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Revista Brasileira de Medicina do Esporte

Print version ISSN 1517-8692

Rev Bras Med Esporte vol.4 no.2 Niterói Apr. 1998

http://dx.doi.org/10.1590/S1517-86921998000200005 

Fédération Internationale de Médecine Sportive

 

Posicionamento Oficial

 

A inatividade física aumenta os fatores de risco para a saúde e a capacidade física

 

Aprovado pelo Comitê Executivo da FIMS em 1991.

 

 


RESUMO

Esta breve revisão demonstra que o sedentarismo e a ausência de adaptações induzidas pelo exercício regular reduzem as reservas fisiológicas do corpo, o que acarreta vários riscos para a saúde e a capacidade física. O sedentarismo é um fator de risco importante por si só, mas exerce uma influência negativa direta sobre outros fatores de risco (p.ex., obesidade, hipertensão, metabolismo do colesterol). A redução da força estática e dinâmica, da endurance muscular e da mobilidade aumenta também os riscos de acidentes e lesões do aparelho locomotor. Dada a grande prevalência do sedentarismo, pelo menos nos países industrializados, o seu combate deve ser incluído no planejamento das políticas de saúde pública. As conseqüências desta situação são evidentes. Para melhorar ao máximo as suas propriedades morfológicas, fisiológicas, bioquímicas e metabólicas, o organismo humano necessita de uma determinada quantidade de atividade motora ao longo da vida1-3. O uso adequado da musculatura esquelética, com as suas conseqüências fisiológicas adaptativas para todos os demais sistemas, faz parte do "manual de instruções" do corpo. A falta de uso é contra as "instruções de uso" ditadas pelas leis da natureza.
Além disso, os exercícios rítmicos habituais de endurance (como a corrida, o ciclismo, a caminhada, o esqui de planície, o remo e até o tênis e os esportes coletivos) realizados durante pelo menos 30 minutos três a cinco vezes por semana, em geral estão combinados com um estilo de vida saudável (p.ex., uma nutrição equilibrada quantitativa e qualitativamente, ingestão moderada de álcool, não fumar)4. Mediante esta atitude, consegue-se um benefício adicional consistente em termos de saúde e capacidade funcional a longo prazo e uma maior alegria de viver, adicionando "vida" aos anos, e provavelmente anos à vida.
Um "fator de risco" é uma característica individual, física ou comportamental, associada com uma maior possibilidade de desenvolvimento de determinadas doenças. Os conceitos modernos sobre os fatores de risco podem ser de especial utilidade no campo da prevenção e desempenham papel fundamental nas estratégias das políticas atuais de saúde pública.
A utilização adequada do sistema mais volumoso do corpo, o sistema muscular esquelético, provoca de forma complexa uma adaptação de todos os sistemas funcionais5. No caso do sedentarismo, que atualmente contribui com uma parte da morbidade da população, a capacidade dos órgãos internos se ajusta a um nível relativamente baixo de atividade física. A epidemiologia analítica e descritiva6-8, bem como os estudos experimentais9-12, indicam que os indivíduos que preferem um estilo de vida sedentário estão mais predispostos a determinadas doenças do que os fisicamente ativos. A atividade física regular pode ser identificada, desta forma, como importante fator de risco para as doenças crônico-degenerativas mais freqüentes. Em geral, as conseqüências patológicas dos fatores de risco externos (como o sedentarismo, o tabagismo, uma nutrição não fisiológica em quantidade ou qualidade e a ansiedade) e dos internos (hipertensão, hipercolesterolemia, diabetes mellitus, gota, hipertrigliceridemia, obesidade) são evidentes. Portanto, estes devem ser descobertos, controlados e combatidos desde os primeiros anos de vida.

 

SISTEMA CARDIOVASCULAR

A menor demanda da função cardíaca em conseqüência do sedentarismo diminui a qualidade funcional do miocárdio como "bomba". A atividade motriz insuficiente mantém de forma permanente a perfusão miocárdica nos níveis de repouso. O resultado pode ser um aporte instável de oxigênio para as fibras miocárdicas (isquemia miocárdica) em situações nas quais há aumento da demanda. Ademais, a ausência de adaptações morfofuncionais provocadas pelo exercício faz com que nas fibras miocárdicas haja menor número de mitocôndrias e menor quantidade de mioglobina e de glicogênio, enquanto eleva a concentração de catecolaminas. Este estado adaptativo deficiente é caracterizado por maior necessidade de oxigênio e menor volume plasmático para uma determinada carga de esforço. Todas estas características adversas demonstram que um estado de pobre adaptação cardiovascular relacionado com o sedentarismo aumenta a sensibilidade geral do coração10,11,13. Por exemplo, há uma relação direta entre a freqüência cardíaca em repouso e a incidência de infarto do miocárdio; a freqüência cardíaca alta, muito característica de indivíduos sedentários, está associada com maior incidência de infarto do miocárdio e vice-versa.

A aterosclerose é um achado freqüente à medida em que avança a idade. Há evidências de que o sedentarismo favorece o surgimento e o desenvolvimento da aterosclerose. O baixo nível de atividade física aumenta também a prevalência da hipertensão arterial. Também aqui, da mesma forma que a colesterolemia, a primeira regra é válida: quanto maior o valor, maior será também o risco14,15.

 

SISTEMA RESPIRATÓRIO

O enfisema e a bronquite crônica são freqüentes entre os idosos. A inatividade física, com as suas graves conseqüências sobre a musculatura ventilatória (principalmente sobre o diafragma e os músculos intercostais externos), tem como conseqüência uma capacidade vital limitada e uma redução das potenciais excursões do tórax. Isso significa que a falta de uso prejudica a ventilação pulmonar em repouso e durante o exercício e favorece o envelhecimento prematuro desse sistema1-3. Ademais, a capacidade pulmonar de difusão do oxigênio dos alvéolos aos capilares pulmonares não está nos níveis ideais. O baixo estado de adaptação fisiológica do sistema respiratório leva a uma hipocapnia e hipóxia dos tecidos já no ponto de partida da "cascata de oxigênio" do organismo. Além disso, sabe-se bem que um pouco de exercício pode atuar como um bom expectorante.

 

METABOLISMO

Está suficientemente demonstrado que o aumento do colesterol LDL (lipoproteína de baixa densidade) está associado com uma maior incidência de doença aterosclerótica coronariana e das artérias periféricas. O sedentarismo em geral se associa com o aumento do colesterol LDL; desse modo, o sedentarismo aumenta o risco de alterações degenerativas das artérias10,11,16. A falta de atividade física economiza energia; mas sem dúvida o consumo energético é uma excelente arma para combater o excesso de massa corporal (obesidade) e suas complicações para a saúde e a capacidade funcional. Mas esta última não depende somente de um balanço positivo de energia. Nos indivíduos sedentários são preferenciais as vias metabólicas que facilitam o armazenamento de gordura e dificultam a sua mobilização.

 

ADAPTAÇÃO CRUZADA

Este fenômeno significa (expressado de forma negativa) que a ausência de adaptações fisiológicas induzidas pelo exercício regular está freqüentemente acompanhada de falta de adaptação em atividades do organismo que não possuem uma relação direta óbvia com o grau de exercício físico realizado. Por exemplo, a termorregulação, a atividade fagocitária, a resistência a substâncias tóxicas, a tolerância à hipóxia e à hipoidratação, bem como a estabilidade psíquica, estão reduzidas em indivíduos sedentários. Isso significa que o sedentarismo reduz o limiar no qual diversos estímulos podem exercer efeitos prejudiciais ao organismo. A resistência geral se reduz e os mecanismos para superar as possíveis agressões ao organismo não são mobilizados de forma ideal. Por outro lado, a atividade física regular de forma adequada produz um efeito desejável de difusão para diversos sistemas do organismo2.

 

REFERÊNCIAS

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5.Tittel K. Beschreibende und funktionelle anatomie des menschen. Jena: Fischer-Verlag, 1990.         [ Links ]

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9.Bringmann W. Sport in der prävention, therapie und rehabilitation. Leipzig: Barth-Verlag, 1985.         [ Links ]

10.Hollmann W, Rost R, Dufaux B, Liesen H. Prävention und rehabilitation von herz-kreislaufkrankheiten durch körperliches training. Stuttgart: Hippokrates-Verlag, 1983.         [ Links ]

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15.Tipton C. Exercise training and hypertension. Ex Sport Sci Rev 1984; 12:245-306.         [ Links ]

16.Dufaux B, Assmann G, Hollman W. Plasma lipoproteins and physical exercise _ a review. Int J Sports Med 1982;3:123-36.         [ Links ]

 

 

Traduzido com permissão por:
José Kawazoe Lazzoli
Professor da Universidade Federal Fluminense, Niterói, RJ
Membro das diretorias da Sociedade Brasileira de Medicina do Esporte
e da Sociedade de Medicina Desportiva do Rio de Janeiro
Diretor do ergocenter _ Instituto Petropolitano de Ergometria, Petrópolis, RJ