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Revista Brasileira de Medicina do Esporte

Print version ISSN 1517-8692

Rev Bras Med Esporte vol.6 no.6 Niterói Nov./Dec. 2000

http://dx.doi.org/10.1590/S1517-86922000000600003 

ARTIGO ORIGINAL

 

Proposta de um instrumento para avaliação da autonomia do idoso: o Sistema Sênior de Avaliação da Autonomia de Ação (SysSen)

 

A new technique for elderly independence evaluation – The Senior System (SysSen)

 

 

Paulo de Tarso Veras Farinatti

Doutor em Educação Física, Professor Adjunto da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Laboratório de Atividade Física e Promoção da Saúde, Instituto de Educação Física e Desportos. Apoio financeiro: CNPq, processo nº 200063/94-4

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

O texto descreve uma nova técnica de avaliação da autonomia do idoso, o Sistema Sênior de Avaliação da Autonomia de Ação(SysSen), bem como as estratégias adotadas para sua validação. O sistema é formado por um questionário de atividades físicas (Questionário Sênior de Atividades Físicas – QSAP) e de um teste de campo (Teste Sênior de 'Caminhar e Transportar' – TSMP). O QSAP visa quantificar as necessidades dos idosos para uma vida autônoma, em termos de força de membros superiores (FO) e de capacidade cardiorrespiratória (PA), através de uma entrevista em quatro partes. A primeira considera as atividades cotidianas no domicílio, profissionais e de tempo livre. A segunda avalia o contexto ambiental. A terceira aprecia as dificuldades para tarefas cotidianas e os sentimentos quanto às atividades que se gostaria de fazer e/ou retomar. A quarta considera o ponto de vista do entrevistador sobre as informações recolhidas. Obtém-se um índice para o conjunto das necessidades reveladas pelas partes do questionário (Índice de Autonomia ExprimidaIAE). No TSMP o indivíduo marcha 800m de forma acelerada, transportando pesos específicos segundo o sexo. Calcula-se um índice representativo do potencial de realização das tarefas que dependem da interação funcional da FO e PA (Índice de Autonomia Potencial – IAP). Cruzando as informações obtidas, estabelece-se uma razão autonomia potencial/exprimida (IAP/IAE) – Índice Sênior da Autonomia de Ação (ISAC). A pertinência do SysSen foi verificada por meio da comparação com outros instrumentos de avaliação e pela observação da coerência interna e estrutural dos índices obtidos (validade de estrutura, conteúdo e critério). A fidedignidade inter e intraclasse foi investigada através de teste-reteste. A estabilidade das equações de regressão dos índices IAE e IAP foi testada por validação cruzada. Os resultados indicam que os instrumentos que compõem o SysSen são válidos e suas equações, estáveis. A comparação com outras técnicas de avaliação revela que o SysSen pode ser útil no estudo da autonomia funcional sob uma perspectiva positiva, fato raro quando se trata de instrumentos de avaliação gerontológica.

Palavras-chave: Idoso. Avaliação. Autonomia. Aptidão física. Questionário. Teste.


ABSTRACT

A new technique – Senior System for Action Autonomy Evaluation (SysSen) – used to evaluate elderly, and the strategies of its validation is described. The SysSen is composed by a questionnaire (Senior Questionnaire of Physical Activities – QSAP) and a field test (Senior 'Walking and Carrying' Test – TSMP). The QSAP is a four-part interview, assessing the necessities for an autonomous life related to upper body strength (FO) and cardiorespiratory capacity (PA). The first one considers home, professional, and free time activities. The second observes the environmental context. The third assesses the difficulties to perform day-to-day activities and the feelings of the subjects towards activities they would like to perform/resume. The last part considers the interviewer's point of view on the assessed information. An index for QSAP overall results is obtained (Expressed Autonomy Index – IAE). In the TSMP, subjects walk 800 m the faster they can, carrying weights according to sex. An index for the physical functional potential for activities that depend on FO and PA is calculated (Potential Autonomy Index – IAP). Both indexes are used to determine a ratio between potential and expressed autonomy (IAP/IAE) - the Senior Index for Action Autonomy (ISAC). The SysSen validity was verified by comparing its partial and final results with other evaluation techniques, and by the internal and structural consistence of the indices obtained (construct, content, and external validity). Intra-class reliability was determined by test-retest. The stability of IAE and IAP equations was tested by cross validation. Results show that the instrument is valid, and that its equations are stable. Comparison to other evaluation techniques reveals that SysSen can be useful in the study of elderly functional autonomy in a positive perspective.

Key words: Aging. Evaluation. Autonomy. Physical fitness. Questionnaire. Test


 

 

INTRODUÇÃO

Existem muitas propostas de avaliação da autonomia da pessoa idosa1-4. As possibilidades de manutenção de uma vida independente são tidas como essenciais para a qualidade de vida desta população.

Contudo, o exame da literatura revela que a maior parte das iniciativas adota uma perspectiva que poderia ser classificada como negativa e/ou exclusivista. A abordagem negativa analisa a autonomia por exclusão: tenta-se identificar problemas ou obstáculos para a vida autônoma e, na ausência destes, considera-se o indivíduo como autônomo5. Por 'exclusivismo' entendemos a tendência de se avaliar a autonomia unicamente a partir das atividades realizadas ou da condição física atual. Assim, os chamados sistemas de avaliação das atividades da vida cotidiana (como as escalas ADL, IADL ou AADL) enfatizam as dificuldades para a realização de atividades predeterminadas6,7, enquanto os sistemas que focalizam a aptidão funcional procuram apreciar a 'normalidade' das condições físicas individuais8-11.

Partimos do princípio de que essas abordagens não seriam suficientes para uma apreciação mais ampla da autonomia do idoso. Para tal, entendemos que o processo de avaliação, mesmo que eminentemente dirigido para a autonomia funcional, deva considerar aspectos que extrapolem a dimensão física da autonomia. A pessoa autônoma não é uma abstração, sem conexões com o contexto em que vive. Igualmente, os seres humanos não vivem em completa separação uns dos outros. Logo, os determinantes da autonomia guardam uma referência essencial ao meio, possuindo componentes cognitivos e afetivos que se manifestam em um contexto físico e social específico.

Com isso, torna-se discutível que se possa avaliar a autonomia sem levar em conta o conjunto de seus determinantes: de fato, a autonomia de um indivíduo não corresponde nem às suas condições particulares, nem às características ambientais – ela depende da interação de todos estes aspectos. Nessa ótica, recentemente propusemos um modelo heurístico para a autonomia, do qual extraímos alguns princípios básicos para a avaliação da autonomia em uma perspectiva positiva5: (a) a autonomia é um fenômeno multidimensional; (b) a medida e a avaliação da autonomia devem ser concebidas segundo um esquema adaptativo do indivíduo a seu meio ambiente físico e social; (c) a autonomia associa-se aos valores pelos quais se definem os desejos individuais relativos à vida autônoma.

Em um momento posterior, procurando respeitar estes princípios, desenvolvemos um sistema de avaliação da autonomia de ação de pessoas de mais de 60 anos12-14. O sistema, denominado Sistema Sênior de Avaliação da Autonomia de Ação (SysSen), é composto de dois instrumentos. O primeiro consiste de um questionário (Questionário Sênior de Atividades Físicas – QSAP) sobre três dimensões distintas das atividades físicas: (a) o que o indivíduo faz; (b) o que o indivíduo deve fazer; (c) o que o indivíduo deseja fazer. O QSAP permite definir índices representativos das necessidades pessoais relativas a aspectos previamente selecionados da aptidão física. Uma revisão da literatura permitiu-nos selecionar a capacidade cardiorrespiratória (potência aeróbia – PA) e a força de membros superiores (força – FO) como aspectos a serem priorizados. Um índice geral é calculado, denominado Índice da Autonomia Exprimida (IAE), quantificando as necessidades associadas às ações das quais a autonomia indivíduo dependeria, no tocante aos aspectos mencionados da aptidão.

O segundo instrumento é um teste de campo (Teste Sênior de 'Caminhar e Transportar'), cujo objetivo é a avaliação da aptidão física. Não se pretendeu que seus resultados fossem utilizados como medidas específicas da força ou da capacidade cardiorrespiratória, mas que refletissem o comportamento conjunto destas variáveis dentro de uma ótica funcional. O teste de campo permite, então, calcular um índice representativo do potencialde realização das tarefas que dependem da PA e da FO (Índice da Autonomia Potencial – IAP). Finalmente, do cruzamento das informações obtidas pelo questionário e pelo teste de campo, estabeleceu-se uma razão autonomia potencial-autonomia exprimida, que foi denominada Índice Sênior da Autonomia de Ação – ISAC.

Neste texto, descrevemos o SysSen e seu protocolo de aplicação, apresentando algumas estratégias adotadas para validá-lo.

 

DESCRIÇÃO DO QUESTIONÁRIO SÊNIOR DE ATIVIDADES FÍSICAS - QSAP

O QSAP foi validado em sua versão original, em francês. O processo de elaboração teórica e psicométrica do questionário foi descrito em artigo específico14. O QSAP consiste em 17 itens distribuídos em quatro partes, a saber: Parte I – O que o entrevistado faz; Parte II – O que o entrevistado deve fazer; Parte III – O que o entrevistado deseja fazer; Parte IV – Ponto de vista do entrevistador. A forma de aplicação do questionário é a entrevista pessoal. Foi adotado como sistema de administração o modelo 'Folhas do Entrevistador-Folhas do Entrevistado'. Neste modelo, o entrevistado não recebe o questionário integral, mas apenas folhas de resposta nas quais encontra as informações necessárias à escolha das opções de respostas. A matriz do questionário é preenchida pelo entrevistador. Tal sistema é adotado por outros questionários concebidos para populações idosas, como o Yale Physical Activity Survey for Older Adults15ou o Frail Elderly Functional Assessment Questionnaire7.

A Primeira Parte (itens 1 a 3) corresponde às necessidades ligadas ao que o entrevistado faz em sua vida cotidiana. Ela é dividida em três domínios: as Atividades no Domicílio, as Atividades Profissionais e as Atividades de Tempo Livre. Os itens da Parte I relacionam-se com a freqüência e a duração de diversas ocupações em cada um destes domínios. As ocupações foram selecionadas com base em três grandes surveys, dois levados a cabo nos Estados Unidos e um na França – o National Health Interview Survey versão 198516, o Nurses'Health Study II17 e o projeto PAQUID (o Quid des Personnes Agées)18 – assim como em um extenso Compêndio de Atividades Físicas publicado por Ainsworth et al.19.

A Segunda Parte (itens 4 a 12) refere-se ao contexto de vida do entrevistado. Seu objetivo é quantificar as necessidades impostas pelas condições ambientais (no que toca aos aspectos da aptidão física selecionados). As questões 4 a 6 consideram explicitamente as atividades para cuja execução deve-se caminhar ou subir escadas, aspectos da mobilidade pessoal universalmente reconhecidos17,20,21. Os itens 7 a 9 pedem ao entrevistado que classifique o grau de adaptação, de sua moradia e de seu meio ambiente físico, às suas capacidades e às capacidades das pessoas idosas em geral.

O item 10 pede ao entrevistado que classifique o nível de trabalho físico associado ao seu cotidiano. A classificação é feita com o auxílio de uma escala progressiva de intensidade (muito leve, leve, média, pesada, muito pesada). Adotou-se um estilo misto, no qual a subjetividade da classificação foi diminuída pela inclusão de definições do tipo de atividades que correspondem à classificação da intensidade. Este modelo de questão foi validado pelo Stockholm-MUSIC 1 Study22, cujo questionário propõe um item similar. A elaboração do item 11 também foi influenciada pelo Stockholm-MUSIC 1 Study: adaptaram-se duas questões do questionário aplicado por aquele estudo, com referência à manipulação de objetos.

O último item desta parte do questionário é o item 12. Ele retoma o problema do deslocamento, de forma mais direta e específica que o item 8: perguntam-se quais são os meios de transporte mais utilizados pelo entrevistado. Este tipo de questão é comum em instrumentos que quantificam as atividades físicas, como o Questionário de Baecke Modificado21ou o Tecumseh Occupational Activity Questionnaire23.

A Terceira Parte do questionário inclui os itens 13 e 14. Ela é dedicada às dificuldades percebidas pelo entrevistado durante a realização das atividades físicas do dia-a-dia, e aos sentimentos associados às atividades que ele gostaria de começar a fazer ou retomar. A estrutura do item 13 aproxima-se muito das características da maior parte dos instrumentos de avaliação de autonomia, cuja perspectiva é negativa: a auto-avaliação é direcionada à percepção das dificuldades ressentidas quando da execução de certas atividades. A diferença, aqui, é que se valoriza especialmente a natureza subjetiva do que se considera uma dificuldade. Por exemplo, se o indivíduo não pratica desporto, a dificuldade percebida por este tipo de atividade pode ser muito leve. Por outro lado, um indivíduo desportista que começa a aperceber-se do declínio de seu desempenho pode atribuir às suas dificuldades uma classificação média ou mesmo elevada. Esta valorização da subjetividade dos julgamentos justifica-se pelos objetivos desta parte do questionário. Não podemos esquecer que as informações referem-se ao que o entrevistado deseja fazer. A dificuldade física real é menos importante que as conseqüências para a realização das atividades às quais o idoso se propõe.

O item 14 procura introduzir uma ótica diferente da do item 13. As atividades que o indivíduo gostaria de fazer, mas que não faz, assim como a magnitude do sentimento de privação decorrente deste fato, são consideradas como elementos importantes para a definição das necessidades associadas à autonomia de ação. Em outras palavras, em nosso sistema a autonomia de ação depende também dos objetivos vitais, dos projetos de vida, e não somente do contexto atual. Assim, um idoso sedentário e feliz de o ser deveria ser considerado tão ou mais autônomo que aquele que faz diversas atividades em seu cotidiano, mas que se sente insatisfeito em função das atividades que não realiza. Não pudemos localizar instrumentos de avaliação da autonomia que tenham proposto um item similar.

A Quarta Parte do questionário (itens 15 a 17) é preenchida pelo entrevistador. O objetivo é minorar o grau de subjetividade do julgamento do entrevistado, principalmente nas questões em que menciona o nível de esforço físico associado ao cotidiano. Visto que este tipo de questão é freqüentemente comparativo, um indivíduo que vive em uma comunidade cuja rotina é marcada pela atividade árdua pode estimar que as atividades de seu dia-a-dia sejam leves. Estas mesmas atividades podem ser classificadas como pesadas por um outro indivíduo vivendo em um meio sedentário. Da mesma forma, as classificações com respeito às condições do domicílio, dos transportes coletivos ou da vizinhança podem ser influenciadas pela realidade à qual o entrevistado está habituado. Parte-se do princípio de que o entrevistador pode contribuir, com seu julgamento, a completar as informações fornecidas pelo entrevistado, já que as suas experiências não são as mesmas que a deste último.

A pontuação do QSAP é feita em três níveis: (a) a cotação dos itens do questionário em termos de intensidade; (b) a cotação do conjunto de cada Parte e a equivalência dos pontos obtidos em relação ao total de pontos possíveis – índices TOT (PA) e TOT (FO); (c) os índices gerais do questionário – índices ITOT (PA), ITOT (FO) e IAE. As fórmulas para calcular cada um dos índices parciais e totais do QSAP encontram-se na matriz do questionário, apresentada no Anexo 1.

 

DESCRIÇÃO DO TESTE SÊNIOR DE 'CAMINHAR E TRANSPORTAR' - TSMP

O TSMP foi idealizado de forma a permitir a apreciação da interação da força de membros superiores e da capacidade cardiorrespiratória, em um contexto funcional. A fim de favorecer sua aplicação em situações em que a disponibilidade de recursos materiais é pouca, a forma de execução e de análise dos dados fornecidos foram simplificadas o mais possível. Uma descrição detalhada do desenvolvimento do instrumento pode ser encontrada em Farinatti e Vanfraechem13. Nesta seção descrevem-se os princípios gerais e o protocolo do teste.

Para a definição do instrumento, o trabalho de Posner et al.24 foi considerado como fundamental: estes autores desenvolveram um método integrando componentes da resistência aeróbia e da força muscular, denominado Bag-Carrying Test (BCT). O objetivo era medir, em situação funcional, a força dos membros superiores e inferiores de pessoas idosas, através da imposição de intensidades de trabalho suficientemente elevadas para permitir uma sobrecarga importante em termos de capacidade cardiorrespiratória. Durante o BCT, os indivíduos sobem quatro degraus até 7,5m de altura portando pesos calibrados, retornando a seguir ao ponto de partida até que não se possa mais continuar. O escore final consiste na maior carga transportada. Este teste revelou-se associado à força de grupamentos musculares superiores e inferiores, à O2pico e a escalas de atividades da vida cotidiana (tipo IADL e AADL).

A forma de execução do TSMP foi adaptada do BCT, mas a maneira de determinar seu escore final foi completamente modificada. As adaptações foram feitas em função de uma maior segurança e de uma maior possibilidade de generalização da aplicação do teste, como segue:

a) escolheu-se a marcha como a atividade a ser realizada. Em um sentido absoluto, subir escadas pode ser uma atividade de intensidade superior, impondo uma maior solicitação ao sistema cardiorrespiratório. Contudo, não é aplicável a todas as pessoas idosas. O primeiro grande problema é a manutenção do equilíbrio – subir e descer escadas transportando pesos exige um nível de coordenação e de precisão de movimentos nem sempre presente. Além disso, trata-se de uma atividade associada a altas resistência e potência musculares, o que pode limitar a validade da apreciação da capacidade cardiorrespiratória em razão de fadiga localizada. A marcha diminui consideravelmente esses riscos, constituindo uma atividade plenamente compatível com a avaliação da capacidade aeróbia25,26;

b) o aumento progressivo das cargas transportadas parecia-nos pouco factível em condições de campo. A calibragem de vários pesos idênticos implicaria uma estrutura logística que queríamos evitar, devido aos custos. Ademais, a adição de pesos após cada circuito suporia a realização de pausas difíceis de controlar, o que poderia comprometer a validade do teste. Finalmente, parecia-nos excessivamente complicado determinar os pesos a adicionar para avaliar a força de membros superiores durante a marcha: o número de pausas e a progressão constante das cargas não deveriam nem tornar a marcha impossível a longo prazo, nem impor interrupções constantes. A quantidade de testes pilotos necessários a uma determinação adequada seria quase irrealizável e, de todo modo, o resultado seria sempre impreciso. No caso do BCT a tarefa era mais simples, pois o objetivo do teste era sobretudo medir a força dos indivíduos. O TSMP deveria fornecer informações sobre a interação da força e da capacidade aeróbia em uma situação funcional, sem privilegiar quaisquer destas qualidades físicas. Decidiu-se assim pela adoção de uma estratégia na qual o avaliado transporta um peso único em cada mão durante a totalidade do teste. Isto posto, a execução do TSMP compreende três fases:

1) fase de pré-fadiga: de pé, imóvel, o indivíduo sustenta pesos predeterminados para seu sexo (8kg para os homens e 6,5kg para as mulheres, em cada uma das mãos), durante três minutos, ao fim dos quais é autorizado a começar a caminhada. Os pesos devem ser bem calibrados, de maneira a proporcionar uma boa distribuição bilateral das cargas para diminuir o estresse sobre a coluna vertebral. Igualmente, a preensão deve ser a mais confortável possível. O ponto de contato entre os pesos e as mãos deve ser revestido de material macio (tecido, fitas acolchoadas, etc.), para que o teste não seja interrompido em função de dor nas mãos.

2) fase de trabalho: o indivíduo é convidado a percorrer, sem correr, 800m 'o mais rapidamente possível sem colocar em risco a sua saúde', portando os pesos específicos ao seu sexo. Por razões operacionais, o teste é feito em uma distância de 50 ou 100m, percorrida 16 ou oito vezes. Nenhuma dúvida deve persistir sobre três pontos: (a) o sujeito é autorizado a parar a todo momento do teste, uma vez que se sinta cansado ou se o peso é excessivo. A quantidade e a duração das pausas são definidas pelo próprio avaliado, mas ele deve ter em mente que se trata de um teste de sua capacidade física. Assim, as pausas devem ser restritas ao mínimo indispensável; (b) se o avaliado julga que não poderá transportar os pesos até o fim do teste, mesmo fazendo pausas, ele pode colocá-los no chão e continuar o percurso com as mãos livres, em qualquer momento do teste; (c) o avaliado não deve correr sob nenhum pretexto. Idealmente, deve-se procurar um ritmo constante de marcha acelerada que possa ser mantido até o fim do teste. Deve-se prevenir o avaliado do risco de uma velocidade excessiva no início, que possa impedir a conclusão do percurso em razão de fadiga muscular. Os dados observados durante a fase de trabalho são: (a) tempo a cada 200m (em segundos); (b) número de pausas; (c) FC ao final do teste (máximo dez segundos após o final do percurso);

3) fase de recuperação: ao fim dos 800m, o sujeito coloca os pesos no chão e sua FC é observada imediatamente e após três minutos. Este período de recuperação pode ser aumentado, se a pulsação mostra-se anormalmente elevada.

A determinação do Índice de Autonomia Potencial (IAP) é feita a partir de quatro variáveis: o índice de massa corporal (IMC), o tempo de percurso na fase de trabalho (T-800), a categoria correspondente ao número de pausas (S-PAUSA) e a percentagem da FC máxima atingida no teste (%FCmax). O IMC corresponde ao peso/altura2 (kg/m2). O T-800 é anotado em segundos, compreendendo também as pausas. Excepcionalmente, se o indivíduo não é capaz de percorrer os 800m, mesmo com as mãos livres, o tempo aos 400m pode ser utilizado para estimar o T-800 (T800 = T400 x 2). Este procedimento é possível em função da alta correlação entre T-400 e T-800 (r > 0,90; p < 0,001). As pausas são associadas a escores sem dimensão: nenhuma pausa (S-PAUSA = 0), uma a duas pausas (S-PAUSA = 1), três pausas (S-PAUSA = 2), quatro pausas (S-PAUSA = 3), mais de quatro pausas (S-PAUSA = 4), não transportar os pesos (S-PAUSA = 5). Finalmente, a %FCmax é calculada pela fórmula (FCteste x 100)/FCmax. A FCteste corresponde à maior FC observada durante o teste. Por razões práticas, ela é considerada como equivalente à freqüência medida em um prazo máximo de dez segundos após o término da fase de trabalho. A FCmax corresponde à FC máxima prevista de acordo com a idade (220-idade). A idade é medida em anos – calcula-se a idade decimal e arredonda-se de acordo com a proximidade da data de aniversário. Por exemplo, uma pessoa de 66,4 anos é tida como se tivesse 66 anos, enquanto 66,7 anos é arredondado para 67. O IAP é calculado segundo as fórmulas apresentadas na tabela 1.

 

 

DETERMINAÇÃO DO ÍNDICE SÊNIOR DA AUTONOMIA DE AÇÃO - ISAC

Como dito, do cruzamento das informações obtidas pelo QSAP e pelo TSMP obtém-se um índice, representativo da relação entre a autonomia exprimida e a autonomia potencial do indivíduo avaliado. Tal índice, denominado Índice Sênior da Autonomia de Ação (ISAC), é calculado pela razão entre valores corrigidos do IAP e do IAE. Tal correção deve-se à adaptação dos valores obtidos pelos índices a uma unidade comum, qual seja, a idade cronológica em anos. O fato de existir apenas um índice para o QSAP e dois para o TSMP (feminino e masculino) impôs esta estratégia para que os dados pudessem ser estatisticamente compatíveis, permitindo o estabelecimento de uma razão entre o IAP e o IAE. Assim, antes do cálculo do ISAC, cumpre-se a etapa de ajustamento dos índices parciais, de acordo com as fórmulas propostas na tabela 1.

 

VALIDAÇÃO DO SISTEMA SÊNIOR DE AVALIAÇÃO DA AUTONIMIA DE AÇÃO - SysSen

A validação do SysSen foi objeto de uma tese de doutoramento12 e de outras publicações13,14,27. Não é possível neste espaço detalhar os métodos e resultados obtidos, mas gostaríamos de mencionar alguns dos aspectos e estratégias envolvidos. A pertinência e a fidedignidade foram determinadas para cada um dos instrumentos que compõem o sistema (QSAP e TSMP), assim como para o ISAC. Inicialmente, verificou-se a representatividade dos instrumentos em relação às variáveis que procuravam quantificar. No caso do QSAP, determinaram-se a consistência interna e a estrutura fatorial concernente aos índices parciais fornecidos. Para o TSMP, calcularam-se a correlação entre o IAP e a idade, medidas diretas da força de preensão manual (dinamometria) e a potência aeróbia máxima (O2pico), bem como a associação entre os escores canônicos obtidos pela combinação das variáveis do teste de campo e as medidas diretas. A intensidade relativa do TSMP foi também determinada, através da observação do comportamento da freqüência cardíaca, do volume sistólico e do débito cardíaco durante a execução do teste, através do método da impedância torácica. Em seguida, a estabilidade das equações obtidas foi verificada pelo procedimento da validação cruzada. Os resultados obtidos revelaram que as equações eram razoavelmente representativas e estáveis.

Passou-se então à verificação da validade externa dos resultados do questionário (índice IAE) e do teste de campo (índice IAP). Para tal, lançou-se mão de critérios de validade construto, conteúdo, concorrente e concomitante, bem como da verificação da fidedignidade inter e intraclasse para um mesmo observador e para observadores distintos, simultaneamente e em testes repetidos. Posteriormente, o ISAC foi submetido aos mesmos critérios de validação. Entre os critérios de validade adotados, poderíamos citar a diferença entre as respostas de idosos vivendo em comunidade e em instituições, parâmetros da aptidão física tomados individualmente e em conjunto (percepção subjetiva do esforço, composição corporal, força máxima e mínima, capacidade cardiorrespiratória e pressão arterial), medidas da autonomia funcional (índice da idade ADL, escalas de autonomia), questionários de atividades físicas e questionários associados à dimensão psicossocial (imagem corporal, auto-estima, etc.). Os resultados foram positivos, tanto para os instrumentos isolados quanto para o ISAC.

Finalmente, examinou-se a coerência geral do sistema, através do cruzamento dos resultados dos estudos de validação com os princípios que nortearam a sua construção. Estes princípios foram determinados por dois modelos teóricos, o Modelo de Interação Saúde-Autonomia e o Modelo Envelhecimento-Autonomia de Ação5,12. A ratificação de tal coerência foi considerada como um importante indicador da validade conteúdo do método.

 

CONCLUSÕES E CONSIDERAÇÕES FINAIS

O SysSen vem preencher uma lacuna na avaliação da autonomia das pessoas de mais de 60 anos, principalmente quando se trata de indivíduos que vivem em comunidade, com bons níveis de aptidão funcional. Na verdade, são poucos os instrumentos disponíveis dedicados especificamente à apreciação da independência funcional deste segmento, ainda menos com uma perspectiva positiva.

No entanto, é certo que o sistema não está livre de limitações, tanto em relação à sua aplicabilidade quanto à sua validação. Em primeiro lugar, não se trata de um método que possa ser aplicado junto a idosos cujo grau de comprometimento da autonomia seja elevado. Nestes casos, instrumentos que avaliam as limitações para uma vida independente, como as escalas clássicas de atividades da vida cotidiana, são preferíveis. Outra limitação importante refere-se à validade transcultural do questionário, ainda não verificada – os estudos originais de validação foram feitos em francês, com idosos do Norte da Europa. São necessários estudos para observar a estabilidade dos seus resultados em grupos brasileiros, assim como amostras mais importantes devem ser selecionadas para a validação cruzada das equações de cada um dos instrumentos. Quanto aos resultados obtidos para a validade do índice geral do sistema – o ISAC – pode-se afirmar que também precisam ser ratificados, a partir de critérios compostos que se aproximem da natureza mista do SysSen. Finalmente, as evidências disponíveis sobre a fidedignidade absoluta e relativa do método mereceriam ser confirmadas por delineamentos metodológicos mais sofisticados.

Apesar disso, os resultados dos estudos de validação até aqui conduzidos são promissores. Há evidências de que os componentes do sistema de avaliação proposto quantificam convenientemente as demandas físicas para uma vida autônoma e o potencial físico individual, possuindo bons níveis de pertinência e de reprodutibilidade, ao mesmo tempo em que consideram aspectos positivos e negativos da autonomia de ação. O cruzamento das informações do QSAP e do TSMP, enfim, produz um índice que traduz bem a noção de potencial de realização de uma vida autonôma, a partir da interação dos conceitos de autonomia potencial e exprimida. Assim, conclui-se que o sistema pode vir a ser uma opção interessante no contexto da avaliação da autonomia de idosos vivendo em comunidade.

 

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Endereço para correspondência:
Rua Anita Garibaldi, 38/302
22041-080 – Rio de Janeiro, RJ, Brasil
E-mail: farinatti@uol.com.br

Recebido em: 6/8/2000.
Aceito em: 15/10/2000.