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Per Musi

versão impressa ISSN 1517-7599versão On-line ISSN 2317-6377

Per musi  no.35 Belo Horizonte set./dez. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/permusi20163500 

Editorial

Editorial de Per Musi n.35

Fausto Borém, Fundador e Editor Chefe

Lia Tomás, Editora Associada de Filosofia da Música

Per Musi n.35 (setembro-dezembro, 2016) traz, nesta terceira leva de trabalhos de 2016, oito artigos nos quais privilegiamos o campo da estética na música. Aqui estão alguns artigos selecionados e ampliados do 1º SEFiM - Simpósio de Estética e Filosofia da Música, evento organizado pelo Prof. Raimundo Rajobac em outubro de 2013 na UFRGS. Completam esta série de artigos dois outros que abordam a visão e a provocação dos sentidos por meio de um desafio musical. Visto que a estética musical e a filosofia da música são campos de pesquisa que se caraterizam pela transversalidade de discurso e mobilidade de fronteiras, o diálogo da música com outras áreas - literatura, filosofia, ciências sociais, história e demais artes -, é visto como coparticipante da construção de seu próprio discurso. E como a música, em grande parte de sua historiografia, foi discutida e teorizada em tratados e escritos que não pertenciam ao que denominamos hoje de musicologia, é natural que sua produção estético-filosófica seja de natureza mosaica.

Assim, "As 'visões' de Tirésias" de Gerson Luis Trombetta, abre essa discussão enfatizando o conhecimento outorgado àquele que não vê, porém escuta. Com atenção, Tirésias ouve atentivamente as entrelinhas do discurso, pois aquilo que não pode ser percebido pela visão, descortina seus conteúdos aos ouvidos capazes de reconhecê-los.

O 'não-visto' mas ouvido convida o leitor a auscultar o ritmo das palavras, das imagens sintéticas e suas reverberações internas e externas. Nesse caminho, Kathrin Rosenfield nos convida a perscrutar "Ritmo e música no pensamento de poetas e filósofos": da tradição romântica, música, literatura e filosofia se entrelaçam nos escritos de Hölderlin, Tieck até Rilke, passando também pela filosofia de Schopenhauer, Nietzsche chegando até Heidegger. Afinal, a vida sem música não seria um erro?

Vida e música erráticas retornam aqui noutro contexto: "Música como fisiologia aplicada", de Raimundo Rajobac, tem como foco o texto Nietzsche contra Wagner, no qual o filósofo estabelece a fisiologia como categoria para a crítica à música de Wagner, apontando ainda para uma lógica mais ampla da crítica à modernidade e sua pluralidade de escutas.

Ressonâncias entre o pensamento de dois importantes estetas e filósofos da música é o que nos apresenta Mário Videira. Em seu ensaio "Adorno, Hanslick e a questão da autonomia estética da música", o autor procura deslindar possíveis ecos conceituais entre as obras de tais autores, mesmo que esses não sejam evidentes.

Entretanto, o ressoar musical também pode trazer mensagens obscuras. Em "Música em tempos sombrios", Lia Tomás recupera o uso ideológico da música no Terceiro Reich. Partindo da análise de textos de Quantz e Wagner, é possível observar como as ideias estéticas foram apropriadas pelo nazismo cumprindo outros fins, assim como propôs a criação de outra categoria de música, a saber, a música monumental.

Mônica Lucas aborda Der Vollkommene Capellmeister, a última e enciclopédica obra de Johann Mattheson que está fundamentada na noção do músico-orador perfeito. Desta obra-prima do barroco, drepreende-se valores ao redor dos conceitos do cortesão humanista, do cristão e do luterano dentro de um universo poético-retórico.

No terreno cada vez mais entrelaçado das linguagens, Flavio Barbeitas propõe uma atitude emancipatória das visões nas quais se propagou a percepção de "carências" ou "lacunas" da música em relação às linguagens mais tradicionais. Recorrendo ao pensamento dos filósofos italianos Giorgio Agamben, Paolo Virno e Adriana Cavarero, ele discute diferença como elemento intrínseco das linguagens, o modelo da autorreferencialidade e a comunicação centrada na vocalidade.

Paulo Roberto Peloso Augusto compartilha suas reflexões sobre o processo intelectual e afetivo de Edward Elgar ao deixar transparecer, mas não explicitamente, um criptograma na sua obra-prima Variações Enigma. Em sua abordagem plural, o pesquisador revela meandros nos quais se entrelaçam elementos de análise musical, de história da música e de história da arte, concluindo com uma sugestão de solução inédita para o enigma.

Desejamos a vocês uma boa leitura!

Fausto Borém
Fundador e Editor Chefe
Lia Tomás
Editora Associada de Filosofia da Música

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