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Revista Brasileira de Medicina do Esporte

Print version ISSN 1517-8692

Rev Bras Med Esporte vol.8 no.4 Niterói July/Aug. 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S1517-86922002000400005 

ARTIGO ORIGINAL

 

Perfil psicológico de atletas paraolímpicos brasileiros

 

Psychological profile of Brazilian paralympic athletes

 

 

Dietmar SamulskiI; Franco NoceII

IDoutor em Psicologia do Esporte pela Universidade de Colônia, Alemanha
IIMestre em Treinamento Desportivo/Psicologia do Esporte pela Universidade Federal de Minas Gerais UFMG

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

O objetivo deste estudo é apresentar e discutir os resultados da preparação psicológica realizada com 64 atletas de oito diferentes esportes. A avaliação foi realizada nos Centros de Treinamento Paraolímpicos no Rio de Janeiro, São Paulo e Recife. Foram aplicados testes de personalidade, testes de motivação, questionário de estresse e testes psicométricos (percepção, concentração e tempo de reação). Foi detectada diferença significativa em alguns parâmetros psicológicos ao comparar os atletas de acordo com o sexo e os tipos de deficiência (física, visual ou mental). De forma geral, o motivo mais importante para iniciar uma atividade esportiva foi o prazer da prática e a necessidade de reabilitação. Os principais motivos para praticar esportes foram a competição e o desejo de superar limites. A maioria dos atletas mencionou os seguintes fatores estressantes: problemas de sono, pressão de vencer e conflitos interpessoais. A maioria dos atletas apresentou bons resultados na percepção e no tempo de reação. Baseados nesses resultados foi desenvolvida uma orientação individual no período de preparação para os Jogos Paraolímpicos.

Palavras-chave: Avaliação psicológica. Testes de personalidade. Testes psicométricos.


ABSTRACT

The purpose of this study was to present and discuss the results of a psychological evaluation carried out with 64 athletes from eight different sports disciplines. The evaluation was carried out in the Paralympic training centers in Rio de Janeiro, São Paulo, and Recife, applying personality tests, motivation tests, stress inventory, and psychometric tests (perception, concentration and reaction time). Significant differences were detected in some psychological parameters comparing male and female athletes and athletes with different kinds of disability (physical, visual or mental). In general, the most important motives to begin a sports activity were pleasure and the need for rehabilitation. The main motive for actual sports practice was competition and the desire to overcome limits. The majority of the athletes mentioned the following stressing factors: sleeping problems, pressure to win, and interpersonal conflicts. Most of the athletes showed good results in perception and reaction time. Based on these results individual guidance was developed to prepare the athletes for the Paralympic Games.

Key words: Psychological evaluation. Personality testing. Psychometric testing.


 

 

INTRODUÇÃO

O desporto paraolímpico tem conquistado um espaço cada vez maior no cenário nacional e mundial. Dessa forma, tem-se evidenciado a necessidade de melhoria das condições de treinamento e também de melhor suporte para o atleta paraolímpico dedicar-se às atividades esportivas. Nesse contexto, a preparação psicológica aparece como mais uma ferramenta de auxílio ao atleta1.

Nessa oportunidade, a avaliação psicológica foi solicitada pelo Comitê Paraolímpico Brasileiro (CPB) com a finalidade de obter informações básicas sobre o perfil psicológico de cada atleta (65 atletas) e sobre sua situação sociocultural. Os resultados das avaliações (psicológicas, médicas, fisiológicas e biomecânicas) serviram como base científica para subsidiar e orientar melhor os trabalhos dos técnicos na fase de preparação dos atletas para as Paraolimpíadas em Sydney 2000.

Além disso, os dados levantados servirão como referência para as próximas avaliações e preparações de atletas. Dessa forma, é possível observar e analisar o desenvolvimento psicossocial e o da performance de cada atleta a longo prazo (nos próximos quatro-oito anos) e elaborar parâmetros para comparações em nível internacional (instalar um banco de dados sobre os atletas brasileiros no CPB).

Os objetivos gerais da preparação psicológica nesse período foram obter informações sobre o perfil psicológico de cada atleta e do grupo como um todo; dar suporte científico para o trabalho dos técnicos na área da psicologia do esporte; e fundamentar cientificamente o trabalho da preparação psicológica dos atletas para Sydney. Os objetivos específicos foram detectar problemas psicológicos específicos relacionados com a competição esportiva; analisar os objetivos, metas e motivos para a prática esportiva de cada atleta; identificar fatores estressantes e motivadores antes e durante a competição; e analisar o tempo de reação, o nível de duração e a velocidade da percepção dos atletas.

Fundamentação teórica

A avaliação de atletas paraolímpicos, no aspecto psicológico, é um procedimento complexo em função da heterogeneidade do grupo, de seu perfil e da influência de inúmeras variáveis presentes no contexto. Capacidades e habilidades básicas avaliadas em um primeiro momento, tais como a motivação, o estresse, o tempo de reação e a velocidade de percepção, são essenciais para a definição de um plano de trabalho eficiente em qualquer modalidade.

Estresse

De forma geral, "o estresse é produto da interação do homem com o seu meio ambiente físico e sociocultural"2. De acordo com Nitsch3, existem fatores pessoais (processos psíquicos e somáticos) e fatores ambientais (ambiente físico e social) que se interagem no processo de surgimento e gerenciamento do estresse.

A concepção de estresse, compartilhada entre diferentes autores4-6 mostra concordância unânime no que se refere à associação do estresse com estado de desestabilização psicofísica ou a pertubação do equilíbrio pessoa-meio ambiente. O conceito de estresse como reação, segundo Selye6, compreende a "totalidade das reações de adaptação orgânica, as quais objetivam a manutenção ou reestabelecimento do equilíbrio interno e/ou externo".

O conceito de estresse, de acordo com Nitsch3, pode ser compreendido como um produto tridimensional (figura 1). Os conceitos biológicos, psicológicos e sociológicos devem ser sempre pensados em dependência recíproca, pois processos psíquicos e sociais são ligados, de determinada forma, a processos biológicos. Processos sociais, por sua vez, são influenciados através de aspectos psicológicos e ambos podem tornar-se grandes influenciadores de respostas biológicas.

 

 

Motivação

Segundo Samulski7, "a motivação é caracterizada como um processo ativo, intencional e dirigido a uma meta, o qual depende da interação de fatores pessoais (intrínsecos) e ambientais (extrínsecos)". Segundo esse modelo (figura 2), a motivação apresenta determinante energética (nível de ativação) e uma determinante de direção do comportamento (intenções, interesses, motivos e metas). Baseando-se nesse conceito de motivação podem-se distinguir técnicas de ativação (activation-control) e técnicas de estabelecer metas (goal-setting strategies).

 

 

Existem, de acordo com Samulski8, várias teorias de motivação que podem influenciar a prática da atividade física e esportivas dos atletas paraolímpicos brasileiros. Dentre elas, podem-se destacar duas:

  • A motivação para a prática esportiva que, de acordo com Weinberg e Gould9, envolve a interação de fatores pessoais e ambientais, sendo que a importância desses fatores pode mudar, dependendo das necessidades e oportunidades atuais.
  • A teoria da motivação do rendimento: que explica a motivação para o rendimento como o resultado da interação de fatores pessoais e situacionais, em que os autores10,11 destacam cinco componentes fundamentais (fatores da personalidade e motivos, fatores situacionais, tendências resultantes, reações emocionais e comportamento de rendimento).

 

MÉTODOS

Participaram da avaliação 64 atletas de nove modalidades. Em relação ao sexo do grupo, a maioria é do masculino (82,8%). Já em relação ao tipo de deficiência, nota-se que 61% foram do tipo físico-motor, 23,4% mental e 15,6% visual.

A pesquisa foi solicitada pelo Comitê Paraolímpico Brasileiro, onde, em reunião, foram definidos os critérios para sua realização. Todos os atletas foram informados sobre os procedimentos da pesquisa, sendo esta de caráter anônimo.

Os instrumentos utilizados na coleta de dados foram a ficha de dados individuais e também dois testes do aparelho Multipsy-82112.

A. Ficha de dados individuais

A.1. Perfil geral do atleta

  • dados demográficos;
  • iniciação esportiva;
  • incentivo à prática;
  • objetivos e metas pessoais;

A.2. Questionário de motivação para prática esportiva

  • motivos iniciais para a prática esportiva
  • motivos atuais para a prática esportiva
  • motivos de abandono da prática esportiva

A.3. Teste de estresse psíquico

  • avaliação de 35 condições e fatores

B. Testes no aparelho Multipsy-821

B.1. Teste de tempo de reação simples

  • duas tentativas com a mão de preferência

B.2. Teste de velocidade de percepção

  • uma tentativa

Teste de reação simples

Este módulo representa, simplesmente, a velocidade em que um indivíduo é capaz de responder a um estímulo quando este é apresentado13. Isso é importante para atividades que requerem reação rápida a um estímulo inesperado.

Na linguagem coloquial, o termo "tempo de reação" é entendido como a média do tempo entre um estímulo e algum tipo de reação observável pelo indivíduo. O uso científico desse termo, dessa maneira, coincide com a definição científica proposta, de acordo com a qual "tempo de reação" é o intervalo entre a aplicação do estímulo e o início da resposta14.

Teste de velocidade de reação

Os dados foram coletados nas cidades de Recife e São Paulo. Foram utilizadas duas salas, sendo uma para realizar as entrevistas e outra para os testes no aparelho Multipsy-821. As entrevistas eram realizadas pelos avaliadores com perguntas padronizadas, porém de forma a adaptar a linguagem ao nível de compreensão de cada atleta. Durante os testes no aparelho Multipsy-821, os atletas recebiam informações padronizadas e o teste era demonstrado de forma a facilitar a assimilação das informações.

A análise dos dados foi descritiva, composta por procedimentos de média, desvio padrão e distribuição de freqüência. Para comparação dos grupos sexo e tipo de deficiência foi utilizada a análise de variância, seguida do teste de comparações múltiplas de Scheffé. Os procedimentos foram realizados no pacote estatístico SPSS for Windows.

 

RESULTADOS

Perfil do grupo

Antes de iniciarmos a análise dos dados coletados, é importante ter um perfil do grupo avaliado nesses dois períodos de coleta de dados (Recife e São Paulo). Pode-se verificar (tabela 1) que foram avaliados 64 atletas de nove modalidades, sendo que o maior grupo é o da natação, com 17 atletas (26,6%). A determinação do perfil do grupo avaliado é importante para a definição dos procedimentos a serem utilizados no período preparatório e competitivo15.

 

 

Outras informações são igualmente importantes para caracterizar o perfil do grupo. Verifica-se que o grupo apresentou idade média de 26,19 anos (± 5,49) e que iniciou a prática esportiva em média aos 12 anos (± 5,59), porém começou a competir apenas aos 17 anos (± 5,16). Quem mais motivou esses atletas a iniciarem sua prática esportiva, de forma geral, foram os pais (32,8%) e os amigos (26,6%).

Atualmente, verificamos que o volume de treinamento, de forma geral, é em média executado quatro vezes por semana, com duração média de duas horas e meia por sessão de treinamento12.

Objetivos e metas no esporte

Para analisar os objetivos e metas pessoais no esporte (tabela 2), foi utilizada uma questão aberta com até três possibilidades de resposta, sendo que nem sempre o atleta indicava três objetivos. Dessa forma, após a categorização das mesmas, observamos 12 grupos principais.

 

 

Como falado anteriormente, que nem todos os atletas responderam três objetivos, eliminamos as respostas em branco (22,4%) e utilizamos o percentual válido para as análises. Dessa forma, nota-se que os três principais objetivos do grupo, de forma geral, foram: "ser campeão" (20,8%); "conquistar medalhas" (12,8%) e "ser reconhecido" (12,1%).

Ao compararmos os objetivos de acordo com o tipo de deficiência (tabela 3), nota-se um quadro bem interessante. O objetivo "ser campeão" não foi o principal objetivo para os deficientes visuais. Na opinião destes, "superar limites" e "retorno financeiro" são as principais metas no esporte.

 

 

Motivação para a prática esportiva

Nesta etapa foram analisados os diferentes motivos que levaram os atletas a iniciarem a prática esportiva, bem como os motivos que os mantêm praticando esportes e os possíveis motivos que os levariam a abandonar a prática.

Motivos de manutenção da prática

Neste caso foram apresentados 16 motivos (categorizados de outros estudos) em uma tabela na qual os atletas deveriam avaliar a importância de cada um em uma escala de quatro valores, variando entre 0 (motivo sem importância) e 3 (motivo decisivo).

De forma geral, verificou-se que os principais motivos que mantêm os atletas praticando esportes são: o "prazer da prática" (2,75 ± 0,47); "gostar de competir" (2,70 ± 0,55); e "fazer amizades" (2,57 ± 0,59). Em contrapartida, os motivos menos importantes foram o "retorno financeiro" (1,67 ± 1,11) e o "status social" (1,81 ± 0,81). O elevado desvio padrão do motivo retorno financeiro confirma a observação feita durante as entrevistas de que, apesar de os atletas ou da maioria destes não receber remuneração pela prática, estes têm o desejo de um dia ser reconhecidos e receber remuneração satisfatória de forma a possibilitar maior dedicação à modalidade.

A tabela 4 pode confirmar essa informação, em que 28,6% consideram o retorno financeiro como um fator decisivo.

Em relação aos grupos de acordo com o tipo de deficiência (tabela 5), verificou-se diferença significativa em cinco motivos. Os DMs foram significativamente mais motivados que os DFs em relação aos motivos "aumentar conhecimentos no esporte" (p < 0,01), "aprender a cooperar" (p < 0,05) e "para viajar" (p < 0,01). Os DMs, juntamente com os DVs, foram mais motivados que os DFs em "fazer amizades" (p < 0,001). Finalmente, os DVs consideram mais importante que os DFs (p < 0,05). Pode-se verificar, ainda, que os motivos considerados menos importantes foram praticamente os mesmos para todos os grupos, porém, com níveis de importância diferentes.

Motivos de abandono

A avaliação destes motivos foi realizada da mesma forma que os motivos de manutenção. Assim, o atleta deveria indicar, em um rol de 10 motivos, o nível de importância de cada um que o levaria a abandonar a atividade esportiva.

De forma geral (tabela 6), verifica-se que os principais motivos que poderiam levar os atletas a abandonar o esporte são os "problemas com a saúde/lesões" (1,73 ± 1,23) e também a "falta de prazer" (1,63 ± 1,22). A tabela 6 mostra mais detalhadamente esses resultados, em que o que menos importaria aos atletas é a "falta de talento", juntamente com a "falta de contatos sociais".

Em relação à análise dos motivos que influenciam no abandono da prática em relação ao tipo de deficiência, observou-se também que não foram encontradas diferenças significativas. Verificou-se que os motivos de "falta de prazer" e "problemas de saúde/lesões" são comuns a todos os grupos.

Estresse psíquico

O teste é composto por 35 situações que podem exercer influência positiva ou negativa no rendimento do atleta12. O atleta deveria avaliar cada situação utilizando uma escala likert de sete fatores, sendo:

+3: influência muito positiva

+2: influência positiva

+1: influência pouco positiva

0: nenhuma influência

-1: influência pouco negativa

-2: influência pouco negativa

-3: influência pouco negativa

A figura 3 apresenta o resultado médio do grupo nas 35 situações. Observa-se que a grande maioria das situações foi considerada estressante para o grupo como um todo; o fator mais estressante foi "dormir mal na noite anterior à competição".

 

 

Observa-se também que, embora muitas situações sejam aparentemente neutras, o desvio padrão relativamente alto indica que existem opiniões diversas. Assim, uma análise mais detalhada, comparando o grupo de acordo com o tipo de deficiência, poderá apresentar perfis diferenciados em relação às diferentes situações propostas no teste.

Ao analisar o teste de estresse psíquico em relação aos tipos de deficiência (tabela 7), verifica-se que cada grupo tem um perfil bem definido. Os fatores que mais estressam, por exemplo, para os DMs foi "errar no fim da competição" (-0,79 ± 1,58), porém o desvio padrão é muito elevado, o que nos leva a crer que existe um conflito em relação a essa situação.

Já para os DVs, a situação mais estressante é "não ter condições adequadas de treino" (-2,70 ± 0,67). É importante citar que os DVs são o grupo que atribui, em média, maior nível de estresse às situações. Os DFs já consideram "dormir mal na noite anterior à competição" (-1,67 ± 1,40) como o fator mais estressante.

Em relação aos fatores motivantes, também é possível observar diferenças entre os grupos. Um situação estranha é os DMs considerarem "problemas de alojamento" (1,21 ± 1,72) como a situação mais motivadora, porém o desvio padrão elevado sugere conflitos neste item. Os DVs consideram o fato de o "adversário ser o favorito" (1,90 ± 1,60) mais motivante. Finalmente, os DFs já acham mais positiva "a cobrança de si mesmo para vencer" (1,13 ± 1,89). Verifica-se que outros estudos aplicados a outras modalidades apresentaram resultados semelhantes em algumas das variáveis observadas16-18.

Testes Multipsy

A avaliação foi composta por dois testes que tinham como objetivo mensurar algumas capacidades psicológicas específicas.

  • Tempo de reação simples - Visa mensurar o tempo de reação através de um estímulo visual simples.
  • Tachistoscopy - Visa mensurar a velocidade e qualidade de percepção.

Os testes, em ambas as cidades, foram realizados em uma sala em condições padrão (temperatura e nível de ruído ambiente) favoráveis.

Teste de reação simples

O teste consiste no indivíduo responder a um estímulo ótico no menor tempo possível. Foram realizadas duas tentativas com os atletas, sendo utilizada em ambas a mão de preferência. Para efeito de cálculo a primeira tentativa foi desprezada, eliminando o efeito de aprendizagem. Os resultados foram expressos em milissegundos, sendo apresentados ainda o desvio padrão, o coeficiente de variação e a média dos resultados do grupo.

O resultado geral (tabela 8) mostrou que o grupo apresenta velocidade de reação satisfatória (229,41ms); foi verificada melhora significativa (p < 0,001) no desempenho entre a primeira e a segunda tentativa (através do teste t para amostras pareadas). Além da resposta mais rápida, observou-se que a estabilidade das respostas também foi uma realidade, em que o desvio padrão saiu de 75,45ms (na 1ª tentativa) para 52,73ms (na 2ª tentativa). Pode-se observar na tabela 8 que os resultados foram relativamente heterogêneos.

 

 

Os resultados por tipo de deficiência (figura 4) mostram que o grupo DFs possui o melhor tempo de reação quando comparado com os outros grupos (p < 0,05). Destaca-se ainda que os grupos também melhoraram na 2ª tentativa.

 

 

É importante citar que alguns DVs realizaram o teste de percepção tátil-cinestésica através do toque do operador. Este método foi bastante interessante, uma vez que alguns desses atletas têm que reagir aos sinais enviados pelo guia (como no caso das corridas). A tabela 9 mostra mais detalhadamente os resultados obtidos pelos grupos.

Outros estudos demonstraram que o resultado do tempo de reação pode ser influenciado por uma série de variáveis. Samulski et al.19 verificaram que a privação de sono associada a esforço físico intenso pode causar alterações na velocidade de reação. Já Paula Filho20 cita que em um esforço de 85% do VO2max, mesmo ocorrendo a fadiga física, o tempo de reação não ficará comprometido e a ativação do sistema nervoso central (SNC) estará aumentada. Foi verificado ainda que o nível de concentração em uma tarefa de longa duração combinado com outras variáveis pode afetar significativamente o desempenho do tempo de reação21.

Taquistoscopia

O teste consiste no indivíduo identificar uma série de estímulos (números de três dígitos). Os estímulos são apresentados, inicialmente, de forma bem rápida e pouco nítida (esta forma de apresentação pode ser identificada nos resultados como tempo 1). A medida que o indivíduo não consegue responder adequadamente aos estímulos, estes vão-se tornando cada vez mais nítidos e o tempo de permanência no visor vai aumentando gradativamente. Este teste visa mensurar uma série de capacidades psicológicas, entre elas: percepção, atenção e memória a curto prazo13.

Pode-se verificar (tabela 10) que, de forma geral, o grupo foi relativamente heterogêneo neste teste. O melhor resultado é o indivíduo responder a apenas cinco estímulos, sendo todos corretos e no tempo 1 (o mais rápido e menos nítido).

 

 

Já em relação aos tipos de deficiência (tabela 11), não foi possível nenhum DV realizar este teste. Assim, comparando os DMs com os DFs, verificou-se que existe uma diferença significativa nos valores de números de estímulos (p < 0,05) e tempo (p < 0,05). Isso significa que os DFs conseguem perceber e memorizar estímulos que aparecem mais rapidamente e menos nítidos.

O estudo de Samulski et al.19 demonstrou que a privação de sono associada a intensa atividade física com pressão psicológica pode afetar em até 25% o rendimento do indivíduo na variável velocidade de percepção.

 

CONCLUSÕES E CONSEQÜÊNCIAS

Baseado nos resultados das avaliações psicológicas e com o apoio da literatura, torna-se possível o desenvolvimento de um programa de treinamento psicológico para os atletas1. A intervenção in loco do psicólogo do esporte auxilia a observação e determinação de metodologias mais apropriadas ao contexto do desporto paraolímpico.

Durante as intervenções in loco, o psicólogo responsável conversou com os atletas e técnicos sobre problemas existentes e aplicou algumas técnicas psicológicas como: de concentração e motivação, de relaxamento, de visualização e de controle emocional22. Com os times de basquetebol e futebol foram aplicadas também técnicas de dinâmica de grupo com a finalidade de desenvolver o espírito de time e união de grupo.

 

RECOMENDAÇÕES

Baseadas nas experiências adquiridas durante o trabalho com os atletas paraolímpicos brasileiros e na convivência com os técnicos, apresentam-se abaixo algumas recomendações para ações futuras na área do esporte paraolímpico:

1) Criar uma comissão interdisciplinar permanente de avaliação e de acompanhamento científico com o objetivo de dar continuidade a um trabalho interdisciplinar que mostrará grande eficiência.

2)Ampliar a oferta de testes psicológicos com o fim de obter mais informações, especialmente na área sociocultural.

3)Oferecer cursos de capacitação para os técnicos na área de Psicologia do Esporte com o fim de melhorar o entendimento destes sobre os testes psicológicos e também que adquiram técnicas de motivação e comunicação.

4) Formar núcleos de treinamento psicológico em diferentes regiões do Brasil, considerando as necessidades e peculiaridades de cada região. O trabalho de treinamento será avaliado e supervisionado pelo psicólogo responsável do CPB.

5) Incentivar a pesquisa na área da Psicologia do Esporte aplicada a pessoas portadoras de deficiência e divulgar os resultados através dos meios de comunicação.

 

AGRADECIMENTOS

  • Comitê Paraolímpico Brasileiro (CPB)
  • Secretaria Nacional de Esportes
  • Rede Cenesp/Unifesp
  • Rede Cenesp/UFMG
  • Associação Fundo de Incentivo à Psicofarmacologia (Afip)
  • Universidade Federal de Minas Gerais

 

REFERÊNCIAS

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