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Revista Brasileira de Medicina do Esporte

Print version ISSN 1517-8692

Rev Bras Med Esporte vol.7 no.2 Niterói Apr. 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S1517-86922001000200002 

ARTIGO ORIGINAL

 

Avaliação da seleção brasileira feminina de basquete

 

Evaluation of Brazilian female basketball team

 

 

D.A.S. GentilI; C.P.S. OliveiraII; T.L. Barros NetoIII; V.L. TambeiroIV

IMédico do Esporte; Fisiologista da Seleção Brasileira Feminina de Basquete; Mestre em Reabilitação - Unifesp/EPM
II
Médico do Esporte; Chefe do Departamento Médico da Confederação Brasileira de Basquete; Docente das Disciplinas Fundamentos Biológicos e Cinesiologia do Curso de Educação Física do Núcleo da Saúde da UNIFMU

III
Coordenador do Cemafe; Docente do Departamento de Fisiologia da Unifesp/EPM

IV
Secretária Executiva do Cemafe

 

 


RESUMO

Foram avaliadas 13 jogadoras de basquete convocadas para disputa dos Jogos Olímpicos em Sidney - 2000. As atletas foram submetidas à mensuração do peso e altura, a um teste ergoespirométrico em esteira e a um teste de impulsão vertical. Todos os testes foram realizados no Cemafe (Centro de Medicina da Atividade Física e do Esporte) da Unifesp/EPM, em junho de 2000. Os resultados encontrados estão descritos a seguir: idade média de 24,4 ± 4,6 anos, peso corporal 70,8 ± 8,6kg, estatura 182 ± 7,6cm, e índice de massa corpórea (IMC) 21,4 ± 1,8. A avaliação ergoespirométrica revelou valores para o consumo máximo de oxigênio (VO2 máx) de 49,9 ± 5,4ml/kg/min; o consumo de oxigênio no limiar anaeróbio (VO2 LA) de 38,7 ± 4,3ml/kg/min; freqüência cardíaca máxima (FC máx) 194,4 ± 9,6bpm; freqüência cardíaca no limiar anaeróbio (FC LA) 179,7 ± 5,7bpm; velocidade no limiar anaeróbio (VEL LA) 11,9 ± 1,4km/h; gasto calórico no limiar anaeróbio (GASTO CAL) 815,6 ± 71,8kcal/h. No teste de impulsão vertical as atletas foram orientadas a saltar com a maior potência e o maior número de vezes possível em 30 segundos, detectando-se os índices por equipamento sonar (Vertisonic®). Foram encontrados para a potência máxima ou pico de potência 9,9 ± 2,2W e um trabalho muscular total durante os 30 segundos de 602,1 ± 104,8J. A avaliação médica e fisiológica é fundamental para atletas de alto nível alcançarem sucesso em competições de nível internacional, sendo estes parâmetros essenciais ao planejamento e periodização do treinamento.

Palavras-chave: Fisiologia do exercício. Basquete feminino. Avaliação física.


ABSTRACT

Thirteen (13) elite female basketball players were submitted to medical and physiological evaluation in Cemafe (Federal University of São Paulo) in June, 2000. Age was 24.4 ± 4.6 y, height 182 ± 7.6 cm, and body mass 70.8 ± 8.6 kg. The Brazilian team was submitted to an ergospirometry evaluation by a computerized analysis of expired gases with cardiovascular responses recorded by ECG. A vertical jump test was performed to detect the anaerobic power during 30 seconds. The results were: maximum oxygen uptake (VO2 max) 49.9 ± 5.4 ml/kg/min; threshold oxygen uptake (VO2 LA) 38.7 ± 4.3 ml/kg/min; maximum heart rate 194.4 ± 9.6 bpm; anaerobic threshold heart rate 179.7 ± 5.7 bpm; anaerobic threshold velocity 11.9 ± 1.4 km/h; anaerobic power (peak) 9.9 ± 2.2 W; total muscular work (30 s) 602.1 ± 104.8 J. Medical and physiological evaluation is compulsory for elite female basketball players to be successful in international championships.

Key words: Physiology of exercise. Female basketball. Evaluation.


 

 

INTRODUÇÃO

O basquete teve sua primeira partida oficial disputada em 1892 em Springfield, nos Estados Unidos; atualmente são cerca de 300 milhões de praticantes em todo mundo. Isto mostra uma popularidade impressionante, que movimenta bilhões de dólares. Com esse incrível número de participantes e maiores premiações, as competições se tornaram mais acirradas e a partir disso a preparação física se tornou imprescindível para a vitória, abrindo grande espaço para a fisiologia de exercício.

É muito difícil definir com precisão quais são as exigências fisiológicas durante uma partida competitiva de basquete1. O número de estudos científicos que fazem referência ao basquete ainda é escasso e a comparação entre eles é difícil, pois estes estudos, em sua grande maioria, são diferentes (objetivo, nível de treinamento, estilo de jogo ou idade)1.

Pelas próprias regras e características do jogo, observa-se, durante uma partida, rápidas transições entre ataque e defesa, a fluência de movimentos e múltiplas responsabilidades para todos os jogadores (arremessos, rebotes, ataque, defesa e contra-ataque, por exemplo). A maior parte dos estudos apenas descreve as características fisiológicas de jogadores ou times, de diferentes níveis.

Apenas McInnes2 em 1995, observando jogadores de alto nível, tentou caracterizar os padrões de movimento durante um jogo competitivo. McInnes et al. dividiram as ações dentro de uma partida de basquete em oito categorias (andar/em pé; trotar; correr; "tiros"; deslocamentos pequenos; médios; grandes e saltar). Os resultados nos mostram a natureza intermitente do esporte, 997 ± 183 mudanças de posição durante o jogo (uma mudança de posição a cada 2 segundos, visto que em média o tempo de jogo é de 36,3 minutos por partida). Os resultados publicados nos mostram que os deslocamentos (em todas as direções) representaram 34,6% dos movimentos de um jogo, 31,2% das ações foram classificadas em corrida (do trote aos "tiros"). Os saltos representaram 4,6% das ações e o ato de estar em pé ou andando, 29,6%. Os movimentos considerados de alta intensidade eram repetidos a cada 21 segundos, perfazendo 15% do tempo do jogo.

Este estudo tem o objetivo de descrever as características (físicas e fisiológicas) da seleção feminina de basquete que representou o Brasil nos Jogos Olímpicos em Sidney - 2000.

 

MATERIAL E MÉTODO

Foram avaliadas 13 jogadoras convocadas para início da preparação visando os Jogos Olímpicos em Sidney - 2000. Cabe ressaltar que quatro destas jogadoras avaliadas foram posteriormente "cortadas" da seleção por critérios exclusivamente técnicos.

Todas as avaliações foram realizadas no Cemafe (Centro da Medicina da Atividade Física e do Esporte) da Universidade Federal de São Paulo - Escola Paulista de Medicina (Unifesp/EPM), no mês de junho, em dois períodos (manhã e tarde) de dias consecutivos.

O peso e a altura das atletas foram mensurados em balança aferida sem a utilização de calçados.

A avaliação ergoespirométrica, em esteira (Lifestride modelo 7500), consistiu no registro de um eletrocardiograma em repouso (eletrocardiógrafo Dixtal®) e o registro de três derivações (MC5, V2, AVF) por todo teste. Aferiu-se a pressão arterial antes, no exercício máximo e durante a recuperação (segundo e quarto minutos). O protocolo estabelecido foi dois minutos em repouso, início do teste a 5km/h (por dois minutos) e a partir de daí, a cada minuto, a velocidade era aumentada em 1km/h (6km/h, 7km/h, 8km/h,...) até a exaustão. As variáveis foram obtidas de forma direta (com máscara) pelo analisador de gases MiniVista CPX e o Software Vacumed turbo 4.0.

A avaliação da potência anaeróbia foi realizada por meio de teste da impulsão vertical, utilizando-se fixo no teto um aparelho sonar (Vertisonic®), que mede a diferença de deslocamento. As atletas foram orientadas a realizar o maior número de saltos, na maior potência (o mais alto) possível, sem o auxílio dos membros superiores, por 30 segundos. O valor do deslocamento vertical era registrado um a um. A partir dos registros dos saltos, foram calculados a potência máxima (pico de potência) e trabalho muscular total realizado durante os 30 segundos, da seguinte maneira: o maior valor absoluto do salto, multiplicado pelo peso corporal expressa a potência máxima (pico de potência); a somatória de todos os saltos realizados, multiplicado pelo peso corporal, expressa o trabalho muscular total realizado durante os 30 segundos.

 

RESULTADOS

 

 

 

 

 

 

DISCUSSÃO

Os mais recentes estudos relacionados ao basquete (principalmente universitário) dão importância muito maior à estatura e ao metabolismo anaeróbio (potência anaeróbia) que a outras características físicas e fisiológicas3-7. Estudos de fisiologia do exercício em equipes de alto nível (seleções nacionais e NBA) confirmam o metabolismo anaeróbio (potência anaeróbia) como a característica mais importante, mas associam a potência aeróbia (consumo máximo de oxigênio e consumo de oxigênio no limiar anaeróbio), agilidade e velocidade ao sucesso nas competições mais importantes8,9.

A importância da potência aeróbia estaria mais relacionada aos processos de recuperação (tanto da freqüência cardíaca, quanto à remoção de lactato sanguíneo) do que à performance propriamente dita10,11. Durante uma partida de basquete (pelas regras utilizadas atualmente) ocorrem diversas paralisações (tempos solicitados pelo técnico, tempos para a cobertura da televisão, arremessos de lances livres, entre outras) o que permite que o atleta tenha pequenos períodos de recuperação durante o jogo.

Os resultados por nós obtidos, em grande parte, vão ao encontro da literatura pesquisada.

A média do peso corporal da seleção feminina brasileira foi de 70,8 ± 8,6kg, sendo este valor acima do descrito por outros autores (61,5-68,3kg)6,8,9,12,13. Cabe lembrar que alguns destes estudos avaliaram jogadoras universitárias. As armadoras foram as jogadoras mais leves (63,5kg), em relação às alas (65,2kg) e às pivôs (78kg). Smith e Thomas9 encontraram a mesma relação para as posições de jogo, sendo que as armadoras (67,3kg) foram significantemente mais leves que as alas (77,1kg) e que as pivôs (81,1kg).

A maior estatura, o maior peso corporal e um maior percentual de gordura, das jogadoras que atuam como pivô, estão diretamente relacionados às características da posição, que exige um maior contato físico, principalmente a disputa pelo rebote dentro do garrafão.

O comportamento da pressão arterial, da freqüência cardíaca e todos os traçados eletrocardiográficos (antes, durante e após o teste) foram considerados dentro dos padrões de normalidade para atletas de alto nível.

A média potência aeróbia, expressa pelo consumo máximo de oxigênio (VO2 máx), encontrada foi 49,9 ± 5,4ml/kg/min, que está próxima aos maiores valores descritos, que estiveram entre 36 e 51ml/kg/min8,9,12-15. O consumo de oxigênio no limiar anaeróbio (VO2 LA) registrado em nosso estudo foi de 38,7 ± 4,3ml/kg/min, não sendo encontrado nenhum valor para comparação. Os valores encontrados para armadoras e alas foram maiores que para as pivôs.

Como já foi citada, a potência aeróbia para jogadoras de basquete é uma variável imprescindível ao bom desempenho em jogos de alto nível, sendo muito importante na recuperação dentro da própria partida.

A potência anaeróbia assume importância no bom desempenho em qualquer nível de jogo. Atualmente não existe uma uniformização para sua avaliação; tem sido determinada de diversas maneiras, entre elas, o teste de força de Margaria-Kalman16, impulsão vertical utilizando a Fórmula de Lewis6,17 ou Harmon15,18, impulsão vertical sobre uma plataforma de força14,19 e o teste de Wingate10,14.

Em nosso estudo, optamos pela impulsão vertical medida pelo aparelho sonar (Vertisonic®), por considerarmos o movimento mais específico para o basquete. Encontramos uma média para a potência máxima (pico de potência) de 9,9 ± 2,2W e para o trabalho muscular total nos 30 segundos de 602,1 ± 104,8J, sendo a potência máxima (pico de potência) e o trabalho muscular total maior nas pivôs em relação às armadoras e alas.

A avaliação médica e fisiológica é fundamental para atletas de alto nível alcançarem sucesso em competições de nível internacional, sendo estes parâmetros essenciais ao planejamento e periodização do treinamento.

Os resultados por nós encontrados na avaliação da Seleção Brasileira de Basquete Feminina vão, em grande parte, ao encontro do que está descrito em trabalhos publicados em revistas internacionais indexadas sobre o mesmo tema.

 

REFERÊNCIAS

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2. McInnes SE, Carlson JS, Jones CJ, McKenna MJ. The physiological load on basketball players during competition. J Sport Sci 1995;13:387-97.         [ Links ]

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11. Hoffman JR. The relationship between aerobic fitness and recovery from high-intensity exercise in infantry soldiers. Mil Med 1997;162:484-8.         [ Links ]

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Recebido em: 17/10/2000.
Aceito em: 21/2/2001.