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Sociologias

versión impresa ISSN 1517-4522

Sociologias  n.17 Porto Alegre ene./jun. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S1517-45222007000100010 

ARTIGO

 

Trajetórias e biografias: notas para uma análise bourdieusiana

 

Trajectories and biographies: notes for a Bourdieusian analysis

 

 

Miguel Ângelo Montagner

Sociólogo, mestre em saúde coletiva e doutorando de Ciências Médicas – UNICAMP. Brasil

 

 


RESUMO

Nesse artigo, procuramos analisar o uso da metodologia de Pierre Bourdieu, na qual as noções de habitus e campo têm um lugar central, com o objetivo de entender conceitos internos como biografia e trajetória em sua teoria da práxis. Nossa intenção nesse estudo é, além de situar e apontar a relevância da obra de Bourdieu, extrair desses debates possíveis aplicações de sua teoria e propor procedimentos de análise dos materiais biográficos ou histórias de vida quando são usados como um instrumento heurístico.

Palavras-chave: Bourdieu, biografia, trajetória, história de vida, habitus, campo.


ABSTRACT

In this article, we seek to examine the use of Pierre Bourdieu's methodology, in which the notions of habitus and field play a central role, in order to understand inner concepts such as biography and trajectory in his theory of praxis. Besides locating and pointing out the relevance of Bourdieu's works, our intention here is to extract from these debates the possible application of his theory and to propose procedures for analysis of biographical materials or life histories when they are used as a heuristic tool.

Key words: Bourdieu, biography, trajectory, life histories, habitus.


 

 

Introdução

O largo emprego nas atuais ciências sociais, de fontes primárias de dados ligadas às subjetividades individuais, ao mundo real e concreto das relações humanas, sobretudo aquelas expressas em materiais biográficos ou autobiográficos, têm redobrado o interesse dos pesquisadores por teorias e metodologias que lidem com esse tipo de fonte e que promovam uma sustentação teórica consistente no tratamento destas informações.

O objetivo deste artigo é esboçar uma proposta definida de estudo de trajetórias individuais e de grupo, a partir da perspectiva teórica de Pierre Bourdieu e salientada por seu grupo de colaboradores, levando-se em conta o aparecimento, em suas obras, desse tipo de trabalho empírico, ligado a estudo de materiais biográficos e seus corolários teóricos. Se conseguirmos delinear uma proposta inicial de trabalho, trazendo à luz procedimentos possíveis dentro desta perspectiva e facilitando a prática de pesquisa daqueles interessados na teoria bourdieusiana, teremos alcançado nossos propósitos.

 

Biografia e História

A relação entre biografia e história insere-se em um conjunto mais vasto de dualidades que percorrem a Sociologia desde muito tempo, baseadas na exploração da dialética indivíduo/sociedade, ação individual/coletiva, liberdade/determinismo, individual/coletivo, estrutura/indivíduo e outras. Neste último caso, aponta-se para a manutenção, no indivíduo, de componentes subjetivos sociais e ligados ao grupo onde ele vive, ou, inversamente, a busca do que é extremamente único e pessoal dentre um aparato mais vasto de representações da memória, internalizadas a partir da sociedade.

Pode-se mesmo afirmar que as três grandes matrizes teóricas presentes na Sociologia, desde seus primórdios, giram em torno dos debates sobre a preeminência de uma ou outra forma de análise do mundo social, ou uma ou outra forma de encarar filosoficamente a sociedade. Se aceitamos sem discussão o ponto de vista da sociologia durkheimiana, o peso da sociedade tem uma preponderância sobre as individualidades e a subjetividade do indivíduo. No caso de Weber, interessa compreender os sentidos e os valores engajados nas ações dos indivíduos, a despeito da vida em sociedade. Por fim, o pensador marxista deve vazar as aparências do modo como a sociedade se apresenta e buscar descrever os mecanismos dialéticos de funcionamento e transformação da realidade material em que vive o indivíduo.

O movimento pendular entre a filosofia do sujeito e a filosofia sem sujeito é uma constante nos embates entre as ciências sociais e a Filosofia há muito tempo, desde os primórdios durkheimianos (Bourdieu e Wacquant, 1992). Esse debate é vasto e infindável, mas não se pode negar a nova preeminência das abordagens em que o sujeito social é colocado como o centro e a chave das análises sociológicas a partir dos anos sessenta e setenta. Atualmente esta é a pedra de toque de toda moderna Sociologia, a mais ver, de todas as ciências humanas.

Esta inflexão, nomeada por muitos retorno do sujeito, tem raízes muito profundas nas sociedades modernas, para muitos, pós-modernas. Sem assumirmos as teorias pós-modernas, que propõem uma ruptura radical no decurso histórico e exacerbam as características inauditas da sociedade de informação, devemos admitir, ao menos, uma exacerbação das transformações históricas do capitalismo.

Para alguns autores, o fim e o desmonte do chamado welfare state apontam para o fim dos grandes movimentos coletivos e nos remetem a uma individualização do fazer político. A proeminência da subjetividade individual e a exacerbação do individualismo convivem, nas sociedades modernas, com um esboroamento de padrões fixos ou regularmente estáveis de comportamento. Estamos condenados a uma insustentável leveza do ser, a uma miríade de valores contraditórios, a realidades movediças e ambientes temporários. Em suma, estamos em um processo que Sennett (2005) denomina corrosão de caráter. Caráter possui um significado um pouco antiquado, talvez do século vinte ainda, pois preferimos usar e abusar do termo personalidade, persona – muito mais de acordo com a sociedade pós-moderna. Mas o objetivo do autor é apontar o definhamento dos traços da subjetividade mais ligados ao mundo coletivo, das relações que se estabelecem entre pessoas durante toda a vida, aquelas devidas às interações pessoais, in loco; ou mais exatamente, as características subjetivas conformadas pela práxis humana, pelo trabalho. O mundo do trabalho, o espaço da produção de riquezas e luta pela vida, não parece capaz de balizar os valores pessoais, de gerar um ethos de grupo, e não viabiliza a formação de valores na sociedade. Caráter então seria o valor ético que atribuímos aos nossos próprios desejos e às nossas relações com os outros (Sennett, 2005).

Ortiz (2000) aponta que o conceito de caráter aplica-se tanto ao nível individual quanto ao nível da sociedade como um todo: no indivíduo, como uma matriz cultural herdada e interiorizada em sua identidade, decorrência da própria socialização do indivíduo; nas organizações sociais, o caráter étnico deriva de suas características enquanto grupo as quais se definiram através de sua história, acabando por gerar um padrão comum. Estaríamos em face de uma dupla identidade, uma social e outra individual, ambas portadoras de caracteres definidos coletivamente.

Como conseqüência da corrosão do caráter, cujo funcionamento Sennett aponta, temos um desenraizamento social, uma incapacidade de ação coletiva baseada em uma visão de mundo comum. Estamos diante do quadro que Weber (2003) descortinava ao afirmar que o fim precípuo de nossa época, caracterizada pela racionalização, pela intelectualização e, principalmente, pelo desencantamento do mundo, levou os homens a banir da vida pública os valores supremos e mais sublimes.

O desmonte do Estado de Bem-Estar Social levou-nos a um esgotamento da energias utópicas, opondo um universo de indivíduos, fadados a grandes dificuldades em escolher seus valores éticos, a um espaço público e coletivo cada vez mais minguado e esquelético, onde não há espaço para o pensamento utópico (Habermas, 1987). Se o espaço público de atuação é inversamente proporcional ao espaço subjetivo do indivíduo e se, através de uma subjetividade inflada, os indivíduos devem relacionar-se em sociedade, nada mais lógico que a sociedade moderna se forme por grupos sociais midiáticos, que realizam a mediação social através de instâncias desligadas dos espaços sociais coletivos tradicionais. Ainda aqui soaria, contrariada, a voz profética weberiana ao mostrar que "esses valores encontraram refúgio na transcendência da vida mística ou na fraternidade das relações diretas e recíprocas entre indivíduos isolados (Weber, 2003).

Talvez a melhor maneira de elucidar essa sensação de desenraizamento/desligamento é a categoria proposta por Giddens, desencaixe. Em sua teoria, esta concepção sobre a sociedade explica o processo de deslocamento das relações sociais de contextos locais de interação e sua reestruturação através de extensões indefinidas de tempo-espaço (Giddens, 1991).

Este fenômeno é resultado do processo de compressão do tempo-espaço, capaz de gerar uma profunda perturbação e uma diversidade de reações sociais, culturais e políticas, e expressa-se de inúmeras formas (Harvey, 1999). Para o autor, essa expressão define processos que revolucionam as qualidades objetivas do espaço e do tempo, a ponto de nos forçarem a alterar, às vezes radicalmente, o modo como representamos o mundo para nós mesmos.

Através da conjunção de suportes informatizados e tecnologias de comunicação modernas, uma parte sensível das relações sociais está migrando para formas ditas virtuais, geralmente criadas e imbricadas a sistemas abstratos (Giddens, 1991). Esses sistemas encarregar-se-iam de realizar o encaixe dos indivíduos em uma outra dimensão social, possibilitando estabilizar as relações sociais através de extensões indefinidas do tempo-espaço. A substituição de aparatos físicos por aparatos virtuais e digitais, bem como a migração e substituição de parte das interações entre as pessoas por formas mediatizadas, ou melhor, midiatizadas, são os imperativos microssociais correspondentes ao funcionamento de toda a sociedade moderna.

Esta percepção fragmentária da realidade levou muitos pensadores a proporem uma série de teorias que podem, grosso modo, ser agrupadas sob o rótulo de pós-modernistas. De acordo com Hobsbawm (1995), esta tendência teve origem na exaustão das vanguardas no campo das artes, passando pela intelligentsia francesa com nomes diversos - sobretudo desconstrucionismo e pós-estruturalismo e, em seguida, através do campo literário, a outros ramos das ciências humanas e sociais. Seguindo este autor, todos os pós-modernos comungam "um ceticismo essencial sobre a existência de uma realidade objetiva, e/ou a possibilidade de chegar a uma compreensão aceita dessa realidade por meios racionais."

Se o espaço coletivo torna-se mediado por aparatos de informação, a subjetividade fragmenta-se em diversos espaços, operando de forma parcial em cada dispositivo social. Isso tende a tornar a corrosão do caráter ainda mais aguda, e a busca identitária parece tornar-se a luta de vida ou morte para a subjetividade moderna. Nesta vertente, podemos pensar as sociedades modernas como lugares onde não há espaço para as energias utópicas, onde o coletivo gradativamente assume contornos individualizados e desencantados.

Como elaborou Benjamin, a modernidade não aportou consigo as experiências comuns e coletivizadoras da sabedoria tradicional da humanidade; as experiências comuns deixaram o universo social, pois eram reproduzidas pelas grandes narrativas e pela existência de narradores afeitos à tradição oral. Se não há narrativas comuns, clara está a impossibilidade da existência de uma visão de mundo comum (Benjamin, 1986).

Mas, se invertemos o raciocínio, a busca desesperada por sentido e por aquilo que Benjamin nomeia como sabedoria, traz de novo à tona a procura do conhecimento da tradição social, das experiências cotidianas das pessoas e do mundo vivido, banidas da história social, da mesma forma como as ciências baniram de seus métodos aqueles que lidavam com esse tipo de conhecimento. Se não é uma situação nova e imanente às sociedades do século XX, a maneira de abordarmos a questão do lugar dos sujeitos históricos dentro das sociedades acaba por determinar, dentro dos aparatos teóricos, o papel dos métodos de análise das biografias e dos materiais desta origem. Dessa relação tratamos a seguir.

 

Biografia e teoria sociológica

Sem recuarmos demasiado nas origens da Sociologia, podemos remontar sobretudo ao seu período de ressurgimento do pós-guerra, quando a sociologia norte-americana era o modelo maduro de ciência, com seu triunvirato hegemônico Lazarsfeld-Parsons-Merton. Naquele panorama, Bourdieu apontava que o par Parsons-Lazarsfeld (e, entre os dois, Merton e suas teorias de médio alcance) constitui uma espécie de holding « científico » socialmente muito poderoso, que reinou na sociologia mundial durante trinta anos (1989). As sínteses teóricas de cunho epistemológico, no estilo de Parsons e sua grande teoria, mostravam-se para Bourdieu como simples compilações e classificações didáticas, próprias para o ensino somente, pois a epistemologia devia ser entendida como uma reflexão, com vistas a entender a prática científica em seus erros e acertos. Seu contraponto, a metodologia pela metodologia, era exemplificado por Lazarsfeld e definida por Bourdieu como catálogo de preceitos que não têm que ver nem com a epistemologia, nem com a teoria científica (1989). A grande crítica era sobre o pensamento teórico que nasce do ambiente de gabinete, sem vínculos com os procedimentos metodológicos, ou seja, com os procedimentos da prática empírica de pesquisa.

A discussão sobre as relações entre epistemologia e metodologia, versando sobre os objetivos da ciência naquele momento, se espraiou a partir da sociologia norte-americana. Merton (1970) afirmava:

Hoje, nossa tarefa principal consiste em desenvolver teorias especiais aplicáveis a objetos conceptuais limitados - (....) – mais do que procurar imediatamente a estrutura conceptual total, própria a produzir estas e outras teorias de médio alcance.

Como aponto alhures, a teoria da práxis ou praxiologia de Bourdieu guarda, a despeito de suas orientações totalmente antagônicas, grandes semelhanças com a idéia de uma teoria sistematicamente construída através de pesquisas empíricas parciais, voltadas a domínios específicos do mundo social, definidos por Bourdieu como campos (Montagner, 2003). Apesar de incluir Merton na tríade capitolina do novo templo acadêmico dos anos cinqüenta e afirmar que foi contra isso que eu me bati quando entrei na sociologia (Bourdieu e Wacquant, 1992), Bourdieu propõe como rota de fuga do hiperempirismo pontualista e da teoria geral e universal do sistema social, o reconhecimento da convergência das grandes teorias clássicas sobre princípios fundamentais que definem a teoria do conhecimento sociológico como fundamento de teorias parciais, limitadas a uma ordem definida de fatos (Bourdieu, Passeron et al., 1968). Dessa maneira, a teoria sociológica em si estaria na ordem de uma metaciência, matriz geradora de aplicações mais ou menos felizes em diversos domínios, sem atender ao objetivo final de recriar uma teoria geral e universal, de gabinete.

Mas, apesar desta força hegemônica mundial, algumas formulações teóricas buscaram retomar as abordagens qualitativas anteriores ao estrutural-funcionalismo, dentro da sociologia americana. Wright Mills (1969) foi um dos poucos pesquisadores a manter uma visão crítica em relação a todo um conjunto de técnicas e metodologias hegemônicas na sociologia do pós-guerra. Ao intenso uso de surveys e da proeminência do funcionalismo, o autor propôs um retorno à sociologia artesanal, na qual se conjugassem as implicações pessoais do pesquisador e as demandas societárias estruturais. A proposta era de mediação pela imaginação sociológica, um misto de sensibilidade pessoal, formação profissional e espírito crítico, levando-se em conta situação do conjunto social. Para o autor:

A ciência social trata de problemas de biografia, de história e de seus contatos dentro das estruturas sociais. São estes os três – biografia, história e sociedade – pontos coordenados do estudo adequado do homem (...). Os problemas de nosso tempo – que incluem o problema da natureza mesma do homem – não podem ser formulados adequadamente sem aceitarmos na prática a opinião de que a história é a medula do estudo social, e reconhecermos a necessidade de desenvolver mais uma psicologia do homem que seja sociologicamente fundamentada e historicamente relevante. Sem o uso da história e sem o sentido histórico das questões psicológicas, o cientista social não pode, adequadamente, formular os tipos de problemas que devem ser, agora, os pontos cardeais de seus estudos. (Mills, 1969).

De muitas maneiras, essa psicologia embasada histórica e sociologicamente está muito próxima da idéia bourdieusiana de habitus, uma proposta de mediação entre indivíduo e campos sociais. Mas a isto voltaremos depois.

Uma segunda formulação, não menos cauterizadora, cristalizada na introdução de 1966 à obra The Jack-Roller, esboçava um resgate das teorias qualitativas e uma valorização das histórias de vida. Herdeiro do interacionismo simbólico de George Mead, e fino leitor dos trabalhos da década de 20 da Escola de Chicago, Howard Becker (1986) propõe a empreitada científica realizada por acúmulos parciais e sucessivos e localizados em torno de objetos macrossociais e societais.

Se a idéia de teorias de médio alcance não o seduz por seu caráter de repetição do método de pesquisa dentro do marco quantitativo, voltado para grandes aplicações de questionários estruturados ad hoc, sua postulação de uma configuração de uma miríade de estudos em torno de um mesmo conglomerado social arribaria no construto do mosaico científico: programa de pesquisas voltado a um domínio específico do mundo social, quase um estudo de caso etnográfico, composto através de camadas sucessivas de generalizações parciais e complexas obtidas através de análises sistemáticas, cujo resultado final seria a obtenção do motivo principal do mosaico. A contribuição de estudos biográficos, ou estudos baseados na restituição fiel da experiência do sujeito e de sua interpretação do mundo onde ele vive (Becker, 1986), seria o enriquecimento do conhecimento sobre as sociedades, dando uma visão mais apurada dos processos históricos e sociais.

Com a chamada crise dos paradigmas nas ciências do homem, um progressivo enfraquecimento do funcionalismo anglo-saxão e do estruturalismo de origem francesa, essas propostas de valorização das biografias ganham sua plena significação com o chamado retorno do sujeito e a explosão, na Sociologia, de novos objetos e abordagens. A par desse movimento teórico, houve o enorme ponto de inflexão cujo vórtice foram os movimentos estudantis de maio de 68, epicentro de movimentos utópicos mundiais.

Como já apontava, há muito, Miceli (1998) na introdução à sua apresentação da obra de Bourdieu no Brasil, o estudo da cultura e da ideologia se tornara a razão de ser das ciências humanas nos anos que se seguiram a essa inflexão teórica. Por diversas vias, a renovação teórica engendrou abordagens inovadoras e novas sociologias, que, como bem as delineia Philippe Corcuff (2001), tendem a explorar com avidez as subjetividades individuais, as expressões pessoais do mundo da vida habermasiano, em suma, as histórias de vida. Estas linhas de pesquisas podem ser enfeixadas dentro da perspectiva construtivista, onde as realidades sociais são apreendidas como construções históricas e cotidianas dos atores individuais e coletivos (Corcuff, 2001). Dentre essas novas abordagens metodológicas, algumas, como a de Daniel Bertaux, assumem claramente o uso dos materiais biográficos, e, em geral, são nomeadas como histórias de vida.

Bertaux propõe um mergulho nas experiências humanas, no vivido, em um oceano de saberes nativos e não explorados. Para ele, a experiência humana é portadora de saber sociológico, que exalta como um achado inaudito. À parte este truísmo de base, para o autor, dá-se o caso de se conjugar e reconciliar a observação e a reflexão sobre o mundo social. Se a experiência humana se esforça para se elevar do particular ao geral, a teoria sociológica parte do geral (historicizado) para analisar as formas concretas e sempre renovadas de atualização, pois, para o autor, a experiência humana não ultrapassa os limites locais, sendo sempre mediada ou mediatizada (Bertaux, 1980).

Através de um conjunto de críticas a outras abordagens, em especial ao empirismo americano e ao teoricismo francês, a novidade de seu approche biographique parece ser a proposta de união entre níveis de análise comumente tomados separadamente, o socio-estrutural (macro, objetivo) e o sociosimbólico (micro, subjetivo): a proposta é de se esforçar por reunir o pensamento do estrutural e do simbólico, e os superar para atingir um pensamento da práxis (Bertaux, 1980), que leve em conta a dinâmica entre estruturas e símbolos ou, se melhor, sua dialética.

Bertaux tece críticas quanto ao papel da Sociologia no tratamento do mundo vivido, pois, para ele, a disciplina tende a esmagar o sujeito sob o peso dos procedimentos técnicos e metodológicos, ou então, tende a gerar uma teoria sobre o social sem considerar o que dizem os indivíduos. Mas vemos o retorno do recalcado nas suas formulações quanto ao método das histórias de vida. Ele afirma serem necessários cérebros ágeis e treinados para absorver a quintessência da experiência vivida, para colocá-la à distância afim de realizar sua crítica; e sobretudo para dar-lhe uma forma de expressão escrita (Bertaux, 1980). Esses cérebros ágeis, apesar de tudo, retirariam suas intuições magistrais de suas próprias experiências vividas, o que coloca como corolário que todo conhecimento sobre o social vem do mundo vivido, mesmo ao se transformar em uma quintessência. Como se vê, o bom filho à casa torna, e a experiência vivida só pode realizar-se através do intercurso de intelectuais capazes de sintetizar criticamente a práxis humana, que escapa do sujeito localizado no mundo social.

A construção de um conhecimento que rompa com o senso comum, escapando das explicações espontâneas e pré-construídas do mundo vivido, possuídas pelos sujeitos, corresponde a um pressuposto de base de quase toda a Sociologia desde seus primórdios. O conhecimento do vivido não significa necessariamente a compreensão do real, dos determinantes fundamentais do universo social. Desta maneira, a abordagem através das histórias de vida deve precaver-se da ilusão de transparência do real. Devemos opor a essa ilusão o princípio da não-consciência, que postula que as relações sociais não podem se reduzir a ligações entre subjetividades animadas por intenções ou motivações porque elas se estabelecem entre condições e posições sociais e possuem, dessa forma, mais realidade que os sujeitos que elas ligam entre si (Bourdieu, Passeron et al., 1968).

Para atingirmos a legibilidade do social, devemos realizar uma tripla vigilância epistemológica, a começar pelas idéias comuns e a sociologia espontânea, passando por uma vigilância em relação à aplicação dos métodos e, enfim, uma vigilância quanto aos pressupostos teóricos e filosóficos que informam os atos de pesquisa e se os construtos teóricos se coadunam com os resultados obtidos pela utilização do método (Bachelard, 1968).

Dadas as relações entre a história sociológica recente e a fortuna do conceito de história de vida, analisaremos agora a relação entre as categorias presentes na análise dos dados biográficos e a congruência interna destas idéias, sobretudo no marco teórico bourdieusiano.

 

História de vida ou trajetórias

Este processo de incorporação de fontes biográficas, tal como a história de vida, é indicado por Bourdieu como uma entrada de contrabando no universo científico, primeiro na etnologia, e após, na Sociologia (1986).

Do ponto de vista de Bourdieu, há uma grande diferença entre seu conceito de biografia e a maneira como este é comumente empregado. Aqui é fundamental nos lembrarmos das advertências do autor (Bourdieu, Passeron et al., 1968) a respeito do conceito de história de vida e deste tipo de teoria construída. A rigor, não existe, ainda que esta idéia seja extremamente atrativa e sedutora ao senso comum, uma seqüência cronológica e lógica dos acontecimentos e ocorrências da vida de uma pessoa. Nossas vidas não são um projeto sartriano e não possuem um sentido teleológico. Os eventos biográficos não seguem uma linearidade progressiva e de causalidade, linearidade de sobrevôo que ligue e dê sentido a todos os acontecimentos narrados por uma pessoa. Eles não se concatenam em um todo coerente, coeso e atado por uma cadeia de inter-relações: esta construção é realizada a posteriori pelo indivíduo ou pelo pesquisador no momento em que produz um relato oral, uma narrativa.

O objetivo dessa busca de uma causalidade harmônica das histórias de vida individuais pode ser explicado pela necessidade, tanto por parte dos indivíduos quanto da ciência social, de atribuir um sentido coerente às ações humanas. Sem que haja esse sentido, não há razão lógica para a vida humana e talvez nem mesmo para a ciência. Daí decorre a ubiqüidade dessa construção post festum, uma ilusão biográfica muito comum no senso comum e no senso comum científico.

A grande questão filosófica aqui colocada é a da existência de uma unicidade do ser, constante no tempo e no espaço, capaz de garantir uma ordenação dos acontecimentos e de dar um sentido único à vida humana: através da constância biológica, pode-se afirmar a constância da pessoa?

Do ponto de vista de Bourdieu, é impossível dar sentido a um todo que escapa ao próprio sujeito, histórico, determinado socialmente, imerso em um universo social fora de nossos controles. Mesmo perdendo parte da riqueza da vastidão humana, o que podemos realizar é a objetivação do habitus, justamente resultado estável mas não imutável desse processo de interiorização do social e de incorporação, na pele, de nossa persona social. Tudo acontece como nos descreve Kafka em seu conto Na Colônia Penal, no qual o corpo é o espaço de inscrição da nossa condenação ao social - inscrição das regras familiares e de classe, nossas limitações coletivas, nosso imaginário grupal – no corpo biológico. O corpo é o suporte de uma construção identitária realizada pela sociedade sobre o sujeito, construção da qual o próprio indivíduo não é sujeito: qual o condenado da colônia, a sentença a ser escrita sobre nossa pele não nos é dada a conhecer (Kafka, 1969).

Aliado a este suporte biológico, o nome e nosso sobrenome, veículos por excelência de identificação do indivíduo, vêm juntar-se e compor a objetivação da relação entre um corpo e um símbolo que o identifica. Todo o aparato social de formação de uma identidade, ou de uma persona, aqui entendida como máscara social, virá a se sedimentar sobre essa relação de tornar concreto um todo biográfico que, na realidade, não existe: podemos acompanhar as mudanças sucessivas pelas quais um agente social passa durante seu movimento na sociedade e que acabam por sedimentar um habitus relacionado à história do indivíduo. Este inscrito, indelével e matriz geradora de práticas pode ser definido como:

Habitus, sistema de disposições socialmente constituídas que, enquanto estruturas estruturadas e estruturantes, constituem o princípio gerador e unificador do conjunto das práticas e das ideologias características de um grupo de agentes (Bourdieu, 1998).

Como se fora uma lesma, as marcas distintivas ligadas ao nome, ao biológico e ao percorrer histórico dos agentes, acabam por deixar traços quase transparentes que, quando unidos a todos os outros traços dos grupos sociais, definem trajetórias comuns, feixes de percursos muito semelhantes, ou afinal, uma trajetória. Este conceito será esmiuçado a seguir.

 

Trajetória

Assim, devemos precaver-nos contra a criação da ilusão biográfica, situando claramente os agentes sociais em seu grupo social, procurando narrar e delinear claramente a construção diacrônica da trajetória dos grupos nos diversos campos. Esta é a idéia central para o entendimento da proposta bourdieusiana de análise dos campos. Para compreendermos a lógica de um campo de produção simbólico, passamos por três momentos cruciais e inter-relacionados. Um primeiro, no qual o fundamental é traçar as relações de influência e subordinação/dominação do campo intelectual em relação à estrutura de poder dentro da distribuição estrutural da classe dirigente, traçando um mapa preciso da localização do campo intelectual no arcabouço do poder, mostrando as linhas de força que delineiam as demarcações de autonomia relativa do campo intelectual.

Em seguida, a partir do âmago da autonomia do campo, devemos delinear as relações entre as posições ocupadas, alocadas, deslocadas pelos agentes e pelos grupos; esmiuçar a trama sincrônica de um determinado momento do campo, resultado de uma história de lutas e conflitos pelo poder legítimo e legitimado pelos próprios agentes envolvidos.

Por fim, do resultado destes embates reais e históricos, conseguimos a tessitura dos habitus coletivos dos grupos em embate, cujas variações individuais não fazem mais que confirmar, desviando-se às vezes do mainstream social, a característica fortemente coletiva das carreiras individuais dos agentes.

Depois de realizado o enquadramento do campo a ser estudado, com o encontro prévio do ponto de fuga e da clareza quanto à perspectiva a ser empregada, podemos sobrepor à estrutura relacional dos campos do poder e do campo intelectual, as marcas distintivas das trajetórias dos grupos sociais e dos agentes. Essas marcas, pura projeção dos habitus e que evidenciam os símbolos distintivos dos mesmos, trarão à luz as estratégias e injunções sofridas pelos agentes através das linhas de força dentro de cada campo social. As trajetórias seriam, assim, o resultado construído de um sistema dos traços pertinentes de uma biografia individual ou de um grupo de biografias (Bourdieu, 1998).

Precisando mais o conceito, Bourdieu aponta que uma trajetória é a objetivação das relações entre os agentes e as forças presentes no campo. Essa objetivação resulta em uma trajetória, que diferentemente das biografi as comuns, descreve a série de posições sucessivamente ocupadas pelo mesmo escritor em estados sucessivos do campo literário (Bourdieu, 1996b). Podemos intercambiar a palavra escritor e literário por intelectual e científico, sem alterarmos o sentido da definição.

Se o campo está em permanente mudança, a trajetória social é o movimento dentro de um campo de possíveis definido estruturalmente, mesmo que as estratégias e os movimentos individuais sejam ao acaso. O sentido, ou sentidos, de cada ato do agente ou de um grupo social, só ganha solidez sociológica quando relacionado com os estados pelos quais passou a estrutura do campo enquanto espaço relacional dos postos, posições e disposições dos agentes dentro desse campo em cada momento. Assim, toda trajetória social deve ser compreendida como uma maneira singular de percorrer o espaço social, onde se exprimem as disposições do habitus e reconstitui a série das posições sucessivamente ocupadas por um mesmo agente ou por um mesmo grupo de agentes em espaços sucessivos" (Bourdieu, 1996a). Mas essa reconstituição parte do ponto de vista externo ao biografado, parte do ângulo de visão de quem reconstitui o campo como espaço social onde essa biografia se delineia.

Descrever uma biografia, para Bourdieu, significava o último e mais sensível passo na empreitada sociológica, se encaramos essa biografia como uma construção realizada a despeito das intenções pessoais e o sentido das ações realizadas pelos agentes em um campo (Bourdieu, 1996a). Vale dizer, a biografia à la Bourdieu independe do indivíduo, está ligada ao conceito de agente operando em um campo de forças, muitas vezes sem atinar para o sentido real de sua ação, em um conjunto mais vasto de caminhos possíveis à sua geração. Os acontecimentos biográficos são eventos em um fluxo social mais vasto, correspondem a abalos parciais cujo epicentro escapa ao ângulo de mirada do próprio agente. Esses fatos biográficos correspondem, para Bourdieu, a colocações e deslocamentos dentro dos diferentes estados do campo, ou seja, nos diferentes momentos distributivos dos diversos capitais aí investidos, principalmente as relações entre capital econômico e o capital simbólico (específico ao campo e que o define como tal).

O papel das dinâmicas geracionais na constituição das sociedades e conseqüentemente dos campos, sempre foi salientado dentro da teoria de Bourdieu: seus primeiros estudos sobre a ordem de sucessão dos camponeses no Béarn, sua região natal, mostraram as lutas surdas e as batalhas internas entre os camponeses, nas estratégias de herança das posições sociais. Nessa linha, ele mostrava o envelhecimento social das gerações ocorrendo através de suas trajetórias enquanto grupos.

No universo da produção cultural, há uma homologia de mesma ordem. Dentro das trajetórias há deslocamentos intrageracionais de dois tipos: dentro do mesmo setor de produção cultural, através de acúmulo de capital legítimo no campo (simbólico) ou de capital econômico, ou entre setores diferentes de um mesmo campo (subcampos), o que implica uma reconversão de capitais durante a passagem de um setor a outro (Bourdieu, 1996a).

Quanto às trajetórias intergeracionais, elas podem ser classificadas em ascendentes diretas - do pólo dominado socialmente, ao campo dominante da produção cultural - ou ascendentes cruzadas, que vão do pólo pequeno burguês ao pólo dominante da produção. Se não são ascendentes, as trajetórias podem ser transversais dentro do campo do poder, levando os agentes, de posições de mando temporal ou de posições medianas no campo do poder, a posições de mando no campo da produção cultural, ainda que aí não sejam dominantes da perspectiva do capital simbólico legítimo no campo. Por fim, há deslocamentos nulos, nos quais a partida e a chegada se dão dentro do mesmo espaço social.

Esta esquematização, obviamente redutora, apresenta virtudes heurísticas e fornece algumas pistas na maneira de tratar um determinado campo de produção simbólica, mas não elimina as complexidades inerentes ao trabalho de pesquisa. Para traçar um panorama desta envergadura seriam imprescindíveis recursos de pesquisa coletiva e largamente institucionalizados, mas o plano geral de trabalho apontado por Bourdieu está aqui delineado. Aqui fica claro o paralelismo entre a idéia de mosaico científico de Becker e a de como tratar um determinado campo social, de Bourdieu: ambas requerem, para se realizarem, um aporte significativo de material empírico e um número vultoso de pesquisadores engajados na tarefa.

Em suma, perseguir uma trajetória significa acompanhar o desenrolar histórico de grupos sociais concretos em um espaço social definido por esses mesmos grupos em suas batalhas pela definição dos limites e da legitimidade dentro do campo em que se inserem. Seguramente a origem social é um holofote poderoso na elucidação dessas trajetórias, pois o habitus primário, devido ao ambiente familiar, é uma primeira e profunda impressão social sobre o indivíduo, que sofrerá outras sedimentações ao longo da vida.

Nesta floresta aberta da análise dos campos, alguns pesquisadores trilharam caminhos interessantes. Poderíamos eleger a proposta de Miceli (2001), ao lidar com o mundo da produção intelectual no contexto brasileiro, como um exemplar.

Não por acaso, Miceli encontra respaldo, para sua delimitação de grupos de intelectuais dentro do campo das letras no Brasil, justamente em características matriciais familiares interiorizadas pelos agentes, chegando a nuances quase psicológicas das marcações sociais. Realizando um estudo clínico dos anatolianos da República Velha, o autor encontra detalhes que, no varejo, margeiam as biografias clássicas e, no atacado, transformam-se em características gerais pelo efeito de repetição: nos termos bourdieusianos, habitus de grupo, ligados a posições dominadas do campo dominante, posições decadentes que devem sofrer uma reconversão para garantir sua sobrevivência no campo. Quando agrupadas, essas características tornam-se geracionais, descrevem a dinâmica entre grupos historicamente sucessivos no espaço social. O autor desenvolveu o uso das biografias de maneira concatenada com a busca de definir e construir a estrutura do campo intelectual no qual essas biografias fariam sentido, em relação com um espaço de possibilidades ofertadas aos intelectuais das letras. Ainda mais, analisou as próprias fontes como material heurístico inerentemente portador de propriedades elucidativas do próprio campo. Mais que aportar informações sobre a lógica interna de um campo de produção cultural em um determinado momento, o corpus documental reflete e potencializa as próprias lógicas de construção do discurso, ou, trai, pelas suas qualidades, o conteúdo latente das estratégias de investimento dos agentes no campo. Estamos diante do caso de uma ciência das obras que revela, a contrario, através de seus conteúdos, o funcionamento do campo e das lógicas externas a ele, pois as fontes impressas e aquelas manuscritas (materiais constantes de arquivos históricos e familiares) retêm a marca dos interesses, dos valores e das estratégias dos grupos sociais a que se referem (Miceli, 2001). De muitas maneiras, esta proposta metodológica realiza uma objetivação das obras intelectuais pelo que elas não possuem de genuinamente artístico: o gênero ou tipo de escrita são o resultado de uma força externa à feitura da própria obra (Miceli, 2001).

O objetivo do autor seria o de traçar uma prosopografia à sua maneira, adaptada a uma ciência das obras de feitio construtivista. Essa metodologia prosopográfica requer a construção da biografia coletiva (...) com base numa estratégia de exposição e análise que se vale do exame detido de casos exemplares alçados à condição de tipos ideais. As inferências qualificadas, assim obtidas:

Devem estar lastreadas em evidências empíricas que abranjam uma quantidade representativa de casos cujas características sociais, escolares, profissionais, etc. possibilitam a reconstrução de uma trajetória ou <destino de classe> para os fins de análise sociológica ou política. (Miceli, 2001).

Assim, o método prosopográfico preenche plenamente a exigência metodológica de Bourdieu de substituir a poeira das histórias individuais por famílias de trajetórias intrageracionais no seio do campo da produção cultural (1996a). A construção dessas famílias de trajetórias pressupõe um trabalho de análise apurado e um aporte teórico bem fundamentado, baseada em dois pontos centrais: a existência de farto material documental de cunho biográfico e, neste caso, a realização de uma exaustiva análise deste corpus. A proposta prosopográfica pressupõe que os grupos em questão façam parte da história e tenham deixado vestígios suficientes de suas práticas sociais, o que restringe a análise a trajetórias coletivas de grupos extintos, fora ou além do campo atual. Ainda, todo estudo deste tipo pressupõe recursos razoáveis para atingir seus objetivos. Como contornar estas dificuldades?

Bourdieu nunca foi explícito quanto a seus métodos, utilizando uma variegada panóplia de recursos, consistindo desde uma aproximação quantitativa a uma análise também internalista das obras, agregada a farto material empírico, como ocorrido em As Regras da Arte (Bourdieu, 1996a). A questão que se coloca é como garantir a objetividade ao lidar com material tão impregnado da vida cotidiana e subjetiva dos indivíduos.

Uma proposta de solução deste dilema, disseminada no mundo acadêmico, é a idéia de ponto de saturação:

Fenômeno pelo qual, além de um certo número de entrevistas (biográficas ou não), o pesquisador ou equipe têm a impressão de não apreender nada novo, ao menos quanto ao objeto sociológico da pesquisa (Bertaux, 1980).

Atingido esse ponto, estaríamos confidentes na possibilidade de generalização dos resultados. De qualquer maneira, esse ponto de saturação depende da construção do objeto realizada pelo pesquisador: o aporte teórico que embasa a enquete pode ser de tal monta que a necessidade de entrevistas diminua sensivelmente, até chegar a alguns casos exemplares: há vários exemplos de utilização de uma história de vida como base para obras tão rigorosas quanto intensas. Podemos citar Lévi-Strauss com a história do célebre Quesalid, feiticeiro auto-reflexivo quanto à sua prática: em torno de sua história se tece toda a história do grupo e da crença na eficácia simbólica da magia, dentro de uma estrutura social (Lévi-Strauss, 1985).

Por fim, entrevistas exemplares podem ser reproduzidas com diversas personagens, por diversos entrevistadores: fez fama o livro A Miséria do Mundo, um conjunto de relatos que explora as similaridades estruturais de gente comum, com suas pequenas histórias de vida, suas mazelas infinitamente pequenas e enormemente pungentes, dos excluídos do interior (Bourdieu, 2003). A metodologia utilizada – uma construção realista - parece uma aposta metodológica unindo a habilidade internalizada em um habitus científico de pesquisa e um corpo teórico de peso que explicite a dinâmica dos campos sociais inferidos: a verdadeira submissão ao dado supõe um ato de construção baseado no domínio prático da lógica social segundo a qual esse dado é construído (Bourdieu, 2003). Para dirimir os efeitos da violência simbólica possível na relação entre entrevistador-entrevistado, deve-se, segundo o autor, instaurar um diálogo socrático, uma relação de escuta ativa e metódica, tão afastada da pura não-intervenção da entrevista não-diretiva, quanto do dirigismo do questionário (Bourdieu, 2003).

Da conjunção dessa atenção redobrada e da construção metódica, forte, do conhecimento das condições objetivas, comuns a toda uma categoria, pode-se obter uma compreensão genérica e genética dos agentes sociais, a saber:

O domínio das condições de existência e dos mecanismos sociais cujos efeitos são exercidos sobre o conjunto da categoria da qual eles fazem parte (as dos estudantes, dos operários, dos magistrados, etc.) e domínio dos condicionamentos inseparavelmente psíquicos e sociais associados a sua posição e a sua trajetória particulares no espaço social (Bourdieu, 2003).

Como metodologia, essa proposta de pesquisa aproxima-se, mutatis mutandis, da técnica de entrevista focada - focused intervew – proposta por Merton (Merton, Fiske et al., 1956). Naquele clássico manual, os autores propõem uma técnica que se posiciona entre o survey e a entrevista não-diretiva, que pode ser usada tanto para entrevistas individuais como entrevistas em grupo. Esse segundo tipo desenvolveu-se no Brasil através dos chamados grupos focais, cujos fundamentos Merton discute no quinto capítulo do livro.

A idéia central é obter um conjunto confiável de dados sobre um determinado tema ou acontecimento, no qual todos os entrevistados estão ou estiveram envolvidos, sobre o qual o pesquisador possui de antemão um conjunto prévio de informações e dados. A partir desse conjunto a priori, que inclui hipóteses e pressupostos de pesquisa, procura-se obter, através de um guia de entrevista, um relato dos entrevistados a respeito dos pontos sensíveis ao tema, através da forma como o acontecimento foi vivido pelo entrevistado e focando as questões em torno dos objetivos delineados previamente. Quanto mais sólido este prévio material e mais refinado o guia, maior a acurácia das entrevistas e a profundidade e especificidade obtidas (Merton, Fiske et al., 1956).

A vantagem desta proposta metodológica é que os agentes sociais entrevistados podem ser estudados em processo, durante o desenrolar de suas histórias de vida, após alguma mudança significativa em seu grupo social, o que não ocorre no método prosopográfico.

Penso que a conjunção de uma teoria da dominação como a de Pierre Bourdieu, apta a deslindar as estruturas de poder simbólico dentro da sociedade e que fornece elementos e categorias de análise poderosas - como a de campo e habitus, trajetórias sociais e biografia coletiva, com uma técnica apurada de entrevista focada como a de Merton, permite a realização de pesquisas profundas, nas quais serão levadas em conta tanto a subjetividade individual contida nas histórias de vida, quanto as idiossincrasias do espaço social, onde reinam as desigualdades veladas e as verdades ocultas pela ilusão da transparência do mundo moderno.

 

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Recebido: 29/09/05
Aceite final: 07/12/05