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Sociologias

versão impressa ISSN 1517-4522

Sociologias  no.21 Porto Alegre jan./jun. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S1517-45222009000100009 

ARTIGO

 

Visões da Pós-modernidade: discursos e perspectivas teóricas1

 

Visions of postmodernity: discourses and theoretical perspectives

 

 

Miriam Adelman

M.Phil em Sociologia pela New York University e Doutora em Ciências Humanas pela UFSC. Professora do Departamento de Ciências Sociais da UFPR

 

 


RESUMO

Se bem a Sociologia nasce como uma "narrativa sobre a modernidade" (RITA FELSKI), o mundo contemporâneo vive transformações sociais, culturais e políticas que demandam novas análises e novos olhares. O presente trabalho aborda enfoques atuais e discursos sobre a pós-modernidade na Sociologia e na teoria social contemporâneas, identificando alguns debates centrais. Entre outras coisas, percebe-se, em muitos discursos, metáforas de "degeneração" ou deterioração social associadas a noções da "contaminação do público pelo privado", ou, de forma contrária, do "privado pelo público". Existe grande preocupação em relação a uma suposta perda de laços sociais que acompanharia a desconstrução de formas padronizadas de relacionamento (BAUMAN) ou a uma perda de possibilidades dialógicas, fruto da pulverização das identidades sociais e culturais (HABERMAS) Perante essas perspectivas e também a visão mais "otimista" de Giddens (através de sua noção da reflexividade da "sociedade pós-tradicional") propõe-se aqui uma valorização da obra de autores como Andreas Huyssen e das teóricas feministas e teóricos pós-coloniais, que apontam para algumas tendências da pós-modernidade que, embora bastante contraditórias, permitem enxergar a construção de novos caminhos tanto teóricos quanto práticos.

Palavras-chave: Pós-modernidade. Teoria sociológica contemporânea. Zygmunt Bauman. Público e privado.


ABSTRACT

Although sociology was born as a "narrative about modernity" (Rita Felski), the contemporary world experiences social, cultural and political changes that require further analyses and new perspectives. This paper discusses current approaches and discourses on postmodernity within sociology and the contemporary social theory, identifying some of the key issues. Among other things, many discourses present metaphors of "degeneration" or social deterioration associated with notions such as "contamination of the public by the private" or, on the contrary, "the private by the public." There is much concern about a potential loss of social ties due to the deconstruction of the standardized forms of relationship (Bauman), or a loss of the dialogical possibilities because of the spreading of social and cultural identities (Habermas). Given these perspectives, and Giddens' more "optimistic" view (through his notion of the reflexivity of "post-traditional society"), this study proposes an appreciation of the works of authors such as Andreas Huyssen and the feminist and post-colonial theorists, who point to trends of postmodernity, some of them contradictory, that contribute to the development of practical and theoretical new ways.

Keywords:Postmodernity. Contemporary sociological theory. Zygmunt Bauman. Public and private.


 

 

Instead of a utopian moment, we live in a time which is experienced as the end - more exactly, just past the end -of every ideal... An illusion of the end, perhaps- and not more illusory than the conviction of thirty years ago that we were on the threshold of a great positive transformation of culture and society. No, not an illusion, I think.

Susan Sontag

Postmodernity means many different things to many different people. It may mean a building that arrogantly flaunts the órders'prescribing what fits what and what should be kept strictly out to preserve the functional logic of steel, glass and concrete. It means a work of the imagination that defies the difference between painting and sculpture, styles and genres, gallery and the street, art and everything else. It means a life that looks suspiciously like a TV serial, and a docudrama that ignores your worry about setting apart fantasy from what 'really happened'. It means licence to do whatever one may fancy and advice not to take anything you or the others do too seriously. It means the speed with which things change and the pace with which moods succeed each other so that they have no time to ossify into things. It means attention drawn in all directions at once so that it cannot stop on anything for long and nothing gets a really close look. It means a shopping mall overflowing with goods whose major use is the joy of purchasing them; and existence that feels like a life-long confinement to the shopping mall. It means the exhilarating freedom to pursue anything and the mind-boggling uncertainty as to what is worth pursuing and in the name of what one should pursue it.

Zygmunt Bauman

 

Introdução

Se os debates sobre o conceito de "pós-modernidade" e "pós-modernismo", que foram centrais para a teoria social dos anos oitenta, ocupam menos espaço hoje do que dez ou quinze anos atrás, isto talvez represente mais uma trégua do que um consenso sobre o uso dos conceitos. No campo específico da Sociologia, vários dos autores consagrados do nosso momento dizem não gostar do conceito - desde Anthony Giddens, que prefere falar de "modernidade radicalizada" até Zygmunt Bauman, que, em tempos recentes, preferiu o termo de "modernidade líquida" ao conceito de pós-modernidade que ele empregava em obra anterior. Mas nestes tempos em que mesmo os menos "pós-modernos" aprenderam a prestar muita atenção nas palavras e nas coisas (BARRETT, 1999), uma indagação sobre o que pode haver de significativo no apego ou na rejeição de um termo como este poderia ser muito revelador. 2

Metáforas e visões de degeneração social permeiam uma boa parte dos discursos sobre a vida social contemporânea, tanto desde o campo das teorias críticas, quanto dos argumentos neoconservadores que aparecem dentro, mas particularmente fora da Academia (permeando também o "senso comum"). De fato, desde os anos 80, o argumento de estarmos vivendo um momento de crise nas relações sociais e na "cultura" apareceu entre os neoconservadores preocupados com a crise de legitimidade pela qual passavam as "democracias ocidentais"3, surgindo, por exemplo, na polêmica que surgiu nos EUA nos anos 80, sobre currículo e cânone, com sua grande ansiedade em relação à crescente voz das "culturas minoritárias".4

Mas, desde o campo do neomarxismo e da teoria crítica, o momento "pós-moderno" - significado como fase histórica do capitalismo tardio e seu "reflexo" no pensamento - também é representado como deterioração: deterioro de possibilidades críticas e contestatórias, triunfo final de uma sociedade capitalista, sem mais capacidade de manter uma oposição política e cultural autêntica.5

Da Sociologia acadêmica, diversificada e híbrida como ela é, não se esperaria que alinhasse facilmente conforme posições "ideológicas" polarizadas. Por definição, ela deveria ter como objetivo a produção de análises complexas de História, cultura e relações políticas e sociais da contemporaneidade. No entanto, a leitura dos autores e os debates atuais revelam que mesmo as análises mais brilhantes costumam albergar subtextos ou pressuposições, às vezes pouco examinados. Para avançar na leitura crítica de discursos sociológicos atuais sobre cultura e pós-modernidade, procurando identificar tanto seus mais importantes insights quanto seus aspectos mais problemáticos, pretendo neste trabalho me valer dos recursos de leitura crítica, oferecidos por alguns autores que - como Andreas Huyssen e Rita Felski, escrevem desde outros campos disciplinares (principalmente a teoria literária e a teoria feminista) 6. Neste sentido, dou continuidade ao trabalho que venho realizando, de explorar novas interpretações de alguns dos discursos que gozam de ampla aceitação no meio acadêmico da Sociologia brasileira hoje. 7

 

A sociologia acadêmica e sua "pós-modernidade":

Discuti, noutro lugar, o modo como os movimentos sociais, políticos e culturais dos anos 60 permearam o meio acadêmico, tanto exigindo, quanto participando da transformação das perspectivas teóricas e metodológicas conservadoras que nele ainda mantinham hegemonia.8 Houve, a partir desse momento, um florescimento de perspectivas críticas nas ciências sociais, desde o renascimento de um marxismo que - seguindo a inspiração frankfurtiana - tentava desenvolver abordagens mais sensíveis aos fenômenos da cultura e da subjetividade. Nos EUA, uma nova geração de seguidores da Escola de Chicago, os quais desenvolviam um interacionismo simbólico mais engajado, que enfocava processos de estigmatização e marginalização, mas também de resistência subcultural, particularmente ligada à vida nas grandes cidades norte-americanas. O surgimento de uma teoria feminista multidisciplinar desafiava o masculinismo dos cânones estabelecidos nas diversas áreas das ciências humanas, e o aparecimento de uma nova geração de sociólogos incluídos entre os nomes que iriam obter maior destaque, Alain Touraine, Anthony Giddens, Pierre Bourdieu e Richard Sennett.

Evidentemente caberia a esses sociólogos fornecer alguma caracterização mais específica das sociedades ocidentais da fase do pós-guerra, que problematizasse questões de "ruptura" ou "continuidade" em relação às sociedades que foram a matéria de análise da literatura clássica. O debate de fato já tinha começado; incluía as discussões de sociólogos como Daniel Bell e Ralf Dahrendorf, com sua preocupação pela passagem de uma sociedade estruturada em torno do industrialismo e seus conflitos, para uma outra, "pós-industrial" (BELL) ou da "institucionalização dos conflitos de classe" (DAHRENDORF). Também durante os anos 60, críticos que se tornaram expoentes da contracultura nos EUA, como Herbert Marcuse e Theodore Roszak, tinham dedicado muitas páginas para falar dos novos conflitos e novas formas de resistência (vindo particularmente dos jovens) à sociedade tecnocrática.

Desde o final dos anos 70 e principalmente a partir dos anos 80 (com certeza, em diálogo com perspectivas surgidas fora da Sociologia, e autores como Michel Foucault), a discussão foi mudando de foco. Os anos de grande protesto acabaram, e a sociedade parecia estar de novo estabilizada, talvez em cima de padrões um tanto modificados - mas em que sentido, e com quais perspectivas para o futuro? Numa fase de aparente pouca contestação política nos países do capitalismo central, talvez fosse momento para fazer um balanço de novo. Na Sociologia, o conceito de modernidade tomou um lugar central e, com este, o de pós-modernidade, com toda a ambigüidade de poder ser compreendido como herdeiro ou como rival daquela. 9

Em teóricos sociais tão diferentes quanto Christopher Lasch e Richard Sennett, aparece um discurso nostálgico, de saudade (às vezes mascarada) para uma outra época na qual as tensões e conflitos em torno da autoridade eram mais fáceis de identificar e, portanto, (talvez), lutar contra, na qual haveria, supostamente, coletividades mais coesas de pessoas cujos interesses comuns e evidentes serviam como base de "laços comunitários", etc. Um dos argumentos principais que pretendo fazer neste artigo é o da existência de um subtexto nestes autores (mais claro talvez em Lasch e nos discursos alinhados explicitamente com o neoconservadorismo do que em Sennett) que emergem das profundas ansiedades de gênero, pertencentes a nosso tempo10. Nesta visão, o "declínio" de laços de família e de comunidade vinculam-se a uma "erosão" (muito lamentada) das fronteiras entre o público e o privado e às mudanças nas relações de gênero e de cultura sexual que fariam parte de tal processo. (Um pouco mais adiante, pretendo demonstrar como isto também aparece como um subtexto do trabalho mais recente do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, que se torna cada vez mais forte conforme ele se afasta da visão da pós-modernidade que caracterizava sua obra do início dos anos 90).

Também é evidente que nenhum sociólogo da atualidade pode esquivar-se da difícil tarefa de dar conta das mudanças que marcam a história da segunda metade do século XX - todas as ramificações da mudança da sociedade da produção (e, como diria Claus Offe, do trabalho) para a sociedade do consumo (e do desemprego); do mundo político dos dois blocos e da guerra fria para o mundo após a queda do muro de Berlim; do mundo dos padrões culturais claros para o das "identidades plurais" e assim por diante. Um sociólogo pode posicionar-se "contra" os discursos e a ênfase identitária pós-modernos, mas faz pouco sentido querer minimizar o impacto dos fenômenos históricos aos quais tais discursos e identidades estão tentando responder.11 É, portanto, importante fazer uma separação inicial entre ambas as questões: a da existência e do caráter, de um momento histórico que pode ser denominado ou pensado como "pós-modernidade" e os traços estruturais e culturais que o definem - que remete à discussão de possíveis continuidades ou rupturas históricas - e a segunda, de avaliação do movimento filosófico, cultural e artístico, que adquire o nome de pós-modernismo, e o que este representa em relação aos movimentos culturais de um período histórico anterior.12

Sociólogos atuais como Habermas e Giddens, claramente identificados com a disciplina da Sociologia enquanto narrativa sobre a modernidade (FELSKI, op.cit.), trabalham com noções que enfatizam mais as continuidades do que as rupturas entre nosso momento e os momentos de emergência e consolidação das instituições sociais modernas. Habermas ainda aposta no "projeto inacabado" da modernidade, e na possibilidade de fazer avançar a ação comunicativa, para além das tendências desintegrativas atuais de pulverização das identidades sociais (que segundo ele, ameaçam a capacidade dialógica que a democracia moderna, enquanto projeto emancipatória, desenvolve). No entanto, ele afirma que sua posição, nada teria a ver com a dos neoconservadoras que não conseguem aceitar as mudanças culturais que fazem parte da "modernização societária"13 e

desplaza sobre el modernismo cultural las incómodas cargas de una más o menos existosa modernización capitalista de la economia y la sociedad ... [responsabilizando] a la cultura del hedonismo, la ausencia de identificaçión social y de obediencia, el narcisismo, el abandono de la competencia por el status e éxito. (1984, p.29)

Na verdade, ele explica, a cultura intervém na origem destes "problemas" só de maneira indireta e mediada. Na reação neoconservadora, haveria uma não compreensão da verdadeira natureza do protesto e descontentamento do nosso tempo, que, para Habermas, representa uma revolta contra a "penetração da racionalidade econômica e administrativa" na esfera própria da ação comunicativa. 14 Por outro lado, Habermas também tenta deixar claro que defende o "projeto da modernidade", contra os seus detratores pós-modernos, que ele chama de "jovens conservadores" ou "anti-modernos" que

recuperan la experiencia básica de la modernidad estética. Reclaman como propias las revelaciones de una subjetividad descentrada,emancipada de los imperativos del trabajo e la utilidad, y con esta experiencia dan un paso fuera del mundo moderno. Sobre la base de actitudes modernistas, justifican un irreconciliable antimodernismo. Colocan en la esfera de lo lejano y lo arcaico a las potencias espontáneas de la imaginación, la experiencia de si y la emoción. De manera maniquea, contraponen a la razón instrumental un principio sólo accesible a través de la evocación, sea éste la voluntad de Poder, el Ser o la fuerza dionisíaca de lo poético". (Idem, p.31)

Eles também, em lugar de compreender o que seriam para Habermas os verdadeiros desafios desse projeto ainda acabado, cairiam num tipo de irracionalismo.

Com Giddens, voltamos a uma espécie de dicotomia sociológica clássica tradição/modernidade, sendo a "reflexividade" - dos agentes e das instituições - traço fundamental desta última, que também irá possibilitar a democratização paulatina das próprias relações sociais de hierarquias de poder e desigualdade social. Prefere o termo "modernidade radicalizada" ao de "pós-modernidade", exatamente porque prefere enfatizar a continuidade entre os diversos momentos da "sociedade pós-tradicional" que se sobreporia às suas aparentes diferenças. As mudanças, contudo, são bem-vindas: no século XX, e especialmente na sua segunda metade, completa-se a transformação de certas instituições sociais que promovem transformações da família, da sexualidade, das relações de gênero, e da vida política, e a incorporação de novos atores e novas formas (legítimas) de atividade política As relações de poder e desigualdades em acesso a poder e recursos são cada vez mais negociáveis e negociadas.

Mesmo mantendo-se eles a certa distância, Giddens, no seu trabalho de análise social, recorre a alguns autores considerados como "pós-modernos". Estes aparecem, por vezes, como fontes e interlocutores, evidenciando também o uso que Giddens costuma fazer, de trabalhos produzidos em diversos campos disciplinares. Seu livro, Modernity and Self-identity, empreende um diálogo bastante crítico com Foucault e suas teses sobre modernidade e poder disciplinar. De modo semelhante, A Transformação da Intimidade (1992) faz amplo uso de literatura feminista, mas com uma certa tendência de diminuir as tensões e contradições através das quais as relações de gênero vêm sendo contestadas e re-negociadas ao longo do período moderno.

 

Zygmunt Bauman e os "riscos (perigos) da pós-modernidade"

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman, autor de uma obra teórica rica e muito prolífica, vem sendo muito bem acolhido no Brasil nos últimos anos, o que fica demonstrado no fato de existir versão brasileira de uma boa parte de grande produção. Dentre estes, uma boa parte dos livros participam diretamente dos debates em torno da condição (pós) moderna e a crise que, nos tempos atuais, supostamente toma conta das relações sociais, da cultura e da política.

Um livro particularmente interessante é seu Intimations of Postmodernity, publicado originalmente em 1992, ou seja, logo após a década conhecida como grande produtora de discursos e debates sobre pós-modernidade e pós-modernismo. Embora nesta obra, ele aparentemente se posicione contra uma visão pós-moderna da pós-modernidade (defendendo em lugar desta, uma "sociologia da pós-modernidade")15 a análise contida nela mostra claras aproximações a algumas das críticas "pós-modernas" centrais da sociedade nascida da Revolução Industrial e do Iluminismo. Com um pensamento que o distingue, por exemplo, de alguém como Anthony Giddens - para quem a reflexividade característica da sociedade "pós-tradicional" marca sua diferença e só se realiza (radicaliza) com o avanço da História ocidental moderna - ou de Habermas, com sua insistência na modernidade como projeto inacabado; para Bauman, a modernidade se estabelece inicialmente como uma época de hierarquias, de padrões normativos, e de sonhos de pureza e de controle "totalizante" sobre a natureza e sobre a "natureza humana". Após o "choque" inicial da dissipação do Antigo Regime - fenômeno que trouxe consigo o reconhecimento de que o mundo humano é contingente (o que também significa que sujeito à ação humana), nasce também uma nova preocupação com a estrutura e a ordem, que desta vez, são vistas como humanamente criadas, garantidas e vigiadas. Assim, os novos poderes procuram dar um rumo definido à sociedade, que deve previr o caos, planejar racionalmente e manter do lado de fora, todos os perigos e ameaças potenciais à ordem. No item da sua introdução tão espertamente intitulado, "Modernity or desperately seeking structure", fica evidente que ele parte também daquilo que se tornou a preocupação fundamental dos filósofos pós-modernos (antecipada, claro, por Weber no seu argumento sobre o desencantamento do mundo e posteriormente, por Adorno e Horkheimer no seu brilhante trabalho sobre a Dialética do Esclarecimento): como é que os sonhos modernos rapidamente produzem discursos e tentativas práticas de homogeneização e controle de um mundo não mais visto como determinado por poderes divinos ou sobrenaturais. Cito Bauman:

The kind of society that, retrospectively, came to be called modern, emerged out of the discovery that human order is vulnerable, contingent and devoid of reliable foundations. That discovery was shocking. The response to the shock was a dream and an effort to make order solid, obligatory and reliably founded. This response problematized contingency as an enemy and order as a task. It devalued and demonized the 'raw' human condition. It prompted an incessant drive to eliminate the haphazard and annihilate the spontaneous..." (1987, p.xi)

E mais adiante:

The new, modern order took off as a desperate search for structure in a world suddenly denuded of structure. Utopias that served as beacons for the long march to the rule of reason visualized a world without margins, leftovers, the unaccounted for - without dissidents and rebels; a world in which, as in the world just left behind, everyone will have a job to do and everyone will be keen to do the job he has to: the I will and the I must will merge." (idem, xv)

Assim, o Panopticom inventado por Bentham e analisado por Foucault no seu livro Vigiar e Punir torna-se, para Bauman, uma boa metáfora para o mundo que os arquitetos da modernidade ansiavam construir: "Modernity was a long march to prison. It never arrived there, albeit not for the lack of trying".(xvii)

Resgata-se deste impulso ordenador e repressivo da modernidade, segundo Bauman e outros autores16, somente o "breve interlúdio" do humanismo, que se distinguiu pela sua abertura, pela sua aceitação da "diversidade" e das profundezas paradoxais dos sentimentos e criatividade humanas, representado exemplarmente no pensamento europeu por Montaigne, que reconhecia a especificidade temporal e espacial deste modo de vida, tão ansioso de ser reconhecido como "universal". Mas este parece ser um momento fugidio, de maior humildade e sensibilidade nos discursos, e que rapidamente sucumbe perante o apetite voraz da modernidade ocidental pelo poder e pela conquista.

Há, nesta fase do trabalho de Bauman, outros pontos de convergência entre seu discurso e os discursos produzidos desde perspectivas críticas pós-modernas e pós-coloniais sobre a modernidade. Evidenciam-se por exemplo, nos argumentos que Bauman apresenta no capítulo "Legislators and Interpreters", que seguem uma linha muito marcada pelo pensamento de Foucault sobre o poder disciplinar do Estado moderno e como este promove (e depende de) uma nova elite de experts cujo saber (poder/saber) se torna uma grande forma, particularmente moderna, de controle social17. Aponta, ainda de forma compartilhada com os discursos pós-modernos, para a arrogância da visão que o Ocidente moderno desenvolve sobre si mesmo: sociedade que possui um conhecimento superior a todas as outras, que se pensa universal e progressista, e que tem - em nome de uma missão civilizadora ou de elevação do espírito e a vida humanos, legitimidade para subordinar - ou destruir - formas de vida diferentes e locais, as dos seus Outros. Descreve a "autoridade legislativa" do Ocidente moderno e seus "homens do saber": "The authority involved the right to command the rules the social world was to obey; and it was legitimized in terms of a better judgment, a superior knowledge guaranteed by the proper method of its production." E, com uma reflexividade particular, estende a crítica à sua própria categoria, aos intelectuais ocidentais, e ao conceito moderno de "cultura" que se tornou não só eixo de teorização, senão justificativa para os afazeres profissionais - e sua posição social - deste grupo:

The intellectual ideology of culture was launched as a militant, uncompromising and self-confident manifesto of universally binding principles of social organization and individual conduct. It expressed not only the exuberant administrative vigor of the time, but also a resounding certainty as to the direction of anticipated social change. Indeed, forms of life conceived as obstacles to change and thus condemned to destruction had been relativized; the form of life that was called to replace them was seen, however, as universal, inscribed in the essence and destination of the human species as a whole." (ps. 10-11)

E com uma preocupação tipicamente "pós-moderna" pela força que os discursos têm na produção da vida social, problematizando formas mais convencionais de pensar sobre um "substrato real" que os discursos escondem, destaca-se a própria definição que Bauman oferece de "modernidade": "I take here the concept of 'modernity' to stand for a perception of the world, rather than (as it has been misleadingly intimated) the world itself; a perception locally grounded in a way that implied its universality and concealed its particularism." (p.12)

Partindo desta visão crítica da modernidade, a época da pós-modernidade, embora cheia de suas próprias contradições, deve ter algum avanço para oferecer. É isto que transparece nesta obra de Bauman (e numa obra anterior, Modernidade e Ambivalência, publicado originalmente em 1991, na Inglaterra): uma perspectiva mais esperançosa, que enfatiza mais algumas novas possibilidades especificamente pós-modernas, e tendendo a ceder a uma outra, mais negativa, de obras posteriores. Há então, na desestabilização pós-moderna dos padrões rígidos da vida social da modernidade, algo de salutar ou potencialmente emancipatório. Há a (nova) possibilidade de "conviver com a ambivalência". Traz os seus perigos, mas também um desafio que talvez valha a pena: há consciência (embora "despreocupada" demais)

de que existem muitas histórias que precisam ser contadas e recontadas repetidamente, a cada vez perdendo algo e acrescentando algo às versões anteriores. Há também uma nova determinação: a de resguardar as condições nas quais todas as histórias podem ser contadas, recontadas e contadas novamente de forma diversa. É na sua pluralidade e não na 'sobrevivência dos mais aptos (isto é, na extinção dos 'menos aptos') que reside agora a esperança. (BAUMAN, 1999:259)

Mas o desafio, e os perigos, são enormes, pois: "Ao contrário da ciência e da ideologia política, a liberdade não promete certeza nem garantia de nada". (idem, p.259).

Contudo, Bauman não consegue apostar muito nas mudanças sociais e culturais da pós-modernidade. A modernidade, que promove o "desencaixe" (para emprestar o termo de Giddens para caracterizar a gênese das instituições sociais modernas) dos indivíduos dos contextos comunitários tradicionais, não consegue oferecer uma boa alternativa (só a família burguesa nuclear, privatizada e hierárquica). Porém a pós-modernidade tende a fazer avançar esta tendência, privatizando ainda mais "os medos e ansiedades da época moderna". Como não fornece bases institucionais para a reconstrução dos laços que unem as pessoas ao mundo - ao contrário, abre um espaço cada vez maior para a "livre ação" do mercado - a pós-modernidade só pode ser a idade dos vínculos tênues e das "comunidades imaginadas":

belief in their presence is their only brick and mortar, and imputation of importance their only source of authority".(p. xix); "Having no other (and above all, no objectified, supra-individual) anchors except the affections of their 'members', imagined communities solely exist through their manifestations (demonstrations, marches, festivals, riots) (BAUMAN, 1992: xix).18

Desta forma, Bauman mostra ceticismo perante novas formas de sociabilidade que surgem a partir de uma busca de vínculos diferentes. Seu ceticismo remete a um "paradoxo ético" que ele identifica como particular da pós-modernidade, na qual as normas que antes regiam a vida cotidiana e comunitária vão sendo abolidas (seja pela ação das pessoas na sua rejeição de imposições autoritárias, seja pela lógica "vale-tudo" do mercado). Se, na modernidade, a "responsabilidade individual" quase inexistia ("Modernity was, among other things, a gigantic exercise in abolishing individual responsibility other than that measured by the criteria of instrumental rationality and practical achievement") , o desafio da pós-modernidade, embora ofereça a possibilidade da constituição de um agente- sujeito, tende a desmoronarse perante um novo impasse de falta de referências e de recursos coletivos:

The ethical paradox of the postmodern condition is that it restores to agents the fullness of moral choice and responsibility while simultaneously depriving them of the comfort of the universal guidance that modern self-confidence once promised. Ethical tasks of individuals grow while the socially produced resources to fulfill them shrink. Moral responsibility comes together with the loneliness of moral choice". (xxii)

Outro grande assunto que Bauman trata, de forma muito perspicaz, contudo, ao mesmo tempo, merecendo certas observações críticas, diz respeito à relação entre sociologia e pós-modernidade. Reafirmando uma questão que vem sendo muito focalizada pela teoria social contemporânea, na sua preocupação "pós-moderna" pela construção dos discursos - que a Sociologia como disciplina ou "narrativa" nasce em estreita relação com as tarefas políticas, sociais e intelectuais colocadas pela modernidade, como momento histórico e tipo de sociedade que se torna seu objeto - passa a considerar como a mudança para uma "sociedade pós-moderna" afetaria a tarefa de "fazer Sociologia". Um grande elemento do seu argumento, desenvolvido através de vários capítulos deste livro de 1992, gira em torno do que Bauman considera uma importantíssima mudança no papel e posição dos intelectuais. Segundo ele, se o Estado-nação moderno precisava destes, para uma grande "missão" de educar as massas - ou pelo menos, produzir discursos capazes de legitimar os Estados modernos no seu projeto de aglutinar e disciplinar uma população heterogênea e, às vezes muito resistente às tentativas de controle exercidas pelo Capital -, poderia dizer que esse papel legitimador e "legislativo" vai progressivamente perdendo sua razão de ser. As novas condições sociais trazem novas formas de controle social (a dupla "sedução/repressão" de uma sociedade de consumo) que independem da "legitimação", outra hora necessária. Além de perder sua centralidade na elaboração desse tipo de discurso, os intelectuais também perdem seu papel no desenvolvimento e sustento da "Cultura" ("a cultura", como comentei acima é, ou era para Bauman, antes de mais nada, uma ideologia dos intelectuais das sociedades modernas), a qual se transforma em produtos midiáticos de uma grande indústria do entretenimento. Neste contexto, o próprio conceito de "pós-modernidade" (e o deslocamento que o conceito parece propiciar, da antiga forma de distinguir entre idéias e práticas, que enfatizava a "materialidade" destas últimas e o caráter de "reflexo" das primeiras) teria, em si, muito a ver com a crise de deslocamento da própria classe dos intelectuais.

Esses intelectuais, então, quando perdem sua função privilegiada de "legisladores de uma nova sociedade", voltam-se para uma nova postura teórica, de "intérpretes" de um mundo "pós-iluminista". Assim, Bauman se demonstra altamente cético em relação aos argumentos de intelectuais pós-modernos que vêem a necessidade de uma "mudança de paradigma" nas ciências sociais. Eles estariam simplesmente se acomodando a uma situação que os permite produzir ad infinitum novas "interpretações" de um mundo social diverso e complexo, sem tomada de posição e reforçando uma espécie de relativismo que, embora tentem justificar como superação do universalismo totalitário de outra época, não permite nenhum avanço em termos de compreensão dos novos mecanismos de dominação (ver por exemplo, sua crítica à "tradução cultural" que seria o objetivo da "descrição densa" do antropólogo Clifford Geertz ). Rejeita a proposta de uma "Sociologia pós-moderna" - uma Sociologia modificada em suas premissas epistemológicas fundamentais, ou como ele diz, que enfocaria principalmente jogos de linguagem/discursos/interação social que seria, para ele, muito mais sintoma do que explicação da pós-modernidade. (Neste sentido, desenvolve uma crítica de muitas páginas sobre a etnometodologia precursora da postura pós-modernista nas ciências sociais)19 Contra estes "pós-modernos" (embora com certeza influenciados por eles, e por Foucault de forma particularmente notável), Bauman defende a idéia de que tarefa principal da Sociologia hoje é "procurar uma compreensão da pós-modernidade". Há uma especificidade pós-moderna que gera uma nova lógica que a Sociologia precisa ser capaz de captar. Não é mais a da produção, do trabalho disciplinado, do padrão e da norma, da uniformidade, ou enfim, de um princípio da realidade que prevalece, senão a do consumo, da liberdade do consumidor, que admite e se sustenta, inclusive, na base da diversidade e nem precisa mais de garantir heterogeneidade ideológica ou cultural para garantir a integração social e sistêmica. A Sociologia, portanto, precisa encarar tarefas teóricas novas.

Sua crítica mais radical ao discurso sociológico clássico remete-se à forma em que a Sociologia da modernidade tende a equiparar sociedade e Estado-nação. 20 Aqui Bauman elabora um argumento muito forte, contra o que seria o "exagero" da Sociologia clássica quanto a dois pontos relacionados: a preponderante "tendência racionalizante" das sociedades modernas, assim como sua identificação e aceitação da "hipótese da modernização". Tentarei deixar mais claro: o conceito de "sociedade" na Sociologia clássica "cut to the measure of the nation-State" vê este último (ou seja, ambos) como uma unidade normativa, com uma distribuição interna de poder não-ambígua, basicamente auto-sustentada e mantida através de suas próprias tendências internas que impulsionam o desenvolvimento. Isto, segundo Bauman, representa um viés de concepção: o que pode ser visto como tendência racionalizante se o olhar focaliza as relações internas de um Estado-nação, mostra aspectos que não obedecem aos mesmos padrões e critérios de controle nas conseqüências que espalha para fora do seu próprio território. De forma parecida, o caráter inadequado da "hipótese da modernização" se revela claramente em "tempos pós-modernos", quando as múltiplas resistências, noutras partes do globo, aos supostos processos de homogeneização global e ao triunfo de um modo ocidental de vida, tornaram-se muito mais visíveis.21 Embora não fique totalmente claro se, para Bauman, trata-se tanto de um problema de falha da teoria clássica ou de um problema novo colocado pela "globalização" pós-moderna, ele é com certeza muito enfático na forma em que pede que a Sociologia contemporânea se esforce para superar estes problemas, sugerindo "the elaboration of categories appropriate to the analysis of dependencies and interactions in the 'mono-societal'social space, a space without 'principal coordination', 'dominant culture', 'legitimate authority', etc., is now a most task faced by sociology".

Bauman enumera também outros "fenômenos especificamente pós-modernos" que merecem reconhecimento, estudo e teorização, dentre estes, todas as conseqüências do fato da aceleração do processo da "emancipação de Capital do trabalho" (uma inversão paradoxal da previsão de Marx sobre o futuro da sociedade ocidental?), que significa à sua vez, que o capitalismo agora engaja as pessoas na sua condição de consumidores e que - como assinalei acima - desenvolve-se um novo esquema de controle, integração e dominação sociais, baseado na oposição "sedução" (ligada à dependência das pessoas em relação ao mercado22)/repressão (ligada à "penetração crescente da esfera privada"- sic).

Outro livro seu, escrito uns anos depois, O Mal-estar da Pós-modernidade (1998; primeira edição inglesa 1997), é, como o título sugere, uma tentativa de explicar o mal-estar cultural e social, especificamente pós-moderno. Explicitamente inspirado em Freud, para quem havia um mal-estar particular da modernidade, ele assinala:

os mal-estares da modernidade provinham de uma espécie de segurança que tolerava uma liberdade pequena demais na busca da felicidade individual. Os mal-estares da pós-modernidade provêm de uma espécie de liberdade de procura do prazer que tolera uma segurança individual pequena demais.(p.10)

Ao longo dos seus catorze capítulos, o livro apresenta discussões sobre diversos aspectos da cultura e da sociabilidade da nossa época, e suas observações críticas são geralmente astutas e significativas. No entanto, reaparece a grande dificuldade que parece caracterizar o pensamento de Bauman sobre a época contemporânea, o que às vezes o deixa muito próximo aos "neoconservadores" de Habermas (ver acima): uma falta de sensibilidade para com as mudanças no terreno das relações de gênero (e as que reinavam no terreno da sexualidade, impondo a heterossexualidade compulsória e, no geral, um modelo de sexualidade pautada na reprodução) que repercutem em muitas dimensões das sociabilidades e da prática social (família, trabalho, relações entre o público e privado etc.). De fato, não se encontram entre suas referências e entre as pessoas que ele menciona como interlocutores, nenhuma das teóricas importantes que nos últimos vinte a trinta anos vêm produzindo literatura crítica neste sentido. Assim, quando num capítulo deste livro ele enumera as quatro "dimensões da incerteza presente" nas quais se arraiga a corrente atmosfera de "medo ambiente", a terceira (sendo as duas primeiras, a "nova desordem" política do mundo e a "desregulamentação universal" que trata basicamente do abandono do interesse na situação econômica da classe trabalhadora e na - crescente - desigualdade socioeconômica) é interpretada em termos bastante nostálgicos:

As outras redes de segurança, tecidas e sustentadas pessoalmente, essa segunda linha de trincheiras outrora oferecida pela vizinhança ou pela família, onde uma pessoa podia retirar-se para curar as contusões deixadas pelas escaramuças do local de trabalho - se elas não se desintegraram, então, pelo menos, foram consideravelmente enfraquecidas. A pragmática das relações interpessoais (o novo estilo da 'política de vida', como o descreveu com grande persuasão Anthony Giddens), agora permeado pelo dominante espírito do consumismo e, desse modo, dispondo de outro como a fonte potencial de experiência agradável, em parte merece censura: para o que quer que a nova pragmática [ênfase minha] ainda seja boa, ela não tem como gerar laços duradouros nem, mais seguramente, laços que se suponham duradouros e tratados como tais. Os laços que ela gera, em profusão, têm cláusulas embutidas até segunda ordem e passíveis de retirada unilateral: não prometem a concessão nem a aquisição de direitos e obrigações.(p. 35)

Exemplifica-se aqui, o apego que Bauman tem à antiga visão burguesa da família como refúgio privado, como haven in a heartless world (Cf. LASCH, 1977) espaço que abriga seus membros e oferece repouso (ou recompensa) pelos sofrimentos do mundo cruel e competitivo do público. Esta visão, no entanto, já foi amplamente criticada; desde os anos 60 e 70, as teóricas feministas mostraram com grande coerência e muitas fontes históricas e literárias, como tal visão escondia uma desigualdade básica entre os gêneros, que também sustentou historicamente a negação de status civil (de cidadã plena) das mulheres. Junto com teóricos de outras perspectivas (desde a antipsiquiatria até Foucault), foi demonstrado que as relações de poder permeavam também a vida familiar, e que novas formas mais sofisticadas de pensar as relações entre público e privado seriam necessárias. Foi também a partir deste reconhecimento do caráter complexo e conflitivo da vida "em família" - e de sua íntima relação (aproveitando o duplo sentido) com outras instituições do status quo, que a busca de novas formas de organização da vida cotidiana e dos relacionamentos amorosos e sexuais tornou-se uma meta de vários movimentos sociais dos anos 60: a contracultura, o feminismo, os movimentos das "minorias sexuais"... E - sem poder entrar aqui numa discussão sobre os alcances e limites dos desejos e práticas destes movimentos - as modificações que trouxeram para a cultura contemporânea, para a renegociação de relações de poder, e para novas definições do possível, não pode ser reduzido, como aparece geralmente nos discursos neoconservadores, a novos individualismos ou a uma cultura de "falta de compromisso" com os outros. Assim, desaponta ver como um pensador tão astuto como Bauman possa subestimar tanto não só o grau de sofrimento que os "velhos arranjos" traziam para uma grande parte da população - mulheres, jovens, pessoas que não se conformavam à "matriz heterossexual" estabelecida, etc. - senão que não considere com mais atenção e paciência, a grande quantidade de literatura atual, que inclui muitos excelentes estudos sociológicos e antropológicos produzidos ao redor do mundo - que mostram que muitas pessoas continuam lutando para reconstruir as sociabilidades do "público" e do "privado", de formas que permitem viver melhor as relações humanas. 23

Bauman também discute neste livro a "fragmentação da identidade" que tanto preocupa outros sociólogos, como Habermas e Claus Offe. Se a modernidade exigia assimilação das diferenças e adaptação a um padrão universal, a era pós-moderna, dos "tribos e tribalismos" parece ser mais preocupante ainda, tanto na medida em que os indivíduos sejam instigados a não se comprometerem - de mudar esquizofrenicamente de uma identidade para outra, como se colocasse e tirasse uma fantasia - quanto no sentido de que grupos sociais, ao afirmarem sua diferença, recusem-se a contemplar e sentir qualquer laço de semelhança ou qualquer possibilidade de convivência profunda com outros grupos.

Em relação a este primeiro ponto, parece-me que Bauman cai num viés interpretativo comum a muitos autores que não se dispõem a considerar com devida seriedade a proposta de certos teóricos que eles identificam com a perspectiva pós-moderna. A teórica "queer" Judith Butler já se viu obrigada a explicar, muitas vezes, para seus críticos que pensar nas identidades de gênero como fluídas e não fixas - fixas numa "natureza verdadeira" da pessoa, fixas no sentido de reprodução coerente do continuum sexo/gênero/identidade sexual/objeto de desejo24 - não significa que os processos de construção identitárias sejam superficiais ou - muito menos - não inscritas ou "materializadas" no corpo de uma forma que a pessoa tenha uma vivência profunda delas. O sociólogo jamaicano Stuart Hall também ajuda a pensar esta questão quando, na sua crítica de uma interpretação liberal do "multiculturalismo" - que se limita a uma "democracia da tolerância" que mantém o distanciamento entre os grupos ou interpreta o pluralismo enquanto convivência de estilos no mercado - aponta numa outra direção: as sociedades atuais de fato são "multiculturais", juntando grupos étnicos e raciais e produzindo novos espaços, culturas e linguagens "híbridas". Como Hall nos lembra, a "questão multicultural também sugere que o momento da diferença é essencial à definição de democracia como espaço genuinamente heterogêneo". (2003: p. 87)

Quando Bauman receia que a

miscifilia bem pode ser substituída pela miscifobia; a tolerância da diferença bem pode ser aliada à categórica recusa da solidariedade; o discurso monológico, em vez de dar lugar a um discurso dialógico, cindir-se-á em uma série de solilóquios, com os falantes não mais insistindo em ser ouvidos, mas se recusando também a escutar" (p. 103),

ele está percebendo alguns dos perigos mais angustiantes do momento pós-moderno, que faz muito sentido desde o lugar onde ele se situa - como observador de novos conflitos raciais e étnicos na Europa, e sendo que o desmembramento dos países do antigo bloco comunista e seu afundamento nos antagonismos étnicos têm tudo para marcar profundamente sua leitura da pós-modernidade, que hoje ele prefere chamar de "modernidade líquida". Mas há a oportunidade de construir, dentre os perigos e possibilidades oferecidas pela pós-modernidade, uma "nova lógica política" (HALL, op.cit.):

...o fato é que nem os indivíduos enquanto entidades livres e sem amarras nem as comunidades enquanto entidades solidárias ocupam por inteiro o espaço social. Cada qual é constituída na relação com aquilo que é outro ou diferente dela própria (ou através dessa relação). Se isso não resultar em uma "guerra de todos contra tudo", ou em um comunalismo segregado, então devemos perguntar-nos se o maior reconhecimento da diferença e a maior igualdade e justiça para todos podem constituir um 'horizonte comum'. Como sugere Laclau, parece que 'o universal é incomensurável com o particular' e que o primeiro 'não pode existir sem o segundo'. Antes de corroer a democracia, esta chamada 'falha'é 'a pré-condição para a democracia'(Laclau, 1996). Dessa forma, a lógica política multicultural requer, pelo menos, duas outras condições de existência: uma expansão e radicalização cada vez mais profundas das práticas democráticas da vida social, bem como a contestação sem trégua de cada forma de fechamento racial ou etnicamente excludente (praticado por outrem sobre as comunidades minoritárias ou no interior delas.) (p.89)

 

Sociologia, pós-modernidade, pós-modernismo: reconsiderando caminhos teóricos

Assim como a pós-modernidade produz diversos caminhos culturais e políticos, alguns sendo mais enfatizados do que outros, de acordo as interpretações e leituras que dela se fazem25, o pós-modernismo, como movimento na política e na cultura, é complexo e sujeito a vários tipos de interpretação. Termo originalmente cunhado para se referir a um movimento artístico nos anos 60, o qual se representava como superação do modernismo, na Sociologia parece ter sido de pouco interesse, fora do campo específico da Sociologia da cultura e da arte. 26 Mas para qualquer Sociologia que dê centralidade às questões de subjetividade, pensar sobre o que seria uma sensibilidade particularmente pós-moderna torna-se muito importante.

De novo, parece que a tendência que prevalece no discurso sociológico é aquela que entende o pós-modernismo monoliticamente como cultura afirmativa, e associa a sensibilidade pós-moderna à manipulação "hipermoderna" do mundo das imagens, prazeres consumistas imediatos e ilimitados e desejos que se satisfazem sem sequer implicar em qualquer tensão sua realização e as possibilidades ou oportunidades sociais (como teria sido o caso "noutro momento histórico", quando a cultura propunha transcendência e a sociedade impunha renúncias e recalque). O problema não está na "falsidade", senão na parcialidade desse ponto de vista, que falha ao não conseguir enxergar as diversas tendências que convivem - não sem tensões - nesse momento "pós-moderno" da arte, da cultura, da sensibilidade e da política. Dentre os vários autores que têm uma visão complexa sobre o pós-modernismo, o trabalho de Andreas Huyssen sobressai.

Analisando o momento em que surge o pós-modernismo - que precisa ser entendido também em relação aos movimentos artísticos e culturais do modernismo e da avant-garde histórica 27- Huyssen assinala a passagem de um "pós-modernismo de vanguarda" nos anos 60 (uma revolta cultural contra uma "versão do modernismo que, nos anos 50, tinha sido domesticada")28 (p. 242), para duas tendências, a partir dos anos 70: uma "cultura do ecletismo" que era, em grande parte, uma cultura afirmativa (isto é, de aceitação do status quo e a-criticamente celebratória de uma cultura de massas acessível a todos...) e outra, "an alternative postmodernism in which resistance, critique and negation of the status quo were redefined in non-modernist and non-avantgardist terms". (p. 42)

Agora, um aspecto muito importante do pós-modernismo de vanguarda, que é retido pelo "pós-modernismo de resistência" da segunda fase, é a forma em que criativamente problematiza a relação entre a "alta cultura" e algumas formas da cultura de massas, sendo que um elemento crítico nesta tentativa surge da auto-afirmação das culturas minoritárias, historicamente excluídas do campo do cânone, da cultura hegemônica. Felski (1995) analisa a relação sempre contraditória das mulheres, seus gostos, seu consumo, assim como sua produção cultural com a cultura canônica da modernidade, que envolve sua histórica associação com uma cultura "menor" mais vinculada com a massificação. Gilroy introduz a noção da cultura negra - tanto a produção de intelectuais negros, quanto a cultura cotidiana ou vernácula tão bem expressa na música e nas tradições orais das suas diversas comunidades - como sendo desde muito cedo "uma contracultura da modernidade". A partir do final dos anos 50 e inícios dos anos 60, há uma verdadeira irrupção destas "vozes minoritárias" nos campos mais visíveis da produção artística e cultural, que não demora em se fazer sentir na organização da vida universitária e a produção de conhecimento científico, histórico e filosófico.

A análise de Huyssen sobre o pós-modernismo oferece mais ainda uns pontos fundamentais para nossa compreensão do fenômeno que representa. Na sua visão, é importante distinguir entre o pós-estruturalismo, que "oferece uma teoria do modernismo, e não uma teoria do pós-moderno" e o pós-modernismo, que contra a noção da morte do sujeito, trabalha no sentido de elaborar "new theories and practices of speaking, writing and acting subjects" (p. 265). Apresenta um desafio crucial ao pensamento conservador - tanto o neoconservadorismo de direita, do qual Habermas fala - que aceita a "modernização" enquanto seus efeitos sobre o trabalho e o mercado de consumo, mas reage contra a perda de controles autoritários tradicionais sobre a expressão cultural, a sexualidade e as sociabilidades - quanto suas expressões "de esquerda", que reproduzem a visão de pensadores como Adorno e Horkheimer, - mais relevantes talvez para outro momento - mas negam a contribuição particular de formas novas "contra-hegemônicas" (particularmente "minoritárias") de viver, pensar, e sentir. Neste sentido, Huyssen articula:

the postmodern sensibility of our time... raises the question of cultural tradition and conservatism in the most fundamental way as an aesthetic and a political issue... My main point about contemporary postmodernism is that it operates in a field of tension between tradition and innovation, conservatism and renewal, mass culture and high art. (p. 264)

Finalmente, Huyssen articula alguns dos elementos centrais de um "pós-modernismo de resistência" como: 1) manter uma crítica da modernização, especialmente no seu sentido imperialista e de devastadora do meio ambiente; 2) atenção à centralidade das questões de gênero e sexualidade na sociedade, na cultura e na política e 3) promover a revalorização de culturas não-européias e não-ocidentais. Se a isto, acrescentamos um outro aspecto muito enfatizado muito pela teórica Jane Flax, o interesse particularmente pós-moderno, ou pós-estruturalista, de continuar sempre atentos e dispostos a "pensar sobre como pensamos" - que inclui pensar nossa localização no espaço e no tempo das relações sociais de classe, raça, gênero, centro/periferia e como esta nos marca - teremos um elenco de elementos extremadamente importantes para pautar o trabalho dos que, nos inícios de um novo século, preocupam-se ainda pelo "oficio d@ sociolog@"29.

 

Referências

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Recebido: 16/08/2006
Aceite final: 03/01/2007

 

 

1 Trabalho preparado para apresentação no GT de Teoria Sociológica, Congresso da Sociedade Brasileira de Sociologia, Belo Horizonte, MG, 31/maio - 3 de julho 2005.
2 Num artigo publicado recentemente no caderno Mais da Folha de São Paulo, a filósofa Susan Buck-Morss discute o sentido dos prefixos "pós" e "neo" na terminologia da política e da teoria social contemporâneas. Embora ela identifique mais o "pós" com "a esquerda, no momento da negação crítica, enquanto a posição 'neo' esquece o passado e suas decepções e, com uma incrível amnésia histórica, tenta atualizar o velho", (27/11/2005:10), também brinca com os termos com uma certa ironia e relativiza a utilidade dos termos, acrescentando mais para o final do seu texto, "Mas, se pararmos aqui, presos no pós-período, ou voltarmos sem memória para uma neoversão do passado, então perderemos a oportunidade que o tempo compartilhado de um presente global pode oferecer".
3 Sacudidas como foram em décadas anteriores por uma série de movimentos sociais e culturais, que também tinham gerado a crítica "pós-moderna" da cultura, pensamento e relações sociais do Ocidente moderno. Alguns exemplos interessantes deste tipo de pensamento encontram-se num livro publicado nos EUA em 1997, intitulado Reassessing the sixties: debating the political and cultural legacy. (MACEDO, org.)
4 Nestes argumentos, o "pós-modernismo" se tornava alvo de ataque, como "máxima expressão" de uma tendência de desprezar a "cultura ocidental", a "civilização" e a ciência.
5 Três autores marxistas contemporâneos que interpretaram e avançaram críticas influentes do "pós-modernismo" são Perry Anderson, Terry Eagleton e Frederic Jameson. Estes dois últimos, com formação e atuação na área de crítica literária, destacam-se em certos momentos por seus profundos insights sobre a cultura moderna e seus desdobramentos na contemporaneidade. Contudo, considero que reproduzem um tipo de viés que estarei discutindo, neste trabalho, enfocando a produção de outros autores. Sobre Jameson e sua visão da pós-modernidade, fiz alguns comentários noutro lugar (ADELMAN, op.cit.); uma discussão mais detalhada ficará para outro momento.
6 De fato, meu trabalho vem ao encontro de outros esforços de enriquecer o trabalho de crítica ao transitar mais livremente pelas fronteiras disciplinares. Reconheço, entre outras coisas, minha aprendizagem através da leitura da autora inglesa Rita Felski (1995) que, com formação na área de crítica literatura, vem realizando uma análise muito astuta de discursos sociológicos clássicos, assim como de alguns debates da teoria social contemporânea.
7 Cf. Adelman, Miriam. (op.cit.)
8 Ver primeiro e segundo capítulo da minha tese de doutoramento (idem)
9 Contudo, parece que vem a prevalecer a construção de uma espécie de oposição política entre ambos os termos, que tende a romantizar um conceito às custas do outro (que por sua vez, se torna significante de todas as contradições ou formas de opressão/alienação social possíveis)
10 Ver Segal (1999) para uma excelente discussão destas "ansiedades de gênero" e seu lugar na cultura e nos discursos contemporâneos.
11 Com certeza, é isto que Bauman está reconhecendo quando argumenta que hoje em dia, precisa fazer uma opção entre "uma Sociologia da pós-modernidade" e uma "Sociologia pós-moderna".
12 Talvez a tendência à confusão no emprego dos conceitos venha de um enganoso paralelo que é comumente feito, entre "modernidade/modernismo" e "pós-modernidade/pós-modernismo". Mas, como a obra de autores como Huyssen e Felski ajudam a compreender, o amplo período histórico que adquire o nome de "modernidade" produziu uma série de movimentos na cultura e no pensamento, entre os quais o modernismo - movimento neste sentido tardio, que emerge somente no final do século XIX - é apenas um, embora tantas vezes no século XX considerado como o paradigmático. E, ainda mais, o próprio modernismo precisa ser visto de uma forma mais complexificada - diferenciando, por exemplo, sua vertente avant-garde de outras de suas manifestações- para chegar a uma compreensão mais profunda da sua relação com o pós-modernismo.
13 Como ele explica, estes neoconservadores abraçam a modernização tecnológica, científica, econômica e administrativa da sociedade, mas não suas "conseqüências" ou dimensões culturais e subjetivas. É por isso que eles recomendam "una política que diluya el contenido explosivo de la modernidad cultural".(p.31)
14 Lembra neste sentido o argumento do Touraine, em Crítica da Modernidade, que se baseia no estabelecimento da dicotomia entre sujeito/razão (instrumental).
15 Como voltarei a discutir mais adiante, Bauman acredita que todos estaríamos dialogando, de alguma ou outra forma, com/sobre a pós-modernidade, seja como analistas críticos dos fenômenos específicos ou aspectos específicos dos fenômenos do mundo atual, ou adotando seus discursos "sintomáticos" (embora ele se distancie desta última opção).
16 Seu argumento aqui se parece bastante com o da filósofa feminista norte-americana Susan Bordo no livro Flight to Objectivity (1987). Bordo acrescenta a este tipo de discussão, as novas representações do masculino e do feminino que fazem parte do esforço, a partir de Descartes, de criar "através da razão" e da manipulação prática/técnica da natureza, um mundo que resiste à contingência e desordem; encontra, nas novas ansiedades sobre a controlabilidade da vida, aspectos que dizem respeito às ansiedades sobre práticas de sujeitos masculinos e femininos.
17 "Among the expert-intensive techniques, one spots immediately those central to panoptic control, like surveillance, 'correction', welfare supervision, 'medicalization' or 'psychiatrization', as well as the servicing of the general legal/penal system; or themany professions called into service and prominence due to the growing importance of needs-creation and entertainment as a paramount network of social control. Many more areas particularly hospitable to experts can be seen, however, as ultimately related to the modern techniques of power, though in a somewhat less obvious way." (BAUMAN, p. 15.)
18 Um pouco mais adiante, Bauman afirma: "In the world of imagined communities, the struggle for survival is a struggle for access to the human imagination." (1992: xx) Mas deveríamos problematizar a forma em que Bauman se apropria do conceito de "imagined communities" introduzido por Benedict Anderson no seu famoso livro que leva essa frase como título. O referente temporal de Anderson não é pós-moderno senão moderno, e as "comunidades imaginadas" denotam uma construção mistificada de identidade nacional que está na raiz dos nacionalismos modernos. O conceito construído por Anderson, que depois se torna muito importante no léxico dos Estudos Culturas (na obra de autores como Stuart Hall e Arjun Appadurai), tampouco incentiva uma separação de dimensões "materiais" e "simbólicas" no que tange ao estabelecimento destas comunidades políticas, pois, a partir do um imaginário particular sustentam - e também refletem - relações de opressão bastante materializadas. Por sua vez, uma aplicação deste conceito a realidades pós-modernas me parece exigir mais cuidados; perguntar exatamente a que tipo de "comunidades imaginadas" se refere, e se podem ser todas "postas no mesmo saco". Por exemplo, as "comunidades diásporicas" caribenhas e indianas analisadas por Hall e Appadurai geralmente envolvem vínculos com novos (ou vários) lugares, de tal forma que a des-territorialização é relativa e não absoluta, e as relações entre as pessoas não necessariamente perdem sua dimensão de materialização em interações cotidianas face-a-face, embora hoje em dia operem também através das redes do ciberespaço, em contextos "virtuais".
19 Contudo, não critica só "os pós-modernos" senão também autores atuais que se posicionam "contra a pós-modernidade", no sentido de negar o termos chegado a um momento "suficientemente diferente" ou novidoso para requerer o desenvolvimento de novas categorias teóricas. Sua crítica ao modelo de "sociedade em crise" presente em autores como Sennett, Lasch, Habermas, Offe e Gorz, vale muito a pena visitar.
20 Este ponto de vista não impede Bauman de identificar um uso abrangente demais do conceito de pós-modernidade que ignora as evidências de que os fenômenos geralmente descritos como características básicas da pós-modernidade restringem-se ou prevalecem, na verdade, só em algumas partes "privilegiadas" do mundo. Se isto constitui, de certa forma, uma contradição dentro do próprio argumento de Bauman é um ponto que me parece digno de consideração; em todo caso, é uma questão muito complexa que tem sido abordada de uma maneira particularmente instigante pelo antropólogo indiano Arjun Appadurai (Modernity at Large: The Cultural Consequences of Globalization) e pelo sociólogo jamaicano Stuart Hall, em vários trabalhos seus.
21 Uma parte do seu argumento diz respeito a uma suposta substituição de "old skills", que não eram gerados ou não "dependiam" do mercado por "new skills"que se constituem através de e dependem do mercado. Este é um dos vários pontos em que falta mais evidência empírica; é minha suspeita que se trata, em muitos casos mais das "mesmas habilidades" antes desenvolvidas principalmente por mulheres dentro da esfera doméstica ou privada que passam a realizar-se fora desta, geralmente no contexto de serviços pagos. Em que medida estas "velhas/novas habilidades" sejam a sua vez transformadas pelo novo contexto também me parece fascinante tema de pesquisa (que de fato, já vem sendo realizada dentro de áreas como estudos de gênero, Sociologia do consumo, da família etc.); porém, o tratamento parcial ou problemático que Bauman dá ao tema me parece refletir o grande problema que discutirei adiante - as consequências enormes que me parece ter, para seus argumentos, a negligência total das dimensões de gênero da vida social, moderna e pós-moderna. Neste caso específico, o fenômeno que ele coloca merece ser examinado à luz da questão de seus possíveis significados, enquanto parte do grande movimento de fluxo das mulheres para sua ocupação de cada vez maior espaço público - que também deve ser visto não em simples termos de "mudanças propiciadas pelo capital", senão como resultado de reivindicações e lutas femininas.
22 De fato, existe tanta literatura deste tipo produzida nas ciências sociais hoje, que começar a listá-la não me é possível neste momento. Um livro recente que me chamou a atenção, que parte da perspectiva das mudanças enormes nos processos que regem a intimidade e os relacionamentos e procura contribuir para a construção de um novo paradigma legal para poder ir além da dicotomia autonomia individual/bem estar coletivo, é Regulating Intimacy: a New Legal Paradigm, de Jean L. Cohen (2003).
23 Como Butler explica no seu livro Gender Trouble, a matriz heterossexual da cultura moderna instaura normativamente a correspondência necessária entre "sexo" (macho ou fêmea)/gênero (homem ou mulher)/identidade (homem masculino/mulher feminina)/objeto de desejo (mulher para homem/homem para mulher) sem que isto esgote as práticas reais das pessoas - ao longo da História, as "performances subversivas", ou transgressões, sempre apareciam para interromper essa cadeia. A pós-modernidade como momento cultural multiplica as possibilidades e oportunidades para essas transgressões, gerando vários movimentos sociais que contestam a ordem de sexo/gênero/poder que pautava esse modelo.
24 Não gostaria que esta afirmação fosse tomada como um relativismo "radical pós-moderna"; estou querendo dizer que há na pós-modernidade, tendências diversas que se mantêm em tensão umas com outras, e que os processos históricos que levarão a hegemonia de umas e outras continuam também. No entanto, é claro que os diversos autores e autoras aqui discutidas fazem suas escolhas de ênfase a partir das suas próprias "posições de sujeito" - posições que refletem afiliações teóricas e inserções sociais.
25 Parece-me importante, neste ponto, a observação do sociólogo inglês Mike Featherstone: "Pode ser que o conceito tenha pouca utilidade duradoura para as ciências sociais (pelo menos se a ênfase for colocada no termo 'ciência'), sendo ele mesmo um produto dos processos de desmonopolização na vida acadêmica, que estão pondo abaixo algumas das barreiras entre os sujeitos e as instituições baseadas no sujeito. Tais tendências são inimigas da manutenção da ciência. O termo, porém, pode ter alguma utilidade no modo pelo qual direciona nossa atenção para a mudança cultural". (1997:68-69)
26 No seu excelente livro, After the Great Divide: Modernism, Mass Culture, Postmodernism (idem) Huyssen discute os elementos críticos do modernismo, assim como seu freqüente apego à ideologia da modernização, sua afirmação de uma esfera artística separada da vida cotidiana (associada à banalidade e às massas) e seu profundo desprezo (elitista) por quaisquer expressões da cultura popular/de massas. A avant-garde histórica surge, por sua vez, com uma proposta de re-unir "arte" e "vida". Ele explica: "Modernism constituted itself through a conscious strategy of exclusion, an anxiety of contamination by its other: an increasingly consuming and engulfing mass culture. Both the strengths and the weaknesses of modernism as an adversary culture derive from that fact...However, modernism's insistence on the autonomy of the art work, its obsessive hostility to mass culture, its radical separation from the culture of everyday life, and its programmatic distance from political, economic and social concerns was always challenged as soon as it arose..." (p. vii), primeiro pela avant-garde histórica, e posteriormente, pelo pós-modernismo.
27 Caracterizado, por Huyssen, (1) pela sua imaginação temporal que "displayed a powerful sense of the future and of new frontiers, of rupture and discontinuity, of crisis and generational conflict", (2) por seu assalto iconoclasta à instituição da arte, que inclui a forma em que o papel da arte era socialmente definido e percebido, assim como suas formas de produção, marketing, distribuição e consumo (3) pelo seu "otimismo tecnológico" e (4) sua muitas vezes pouco crítica tentativa de valorizar a cultura popular, como contrastando com o cânone da alta cultura, seja modernista ou "tradicional".
28 Caracterizado, por Huyssen, (1) pela sua imaginação temporal que "displayed a powerful sense of the future and of new frontiers, of rupture and discontinuity, of crisis and generational conflict", (2) por seu assalto iconoclasta à instituição da arte, que inclui a forma em que o papel da arte era socialmente definido e percebido, assim como suas formas de produção, marketing, distribuição e consumo (3) pelo seu "otimismo tecnológico" e (4) sua muitas vezes pouco crítica tentativa de valorizar a cultura popular, como contrastando com o cânone da alta cultura, seja modernista ou "tradicional".
29 Refiro-me aqui somente a uma certa especificidade do olhar sociológico, e sem com isso querer defender qualquer tipo de policiamento de fronteiras disciplinares. (Ver ao respeito: ADELMAN, 2004. Conclusões)