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Revista Brasileira de Medicina do Esporte

Print version ISSN 1517-8692

Rev Bras Med Esporte vol.5 no.6 Niterói Nov./Dec. 1999

http://dx.doi.org/10.1590/S1517-86921999000600003 

ARTIGO ORIGINAL

 

Comportamento de variáveis cardiorrespiratórias em idosos e jovens durante 15 minutos de recuperação após esforços de diferentes intensidades

 

Behavior of cardiorespiratory variables in elderly and young individuals during 15 minute recovery after efforts of varying intensities

 

 

Paulo T.V. FarinattiI; Jacques H.P. VanfraechemII; Walace D. MonteiroIII

IInstituto de Educação Física e Desportos, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro - RJ
IIInstitut Supérieur d'Education Physique et de Kinesitherapie, Université Libre de Bruxelles, Bruxelas - Bélgica
IIINúcleo do Instituto de Ciências da Atividade Física, Força Aérea Brasileira, Rio de Janeiro - RJ

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Sabe-se pouco sobre os efeitos do envelhecimento na recuperação pós-esforço (RP). O estudo observou a RP em 15 idosos (GI, idade = 61 ± 1 anos) e 15 jovens (GJ, idade = 22 ± 2 anos) após atividades de três intensidades (IE) em cicloergômetro. Realizaram-se testes máximos, com incremento de 30W/min para GJ e de 25W/min após detecção de steady-state para GI. Posteriormente, os grupos pedalaram a 40% e 75% da carga máxima, respectivamente, 25 e 15 minutos. Foram acompanhados VO2, VCO2, VE e FC nos primeiros 15 minutos da RP nas três IE. O tratamento dos resultados compreendeu: a) teste de ajustamento das curvas experimentais a equações com uma ou duas exponenciais; b) cálculo do valor dos componentes para a equação mais ajustada; c) análise das constantes extraídas. Os desvios de ajustamento foram inferiores para uma curva de duas exponenciais, definida por integral de tempo na forma A/a +B/b. A/a designa a componente rápida da recuperação e B/b a lenta. Quando comparados os grupos, GI mostrou constantes maiores que GJ, evidenciando recuperação mais lenta nas duas fases. Subdividindo os componentes, em GI e GJ as constantes de velocidade de recuperação rápida (1/a) para VO2 e VCO2 foram semelhantes nas três IE, enquanto para a constante lenta (1/b), os valores para GI indicaram maior dependência em relação à carga. A recuperação da FC revelou-se extremamente dependente da IE para GJ. Para GI isso foi menos evidente, talvez por menor possibilidade de elevação da FC. A VE em GJ comportou-se de forma similar ao VO2 e VCO2. Porém, para GI as constantes de tempo foram mais lentas, mais associadas à IE que os demais parâmetros. Conclui-se: a) pode existir uma constante comum para a chamada 'fase alática' da curva de recuperação do VO2 e do VCO2, independentemente da IE e da idade; b) as diferenças entre GJ e GI podem dever-se às menores potência aeróbia máxima, termorregulação e eficácia do tampão respiratório nos idosos.

Palavras-chave: Atividade física. Teste de esforço. Idosos. Envelhecimento. Recuperação. Exercício.


ABSTRACT

Few data are available about post-exercise recovery (PR) and the aging process. Recovery of VO2, VCO2, VE and HR was observed at different exercise loads (EL) on cyclo-ergometer. A group of 10 young (GJ, age = 22 ± 2 years) and 10 elderly subjects (GI, age = 61 ± 1 years) performed maximal tests. A 30 W/min load incremental was applied to GJ and a 25 W/min after steady-state for GI. Also, subjects performed exercise at 40% and 75% of peak VO2, during 25 and 15 minutes respectively. VO2, VCO2, VE and HR were measured during the first 15 minutes of PR for the three EL. Results analysis was made by: a) testing experimental data residuals for one and two exponential equations; b) determining the better equation components; c) analysis of extracted constants. Deviations were smaller for a two exponential function, defined by S = 0ò¥ x(t)dt = A/a + B/b. A/a designs PR fast component and B/b the slower one. When groups were compared, GI had higher constants than GJ, showing a slower recovery at both phases. GI and GJ constants for PR fast phase (1/a) were similar at all EI for VO2 and VCO2. Results suggested a greater dependence of exercise load for PR slower constant (1/b) in GI. HR recovery has shown to be very much associated to EL in GJ, with time course PR being directly affected by exercise load. The same results were not observed for GI, maybe because of elderly limited HR upward drift potential. Data for VE recovery were similar to those observed for VO2 and VCO2 in GJ. However, GI constants were slower, more associated to EL than the other parameters. The authors conclude that: a) there can be a common constant for the 'alatic phase' of PR for VO2 and VCO2, independent of EL and age; b) differences between GJ and GI can be due to lower maximal aerobic capacity, thermoregulation and age-related reduced CO2 chemosensitivity, delaying elimination of the exercise-induced CO2 load.

Key words: Physical activity. Effort test. Elderly. Aging. Recovery. Exercise.


 

 

INTRODUÇÃO

Os padrões de comportamento das variáveis cardiorrespiratórias durante o exercício têm sido bastante estudados com referência à idade, ao sexo e ao nível de treinamento1-6. No entanto, como comentam Williams e Horvath7, a quantidade de estudos que tratam do período de recuperação pós-esforço é sensivelmente menor, apesar das informações potencialmente úteis que poderiam advir de tal observação. Por exemplo, sabe-se que a prescrição de certos tipos de programas de exercício, assim como o controle do nível de treinamento, baseiam-se freqüentemente na relação entre a intensidade do esforço aplicado e a duração do período de recuperação8,9.

A variável mais estudada durante a recuperação é, sem dúvida, o consumo de oxigênio (O2)9-14. Já nos anos 20, Hill et al.15,16 descreveram sua evolução e demonstraram que, depois de uma atividade muscular intensa, o retorno às condições de repouso compreendia dois componentes, um rápido e outro mais lento. Posteriormente, Margaria et al.17, Henry18 e Henry e De Moor19 estabeleceriam que o O2 durante a recuperação, uma vez deduzido o consumo de repouso, poderia ser descrito pela soma de duas exponenciais: X(t) = Ae-at + Be-bt. Segundo Margaria et al.20, a exponencial de declínio rápido representaria uma fase alática da recuperação, enquanto a exponencial lenta descreveria uma fase lática. Katch et al.21 e Katch22 retomaram esses estudos iniciais e procuraram quantificar os parâmetros dessa equação. No que se refere a outras variáveis cujo comportamento é afetado pelo exercício, como o gás carbônico expirado (CO2), a ventilação pulmonar (VE) e a freqüência cardíaca (FC), pesquisadores como Joye23 e Chick et al.24 demonstraram que tendem a ser descritas por equações do mesmo tipo que a do O2.

A quase totalidade dos dados disponíveis, contudo, diz respeito a indivíduos jovens ou de meia-idade. A carência de informações sobre o comportamento de parâmetros cardiorrespiratórios durante a recuperação pós-esforço é sensivelmente maior quando se trata de sujeitos de mais de 60 anos. Em um dos poucos estudos que se podem localizar, Chick et al.24 observaram o comportamento do O2, CO2 e da VE em indivíduos jovens e idosos. Os resultados obtidos indicaram diminuição geral da velocidade de recuperação com a idade, mas retorno similar aos valores basais após 10 minutos de repouso. Contudo, faltam dados para que se possam considerar esses resultados como norma geral. Isso posto, o objetivo deste estudo foi observar quatro variáveis (O2, CO2, VE e FC) durante os primeiros 15 minutos de repouso subseqüentes a diferentes intensidades de esforço (IE), em indivíduos idosos e jovens ativos.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Trinta homens, sendo 15 jovens (grupo jovem - GJ) (idade = 22 ± 2 anos) e 15 idosos (grupo idoso - GI) (idade = 61 ± 1 anos) participaram voluntariamente do estudo. Eram do curso de Educação Física da Universidade Livre de Bruxelas (GJ) ou participantes de programa de atividades físicas daquela Universidade (GI). Todos os participantes assinaram um termo de consentimento informado, de acordo com as recomendações da Convenção de Helsinque.

Os voluntários foram submetidos a testes de esforço máximo em cicloergômetro de frenagem eletromagnética. O protocolo de avaliação incluiu: a) três minutos de aquecimento a 5 watts; b) uma fase de trabalho, começando a 25 watts para o GI e a 30 watts para o GJ. O incremento de carga para GJ foi feito a cada minuto, enquanto para GI se optou pela detecção prévia de um estado de equilíbrio (steady-state). Ainda que o cicloergômetro mantivesse constantes as cargas para uma freqüência de pedalagem entre 30 e 300rpm, um ritmo de 60rpm era sugerido para o conforto do avaliado. O teste era interrompido na presença de sinais de intolerância ao esforço, de acordo com as recomendações do ACSM25.

O teste era considerado máximo se pudesse satisfazer dois de quatro critérios preestabelecidos: a) quociente respiratório > 1,06; b) freqüência cardíaca de ao menos 80% do valor máximo previsto para a idade (220 - idade); c) estabilização do O2 apesar de incremento da carga de trabalho (incremento do O2 < 2,0 ml x kg-1 x min-1 entre as duas últimas cargas); d) exaustão voluntária máxima.

A seguir, realizaram-se duas provas submáximas com cargas ajustadas, respectivamente, a 40% e a 75% da potência máxima obtida, com duração, respectivamente, de 25 e 15 minutos. Esses percentuais foram escolhidos em razão de provavelmente se situarem em patamares abaixo e acima do limiar anaeróbio dos indivíduos observados11. Os testes máximo e submáximo foram realizados com um intervalo de 48 horas. Um período de 15 minutos de recuperação passiva monitorizada seguiu-se a cada um dos testes realizados, com os indivíduos sentados em repouso.

Durante os testes, a pressão arterial foi medida a cada 2 minutos, pelo método auscultatório. O traçado do ECG e a FC foram monitorados por um eletrocardiógrafo Rigel modelo 302. Uma derivação bipolar com dois eletrodos colocados na posição CM5 foi utilizada, em função de sua sensibilidade às alterações do segmento ST. O O2, a CO2 e a VE foram medidos durante 15min de recuperação, em circuito aberto, por meio da análise direta das frações expiradas de CO2 e O2. A análise dos gases foi feita por analisadores Morgan e o volume ventilatório foi medido por um pneumotacógrafo. As medidas eram corrigidas para condições standard e utilizadas para determinar os valores médios de cada uma das variáveis a cada 30 segundos.

Em resumo, definiram-se três intensidades de esforço distintas para a realização das observações (IE 100%, IE 75% e IE 40%), em dois grupos amostrais (GJ e GI). O tratamento dos resultados compreendeu: a) teste de ajustamento das curvas experimentais a equações com uma ou duas exponenciais; b) cálculo do valor dos componentes para as equações anteriormente definidas; c) análise dos componentes das constantes de velocidade de recuperação extraídas das equações, com referência às intensidades de esforço aplicadas.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A tabela 1 apresenta os valores médios das variáveis observadas, obtidos no repouso e no esforço máximo, para os dois grupos. Como esperado, os resultados indicam superioridade nos valores obtidos para o grupo jovem durante o esforço, mas similaridade para as condições de repouso. Esses dados são coerentes com o que é geralmente proposto por outros estudos4,6,26. Nas tabelas 2 e 3 exibimos os valores médios obtidos para GJ e GI durante a recuperação em vários pontos de corte, uma vez subtraídos os valores de repouso. A análise dos resultados indica que as diferenças de recuperação entre os indivíduos jovens e idosos são maiores à medida que aumentamos a intensidade de esforço relativo, o que nos parece coerente com os dados atualmente disponíveis.

Determinou-se a seguir o ajustamento da curva experimental com uma ou duas exponenciais, para cada uma das variáveis observadas nas três IE. Os desvios foram determinados com base em equação de ajustamento utilizada por Joye23: D = [åidi2/(N p-Na)]1/2, onde di = desvio referente ao 1º ponto, Np = número de pontos e Na = número de constantes ajustadas. Os resultados discriminados de acordo com a variável e intensidade encontram-se na tabela 4. Como esperado, em todos os casos os desvios relativos aos dados brutos revelaram-se menores quando o ajustamento foi realizado por meio de uma curva representando a soma de duas exponenciais. Dessa forma, a análise dos dados foi feita com base em uma equação do tipo x(t) = Ae-at + Be-bt, onde A = valor do componente rápido no tempo zero; B = valor do componente lento no tempo zero; a = constante de velocidade da primeira exponencial; b = constante de velocidade da segunda exponencial; e = base de logaritmos neperianos; t = tempo. Calcularam-se então os componentes e constantes para cada uma das variáveis, em ambos os grupos de idade. Os resultados obtidos são apresentados nas tabelas 5 e 6.

 

 

A recuperação total de cada uma das variáveis é dada pela área delimitada pelas curvas. Assim, calculou-se a integral correspondente às duas exponenciais obtidas, ou seja: S = 0ò¥ x(t)dt = A/a + B/b. As partes respectivas descritas por cada um dos fatores dessa equação encontram-se na tabela 7.

Nota-se que, se os valores de B são inferiores aos valores de A (tabelas 5 e 6), quando observamos a área relativa à recuperação total o fator relativo ao componente lento do processo de recuperação (B/b) é, na maioria absoluta dos casos, mais pronunciado que o fator associado ao componente rápido (A/a). Percebe-se ainda que, quanto maior a intensidade do esforço, maior o percentual de contribuição da fase lenta de recuperação para a normalização das variáveis observadas, fato que independe da idade dos sujeitos8,23,24. Em termos percentuais, o envelhecimento parece não acarretar alterações significativas para a participação relativa de cada uma das fases da recuperação total dessas variáveis, ao menos no que diz respeito a nossa amostra.

Recuperação do consumo de oxigênio

Os valores da constante de velocidade a são similares nas três intensidades de esforço analisadas, para ambos os grupos etários (tabelas 5 e 6). O valor da relação 1/a foi, em todas as situações, próximo de 1min. Considerando os desvios-padrões encontrados, é razoável pensar que exista uma constante comum para a chamada 'fase alática' da curva de recuperação, independentemente da intensidade do esforço realizado e mesmo da faixa etária. No esforço máximo, 1/a = 54,6s (grupo jovem) e 58,2s (grupo idoso). A uma IE de 75% do máximo, 1/a = 60s (grupo jovem) e 55,2s (grupo idoso). Finalmente, a 40% da IE máxima, 1/a = 58,2s (grupo jovem) e 59,4s (grupo idoso).

Os resultados obtidos para as constantes de velocidade b, associados ao componente lento da recuperação, parecem ser mais influenciados pela intensidade do esforço. Em 100% IE, a relação 1/b foi de 25,6min para os jovens e de 31,3min para os idosos. Os valores para as intensidades submáximas foram de 17,0min (75%, grupo jovem), 20,0min (75%, grupo idoso), 18,2min (40%, grupo jovem) e 16,1min (40%, grupo idoso). Além disso, a influência da intensidade do esforço na fase lenta de recuperação parece ter sido mais sentida pelo grupo idoso. Enquanto neste último grupo as diferenças puderam ser identificadas para as três IE testadas, no grupo jovem a constante de velocidade foi marcadamente mais lenta para o esforço a 100%, enquanto para as IE de 75% e 40% o tempo de recuperação foi similar. Os resultados exibidos na tabela 7 apontam na mesma direção. Nota-se que, contrariamente ao observado para o componente rápido, em que os valores de A/a foram similares a IE 100% e IE 75%, o componente lento (B/b) teve valores bem distintos para cada uma das IE.

Finalmente, cumpre mencionar que b e B/b tenderam a ser sistematicamente maiores para o grupo idoso. Isso é uma evidência de que a segunda fase de recuperação tem sua duração aumentada à medida que envelhecemos. O fato de a potência aeróbia diminuir com a idade5,6,26,27, com declínio concomitante da capacidade de metabolização do lactato, de regulação térmica e wash-out de catecolaminas circulantes, pode ser uma explicação para esse comportamento. Dawson et al.11, por exemplo, concluem que o tempo de recuperação do O2 é determinado mais pela intensidade do exercício executado do que por seu gasto energético total.

No que toca à diferença entre jovens e idosos, Chilibeck et al.13 explicam que a recuperação mais rápida dos primeiros deve-se a maior capilarização muscular e a menor distância de difusão entre o oxigênio e os tecidos, quando isolados os efeitos do treinamento. Outros estudos reforçam tais considerações, indicando existir uma relação de natureza inversamente proporcional entre o tempo de recuperação do O2 e a potência aeróbia dos grupos observados10,14,28.

Recuperação da eliminação de gás carbônico

As observações feitas para o oxigênio repetiram-se, em certa medida, para o padrão de eliminação do CO2. A exemplo do observado para o consumo de O2, a quantidade total de CO2 eliminado durante a recuperação aumenta com a intensidade do esforço (tabela 7). A participação relativa das duas fases de recuperação, contudo, parece ser mantida nas três IE. Os valores das constantes de velocidade a foram semelhantes nas três IE, em ambos os grupos. Assim, para o grupo jovem, temos 1/a (100%) = 67,8s, 1/a (75%) = 63s e 1/a (40%) = 53,4s. Para o grupo idoso, os valores de 1/a nas IE de 100%, 75% e 40% foram, respectivamente, de 61,2s, 59,4s e 52,2s. Pode-se então aventar a hipótese de que, a exemplo do que acontece para o O2, seja qual for a intensidade do esforço e a idade, a constante de velocidade 1/a (relativa à fase rápida da curva de recuperação) para o CO2 será vizinha de 1min.

A constante 1/b no esforço máximo foi de 8,5min para o grupo jovem e de 10,1min para o grupo idoso. Para uma IE de 75% máx, o valor obtido para o grupo jovem foi de 5,9min e, para o grupo idoso, de 7,8min. Finalmente, as contantes para 40% IE máx foram de 10,4min (grupo jovem) e de 8,1min (grupo idoso). Nota-se que os resultados para a constante lenta da recuperação do CO2 foram mais próximos, entre os grupos, do que o observado para o O2. Apesar disso, em termos de recuperação total, o CO2 pareceu ter sido mais dependente da intensidade do trabalho que o O2. A tabela 7 mostra que os valores de CO2, nos dois grupos etários, foram mais dispersos quando consideradas as três IE.

Nota-se ainda que a quantidade total de CO2 eliminado foi semelhante para os jovens e idosos, em cada IE. Como as constantes 1/b, ao menos em nosso modelo matemático, tenderam a ser maiores para os idosos nas intensidades superiores, poder-se-ia imaginar que, apesar de recuperação total equivalente, este grupo teria eliminação menos eficaz, exigindo mais tempo para levar a pCO2 sanguínea aos patamares de repouso. Nossas observações concordam com as de Takahashi et al.29. Além de indicarem dependência maior da fase lenta de recuperação à intensidade do esforço, esses autores observaram que o declínio do CO2 era estreitamente proporcional ao declínio da ventilação pulmonar, mas que a cinética da primeira variável era maior.

Em outras palavras, o tempo de recuperação do gás carbônico pode ser menor do que o da VE, como demonstrado nas tabelas 5 e 6. Isso significa que a influência do CO2 sobre os quimiorreceptores centrais não é o único fator que pressiona a ventilação na fase de recuperação, que pode ser estimulada por outras vias, como comando central ou neurônios aferentes provenientes da musculatura utilizada. Não estamos, porém, em condições de confirmar essas hipóteses.

Recuperação da ventilação pulmonar

Os valores da constante a para o grupo jovem exibiram comportamento parecido àquele observado para o O2 e o CO2, isto é, nas diferentes intensidades de esforço existiria a possibilidade de uma constante única próxima de 1min. Já para o grupo idoso, a relação 1/a se afastou desse padrão: os valores obtidos nas diferentes intensidades de esforço foram de 111,6s (IE 100%), 94,8s (IE 75%) e 76,8s (IE 40%). No entanto, a recuperação total para a constante rápida (tabela 7), em ambos os grupos, foi semelhante. Para a constante de recuperação lenta a situação é muito menos precisa; por exemplo, seu valor a IE 40% para o grupo jovem foi de 0,020 ± 0,022 e, para IE 100% no grupo idoso, de 0,055 ± 0,020. Tais desvios-padrões limitam as possibilidades de inferências. De qualquer forma, parece ser mais fácil detectar influências da intensidade do esforço sobre as constantes b para o grupo idoso que para o grupo jovem (tabelas 5 e 6). Tanto quanto para o componente A/a, a recuperação total do componente lento (B/b) foi equivalente para jovens e idosos. A quantidade total de ar ventilado durante a recuperação aumenta com a IE (tabela 7). Nas três intensidades observadas, o componente lento tem influência preponderante sobre o excedente de ventilação, intervindo na mesma proporção para ambos os grupos (entre 70 e 80%).

Alguns comentários podem ser feitos com base nesses resultados. Em primeiro lugar, há certa coerência entre o exposto aqui e os resultados obtidos para o CO2. Se os idosos são menos eficazes para a eliminação do gás carbônico, parece lógico que sua VE permaneça elevada mais tempo que nos jovens (o que é atestado pelos valores da contante b), mesmo que seu CO2 total seja semelhante. Poderíamos então conjecturar que as diferenças entre os indivíduos jovens e idosos, no que diz respeito à ventilação pulmonar, poderiam dever-se a três fatores principais: a) menor potência aeróbia máxima nos idosos, acarretando maior acúmulo de lactato em atividades intensas e menor capacidade de metabolização durante a recuperação; b) menor eficácia do sistema tampão respiratório; c) menor eficácia dos mecanismos de termorregulação. Algumas dessas possibilidades foram consideradas por Chick et al.24, comparando a recuperação do O2, CO2, VE e FC em indivíduos jovens e idosos, após exercitação a IE 70%. Os autores observaram que o período de recuperação foi sistematicamente maior para o grupo idoso, propondo que isso seria consistente com as menores potência aeróbia máxima e sensibilidade dos quimiorreceptores ao CO2 desses indivíduos.

Recuperação da freqüência cardíaca

Contrariamente ao exposto até aqui, os valores das constantes a e b associados à recuperação da FC dependem indiscutivelmente da intensidade do esforço realizado. Maior a IE, mais os valores 1/a e 1/b alongam-se (tabelas 5 e 6). Assim, para o grupo jovem temos 1/a = 120,6s (IE 100%), 1/a = 69s (IE 75%) e 1/a = 40,2s (IE 40%). Os resultados para a constante lenta no grupo jovem foram 1/b = 71,4min (IE 100%), 1/b = 27,0min (IE 75%) e 1/b = 4,8min (IE 40%). Para os idosos, os valores observados para a constante rápida foram 1/a = 166,2s (IE 100%), 1/a = 146,4s (IE 75%) e 1/a = 105s (IE 40%). Para a constante lenta temos 1/b = 76,9min (IE 100%) e 1/b = 66,7min (IE 75%). Os resultados para IE 40% foram por demais imprecisos, o que restringe a possibilidade de discuti-los (b = 0,022 ± 0,053).

A FC é o parâmetro que, nos primeiros minutos de recuperação, demonstra as maiores diferenças em função da IE observada. Igualmente, trata-se da variável cuja recuperação é mais lenta, retornando aos valores de repouso depois de todas as outras (tabelas 5 e 6). Notamos que, para o grupo idoso, os componentes lentos de recuperação nas intensidades de 100% e 75% do máximo foram muito mais semelhantes que no grupo jovem. Isso pode dever-se ao fato de que os idosos têm menor potencial de elevação da FC1,24,27,30.

Assim, em atividades submáximas de intensidade moderada a alta, esse grupo já exibiria valores de FC próximos à freqüência máxima, o que é menos provável em indivíduos jovens. Notamos ainda que, em termos de recuperação total (tabela 7), nas intensidades superiores o componente lento é praticamente responsável por quase toda a normalização da FC (cerca de 90% da recuperação). Já em atividades de baixa intensidade (IE 40%), a participação do componente rápido aumenta em importância, aproximando-se do patamar dos 30%. Tal comportamento parece não depender da idade dos indivíduos.

Digno de atenção especial é o fato de que, das quatro variáveis observadas, a FC foi aquela cujo período de recuperação foi mais longo. Os estudos disponíveis são conflitantes a esse respeito. Por exemplo, Williams e Horvath7 propõem que, após 30 a 40 minutos de exercício de intensidade moderada, O2, CO2 e VE tenham seus valores normalizados após cerca de 10 minutos, enquanto a FC permaneceria elevada por 30 minutos. Já Chick et al.24, analisando a recuperação após exercício a IE 70%, sugerem que, após 10 minutos de repouso, o O2, CO2 e FC se normalizem, mas que a VE permaneça alta durante mais tempo. Nossos resultados aproximam-se mais dos apresentados por Williams e Horvath7, apesar dos tempos de recuperação estimados pelas curvas de exponenciais calculadas terem sido maiores do que os relatados por esses autores.

Conclui-se que a recuperação da FC não é inteiramente determinada pela recuperação do O2. O padrão de comportamento da FC não acompanha o do O2, principalmente na fase rápida de recuperação. Na fase lenta, apesar de a influência da IE fazer-se sentir de forma semelhante ao observado para o O2, as constantes 1/b implicam tempo de recuperação muito mais longo para a FC. Outros fatores, como eliminação do CO2, concentração de catecolaminas, regulação térmica ou reposição de substratos utilizados (por exemplo, creatina-fosfato) devem influenciar seus valores. Esse efeito é ainda maior para a pessoa idosa - em IE 75% o tempo de recuperação 1/b em GI foi de 67min, contra 27min em GJ. De acordo com os resultados discutidos até aqui, isso poderia ser explicado tanto por uma potência aeróbia máxima mais reduzida, quanto pelo fato de que os idosos levam mais tempo para eliminar o CO2 produzido na atividade.

 

CONCLUSÕES

1) Considerando modelos com uma ou duas exponenciais, as curvas de recuperação para as quatro variáveis observadas exibiram o melhor ajustamento para uma soma de duas exponenciais;

2) Quanto maior a intensidade do esforço, maior o percentual de contribuição da fase lenta de recuperação para a normalização das variáveis observadas, fato que independe da idade dos sujeitos. O envelhecimento parece não afetar a participação relativa das fases da recuperação;

3) Pode existir uma constante comum para a chamada 'fase alática' da curva de recuperação do oxigênio e do gás carbônico, independentemente da intensidade do esforço e mesmo da faixa etária;

4) A influência da intensidade do esforço na fase lenta de recuperação do oxigênio e do gás carbônico foi mais sentida pelo grupo idoso. Isso pode advir da diminuição da potência aeróbia máxima com a idade, assim como de menor sensibilidade à concentração do CO2;

5) O padrão da fase rápida da recuperação da ventilação pulmonar foi semelhante ao observado para o O2 e CO2 no grupo jovem. No grupo idoso, ela afastou-se desse padrão, sendo mais lenta. A intensidade do esforço parece afetar mais o componente lento da curva de ventilação no idosos que nos jovens, ainda que a recuperação total tenha sido equivalente. Isso sugere que o sistema tampão ventilatório do idoso é menos eficaz que nos indivíduos mais jovens;

6) As fases rápida e lenta da recuperação da freqüência cardíaca dependem da intensidade do esforço, sendo mais longas se o esforço é maior. Trata-se da variável cuja curva de recuperação foi mais lenta, o que foi ainda mais sentido no grupo idoso. Atribui-se esse particular ao fato de que esse grupo possui menor potencial de elevação da freqüência cardíaca. Nas intensidades de 100% e 75% da carga máxima de trabalho, a fase lenta da recuperação é responsável por quase toda a normalização da freqüência cardíaca. A 40% da carga máxima, a participação do componente rápido aumenta, aproximando-se do patamar dos 30%. Esse padrão parece não ser afetado pela idade.

 

AGRADECIMENTOS

Agradecemos ao Dr. Cláudio Gil Soares Araújo pelos comentários e sugestões. Apoio financeiro parcial do CNPq, processo 200063/94-4.

 

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Endereço para correspondência:
Paulo T.V. Farinatti
Instituto de Educação Física e Desportos/
Coordenadoria de Pós-Graduação
Rua São Francisco Xavier, 524, sala 9.122, bloco F, Maracanã
20550-013 - Rio de Janeiro, RJ
E-mail: farinatti@uol.com.br
Fax: (021) 587-7862

 

 

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