se tratar de uma obra que se entende justamente como um “guia de usos”. GUPB (2003) cumpre uma tarefa importante demais como para demonstrar tanta hesitação no momento de orientar.

Como corolário, a análise permite estabelecer as seguintes conclusões. Em primeiro lugar, não há como negar que a orientação no uso da língua parece obedecer a uma aparente aporia. Por um lado, os falantes duvidam perante os usos da própria língua e/ou, às vezes, caem nas armadilhas desta (os pièges, como se diz no francês). Por outro lado, nem sempre uma dada comunidade de fala dá um voto de confiança às obras que almejam orientar o usuário da língua. Como o demonstra o caso do DPD (2005) para o espanhol, uma questão chave para resolver essa aparente aporia é que a comunidade se veja refletida na orientação recebida, ou seja, que perceba essa orientação modelar como a sua língua também.

Em segundo lugar, e no que respeita às instâncias modelares, elas só podem cumprir apropriadamente a sua função orientadora se dispõem de uma sólida fundamentação para as suas decisões e, não menos importante, se possuem também uma evidência sólida de como é o falar modelar.

Em terceiro lugar, a consulta ao dicionário de dúvidas acontece justamente porque o falante tem dúvidas. Por isso, a orientação fornecida deve ser sempre explícita. É uma verdadeira contradição que se espere que seja o usuário quem deva coligir a propriedade ou impropriedade no uso de uma unidade da língua. Evidentemente, essa autoridade deve estar ancorada no explicitado nos parágrafos acima

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1Por exemplo, a regência de usar em Sacc (Grande Dicionário Sacconi da Língua Portuguesa, 2010, s.v.) não é clara: na ac 1., se indica que se trata de um verbo transitivo direto (v.t.d.) com a seguinte acepção: “Empregar para algum propósito; pôr em serviço”; na ac. 2, lê-se: “Fazer uso de”; na ac. 10, marcada como verbo transitivo indireto (v.t.i) há uma remissão para a acepção 2. O dicionário ordena pretensamente as informações segundo a regência, mas as atrela a cada acepção. Logo, é mais útil para o consulente se é indicado que o verbo usar possui uma dupla regência na ac. “Fazer uso de” (ac.2).

2Por exemplo, para procurar a significação da fraseologia rodar a baiana, um consulente procurará da “esquerda para a direita”, ou seja, começando por rodar. No entanto, Hou (Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, 2009, s.v. rodar) não lematiza essa unidade nem faz tampouco remissão para baiana, que é o verbete em que é tratada. O consulente não está obrigado a saber que as unidades fraseológicas costumam ser lematizadas de acordo como uma escala de importância, em que o substantivo aparece em primeiro lugar.

3Em Au (2010, s.v. kümmel) a lematização desse estrangeirismo é grafada em minúscula. Porém, em um pós-comentário de forma se indica o seguinte: “[Com cap.]”, o que indica que a palavra deve ser grafada em maiúscula. Para o consulente é difícil compreender se a palavra se escreve com maiúscula ou minúscula.

4Lexicographical works are [...] types of text produced [...] to satisfying concrete information needs.

5Segundo Svensén (2009), a macroestrutura sistêmica “acontece prioritariamente em dicionários técnicos” [occurs primarly in technical dictionaries]. No caso dos guias de uso, se trata também de uma apresentação “técnica” da língua, na medida em que se oferece uma doutrina de aspectos variados e inerentes aos diferentes níveis de organização de uma língua natural. Dois exemplos de guias de uso de ordenação sistêmica são Bezos López (2015) e Paredes; García e Paredes (2013). O primeiro repertório segue em linhas gerais os quatro níveis básicos de organização da língua: dúvidas e incorreções de ortografia, fonologia, léxico e gramática. O segundo segue também uma organização similar.

6Cf. Bugueño Miranda (2006) para uma resenha detalhada da obra.

7A instrução de uso deve ser lida da seguinte maneira: “Substitua o estrangeirismo password pela palavra contraseña”.

8Laísmo é um fenômeno pronominal que consiste em trocar o pronome átono dativo pelo átono acusativo: “*La dije que no iria” por “Le dije que no iría”. De emprego em algumas zonas da América Latina, é considerado incorreto pela RAE.

9Leísmo é um fenômeno pronominal que consiste em trocar o átono acusativo masculino lo pelo átono dativo le: “Lo salvaré” → “Le salvaré”. É de emprego geral na América Central e em parte do México. Trata-se de um fenômeno exemplar, como exposto neste trabalho, ou seja, é correto em algumas zonas.

10Trata-se de uma diferença segundo o canal de comunicação empregado: escrito ou oral. Cf. DLex (2001, s.v. diamedial information).

11O conceito de armadilha que leva à incorreção está tão difundido na cultura linguística francesa que veículos de comunicação de massa como o jornal Le Figaro têm uma seção especial para tratar as dúvidas sobre o uso: “Dome as armadilhas da língua francesa” [Domptez les pièges de la langue française]. Disponível em <http://www.lefigaro.fr/langue-francaise/quiz-francais/2017/09/30/37004-20170930ARTFIG00001-domptez-les-pieges-de-la-langue-francaise.php>. Acesso em: 16 nov 2017.

12O principio type/token obedece à orientação no uso de formas linguísticas distinguindo usos preferenciais a usos não preferenciais [type] ou secundários [token].

13Lesearten é o conjunto de significações explicitáveis para cada unidade léxica (cf. WANZECK, 2010, p. 106-109).

14Outros exemplos são debacle, débâcle; début, debute, debutar, debutante; gangue, gang; inteligentzia, inteligentsia, milk shake, milk-shake.

15A forma tampouco foi documentada no Corpus do Português (disponível em: <https://www.corpusdoportugues.org/hist-gen/>. Acesso em: 4 de maio 2018). Aparece lematizada, no entanto, em Au (2010 s.v.): faisã “S.f. Faisoa”; em DCLP (2011 s.v. faisão: “[...] Fem.: -, e soa [...]”). O mesmo tratamento recebe em Sacc (2010, s.v. faisão) e em Hou (2009, s.v. faisão). Embora em Au (2010) a sua lematização corresponda a um caso de token e nos outros dicionários a uma informação de comentário adicional ao comentário de forma, é indubitável que se trata de um caso de ghost-word que, evidentemente, não encontra respaldo em evidência empírica. Por essa razão, e como se manifesta no trabalho, a orientação de GUPB (2003) deveria ser mais taxativa.

Received: May 09, 2018; Accepted: September 20, 2018

Félix Valentín Bugueño Miranda. Professor de Língua Espanhola (graduação) e de Lexicografia (pós-graduação) no Instituto de Letras e no Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Licenciado em Língua e Literaturas de Língua Espanhola pela Universidade Católica de Valparaíso / Chile e Doutor em Filologia Românica pela Universidade de Heidelberg/Alemanha. E-mail: felixv@uol.com.br

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