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Sociologias

versão impressa ISSN 1517-4522

Sociologias  n.18 Porto Alegre jul./dez. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S1517-45222007000200014 

INTERFACES

 

Ode ao humanismo

 

An ode to humanism

 

 

Emir Sader

Professor doutor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, coordenador do Laboratório de Políticas Públicas e Secretário Executivo do "Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales". Brasil

 

 


RESUMO

O texto estabelece um debate entre religião e humanismo, abordando o tema da alienação, dos valores éticos e da emancipação integral de homens e mulheres.

Palavras-chave: Humanismo, religião, emancipação.


ABSTRACT

The text establishes a debate between religion and humanism, approaching alienation, ethical values, and full emancipation of men and women.

Key words: humanism, religion, emancipation


 

 

Agora que o Papa se foi, é boa hora para nos perguntarmos de novo o que significa ser religioso. Quando nos dirigem a pergunta, do ponto de vista de alguma religião – Você crê em Deus? – e respondemos que não, automaticamente procuram caracterizar-nos como "ateus", com uma conotação negativa, como a do que "não crê", a do "não-crente": uma ausência, quase um defeito, uma carência. Opondo o religioso ao "descrente". Quase nos olham com pena, com lástima, com piedade, como se olhassem para alguém condenado ao pecado, ao limbo, como alguém que não conhecesse Deus – ou deus –, que duvidasse de sua inquestionável existência, alguém incapaz de conhecer e gozar das maravilhas da fé, incapaz de ter fé – de onde se pode deduzir: um infiel.

Mas é disso que se trata? O oposto do crente é o sem fé? Crer é somente crer em algum deus? Ser fiel é ser fiel a um deus? Ou, ao contrário, ser religioso, crer em deus – qualquer que ele seja – é não crer no homem (e na mulher), é descrer do homem, é ter deus e não o homem como centro do mundo? Em outras palavras, religioso se opõe a humanista e não a infiel, porque significa deslocar o centro do mundo para um outro plano ou ser, que nos criaria e definiria nosso destino e o sentido mesmo das coisas. Daí a interpretação também de qualquer forma de escritura, de texto bíblico, ser revelado ao homem por um ente superior e não ser construído pelo homem.

O que se deixa de lado, ao identificar crença com fidelidade, é o caráter alienado das visões religiosas do mundo e do próprio ato de crer em algum deus. É negar o princípio fundamental do humanismo, que dá sentido à história dos homens e das mulheres: o de que os homens fazem sua própria história, mesmo quando não têm consciência disso.

Necessitado de transcendência, o homem cria e recria a religião e seus deuses, seres perfeitos, imortais, referências de valores, extraindo isso de si mesmo, para depois inverter a relação e passar, de criador a criatura, tornando-se dependente e alienado. Este é o mecanismo pelo qual o humanismo explica a religião.

O homem livre, emancipado, não precisa de deuses, de religião, de fetiches. Ele sabe que a história é feita pelos homens conscientes, desalienados, por meio do seu trabalho. Sabe que a religião é a uma falsa consciência, que aliena o homem, ao invés de dar-lhe consciência.

Um religioso – por exemplo, católico – imputa a Deus o que é produto da ação dos homens. Se fosse coerente, um católico deveria ser contra o divórcio, o aborto, os contraceptivos (inclusive os preservativos), ser a favor do celibato, do direito de apenas homens serem sacerdotes, da infalibilidade papal, da proibição dos experimentos científicos com células-tronco etc. Deveria, além disso, obedecer rigidamente a disciplina de uma instituição retrógrada, medieval, obscurantista, como a Igreja Católica. Felizmente não o faz, mas isto demonstra que as teses humanistas se chocam com a religião católica. Quem é a Igreja Católica, instituição totalmente hierárquica e antidemocrática, para dizer qual governo é democrático, ditatorial ou autoritário? O que essa igreja e os seus fiéis têm a dizer da sua própria instituição?

É muito positivo que tantos religiosos extraiam valores humanistas da religião para criticar o capitalismo, a exploração, a opressão. Mas isso não permite elevar a religião a cânone de interpretação da realidade dos homens, de sua história, de suas identidades. Isso só é possível com a crítica radical de toda forma de alienação da qual as distintas formas de religião são as principais expressões.

O respeito pela religião dos outros não deve impedir a crítica das visões religiosas do mundo, do deslocamento, que elas produzem, do homem como centro do mundo para deuses e outras formas de fetiches.

O humanista se rege por valores éticos, por uma interpretação histórica da vida dos homens e das mulheres, faz a crítica de toda forma de alienação, luta pela emancipação integral dos homens e das mulheres, luta por um presente e um futuro nos quais não se necessite de entidades supraterrestres para explicar o mundo, mas nos quais o mundo seja construído transparentemente pelos homens. Que seja, portanto, inteligível para todos, pleno de sentido humano.

 

 

Recebido: 18/05/07
Aceite final: 16/06/07