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Sociologias

versão impressa ISSN 1517-4522

Sociologias vol.14 no.31 Porto Alegre set./dez. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1517-45222012000300002 

DOSSIÊ

 

Apresentação

 

Marília Patta RamosI; Karl MonsmaII

IDoutora em Sociologia. Professora do Programa de Pós-Graduação em Sociologia (PPGS) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Brasil). E-mail: mariliaramos68@gmail.com
IIDoutor em Sociologia. Professor dos Programas de Pós-Graduação em Sociologia (PPGS) e em Desenvolvimento Rural (PGDR) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Brasil). E-mail: karlmonsma@uol.com.br

 

 

Este dossiê apresenta ensaios teórico-metodológicos relativos aos fundamentos propriamente metodológicos (e não apenas procedimentais) dos chamados 'métodos quantitativos' na pesquisa sociológica, os quais são frequentemente – embora equivocadamente – reduzidos à ideia de 'técnicas de quantificação'. Quando usados para a análise causal, os métodos quantitativos se apoiam, entre outras coisas, nas noções de que: i) a lógica subjacente à chamada 'metodologia quantitativa' é a lógica mais ampla e mais profunda das comparações; ii) a ideia seminal da metodologia quantitativo-comparativa, em geral, é o 'experimento'; iii)  a ideia de experimento é logicamente anterior à ideia de quantificação; e iv) a 'casualização', da qual emerge a necessidade de quantificações nos experimentos, representa apenas uma estratégia, não necessária – mesmo que decisiva – para garantir a equivalência e validade das comparações.

A análise causal com controle estatístico, que é o substituto imperfeito dos experimentos quando estes são impossíveis ou antiéticos, é hoje apenas uma das vertentes da pesquisa quantitativa em Sociologia. Existem métodos estatísticos para a descrição de diversas tendências sociais e para a análise exploratória. Também é possível utilizarem-se métodos quantitativos para a análise das estruturas de significação embutidas em diversas representações sociais e nas respostas de entrevistados. Em todos esses casos, os métodos quantitativos permitem detectar ou confirmar a existência de relações que nem sempre são evidentes à observação superficial.

A proposta deste dossiê partiu da crença de que devemos sair do aprendizado estanque e infértil das simples técnicas e seus princípios lógicos, e entrar na questão decisiva da ligação entre essas técnicas, os princípios metodológicos da pesquisa empírica (principalmente causal) e os 'problemas de pesquisa' derivados das agendas práticas de trabalho.

Nesse sentido, os artigos de Juan Mario Fandiño Marino, James Witte e Ignacio Cano tratam de questões metodológicas e epistemológicas relacionadas ao uso dos métodos quantitativos nas pesquisas sociológicas, dando ênfase às limitações causadas pelo uso da dicotomia qualitativo versus quantitativo.

O artigo de Marino busca identificar uma lógica unitária abrangente para as abordagens metodológicas qualitativa e quantitativa em ciências sociais. Para tanto, utiliza o conceito de paradigma científico proposto por Thomas Kuhn, equiparando as questões metodológicas a um caso especial de paradigma, ainda que distinto, em função da "ausência de generalizações simbólicas, anomalias, e 'revoluções', e pelo papel substantivo dos modelos procedimentais, principalmente de fornecimento de evidências". Assim, à luz do enquadramento paradigmático das duas abordagens metodológicas, o autor examina se a interface entre elas poderia revelar uma 'lógica metodológica subjacente'. Uma lógica cuja existência possibilitaria reduzir, ou mesmo eliminar, eventuais conflitos na escolha e combinação dos dois tipos de práticas, por permitir precisar com clareza os limites e possibilidades das duas abordagens e de suas interfaces.

O artigo de James Witte, por sua vez, trabalha com a ideia de uma sociologia digital, analisando a evolução do uso das tecnologias da internet nas pesquisas em ciências sociais, desde as ferramentas de busca e acesso à literatura, passando pelas mudanças em pesquisas do tipo survey com o uso crescente de técnicas de coleta de dados por meio da web e pela emergência dos sites de redes sociais como um novo campo de pesquisa, ente outros avanços.

Ignacio Cano traz uma reflexão sobre a formação em ciências sociais no Brasil, que estaria caracterizada pela primazia da teoria e do estudo dos clássicos em prejuízo da metodologia e da pesquisa empírica e também por uma falsa oposição entre técnicas qualitativas e quantitativas, estas últimas, não raro, acusadas de "defeitos epistemológicos de raiz" e conteúdo ideológico. Explorando as especificidades dessas duas abordagens e as representações que as colocaram em oposição, o autor defende a complementaridade entre as técnicas qualitativas e quantitativas.

Já os dois últimos artigos, focados em pesquisas empíricas, tratam de questões relacionadas à mensuração e ao uso de bancos de dados secundários, disponíveis em sites especializados. O artigo de Angel e Prickett explora o uso do método de triangulação, pela combinação de diferentes conjuntos de dados, no contexto da pesquisa sociológica, como um instrumento especialmente útil para o estudo de populações vulneráveis e difíceis de acessar. Usando exemplos de diversos conjuntos de dados utilizados com frequência para analisar questão relacionada à população hispânica idosa nos EUA, as autoras discutem como pesquisadores na área de sociologia podem aplicar a triangulação para tornar seus resultados mais acessíveis e relevantes, o que pode ajudar a aumentar a presença do diálogo sociológico em discussões mais amplas na área de políticas públicas.

Wilmoth, Sliwinski e Mogle descrevem um estudo empírico, um projeto piloto no qual foi utilizada técnica de coleta de dados baseada na internet e que ilustra uma aplicação concreta dos métodos quantitativos na validação de escalas que medem características populacionais. O artigo apresenta as medições efetuadas no estudo e suas estatísticas descritivas e discute as potencialidades do uso da técnica de levantamento de dados através da web.

O dossiê traz exemplos de pesquisa na área da sociologia, nas quais sobressaem, ou são ressaltadas, as inter-relações complexas da pesquisa quantitativa e qualitativa, em oposição à sua dicotomia, no sentido de divisão ou separação em compartimentos 'estanques'. A distinção entre pesquisa quantitativa e qualitativa, então, é considerada espúria, no sentido de que, subjacente a ela, persiste uma lógica envolvente que permite que estes recortes metodológicos se nutram um do outro. Os artigos aqui reunidos visam a demonstrar que, na prática, os métodos quantitativos e qualitativos são inexoravelmente complementares, ainda que essa complementaridade venha a ocorrer em momentos diferentes do esforço investigativo. Reconhece-se, explicitamente, que as técnicas de captação, e especialmente de 'construção dos dados' e das interpretações, revelam-se eminentemente diferentes, derivadas, como são, de objetivos imediatos igualmente diferentes.

Uma das razões que justificam o presente dossiê diz respeito ao fato de que ainda é possível observar nas Ciências Sociais brasileiras, e em específico na Sociologia, uma certa hostilidade em relação aos métodos quantitativos e à estatística. Segundo Soares (2005, p. 29) A sociologia, talvez mais que a ciência política, abraçou uma perspectiva "qualitativa"[...]. Vislumbra-se, hoje em dia,

[...] a presença marginal dos métodos quantitativos nas teses de ciências sociais. Fato este que, segundo Soares, não pode ser exclusivamente atribuído à falta de recursos, sugerindo, igualmente, a inexistência de um treinamento específico, desde os cursos de graduação, para este tipo de experimento (Vianna, 1998, p. 486 apud Soares, 2005, p. 29-30)

Outra razão diz respeito ao problema gerado pela falta de conhecimento sobre os métodos quantitativos destacado por Soares (2005, p. 36), para quem:

[...] sem uma formação metodológica mínima, muitos cientistas sociais não conseguem sequer ler muitos trabalhos internacionais na área de Ciências Sociais. Não conseguem ler muitas obras, particularmente artigos e relatórios de pesquisa, que usam métodos quantitativos.

Isso cria uma ampla área de acesso proibido para essas pessoas, que as obriga a buscar refúgio em campos cada vez mais distantes das pesquisas empíricas. Segundo o autor, contrariamente ao mito, essa incompetência não afasta os cientistas dos trabalhos publicados apenas nos Estados Unidos, mas também em muitos outros países. Ficam fora das pesquisas realizadas em muitas outras instituições e regiões. Defendemos aqui que, ainda que não se utilizem essas técnicas, é necessário poder ler corretamente os trabalhos que as usam.

Por fim, esperamos que o dossiê como um todo possa contribuir para desmistificar a ideia de que a distinção entre pesquisa qualitativa e quantitativa representa uma antinomia metodológica, teórica ou epistemológica, substituindo-a pela ideia de uma dinâmica lógica e progressiva do esforço investigativo, a qual envolve dois recortes, em última instância, indissolúveis. Acreditamos que este dossiê possa servir como ponto de partida para esclarecer e demonstrar quão prejudicial é este dualismo.

 

Referências

SOARES, Glaucio. O Calcanhar Metodológico da Ciência Política no Brasil. Sociologia, Problemas e Práticas, Lisboa, v. 2, n. 48, p. 27-52, 2005.         [ Links ]