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Revista Brasileira de Medicina do Esporte

Print version ISSN 1517-8692

Rev Bras Med Esporte vol.7 no.5 Niterói Sept./Oct. 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S1517-86922001000500006 

ARTIGO DE OPINIÃO

 

Geração e transmissão do conhecimento

 

 

Vagner Raso

Membro-colaborador do Centro de Estudos do Laboratório de Aptidão Física de São Caetano do Sul-CELAFISCS

Endereço para correspondência

 

 

O avanço tecnológico permitiu não somente acelerar a geração e a transmissão do conhecimento, como, de modo similar a uma epidemia, atingir (e possivelmente de maneira proporcional, contagiar), cada vez mais, maior número de pessoas. Como conseqüência, podemos especialmente por meio das revistas técnicas especializadas estar em contato direto com os principais delineamentos experimentais e descobertas científicas que transpõem as fronteiras culturais, demográficas, econômicas, sociais e tecnológicas (além de outras) entre as diversas nações, possibilitando aos países, independente das mais variadas condições e situações, "globalizarem" os achados científicos. Como exemplo mais recente deste fenômeno, pode ser considerada a finalização da estrutura genética (o genoma) da praga da laranja, a Xylella fastidiosa, feita por pesquisadores brasileiros e que teve destaque na revista Nature1.

Nos últimos anos, os profissionais da área de Ciências do Esporte têm testemunhado um exemplo de "democracia" e "liberdade de expressão" concedidos ao Dr. Timothy Noakes, referente a controvérsia sobre os fatores que limitam o consumo máximo de oxigênio (O2máx) e a importância do O2máx na performance de endurance, que garantiu o Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina a Sir Archibald Vivian Hill, no ano de 19222. Este debate tem sido respaldado pelo American College of Sports Medicine, que tem possibilitado espaço para a exposição de argumentos3,4 e contra-argumentos5-8 que estão enriquecendo a discussão.

Independente do resultado final desta exposição bilateral de argumentos e, especialmente, de fundamentos científicos criteriosamente posicionados, a vitória já está sacramentada e, neste caso, é da ciência. Pois possibilitou a um pesquisador oriundo de um país em desenvolvimento, a África do Sul, localizado em um continente com condições de sobrevivência "subumanas" e repleto de diferenças, principalmente raciais, a oportunidade de incutir à comunidade científica a visualização de um paradigma invulneravelmente secular estabelecido por pesquisadores do "intocável" primeiro e velho mundo.

De modo antônimo, estes acontecimentos aliviam e inquietam os profissionais envolvidos com a geração e transmissão do conhecimento (neste caso) científico. Alivia porque concede o silogismo de que a capacidade intelectual é variável assintomática não dependente, em outras palavras, pode prover bons frutos independente de outros fatores (por exemplo, a tríade social-econômica-demográfica). Por outro lado inquieta, porque incute no indivíduo gerador e/ou naquele que transmite o conhecimento a responsabilidade de imparcialidade que deve(ria) ser inata e inerente ao pesquisador e que geralmente é muito bem representada através de um verbo transitivo direto (o interpretar) e de um substantivo feminino (a tendência). A interpretação corresponde à capacidade singular ou coletiva que o indivíduo possui para traduzir ou verter determinado acontecimento ou situação. Como por exemplo, na adolescência, quando se estudavam figuras de linguagem nas aulas de Português, alguns alunos produziam frases como: "...foi você quem disse que quando estamos sozinhos nos transformamos em pusilânimes..." e completavam "Não! Apenas disse que os elementos de sua coletividade, quando isolados, carecem de seus atributos de audácia". Enquanto tendência corresponde a direção e magnitude na qual determinado acontecimento ou situação está propenso a ocorrer, podendo ser parcial ou imparcial. Neste caso específico, infelizmente, o exemplo "mais claro" para ilustrar é o recente caso do mais proeminente legista brasileiro que alterou o laudo de uma autópsia para obter recompensa financeira e dirimir suspeitos de um possível crime.

Então, quando geramos e/ou transmitimos determinado conhecimento científico (por exemplo, através de um artigo), transportamos concomitante e associadamente a responsabilidade referente à interpretação e à tendência do fenômeno observado na descrição do evento. Neste sentido, há muito tempo a estatística nos concedeu a alusão de que "...é preferível refutar uma hipótese verdadeira a aceitar uma hipótese falsa". Como conseqüência, a Ciência do Esporte, no Brasil, deve e tem a obrigação de exaurir a mediocridade intra e interinstituições de pesquisa (universidades, centros de pesquisa) atualmente vigente, que parece engessar a criatividade e tampar os olhos dos pesquisadores quando se trata de literatura nacional, criando um ambiente competitivo, porém infeccioso à área. É necessário romper as insensatas e inextirpáveis fronteiras que formam um invólucro epidêmico entre as várias organizações governamentais e não-governamentais e a entremeada "guerra fria" das suas respectivas linhas de pesquisa (aplicada, básica, positivista, qualitativa) e manter acesa a possibilidade de crescimento contínuo e progressivo da área em nível nacional.

Uma maneira extremamente simples de estimular esta ação é, durante a confecção de artigos, lembrar e prestigiar os trabalhos (assim como as revistas) nacionais desenvolvidos em determinada temática, utilizando-os como referências. Visto que o conhecimento não necessariamente representa o comportamento, concordar em modificar algo é um grande passo, todavia não garante a tomada de decisão. Por isso, também se faz importante reforçar que não somos responsáveis apenas pelo que fazemos, mas também pelo que deixamos de fazer.

 

REFERÊNCIAS

1. Simpson AJ, Reinach FC, Arruda P, Abreu FA, Acencio M, Alvarenga R, et al. The genome sequence of the plant pathogen Xylella fastidiosa. The Xylella fastidiosa Consortium of the Organization for Nucleotide Sequencing and Analysis. Nature 2000;406:151-7.

2. Hill AV, Lupton H. Muscular exercise, lactic acid, and the supply and utilization of oxygen. Q J Med 1923;135-71.

3. Noakes TD. Implications of exercise testing for prediction of athletic performance: a contemporary perspective. Med Sci Sports Exerc 1988;20:319-30.

4. Noakes TD. Challenging beliefs: ex Africa semper aliquid novi. Med Sci Sports Exerc 1997;29:571-90.

5. Bassett DR, Howley ET. Maximal oxygen uptake: "classical" versus "contemporary" viewpoints. Med Sci Sports Exerc 1997;29:591-603.

6. Bassett DR, Howley ET. Limiting factors for maximum oxygen uptake and determinants of endurance performance. Med Sci Sports Exerc 2000; 32:70-84.

7. Bergh U, Ekblom B, Astrand PO. Maximal oxygen uptake "classical" versus contemporary" viewpoints. Med Sci Sports Exerc 2000;32:85-8.

8. Robergs RA. An exercise physiologist's "contemporary" interpretations of the "ugly and creaking edifices" of the O2máx concept. J Exerc Physiol (on line) 2001;4:1-44.

 

 

Recebido em: 12/7/2001
Aceito em: 1/9/2001

 

 

Endereço para correspondência
Rua Marquês de Praia Grande, 540 – Ap. 32B
03129-110 – São Paulo, SP
E-mail: vagner.raso@bol.com.br