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Revista Brasileira de Medicina do Esporte

Print version ISSN 1517-8692

Rev Bras Med Esporte vol.7 no.6 Niterói Nov./Dec. 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S1517-86922001000600003 

ARTIGO DE REVISÃO

 

Aspectos nutricionais do futebol de competição

 

Nutritional aspects of competitive soccer

 

 

Isabela GuerraI; Eliane de Abreu SoaresII; Roberto Carlos BuriniIII

INutricionista; Doutoranda do Curso de PG Interunidades de Nutrição Humana Aplicada, USP, São Paulo
IIProfessora Adjunta dos Institutos de Nutrição da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)
III
Professor Titular do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina (Unesp); Coordenador do Centro de Metabolismo e Nutrição (CeMeNutri), Botucatu, SP

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

O futebol envolve exercícios intermitentes e a intensidade do esforço físico depende do posicionamento do atleta, qualidade do adversário e importância do jogo. Pretende-se rever as principais alterações metabólicas desses atletas com prováveis implicações nutricionais e/ou na conduta dietética para melhor desempenho. O gasto energético de um jogador de futebol é estimado em 1.360kcal/jogo. As atividades do segundo tempo são 5% menores que as do primeiro, com variações diretamente relacionadas com os níveis do glicogênio muscular pré-jogo. Em jogadores de elite o consumo das reservas de glicogênio muscular, durante o jogo, varia de 20% a 90%, dependendo de fatores como: condicionamento físico, intensidade do esforço, temperatura ambiente e composição dietética pré-competição. Desidratação e hipertermia são aceleradores do consumo de glicogênio e, assim, da fadiga muscular, perceptível, particularmente, no segundo tempo, quando o atleta evita sprints, caminha mais do que corre e reduz a distância percorrida. A hidratação e suprimento glicídico constituem, então, os principais ergogênicos nutricionais para os futebolistas. Por ser uma modalidade esportiva sem intervalos regulares, o futebol não permite a reposição hidroeletrolítica periódica. Por isso, recomenda-se que o atleta inicie o jogo bem hidratado, ingerindo meia hora antes 500ml de líquido contendo polímeros de glicose (5%-8%). O aumento do desempenho físico é verificado com a ingestão de dietas contendo 312g de carboidrato quatro horas antes do jogo e, para a normalização do glicogênio muscular, após o jogo, recomenda-se oferta de dieta contendo 7-10g/kg/24h com maior consumo nas duas primeiras horas. Os futebolistas encontram-se sob risco constante de deficiências latentes de micronutrientes pelo desgaste muscular, perdas intestinais, sudorese intensa, viagens constantes, mudanças de fuso horário e cardápios. Para o caso específico dos futebolistas, os maiores desbalanceamentos parecem ocorrer pelo elevado consumo de proteínas, gorduras e álcool e baixa ingestão de carboidratos.

Palavras-chave: Futebol. Metabolismo. Energia. Nutrientes.


ABSTRACT

Soccer playing involves intermittent exercises the physical intensities of which depend upon the player line up in the field, the importance of the game, and competitor excellence. This review aims at describing the major metabolic impacts on these physical efforts and their nutritional implications for performance purposes. Soccer players usually spend approximately 1360 kcal each game, with a 5% decrease in the second half of the game. Glycogen reserves modulate strength and length of movements. Elite players deplete from 20% to 90% of their glycogen level during a match according to their physical conditioning, exercise intensity, environmental temperature, and pre-competition dietary intake. Body dehydration and hyperthermia accelerate glycogen depletion and fatigue, a process that can be observed in particular on the second half-time, when players avoid sprints, walk more than run and reduce the accomplished distance. Hence, water and carbohydrate supplies are the major nutritional ergogenic elements for soccer players. Since soccer games have only one interval, athletes are not provided with cyclic water reposition. So it is advisable that athletes are given 500 ml of liquid containing either glucose or polymers at 5% to 8% half an hour before the beginning of the game. Better performances are observed with intake of 312 g carbohydrate diets 4 hours before the game and with replenishment of glycogen stores by providing athletes with 7-10 g carbohydrate/kg/24h after the game, mostly in the first two hours after the game is over. Another nutritional risk regards athletes' micronutrient status, which results from muscle wearing, intestinal losses, intense sweating, frequent trips, and changing menu. But in the case of soccer players, the unbalanced diet seems to be related to a higher intake of protein and fat, as well as alcohol, and a lower intake of carbohydrates.

Key words: Soccer. Metabolism. Energy. Nutrients.


 

 

INTRODUÇÃO

O futebol é uma modalidade de esporte com exercícios intermitentes de intensidade variável1,2. Aproximadamente, 88% de uma partida de futebol envolvem atividades aeróbias e, os 12% restantes, atividades anaeróbias de alta intensidade3.

Durante um jogo de futebol, os jogadores percorrem aproximadamente 11 quilômetros, sendo que a média da distância coberta no primeiro tempo é 5% maior que a do segundo tempo1,4,5. Nessa distância temos atividades que perfazem 3,2 quilômetros de caminhadas, 1,8 quilômetro de corridas e 1,0 quilômetro em sprint, entre outras6.

De 8 a 12% da distância total coberta por jogo são realizados em velocidade de sprint6, as corridas de baixa intensidade representam 35% e as de alta intensidade, de 8,1 a 18% do tempo total do jogo1,4,7. A distância percorrida pelos jogadores de meio-campo (10,2 a 11km) é significativamente maior que a dos zagueiros (9,1 a 9,6km) e atacantes (10,5km), sendo estes últimos os jogadores que mais realizam sprints1,4,8,9.

Em geral, a distância percorrida pelo jogador depende da qualidade do oponente, de considerações táticas e da importância do jogo1,4,5,10.

A nutrição e o treinamento são alguns aspectos fundamentais para que o jogador de futebol tenha bom desempenho. A demanda energética dos treinamentos e competições requer que os jogadores consumam uma dieta balanceada, particularmente rica em carboidratos11.

Assim sendo, este artigo tem como objetivo analisar a participação de macro e micronutrientes e alguns outros aspectos, como glicogênio muscular e hidratação, em jogadores de futebol a partir de dados da literatura.

 

GASTO ENERGÉTICO E PAPEL DO GLICOGÊNIO MUSCULAR

Os jogadores de futebol são atletas que treinam em intensidade moderada a alta, tendo necessidades energéticas diárias em torno de 3.150 a 4.300kcal12.

A quantidade e a qualidade do treinamento são fatores que influenciam o gasto energético do jogador12.

Um futebolista de 75kg gasta, durante o treinamento, 1.360kcal12 e tem captação máxima de oxigênio de 60 a 67ml/kg de peso/min1,12, sendo este valor 10ml/kg de peso/min acima do encontrado em indivíduos sedentários e 10ml/kg de peso/min abaixo do verificado nos atletas de resistência3. Freqüentemente, o valor de captação de oxigênio do jogador de meio-campo é o maior do time. Os laterais têm esse valor maior que o dos zagueiros4,13,14.

O glicogênio muscular desempenha papel-chave na produção de energia durante o exercício e a fadiga está freqüentemente associada à depleção de seus estoques, sendo a exaustão evitada na presença de concentrações adequadas do mesmo12,15-20.

Os jogadores de futebol podem iniciar o jogo com baixos níveis de glicogênio muscular, devido, entre outros fatores, aos hábitos alimentares e ao número excessivo de jogos e treinos21,22, sendo que a sua depleção depende de fatores como intensidade do exercício, condicionamento físico, modalidade do exercício, temperatura ambiente e dieta pré-exercício18.

Durante o jogo de futebol, existe relação direta entre as concentrações iniciais do glicogênio muscular, as distâncias percorridas e os níveis de esforços dos jogadores durante a segunda metade da partida14, podendo influenciar o desempenho no campo, pois, na sua ausência, o trabalho muscular é mantido pela energia fornecida pela gordura, em processo totalmente aeróbio e, portanto, em eficiência (rapidez) geralmente 50% abaixo da normal21.

Usualmente, há depleção de 20 a 90% do glicogênio muscular durante competições de alto nível6. O exercício vigoroso reduz as reservas musculares de glicogênio em 90 minutos e, com atividades intermitentes de alta intensidade, 72% do glicogênio são usados em 9,5 minutos. Durante a simulação de uma partida de futebol, com jogadores de elite, foi observada depleção de 50% ao final do jogo3.

Durante a primeira metade do jogo o nível de glicogênio muscular não constitui fator limitante do desempenho. Na segunda metade, se esse nível estiver diminuído, desde o início do jogo, haverá comprometimento do desempenho físico21.

Portanto, os atletas que iniciam o jogo com concentrações baixas de glicogênio muscular percorrem distâncias menores, em velocidade menor, andam mais e realizam menos sprints que aqueles jogadores com concentrações normais no início da partida2,3,15,23,24. De fato, esses jogadores com níveis iniciais baixos de glicogênio muscular apresentam, particularmente na segunda metade do jogo, menor velocidade e percorrem distância menor que os demais1,3,22.

 

PERFIL DIETÉTICO

Importância do carboidrato no desempenho

A ingestão de 312g de carboidratos, nas quatro horas precedentes ao início do exercício, resulta em aumento de 15% no desempenho físico17. A ingestão de carboidratos dez minutos antes do início de um jogo diminui a utilização de glicogênio muscular em 39%, aumenta a velocidade de corrida e a distância percorrida na segunda metade da partida em 30%. Os jogadores que ingerem bebidas contendo carboidratos mantêm intensidade maior de exercício durante o jogo comparados com os que consomem somente água2,25.

O carboidrato deve ser ingerido antes que ocorra a fadiga muscular, para assegurar que esteja disponível quando os níveis de glicogênio muscular estiverem baixos. O consumo de 600 a 1.000ml de uma solução com concentração de 6 a 10% de carboidrato seria o mais indicado nessa situação17. Jogadores que ingerem bebidas contendo carboidratos utilizam 31% menos glicogênio muscular que o grupo placebo22,24,26.

Leatt e Jacobs (1989)24 verificaram que jogadores que tomaram bebida contendo glicose 10 minutos antes do jogo percorreram distância 25% maior que os que ingeriram placebo. Assim, a ingestão de carboidratos não só antes, mas também durante o jogo, resulta em melhora no desempenho físico nos exercícios de longa duração23.

A ingestão de carboidratos é também importante para a recuperação após o exercício12,16. O termo recuperação envolve processos nutricionais, como a restauração dos estoques hepáticos e musculares de glicogênio, reposição de fluidos e eletrólitos, regeneração e reparo de lesões causadas pelo exercício e adaptação após o estresse catabólico. Foi sugerida uma média de ressíntese de glicogênio muscular de 5 a 6mmol.kg.peso.h-1 no período de 20 a 24 horas de recuperação como necessária para normalizar os estoques de glicogênio após sua depleção16.

A síntese de glicogênio muscular tem precedência na restauração do glicogênio hepático. A síntese, no músculo, ocorre mesmo sem a ingestão de carboidrato, após o exercício, em taxas baixas, a partir dos substratos fornecidos pela neoglicogênese16. Porém, a síntese completa depende da ingestão adequada de carboidratos, de preferência de índice glicêmico de moderado a alto, que demonstraram ser mais eficazes na taxa de ressíntese do que alimentos com índice glicêmico baixo17,19,27. A ótima taxa de reposição de glicogênio ocorre com o consumo de carboidratos de 0,7 a 1g/kg de peso corporal a cada duas horas, nos primeiros estágios de recuperação, perfazendo total de 7 a 10g/kg de peso corporal em 24 horas16. Assim, o total de carboidratos na dieta é fator importante para a recuperação do glicogênio hepático e muscular depois de treinos e competições12,17,18,28,29.

A reposição de glicogênio ocorre mais rápido quando a ingestão de carboidrato se dá imediatamente após o término do exercício. Se a ingestão ocorre duas horas depois, a taxa de reposição não é tão rápida, devido ao fato de os níveis de glicose sanguínea e insulina não estarem elevados16,27. Uma dieta rica em carboidratos aumenta as concentrações de glicogênio muscular, resultando em melhora do desempenho nos exercícios prolongados e contínuos, como o futebol13,25,30,31. Portanto, é necessária a ingestão de carboidratos representando 60 a 70% do valor energético total diário, ou seja, no mínimo 8g de carboidratos/kg de peso corporal/dia6,12,18,22,29,32,33.

Reposição eletrolítico-glicídica

A hidratação é um fator importante que deve ser considerado antes, durante e depois do exercício34. A hidratação antes do início do exercício e durante este parece melhorar o desempenho; líquidos que contêm carboidrato são mais eficientes em aumentá-lo durante a atividade35.

Quando a temperatura e a umidade estão altas, a capacidade de desempenhar exercícios prolongados é reduzida. Nessa situação, problemas com a termorregulação e a desidratação mais que a depleção dos estoques de energia podem causar a fadiga36.

Devido ao fato de o futebol ser esporte com duração de 90 minutos, geralmente ocorrem problemas associados à termorregulação e ao balanço hídrico37. Sabe-se que o treinamento físico associado ao estresse térmico aumenta o fluxo sanguíneo cutâneo e a produção de suor38.

Há grande variedade individual de perda hídrica devido a diferenças na composição corporal, taxa metabólica, aclimatação do atleta, temperatura e umidade ambientes, variedade e intensidade de exercícios realizados durante o jogo, diferenças no consumo máximo de oxigênio e diferenças nas funções desempenhadas22,37,39-41.

Os jogadores de futebol podem perder até três litros ou mais de suor durante um jogo em dia quente42. O estado crônico de desidratação e o estresse térmico durante um jogo de futebol podem limitar o desempenho e ser prejudiciais ao jogador, sendo comum observar temperaturas corporais acima de 39ºC após partidas de futebol32,43.

O desempenho durante jogos ou treinos pode diminuir 30%, com a perda de 5 a 6% do peso corporal37,39,44. Caso haja perda de mais de 5% do peso corporal, a recuperação das reservas hídricas pode não se completar entre 48 e 72 horas37. A redução de peso pós-exercício pode persistir mesmo após 24 horas de ingestão livre de alimentos e água44.

A oferta de líquidos é mais importante que a disponibilidade de carboidrato no desempenho físico em exercícios de resistência no calor. Já em condições ambientais frias, a ingestão de uma solução de carboidrato a 7% é mais eficiente em melhorar o desempenho, porque mantém a concentração de glicose sanguínea constante, conservando também o volume plasmático adequado45.

Além de o futebol ser um esporte em que não há intervalos regulares que permitam o consumo de líquidos durante o decorrer do jogo15,32, sua ingestão durante o exercício é também limitada pelo tempo de esvaziamento gástrico, já diminuído devido à alta intensidade em que o exercício é realizado37,42.

O objetivo primário da reposição de líquidos, antes e durante o exercício, é prover substrato como fonte de energia e anular os efeitos negativos da desidratação22,43,46,47, já que se exercitar em estado de pouca hidratação leva ao aumento rápido da temperatura corporal e ao começo de agressões térmicas. Assim, a ingestão adequada de fluidos antes, durante e depois de jogos e treinos ajudaria a evitar esses sintomas37.

Portanto, iniciar o jogo bem hidratado ingerindo 500ml de líquido com concentrações de polímeros de glicose de 5 a 8% meia hora antes do início do jogo6,22,38,40,49 é conduta amenizadora dos obstáculos encontrados no mundo do futebol resultantes da desidratação. Essa concentração de carboidrato na bebida é importante, visto que há ótimo esvaziamento gástrico e absorção intestinal adequada45.

Além disso, durante a partida os jogadores devem consumir líquidos constantemente, em pequenas quantidades e em intervalos regulares, para não interferir no esvaziamento gástrico e, também, repor toda a água perdida através do suor. Os líquidos a serem oferecidos devem estar entre uma temperatura de 15 e 22º e ter sabor agradável, para assim promover sua ingestão voluntária48.

A bebida hidroeletrolítica adequada deve ter as seguintes características: permitir que os fluidos cheguem rapidamente aos tecidos, fornecer carboidratos durante o exercício, fornecer baixos níveis de eletrólitos, ser palatável e refrescante e não causar distúrbios gastrointestinais28. Essas bebidas após o término do jogo ou treinamento ajudam não só na hidratação, mas também na recuperação do glicogênio muscular40.

Proteínas e aminoácidos

As necessidades protéicas de um atleta são maiores do que as de um indivíduo sedentário por causa do reparo de lesões induzidas pelo exercício nas fibras musculares, uso de pequena quantidade de proteína como fonte de energia durante a atividade e o ganho de massa magra27.

Com base em medidas laboratoriais, sabe-se que a recomendação protéica aumenta até 100% para pessoas fisicamente ativas e esta recomendação é influenciada por fatores como ingestão energética, disponibilidade de carboidrato, intensidade, duração e tipo de exercício realizado, qualidade da proteína ingerida, sexo e idade49.

Sabe-se que os aminoácidos hepáticos podem ser oxidados com produção de energia durante o exercício e que nos treinamentos de resistência há aumento dessa oxidação, principalmente a dos aminoácidos de cadeia ramificada50.

A suplementação de aminoácidos de cadeia ramificada não tem efeito sobre a fadiga durante exercícios prolongados e há poucos estudos que recomendam a ingestão de glutamina para melhorar a função imune51, embora exista uma corrente que acredita que a suplementação retarde o aparecimento da fadiga e também sirva como fonte de substrato energético durante o exercício27.

Essa suplementação pode ser útil para populações específicas, como indivíduos em fase de crescimento, vegetarianos, nos com doenças que causam fraqueza muscular e em idosos. Porém, para a população em geral, que consome uma variedade de alimentos fontes de proteína, o aumento da necessidade protéica induzida pelo exercício pode ser atendido pela dieta habitual51.

A proteína contribui para o pool energético durante o repouso e o exercício, sendo que durante a atividade sua oxidação contribui com cerca de 5 a 10% do fornecimento total de energia15,27. Assim, os aminoácidos servem como fonte auxiliar de combustível durante exercícios intensos e de longa duração e, após sua oxidação, são irreversivelmente perdidos. Caso não sejam repostos, via alimentação, haverá comprometimento do processo normal de síntese protéica. Isso pode levar à perda da força muscular, diminuindo, então, o desempenho durante uma partida de futebol50.

A ingestão de 1,4 a 1,7g de proteínas/kg de peso corporal/dia para jogadores de futebol é considerada a mais adequada12,42,50. O fornecimento de proteína excedendo esse valor resulta na sua maior oxidação ou em estocagem do esqueleto carbônico dos aminoácidos na forma de gordura, em ambos os casos aumentando a formação e excreção de uréia. A oxidação de aminoácidos aumenta o risco de desidratação devido à necessidade da diluição dos seus metabólitos excretados via urina. Sabe-se que cada grama de uréia excretada leva consigo cerca de 100ml de água30.

Gorduras e consumo alimentar de jogadores de futebol

Juntamente com o carboidrato, a gordura é a principal fonte de energia durante o exercício18.

A maior parte do substrato lipídico é proveniente dos ácidos graxos livres mobilizados do tecido adiposo. Sua mobilização é mais acentuada durante os exercícios prolongados de intensidade moderada23.

Deve-se ter especial atenção com o total de lipídios consumidos, que deve ser igual ou menor que 30% do valor energético total30,52.

O consumo elevado de gordura na dieta é um problema muito comum entre atletas, tornando mais difícil a ingestão das quantidades preconizadas de carboidrato. Entretanto, redução muito intensa no consumo de lipídios não é aconselhável, já que estes participam não só do metabolismo da produção de energia, mas também do transporte de vitaminas lipossolúveis e são componentes essenciais das membranas celulares27,53.

Muitos atletas consomem uma dieta que provê menos de 50% de energia sob a forma de carboidrato e mais de 15% sob a forma de proteínas54.

Os registros alimentares estimam que o consumo alimentar de jogadores varia de 5.376 a 8.894kcal/dia. O método de pesagem indicou um consumo de 4.620 a 5.376kcal/dia para jogadores escoceses. Discrepâncias entre a necessidade e a ingestão podem ter aumentado porque as medidas foram feitas no treinamento, em que o consumo habitual dos jogadores não é representativo42 (quadro 1).

Vitaminas, minerais e suplementação

Os micronutrientes desempenham um papel importante na produção de energia, síntese de hemoglobina, manutenção da massa óssea, função imune e protegem os tecidos dos danos oxidativos27.

Os atletas estão sob particular risco de ingestão inadequada de vitaminas e minerais pelo fato de se exercitarem por muito tempo sob alta intensidade e, também, por viajarem bastante e dependerem de cardápios de restaurantes locais59.

Há evidências de que pessoas ativas fisicamente perdem minerais através do suor excessivo, das fezes e da urina61,62. Entretanto, segundo alguns autores, os atletas consomem geralmente dietas balanceadas com elevada ingestão de carboidratos, moderados níveis de proteína e baixa quantidade de lipídios, e grande variedade de alimentos, sendo, portanto, bastante improvável que as recomendações do NRC/RDA (1989)52 não sejam atingidas30,40.

Algumas vitaminas e minerais desempenham papel importante no metabolismo energético; por isso, a inadequação de um ou mais micronutrientes pode comprometer a capacidade aeróbia e anaeróbia61.

Atletas submetidos a intenso programa de treinamento e competições têm possivelmente alguma dificuldade em manter níveis adequados de vitaminas55. O exercício pode causar a redistribuição dos minerais entre os compartimentos corporais60,62.

A suplementação, tanto de vitaminas quanto de minerais, pode ser útil quando há necessidade de compensar dietas deficitárias devido ao estilo de vida, assegurar demandas de certos nutrientes por causa dos exercícios extremos, corrigir alguma inadequação nutricional ou para atender às recomendações. Geralmente, a suplementação no futebol está associada à dieta inadequada e à ingestão elevada de álcool40.

A suplementação vitamínica e de minerais melhora as concentrações bioquímicas desses micronutrientes, mas não altera a capacidade de captação de oxigênio ou a concentração de lactato no sangue durante exercícios aeróbios com intensidade elevada61,62.

É importante destacar que a suplementação, persistente ou excessiva, tanto de vitaminas como de minerais, pode trazer, como resultado, desbalanço nutricional63.

Pode-se dizer que a suplementação de vitaminas e minerais, em altas doses, em indivíduos com valores bioquímicos normais desses nutrientes e que consomem dieta adequada e balanceada, não melhora o desempenho físico63.

 

CONCLUSÃO

A educação nutricional é de fundamental importância, principalmente para jogadores de futebol, especialmente quando em períodos de treinamento intenso, que consomem quantidades elevadas de gordura e pequenas de carboidrato11,61.

Portanto, a dieta de um jogador de futebol deve atender aos gastos energéticos, fornecer um balanço adequado de proteínas, lipídios e carboidratos e atingir as recomendações de micronutrientes42.

 

AGRADECIMENTO

À Capes, pela concessão da bolsa de estudo.

 

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Endereço para correspondência
Rua Sebastião Lacerda, 32
22240-110 – Rio de Janeiro, RJ
E-mail: isabelaguerra@hotmail.com

Recebido em: 1/8/01
Aceito em: 7/11/01