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Sociologias

Print version ISSN 1517-4522

Sociologias vol.14 no.29 Porto Alegre Jan./Apr. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1517-45222012000100002 

DOSSIÊ

 

Apresentação

Introduction

 

Clarissa Eckert Baeta Neves

Professora Associada da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Brasil) – Departamento de Sociologia e Programa de Pós-Graduação em Sociologia. Coordenadora do Grupo de Estudos sobre Universidade (GEU) <http://www.geu.ufrgs.br>. Pesquisadora CNPq 1C. E-mail: clarissa.neves@yahoo.com.br

 

 

Este dossiê temático é dedicado ao tratamento de dilemas que configuram os sistemas de ensino contemporâneos. O marco de referência para essa abordagem é um mundo marcado pela aceleração das transformações econômicas e sociais, pelo reconhecimento da urgência de modelos de desenvolvimento sustentáveis, por uma nova e abrangente revolução tecnológica na sociedade do conhecimento, pela contestação dos valores estabelecidos num cenário de pressão crescente por ampliação dos limites da experiência democrática.

Segundo Demo (2010, p. 863), "a tese de que a educação é parte fundamental da transformação social pode e deve ser mantida, em especial quando se pensa que pessoas educadas e suas ideias são a mais decisiva riqueza das nações".

O processo de globalização acompanhado das recentes crises econômicas com impacto mundial serviu, mais uma vez, para a reafirmação da importância da educação como variável estratégica do desenvolvimento. Em todas as plataformas nacionais ou regionais em que se elencam os recursos capazes de levar à superação dos atuais problemas, a educação aparece como dimensão essencial.

A globalização e a transição para uma sociedade do conhecimento estão criando novas demandas e exigências para a educação (Stromquist, 2002). Em consequência, reformas nos sistemas educacionais ocorrem, nos mais diferentes países, com a finalidade de torná-los mais eficientes e equitativos.

Discute-se a ampliação massiva da escolaridade da população com pretensão de universalização do acesso ao ensino superior. Enfatiza-se a educação como fator de mobilidade e ascensão socioeconômica. Isso traz novas demandas e exigências aos sistemas de ensino como a necessidade de mais investimentos, de políticas públicas adequadas, de valorização do professor das escolas fundamentais, do engajamento das famílias, da modernização curricular, do adequado aproveitamento das novas tecnologias de informação e comunicação e da avaliação sistêmica de desempenho.

Aponta-se, também, a urgência de maior integração entre o sistema de ensino superior e o mercado de trabalho de modo a ampliar e acelerar as respostas às necessidades de uma economia baseada na inovação. Em decorrência de tudo isso, por fim, repensa-se a equação geral de financiamento da educação e, em particular, do ensino superior.

É evidente que o grau de desenvolvimento de cada país, o maior ou menor sucesso que apresentam na solução de problemas básicos da educação, bem como a própria historia de valorização da educação na cultura e sociedade locais, afetam significativamente o enfrentamento dos novos desafios. De um modo geral, no entanto, na realidade atual, os caminhos parecem se cruzar. Tem sido inevitável o exercício da comparação e as tentativas de aproveitamento das reflexões e das experiências bem sucedidas onde quer que estejam ocorrendo.

Este cenário coloca inúmeros questionamentos. Como conceber a educação acessível a todos na sociedade do conhecimento? Como os sistemas de educação reagem aos novos desafios? Como evitar que a educação acentue as disparidades de conhecimento entre os segmentos sociais numa mesma sociedade? Como evitar o distanciamento entre os países no tocante as suas chances de encarar com sucesso os desafios e as oportunidades da sociedade do conhecimento?

Nos inúmeros organismos internacionais como UNESCO e a OEA a educação, insistentemente, vem sendo identificada como prioridade máxima. Em suas deliberações, esses organismos estabelecem planos e metas que envolvem acesso a todas as crianças a uma educação fundamental de qualidade e com permanência universal; acesso com porcentagens cada vez maiores de jovens a escola média de qualidade; acesso, com inclusão social, ao ensino superior e, cada vez mais, oportunidades de educação por toda vida para a população em geral.

Os dados revelam, no entanto, que os países desenvolvidos e os emergentes e em desenvolvimento tem respondido a esses desafios de maneiras distintas. O texto de Nelly Stromquist é dedicado a essa questão ao tomar por foco a América Latina. Ela enfatiza que para que ocorram mudanças que resultem em diferenças, a educação precisa se converter em prioridade, com financiamento publico compatível e políticas educacionais claras e positivas.

Outro tema polêmico para reflexão diz respeito a permanência das desigualdades. A relação entre educação e desigualdade social constitui-se na preocupação do trabalho de François Dubet et al. Sua questão central é uma provocação sociológica essencial: as desigualdades sociais geram as desigualdades escolares ou as desigualdades escolares geram desigualdades sociais? Desigualdade, segundo Barbosa (2009, p. 18), "não é apenas a contabilidade de diferenças, mas um tipo de organização social específico que transforma essas diferenças em desigualdades sociais".

Outras questões impõem-se, ainda, quando se busca entender as novas relações entre educação e sociedade. Aí, pode-se perguntar: há recursos e investimentos públicos suficientes para se arcar, hoje, com os custos de uma educação que seja inclusiva? O professor, referencia fundamental do processo educativo, está sendo preparado para os novos desafios de educar na sociedade do conhecimento?

O presente dossiê reflete o atual momento da reflexão internacional e nacional. Os vários artigos, aqui apresentados, oferecem aos leitores especialistas ou não, a consideração dos inúmeros problemas e das deficiências que permanecem no campo da educação. Eles trazem uma importante contribuição da atual reflexão sociológica para a análise crítica dos gargalos estruturais à construção de sistemas educacionais modernos, inclusivos, democráticos e de qualidade. Revelam a incorporação de avanços teóricos e metodológicos desse campo de estudos no contexto das ciências sociais. Isso já justificaria a proposta de um dossiê especial sobre Educação.

O dossiê ainda oferece uma visão ampla da reflexão internacional sobre uma diversidade muito rica de aspectos e problemas da educação. Não se restringe a uma ou outra experiência nacional. Pretende refletir a busca geral e contínua de conhecimento capaz de impregnar a pratica da educação com possibilidades novas de ação e transformação.

Por fim, é importante ressaltar que as distintas contribuições trazem perspectivas múltiplas e visões plurais sobre a importância da educação como uma das fontes principais de mudanças, de transformações e de tensões sociais. Os textos convidam para a reflexão, questionamento e a busca de novos engajamentos sobre os modos de como recuperar o sentido e o propósito emancipador da educação nas sociedades contemporâneas.

Iniciando o dossiê, o artigo de François Dubet, Marie Duru-Bellat e Antoine Vérétout traz uma importante reflexão sobre as desigualdades escolares e sociais. Assumem o pressuposto de que a escola reproduz as desigualdades sociais, mas vão além, ao destacar dois fatores que contribuem para a reprodução das mesmas: a organização dos sistemas escolares e a influência dos diplomas sobre o acesso às diversas posições sociais. A partir de uma amostra de países, os autores valem-se de uma metodologia de comparação ponderada entre indicadores construídos em pesquisas de organismos internacionais. Para os autores, o que ocorre na escola atenua ou acentua o peso das desigualdades sociais sobre as desigualdades escolares. Também ressaltam o que se passa no período posterior à escola. Títulos e graus obtidos no sistema educacional desigualmente distribuídos destinam os indivíduos a posições sociais desiguais. A recomendação final do texto é um convite ao debate e à ação.

Segue o texto de Nelly P. Stromquist que em seu artigo apresenta uma análise critica do impacto da globalização sobre os sistemas de educação, destacando não apenas as mudanças, mas também, as continuidades presentes em todos os níveis educacionais, da escola fundamental, da educação de adultos à universidade. De modo inovador mostra como a globalização produz ganhadores e perdedores não apenas em termos tecnológicos, mas também na educação. Tomando por referencia características da educação na América Latina, a autora ressalta as grandes disparidades de acesso e de conclusão da educação, de rendimento cognitivo entre áreas rurais e urbanas e entre os distintos grupos sociais e étnicos subordinados e dominantes. O artigo conclui que a globalização trouxe novos desafios para a educação pela constante invocação da "sociedade do conhecimento" e da "economia do conhecimento", permanecendo, no entanto, perversas assimetrias sociais e raciais, não superadas com a expansão educacional.

O artigo de Carlos Benedito Martins alerta para a necessidade dos sociólogos reverem critica e constantemente suas abordagens teórico-metodológicas refletindo sobre a pertinência das interpretações sobre a vida social e os sistemas de ensino. No texto, destaca a posição privilegiada que a educação ocupava nas obras de autores clássicos da sociologia e sua contribuição para a constituição do processo de modernidade. Já na sociologia contemporânea, o autor observa uma hiper-especialização, tratando o sistema de ensino, como um subcampo no interior da disciplina. Toma como exemplo o ensino superior e sua análise a partir de diversas temáticas especializadas. Uma contribuição importante do texto é o desafio lançado para a necessidade de um maior diálogo intelectual com as diversas disciplinas que integram o universo das ciências sociais e humanas.

Em um texto instigante, Adriana Marrero traz a seguinte questão: o que uma sala de aula e uma jaula de ferro tem em comum? Ela constata: ambos aprisionam.. No texto, retomando a tese clássica weberiana da Jaula de Ferro, e incorporando autores como Giddens, Archer, Charlot e Young, traz uma importante reflexão sobre a escola como um mecanismo de reprodução social e como um lugar que não tem sentido para os jovens. Mas também neste texto Marreo vai além e questiona "cuál es el sentido que se ha perdido y cuál es la libertad que es necesario restaurar", referindo-se à escola. A sua análise é mais um texto que convida a pensar sobre os modos de como recuperar o sentido emancipador da educação nas sociedades contemporâneas.

Finalizando o Dossiê, apresentamos as contribuições de dois artigos sobre outro desafio central para a educação e o ensino, hoje: o professor, agente fundamental do processo educativo. Isabel Lelis, em seu artigo, examina o trabalho dos professores na escola de massa, destacando a intensificação e complexificação da profissão bem como a diversificação das tarefas docentes. Destaca análises da Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e da Comunidade Europeia que discutem o campo das políticas de formação de professores. No Brasil, enfatiza três problemas relacionados ao trabalho dos professores: a sobrecarga de trabalho, o esgotamento (síndrome de burnout) que vem acometendo essa categoria profissional e as dificuldades de acesso à atualização profissional. Também este texto convida para a reflexão sobre as práticas pedagógicas e o ofício de ser professor.

O artigo de Alexandre Silva Virgínio, encerrando o Dossiê, discute a perspectiva da educação na constituição de uma sociedade democrática. Valendo-se das contribuições de Karl Mannheim, adverte como a construção de uma consciência e personalidade democrática decorrem da consecução de uma sociabilidade baseada nos valores da reciprocidade e da cooperação. O autor apresenta indicadores que revelam a profunda desigualdade social e educacional no sistema de ensino brasileiro e que segue sendo um obstáculo à garantia de direitos e à igualdade política. Considerando os desafios educacionais em curso, o autor em seu artigo sublinha o desafio da formação política do educador, eixo central no processo de socialização escolar.

Espera-se que o Dossiê possa constituir-se como um espaço privilegiado de reflexão e debate para todos que se dedicam à pesquisa das relações entre educação e sociedade, mas também para todos os interessados em compreender melhor estes complexos dilemas contemporâneos no campo educacional.

 

Referências

BARBOSA, Maria Lígia de Oliveira. Desigualdade e desempenho: uma introdução à sociologia da escola brasileira. Belo Horizonte: Argvmentvm, 2009.         [ Links ]

DEMO, Pedro. Rupturas urgentes em educação. Ensaio: avaliação e políticas públicas em educação, Rio de Janeiro, Vol.18, n. 69, p.861-872, out/dez 2010.         [ Links ]

STROMQUIST, Nelly P. Education in globalized world. The connectivity of economic power, technology, and knowledge. Oxford: Rowman&Littlefield Publishers, 2002.         [ Links ]

UNESCO; OEA. Panorama educativo 2010: desafíos pendientes. Proyecto Regional de Indicadores Educativo. Cumbre de las Américas. México, 2011. Disponível em: <http://www.prie.oas.org> e <http://www.unesco.org/santiago>         [ Links ].