SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
 issue21Management challenges in the reconfiguration of the Brazilian bureaucratic administration author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Sociologias

Print version ISSN 1517-4522

Sociologias  no.21 Porto Alegre Jan./June 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S1517-45222009000100015 

RESENHA

 

Universal e particular na sociologia brasileira da mudança social

 

The universal and the particular in Brazilian sociology of social change

 

 

André Botelho

Doutor em Ciências Sociais (UNICAMP). Professor Adjunto do departamento de Sociologia e do PPGSA/UFRJ

 

 


RESUMO

Esta resenha apresenta o livro Mudança provocada: passado e futuro no pensamento sociológico brasileiro, de Glaucia Villas Bôas, publicado em 2006. Nele, a Autora analisa um repertório exemplar de estudos e pesquisas sobre as mudanças sociais no Brasil, destacando visões diferentes e concorrentes de passado e futuro no pensamento sociológico brasileiro, com o objetivo de discutir o mito da ambigüidade da modernidade brasileira.

Palavras-chave: Mudança social. Modernidade. Interpretações do Brasil.


ABSTRACT

This is a review of Glaucia Villas Bôas' Mudança provocada: passado e futuro no pensamento sociológico brasileiro (stimulated change: the past and the future in Brazilian sociological thought), published in 2006. In the book, Villas Bôas analyzes a selected list of studies and researches on social changes in Brazil, pointing to different and competing, past and future perspectives in Brazilian sociological thought, with the aim of discussing the myth of the ambiguity of Brazilian modernity.

Keywords:Social change. Modernity. Interpretations of Brazil


 

 

VILLAS BÔAS, Gláucia.Mudança provocada: passado e futuro no pensamento sociológico brasileiro. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2006.

Mudança social, já se disse muitas vezes, é tema que se inscreve no "coração" da Sociologia. Afinal, desde o seu surgimento no século XIX, quando sua motivação fundamental era compreender a transição da sociedade "tradicional" para a "moderna", até o presente, marcado pela reestruturação das relações e processos sociais no âmbito da própria "modernidade" pelas chamadas "pós-modernidade" ou "globalização", um dos desafios cruciais da disciplina continua sendo o de explicar como as sociedades mudam ou não. É certo que cada geração de sociólogos tende a acentuar o caráter radicalmente diferente da sua era de mudança, do mesmo modo parecem inexistir condições cognitivas suficientes para que se possa falar em consenso sobre o "sentido" da mudança social, mesmo entre os sociólogos de uma mesma geração.

Por outro lado, como o conhecimento sociológico afeta as práticas sociais que interpreta, também as diferentes teses sobre a mudança acabam por se tornar recursos cruciais para sua introdução e, desse modo, partícipes, ao lado ou contra outras forças sociais, da definição do próprio destino da sociedade. Nesse sentido, o próprio caráter cronicamente não consensual das teorias da mudança social, como da produção sociológica em geral, concorreu para que, em meados do século XX, a Sociologia se tenha consagrado como uma forma válida (e privilegiada) de autoconsciência "científica" da sociedade moderna. Sendo plausível falar de uma pulverização de certezas quanto à mudança social no mundo contemporâneo, alimentada em parte por algumas interpretações atualmente hegemônicas de certas correntes dominantes do século XX, a exemplo do materialismo histórico ou do funcionalismo, não deixaria de ser ingênuo de todo modo supor que o tema e mesmo suas formulações passadas, tenham perdido importância. Até porque se interessa compreender as teorias contemporâneas da mudança social, é imprescindível conhecer as visões anteriores às quais elas pretendem se contrapor.1

Mudança provocada: passado e futuro no pensamento sociológico brasileiro, de Glaucia Villas Bôas, recoloca essas e outras questões cruciais e perenes da teoria sociológica a partir da sua sistematização cognitiva, por uma de suas tradições intelectuais constitutivas: a brasileira. Dentre os méritos do livro está centralmente o de, ao percorrer um repertório exemplar e selecionado de estudos e pesquisas sobre as mudanças sociais no Brasil, tratar as tensões entre os inevitáveis "antes" e "depois" presentes em qualquer formulação sobre seqüências temporais como o núcleo mesmo do interesse no estudo do tema. Para dar conta dessas tensões, Villas Bôas destaca visões diferentes e concorrentes de passado e futuro no pensamento sociológico brasileiro como eixo analítico nos textos reunidos no livro. Em Mudança provocada, a produção sociológica é tomada, num certo sentido, como "centros de perspectiva" a partir dos quais se torna possível representar e associar eventos em seqüências temporais (ELIAS, 1988: 33), isto é, articular o "antes" e o "depois" da mudança social. O problema certamente é que "antes" e "depois" são idéias contrastantes, cujos significados são extraídos, tanto do que se nega, quanto do que se busca afirmar sobre as continuidades e as rupturas em qualquer seqüência de mudança (BENDIX, 1996). Justamente por isso, afirma Villas Bôas, as visões de passado e futuro nos estudos e pesquisas dos sociólogos brasileiros são, "acima de tudo, formas de controle político e social da vida de coletividades e da ordem social" (VILLAS BÔAS, 2006: 16-7). Assim, esse autor entende que as teses sobre a mudança atuam no sentido cognitivo, de compreensão da formação social brasileira, mas também normativo, de um desejo de intervir nos rumos de seu desenvolvimento, identificando grupos e pautando normas de conduta e projetos de alcance político.

A questão substantiva que estrutura Mudança provocada refere-se às tensões imprimidas pela produção sociológica brasileira dos anos 1950, ao que a Autora chama de "mito" da ambigüidade brasileira ante a modernidade, construído em parte do pensamento social anterior à institucionalização das ciências sociais, mas também atualizado na Sociologia acadêmica posterior e mesmo contemporaneamente. Assim, trata-se de uma avaliação crítica da eficácia da sociologia da década de 1950 na desmontagem de uma noção de ethos brasileiro que, para a Autora, lançou a intelectualidade a uma rede de auto-enganos que, fundada na idéia de ambigüidade ontológica nacional sustenta, ou visões harmônicas, mas autoritárias, ou conflituosas, mas dilemáticas, da mudança social. Versões que, enfim, acabam mais por acentuar as continuidades implicadas em qualquer processo de mudança, do que as descontinuidades que também proporcionam.

O livro está dividido em três partes: "Tempo e singularidade", "Imagens do futuro e tempos modernos" e "Universalismo e desigualdades". Na primeira, com base na análise de Casa-grande & senzala, de Gilberto Freyre, e de Os Sertões, de Euclides da Cunha, a Autora discute o "mito da ambigüidade do brasileiro". Mostra inicialmente as diferenças substantivas entre as duas interpretações, como a busca e a ênfase na "continuidade", "harmonia" e numa representação "positiva" da cultura brasileira, no caso de Freyre, ou na "descontinuidade", "conflito" e numa representação "negativa" da cultura brasileira, no caso de Euclides. Em seguida, aproxima suas interpretações do Brasil, argumentando que, a despeito das diferenças especificadas, ambas operariam com a lógica da cultura e com a crença na afinidade de origem comum manifesta na noção conservadora de temporalidade relativa às origens da sociedade. É isso que lhes permite forjar, argumenta, uma noção de ethos brasileiro, como maneira peculiar e única de ser socialmente, que ora se conforma, ora se confronta com os desígnios da construção de uma sociedade moderna no Brasil. No caso de Freyre, sugere que suas idéias deram corpo a um "modelo do Brasil da harmonia autoritária", segundo o qual os conflitos poderiam sempre ser superados pela força de um convívio social harmônico que o ethos brasileiro se encarregaria de restaurar, equilibrando antagonismos e desigualdades. Ao passo que as idéias de Euclides da Cunha teriam dado corpo a um "modelo do Brasil do eterno dilema".

Na segunda parte, Villas Bôas analisa textos de Florestan Fernandes, Costa Pinto e Guerreiro Ramos sobre as tarefas da Sociologia no processo de implantação de uma ordem social moderna no País, bem como o papel representado para essa geração pelas idéias de Karl Mannheim na atribuição de um valor progressista à Sociologia, então em disputa por reconhecimento e legitimidade em face de outras disciplinas, mas também em face da sociedade e do Estado. "Mudança provocada" - lembra a Autora - era expressão central no léxico da Sociologia dos anos 1950 e revela a "liberdade de agir dentro de um plano elaborado de antemão" que tanto mobilizou aquela geração; traduzindo o seu "desejo de intervir na espontaneidade dos acontecimentos para mudar a feição das instituições, das mentalidades, da distribuição de poder, impondo regularidade nova à conduta cotidiana de homens e mulheres" (VILLAS BÔAS, 2006: 13).

Trata-se, nessa parte do livro, de evidenciar alterações nas abordagens da modernidade no Brasil, operadas pela Sociologia de 1950, as quais legitimaram uma reflexão de caráter universalista sobre o entrelaçamento conflituoso das formas de conduta tradicionais e modernas. As concepções universalistas e igualitárias mobilizadas por aqueles sociólogos não encontraram, contudo, um vazio social em termos de proposições intelectuais sobre a mudança social no Brasil. Ao contrário, tiveram que se defrontar diretamente com a eficácia política de interpretações que, a exemplo das de Freyre e Euclides da Cunha, lograram construir um senso comum sobre a imutabilidade da vida social. Todavia, se com a Sociologia de 1950 permanecia em pauta a questão da ambiguidade brasileira ante o moderno, esta não dizia mais respeito a uma suposta história original de todos os "brasileiros", referindo-se antes a relações sociais constitutivas dos processos de mudança numa sociedade sob o domínio de uma ordem democrática, secularizada, competitiva.

Enunciados os termos do conflito interpretativo da Sociologia dos anos 1950 com o mito da ambigüidade brasileira, na terceira parte do livro, Villas Bôas destaca três diferentes teses sobre a mudança social: as interpretações de Costa Pinto, de Evaristo de Moraes Filho e de Maria Isaura Pereira de Queiroz. Para a seleção desses autores deve ter contado, também, o conhecimento ímpar da Autora sobre o conjunto de livros de ciências sociais produzidos no Brasil entre 1945 e 1966, objeto de sua tese de doutorado (VILLAS BÔAS, 1992). De todo modo, embora acentue as diferenças de sentido assumido pela proposição em cada uma das interpretações analisadas, pode-se dizer que todas elas, e cada uma a seu modo, procuram articular o "antes" e o "depois" da mudança social de um modo não disjuntivo e levando em conta a própria sequência histórica de formação da sociedade brasileira. Do que é exemplar, a recusa de Costa Pinto de uma perspectiva dualista sobre passado e futuro, segundo a qual o "novo" ou o mais "adiantado" tenderia simplesmente a substituir o considerado "arcaico" ou mais "atrasado", perspectiva contra a qual forja sua categoria analítica de "marginalidade estrutural". É justamente por isso, argumenta a Autora, que a Sociologia de 1950 logrou, ao adotar um paradigma universalista, enfrentar consistentemente o mito da ambigüidade brasileira, abrindo novas possibilidades para pensar passado e futuro no País. Sobretudo porque soube considerar as tensões entre formas distintas de orientação das condutas pautadas pelo universalismo ou pelo particularismo como a matéria-prima das relações sociais - como mostra a "história exemplar" de Margarida, moça da comunidade caiçara de Búzios, pesquisada por Emílio Willems no início dos anos 1950, recuperada com grande sensibilidade por Villas Bôas para fechar seu livro.

Neste ponto, deve ser explicitada uma distinção analítica fundamental que sustenta os argumentos sobre a Sociologia brasileira da mudança social: a distinção entre "construção de nação" e "construção de sociedade". Para Glaucia Villas Bôas, as interpretações de Gilberto Freyre e Euclides da Cunha, ao contrário da produção sociológica dos anos 1950, operam, tanto cognitiva, quanto politicamente a partir e dentro do paradigma da nação, da singularidade ontológica divisada nas origens, da particularidade que nos une e distingue dos "outros", o que lhes permite dar conta da construção de uma "identidade nacional" e de suas diferenças, mas não da construção de uma "sociedade moderna", da questão das desigualdades sociais que o paradigma universalista permite evidenciar e da sua mudança, mesmo que provocada. E é essa indistinção entre "nação" e "sociedade" que concorreria para a criação e manutenção do "mito" da ambigüidade do brasileiro, já que leva a que se confundam - nem sempre ingenuamente - valores de uma sociedade tradicional, do ponto de vista do paradigma sociológico e ethos brasileiro.

Mudança provocada provoca, portanto, uma oportuna reavaliação da Sociologia brasileira da década de 1950, e de seus posicionamentos críticos em face das chamadas interpretações do Brasil. Mas também é uma aposta em seu potencial cognitivo constitutivamente crítico para nos interpelar contemporaneamente, não apenas porque, para Villas Bôas, prosseguem em curso recriações sociológicas do mito da ambigüidade brasileira, como ainda porque as conquistas cognitivas daquela Sociologia foram interditadas às gerações mais jovens de sociólogos, porque sua produção passou a ser considerada "marxista", "funcionalista", "desenvolvimentista". Rótulos que, talvez, só façam mesmo sentido num contexto como o contemporâneo, tão marcado que está pela tendência a identificar prontamente "universal" como mera "abstração" quando não à simples peça retórica de "dominação". Ao contrário de parte significativa daquilo que veio antes e depois dela, a Sociologia dos anos 1950, pensando a problemática da Mudança provocada, soube tratar da particularidade do contexto social brasileiro, sem tomá-la de modo relativista como parâmetro suficiente para definir relações sociais, formas de vida ou mesmo direitos de homens, mulheres e grupos sociais. Aqui emerge, pois, o potencial crítico dessa produção sociológica, forjada num diálogo tenso entre passado e futuro, para o nosso presente.

 

Referências

BENDIX, Reinhard. Construção nacional e cidadania. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1996.         [ Links ]

ELIAS, Norbert. Sobre o Tempo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.         [ Links ]

SZTOMPKA, Piotr. A sociologia da mudança social. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998.         [ Links ]

VILLAS BÔAS, Glaucia. A Vocação das ciências sociais (1945/1964): um estudo da sua produção em livro. Tese de Doutoramento em Sociologia. Universidade de São Paulo, 1992.         [ Links ]

___. Mudança provocada: passado e futuro no pensamento sociológico brasileiro. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2006.         [ Links ]

 

 

Recebido: 25/04/2007
Aceite Final: 15/10/2007

 

 

1 Sobre a sociologia da mudança social em geral, ver Sztompka, 1998.