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Revista Brasileira de Medicina do Esporte

Print version ISSN 1517-8692

Rev Bras Med Esporte vol.6 no.2 Niterói Mar./Apr. 2000

http://dx.doi.org/10.1590/S1517-86922000000200006 

ARTIGO DE REVISÃO
ARCHIVOS DE MEDICINA DEL DEPORTE

 

Cafeína e esporte

 

 

Ricardo Oliveira Guerra; Gerlane Coelho Bernardo; Carmen Villaverde Gutiérrez

Universidad de Granada, Granada, Espanha

Endereço para correspondência

 

 

INTRODUÇÃO

A cafeína, um alcalóide de xantina, foi identificada pela primeira vez no café. A descoberta dos seus efeitos para reduzir a fadiga e aumentar o estado de alerta é atribuída a um monge etíope. Este monge ouviu de um pastor sobre o efeito produzido pelas sementes do café nas suas cabras, decidindo preparar uma bebida com elas, para poder passar a noite acordado em oração.

O hábito de beber café se desenvolveu na Arábia durante os séculos XV e XVI, tendo sido introduzido na Europa ocidental através da Turquia, no final do século XVI. O cultivo do café teve início no Iêmen, próximo a Meca, no século XIX, onde também se aperfeiçoou a forma de preparar a bebida com o grão de café. Atualmente, a metade do café produzido é cultivado em São Paulo, Brasil.

Embora a sua popularidade seja indiscutível, sempre houve divisão quanto aos efeitos benéficos do café. Os consumidores habituais de café (cinco ou mais xícaras por dia) relatam que a abstenção causa-lhes irritabilidade, inquietação, nervosismo, cefaléia e dificuldade de rendimento no trabalho. Em um estudo duplo cego com cafeína e um placebo, pôde-se verificar que tais sintomas eram devidos à supressão da cafeína. A cafeína aumentou o estado de alerta, reduziu a irritabilidade e produziu uma sensação de satisfação, embora uma dose semelhante em indivíduos não consumidores habituais de café tenha produzido irritabilidade, nervosismo e dispepsia. Desta forma, pôde-se interpretar que o consumo habitual de grandes doses de cafeína produz tolerância e dependência1.

A administração de uma dose única porém elevada de cafeína produz insônia, inquietação, ansiedade, confusão mental, palpitações, vertigem, cefaléia, transtornos visuais e auditivos. Esses efeitos são mais nítidos e se apresentam com doses menores em indivíduos não habituados ao consumo de café2.

A cafeína é considerada pela Organização Mundial da Saúde como uma droga estimulante do sistema nervoso central, juntamente com as anfetaminas, a nicotina e a cocaína. São denominadas drogas uma série de substâncias psicoativas que podem ser objeto de abuso. Todas são capazes de modificar uma ou várias funções do nosso organismo.

 

EFEITOS E MECANISMOS DE AÇÃO

A cafeína (trimetilxantina) é uma droga psicotrópica do grupo dos estimulantes do sistema nervoso central. Em geral, os seus efeitos sobre o organismo consistem em aumentar o estado de alerta e reduzir a sensação de fadiga, podendo aumentar a capacidade para realizar determinadas tarefas. A cafeína também possui efeitos reforçadores que podem ser parcialmente devidos à ativação do sistema dopaminérgico. Outra ação importante da cafeína é o estímulo à diurese, devido – entre outros mecanismos – ao aumento de glomérulos em funcionamento e do fluxo sanguíneo renal, ao elevar o gasto cardíaco.

Da mesma forma que outras xantinas, a cafeína possui efeitos inotrópicos, taquicardizantes, broncodilatadores e estimulantes da secreção gástrica. Em doses maiores, produz excitação, ansiedade e insônia e em consumidores habituais se desenvolve tolerância com necessidade de aumentar o consumo para obter os efeitos iniciais. A interrupção do uso produz uma síndrome de abstinência com cefaléia, irritabilidade e letargia.

Ao nível celular, a cafeína é um antagonista competitivo dos receptores de adenosina e provavelmente atua também diretamente ao nível de receptores, para potenciar a liberação do cálcio do retículo sarcoplasmático, pelo desacoplamento da atividade da ATPase no músculo esquelético3. Em conseqüência desses dois mecanismos celulares, a cafeína causa um aumento da lipólise, a facilitação da transmissão no sistema nervoso central, uma redução da concentração plasmática de potássio durante o exercício, um aumento da força de contração muscular em baixas freqüências de estimulação e uma economia do glicogênio muscular4.

Estes mecanismos de ação ao nível celular poderiam fazer pressupor um benefício ergogênico da cafeína durante a execução de exercícios de longa duração durante os quais a depleção de glicogênio limita o desempenho do atleta; esta teoria é sustentada por vários estudos5-8. Já Jackman9 não encontrou evidências de que a economia de glicogênio muscular promovida pela cafeína esteja relacionada com um melhor desempenho em exercícios de curta duração e alta intensidade. Segundo estes pesquisadores, é possível que a cafeína atue na ativação dos processos neuronais e/ou musculares diretamente relacionados com esse tipo de atividade desportiva. De fato, a cafeína poderia atuar diretamente ao nível do sistema nervoso central, estimulando a liberação de ACTH e beta-endorfina, hormônios relacionados com a resposta ao estresse, que modificam a percepção à dor e à fadiga causadas pelo esforço físico.

 

CAFEÍNA E ESPORTE

Uma substância ou técnica é considerada ergogênica quando melhora as diferentes formas de rendimento desportivo. O mecanismo pelo qual se produz esse aumento do rendimento físico se deve principalmente ao aumento da eficiência, do controle e da produção de energia10.

Os atletas já utilizaram com essa finalidade os mais diferentes nutrientes. Recentemente têm recebido muita atenção as dietas ricas em gorduras, os aminoácidos de cadeia ramificada, a creatina, a L-carnitina, o bicarbonato e a cafeína. De todas essas substâncias, somente a cafeína – que está presente na alimentação, embora não possua valor nutricional – é encontrada na lista de substâncias consideradas como doping pelo Comitê Olímpico Internacional (>12µg/ml na urina), pelas suas supostas propriedades ergogênicas. Diante dos resultados observados em estudos, nos quais a dose mínima administrada de cafeína já provoca uma melhora do desempenho e sem dúvida essa dose está situada abaixo do limite do COI, Spriet11 considera necessária uma revisão dessa questão, seja excluindo a cafeína da lista de substâncias consideradas como doping ou recomendando a abstenção da sua ingestão nas 48 a 72 horas anteriores à competição. Delbeke e Debackere12 , com base nos resultados de um estudo com 775 ciclistas, sugeriram um nível máximo de cafeína de 15µg/ml na urina para competições desportivas.

A cafeína é uma das substâncias estimulantes mais consumidas no mundo4 e é bem absorvida por via oral. A concentração máxima é atingida em 30 a 45 minutos após a ingestão. A sua vida média é de aproximadamente três horas e é metabolizada em 90%. Na fisiologia do exercício, muitos pesquisadores estudaram os seus efeitos como uma substância potencialmente ergogênica que aumenta o desempenho desportivo. Entretanto, nas duas últimas décadas, enquanto que alguns estudos mostraram dados positivos sobre a ergogenicidade da cafeína5-7,13-16, outros autores não encontraram resultados favoráveis sobre a ação da cafeína sobre o desempenho desportivo16-18.

A ingestão de cafeína permite um melhor desempenho em exercícios prolongados11,19 e em exercícios de alta intensidade e de curta duração9. Os efeitos de diferentes doses de cafeína, entre três e 13mg×kg-1 já foram estudados8,14, com o objetivo de avaliar o seu impacto no metabolismo do exercício e no desempenho. Esses estudos mostraram um aumento da concentração plasmática de ácidos graxos livres e glicerol, revelando também que com as doses mínimas administradas já foi observada ação ergogênica, sem diferença significativa em relação a doses mais altas. Desses resultados, conclui-se que não foi estabelecida uma relação dose-resposta da cafeína quanto à melhora do desempenho.

Um aumento significativo da concentração dos ácidos graxos livres e do glicerol no sangue também foi observado por Cole et al.20 e Wells et al.21, além de uma redução dos níveis de percepção subjetiva de esforço19,20,22, após a ingestão de cafeína.

A propriedade ergogênica da cafeína em retardar a fadiga está baseada no aumento da produção de catecolaminas plasmáticas provocado após a sua ingestão, o que poderia permitir que o organismo se adaptasse ao estresse causado pelo exercício físico23. Graham e Spriet14, em um estudo realizado no Canadá, não encontraram resultados favoráveis a essa teoria.

Um dos efeitos desfavoráveis do uso da cafeína em situações de competição seria a sua ação diurética, a qual poderia aumentar o risco de desidratação24. Wemple et al.25, em um estudo sobre as ações de bebidas com cafeína e bebidas desportivas descafeinadas sobre a produção de urina, não encontrou nenhum efeito importante nem sobre o desempenho nem sobre o volume de urina dos atletas que utilizaram cafeína, em relação ao grupo placebo.

A ação ergogênica da cafeína pode ser eliminada ou reduzida em função das condições ambientais onde o experimento é realizado26,27, ou através de sua utilização conjunta com outras substâncias. Vandenberghe et al.28, em um estudo comparativo entre os efeitos da suplementação oral de creatina e de creatina em combinação com cafeína, demonstrou que os efeitos ergogênicos da creatina no aumento da força, durante a execução de exercícios intensos realizados de modo intermitente, foram eliminados no grupo que ingeriu também a cafeína.

Foi relatado também que os efeitos do calor e da umidade reduzem o desempenho desportivo devido à sobrecarga do sistema cardiovascular e da limitação do mecanismo termorregulador do organismo nessas condições.

A cafeína, por outro lado, como já se viu anteriormente, mostrou-se como uma substância ergogênica em exercícios de grande duração. Cohen et al.27 não encontraram efeitos ergogênicos na cafeína em corredores de longa distância durante provas sob condições controladas de calor e umidade. Anderson e Hickey26, em um estudo realizado em laboratório sobre os efeitos metabólicos da cafeína a 5 e 28ºC, não encontraram diferenças significativas nos resultados do metabolismo dos carboidratos e dos lipídios, embora tenham observado um aumento da epinefrina plasmática, no grupo experimental submetido a determinadas condições de calor e umidade.

Fazem-se portanto necessários novos estudos de campo, que levem em conta as diferentes variáveis implicadas, tanto ambientais como individuais e de treinamento, em atletas de elite e indivíduos fisicamente ativos, embora nesses últimos seja mais difícil padronizar os estudos, para comparar os resultados disponíveis atualmente e poder estabelecer a relação existente entre os efeitos da cafeína e o desempenho desportivo.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência
Carmen Villaverde Gutiérrez
E.U. de Ciencias de la Salud. Universidad de Granada
Avda. de Madrid, s/n.
18012 – Granada – Espanha

 

 

Traduzido, com permissão por escrito, do original: Guerra RO, Bernardo GC, Gutiérrez CV. Cafeína y deporte. Arch Med Deporte 1999;72:355-8.
Traduzido por:
José Kawazoe Lazzoli
Editor-Chefe da Revista Brasileira de Medicina do Esporte
Vice-Presidente da Sociedade de Medicina Desportiva do Rio de Janeiro
Professor do Depto. de Morfologia e da Disciplina de Medicina do Exercício e do Esporte, da Universidade Federal Fluminense, Niterói, RJ
Diretor do ergocenter – Instituto Petropolitano de Ergometria, Petrópolis, RJ