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Revista Brasileira de Medicina do Esporte

Print version ISSN 1517-8692

Rev Bras Med Esporte vol.10 no.1 Niterói Jan./Feb. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S1517-86922004000100001 

ARTIGO ORIGINAL

 

Lesões desportivas no atletismo: comparação entre informações obtidas em prontuários e inquéritos de morbidade referida

 

Lesiones deportivas en el atletismo: comparacion entre las informaciones obtenidas en historias clinicas y consultas de la morbilidad referida

 

 

Carlos Marcelo PastreI; Guaracy Carvalho FilhoII; Henrique Luiz MonteiroIII; Jayme Netto JúniorIV; Carlos Roberto PadovaniV

IProfessor Mestre, Depto. de Fisioterapia das Faculdades Adamantinenses Integradas; Faculdade de Educação Física - Unoeste - Presidente Prudente; Fisioterapeuta da Seleção Brasileira de Atletismo
IIProfessor Doutor, Depto. de Ortopedia e Traumatologia, FAMERP, São José do Rio Preto
IIIProfessor Doutor, Depto. de Educação Física, Faculdade de Ciências, Unesp – Bauru
IVProfessor Mestre, Depto. de Fisioterapia, Faculdade de Ciências e Tecnologia, Unesp – Presidente Prudente; Doutorando em Ciências da Saúde - Famerp; Técnico da Seleção Brasileira de Atletismo
VProfessor Titular, Depto. Bioestatística, Instituto de Biociências, Unesp - Botucatu

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Para compreender as lesões desportivas (LD) é necessário quantificá-las, associando-as a fatores causais particulares ao esporte. Contudo, faltam registros sobre tais agravos nas instituições esportivas, sobretudo no atletismo brasileiro, em que poucos clubes possuem serviços de assistência à saúde. Na ausência de tais registros, estudos na área de saúde pública, utilizam-se de outros recursos epidemiológicos para coletas, tais como os inquéritos de morbidade referida. A partir dessa escassez de informações e a facilidade de obtenção de dados junto aos próprios atletas, objetivou-se, para esta pesquisa, levantar informações sobre LD referidas por atletas de alto rendimento, retrocedendo em oito meses, e compará-las com os registros de prontuários clínicos. Para tanto, foram tomados 25 atletas de elite, 16 do gênero masculino e nove do feminino, com idade de 25,7 ± 4,4 anos, altura de 1,74 ± 0,10m, peso 70,4 ± 13,15kg e tempo médio de treinamento de 8,38 ± 4,06 anos. Dois fisioterapeutas foram treinados separadamente para coletar informações sobre LD. Um deles em prontuários e o outro dos próprios atletas, através de entrevista (inquéritos de morbidade referida - IMR). Estudo de concordância de respostas para as duas formas de coleta foi realizado pelo teste da proporção binomial, estabelecendo-se limites de 95% de confiança para a concordância. Os resultados mostraram que em todas as variáveis estudadas os valores estavam dentro dos limites de confiança estabelecidos pelos testes estatísticos, sendo: 88,33% para as variáveis tipo de lesão ou agravo e mecanismo de lesão ou aumento dos sintomas, 90% para a variável qualidade do retorno às atividades desportivas e 91,67% para as variáveis local anatômico e período de treinamento. Concluiu-se que houve elevada taxa de concordância entre as informações levantadas, mostrando a eficácia do IMR para a coleta de informações sobre lesões desportivas para a população investigada.

Palavras-chave: Atletismo. Lesões desportivas. Inquéritos de morbidade.


RESUMEN

Para comprender las lesiones deportivas (LD) es necesario cuantificarlas, asociandolas a factores causales particulares al esporte. Aún así, faltan registros sobre estas patologías en las instituciones deportivas, sobretodo en el atletismo brasileño, donde pocos son los clubes que poseen servicios de asistencia de la salud. La ausencia de tales registros, estudios en el área de Salud Pública, se utilizan otros recursos epidemiológicos para colectas, tales como las consultas de morbilidad referida. A partir de esta escasez de información y de la facilidad de obtención de datos junto a los propios atletas, se objetivó, para esta pesquisa, levantar informaciones sobre las LD referidas por los atletas de alto rendimento, retrocediendo ocho meses, y comparándolas con los registros de historias clínicas. Por lo tanto, fueron tomados veinticinco atletas de elite, dieciseis de género masculino y nueve del femenino, con edades de 25,7 ± 4,4 años, altura de 1,74 ± 0,10 m, peso 70,4 ± 13,15 kg e tiempo médio de entrenamiento de 8,38 ± 4,06 años. Dos fisioterapeutas fueron entrenados separadamente para recolectar información sobre LD. Uno de ellos en historias clinicas y el otro de los propios atletas a través de entrevistas (Interrogatorio de Morbidade Referida - IMR). El estudio de concordancia de respuestas para las dos formas de colecta fué realizado por el test de proporción binomial, estabeleciendose límites de 95% de confianza para la concordancia. Los resultados mostraron que en todas las variables estudiadas los valores estaban dentro de los límites de confianza estabelecidos para los tests estadísticos, siendo: 88,33% para las variables tipo de lesión o agravio y mecanismo de lesión o aumento de los síntomas, 90% para la variable calidad del reintegro a las actividades deportivas el 91,67% para las variables local anatómico y período de entrenamiento. Se concluye por lo tanto, que ha habido una elevada tasa de concordancia entre las informaciones recogidas, mostrando así, la eficacia del IMR para la recolecta de informaciones sobre lesiones deportivas para la población investigada.

Palabras clave: Atletismo. Lesiones deportivas. Interrogatorios de morbilidad referida.


 

 

INTRODUÇÃO

O atletismo diferencia-se das demais modalidades por empreender gestos biomecânicos diversos devido à sua variedade de eventos. A exposição constante a fatores de risco e conseqüente instalação de agravos originados pela sua prática alerta para a necessidade de quantificar as lesões desse esporte, para, a partir daí, controlá-las e também preveni-las, possibilitando não só a melhora do desempenho, mas também a manutenção da saúde do atleta.

No contexto da saúde pública, a quantificação de doenças é feita por meio de recursos epidemiológicos que utilizam estratégias adequadas a cada possibilidade de pesquisa1, em que dois grupos de métodos são apresentados: 1) registros rotineiros de atendimento como os prontuários clínicos, que, bem organizados e padronizados, constituem excelente e fidedigno instrumento para estudos de morbidade; 2) inquéritos de morbidade referida (IMR), em que o próprio acometido relata sua lesão, retroagindo a determinado período de tempo, sendo muito utilizado para registro de agravos, não demandando avaliação clínica ou exame complementar2.

Entretanto, revisões sobre o tema têm alertado para a dificuldade em efetuar comparações entre resultados desses inquéritos e ratificar sua validade, em especial pela falta de padronização de definições e métodos empregados. Nesse sentido, o tipo de dano à saúde relacionado à recordação e ao relato da morbidade merece destaque.

Questões alusivas às afecções benignas, acidentes comuns, queixas e sintomas pouco expressivos são limitadas a períodos breves e recentes: duas semanas são o período preferido por muitos investigadores. Dados sobre acidentes graves ou de internação, ao contrário, englobam intervalos maiores, comumente retrocedendo 12 meses1,2.

Normalmente, os inquéritos epidemiológicos são utilizados quando as informações existentes são inadequadas ou insuficientes em virtude, dentre outros fatores, das notificações impróprias ou deficientes3,4, o que de fato acontece no contexto esportivo, sobretudo no Brasil.

Assim, com o intuito de investigar a freqüência de lesões específicas do esporte, em nosso meio, foram desenvolvidos inquéritos ou formulários direcionados a modalidades desportivas ou práticas físicas diversas5-10. Nesse sentido, um instrumento utilizado em saúde pública incorporou-se ao esporte para descrever e caracterizar agravos específicos, porém ainda sem consenso acerca do tempo de instalação da lesão até o relato em entrevista, como fator determinante à recordação. Especificamente sobre este último aspecto, a utilização do IMR como instrumento de coleta, retroagindo a períodos de tempo mais longos que duas semanas, parece contraditória.

Hahn11 verificou, em seu estudo, que sinais ou sintomas na articulação do joelho de atletas eram recordados de maneira concordante entre períodos de uma semana e um ano. Pinheiro et al.12 identificaram discordâncias de informações sobre sintomas osteomusculares em bancários, quando referidos em diferentes períodos de tempo, mais curtos ou longos.

Apesar dos esforços dos pesquisadores, o registro sobre a ocorrência de lesões desportivas, mesmo no esporte de alto rendimento, além de não padronizado, é restrito. Há dificuldade no acesso às informações sobre os atletas e suas lesões, o que resulta num descontrole sobre a real situação de instalação de agravos à saúde dos envolvidos com o esporte, conforme o constatado por Chalmers13. Sem esse controle adequado, são maiores as dificuldades de prevenção e maiores as possibilidades de instalação de lesões, incluindo o atletismo.

Neste trabalho constatou-se dificuldade em gerar informações sobre lesões desportivas (LD) e particularmente no atletismo, bem como a carência de protocolos destinados a esse fim. Os centros de treinamento distribuídos pelo território nacional não dispõem de qualquer tipo de registro de agravos. Situação diferente é observada na Associação Prudentina de Atletismo (APA), que conta com registros sistemáticos em prontuários das LD ocorridas durante toda a temporada, possibilitando comparação entre formas distintas de coletas.

Ter conhecimento do período de tempo que o atleta consegue recordar a lesão, bem como a possibilidade de aplicação de um IMR, retroagindo tal tempo, pode servir de subsídio para que centros de treinamento que não possuam registros sistemáticos, além de outros profissionais da saúde ligados ao esporte, possam reunir dados sobre LD.

Devido à dúvida sobre o tempo de recordação das LD pelos atletas, entendeu-se como pertinente empreender investigação sobre a aplicação de um IMR, como forma válida de obter dados sobre os agravos que ocorrem nessa modalidade.

Assim, constituiu-se como objetivo do presente estudo levantar informações de atletas de alto rendimento retrocedendo oito meses por meio de IMR e compará-las com registros de prontuário clínico.

 

CASUÍSTICA E MÉTODO

1. Natureza e população do estudo

Os dados da pesquisa foram obtidos a partir de entrevistas e também de arquivos que contêm informações sobre LD ocorridas durante uma temporada de treinamentos e competições de atletismo, o que caracteriza o estudo como sendo do tipo transversal. No entanto, como as informações referidas remetem a fatos já ocorridos, insere também componente retroanalítico, como descrito por Pereira2, em que foram analisadas múltiplas variáveis.

Para realização da pesquisa foram tomados 25 atletas da Associação Prudentina de Atletismo (APA), 16 do gênero masculino (64%) e nove do feminino (36%). Todos são praticantes de atletismo e especialistas em provas de velocidade e potência, que treinam no Centro Nacional de Treinamento de Atletismo em Presidente Prudente-SP.

Além do tempo de experiência na prática desportiva e da participação no Centro Nacional de Treinamento, vale lembrar que todos os integrantes da pesquisa já participaram de competições importantes dentro do cenário nacional ou internacional na modalidade estudada.

2. Descrição do inquérito de morbidade referida (IMR) e variáveis envolvidas

O IMR foi composto por um questionário utilizado como instrumento de coleta de dados, elaborado por meio de modelo fechado, contendo inicialmente dados pessoais relativos aos atletas, como: gênero, idade, peso e altura e tempo de treinamento.

Para obtenção das informações referentes às LD, foram inseridas questões sobre o tipo de lesão, local anatômico, mecanismo, período de treinamento, além da informação relativa ao retorno às atividades físicas normais baseado na experiência de outros autores que já trabalharam com instrumentos semelhantes7,8,10. Para facilitar a obtenção das informações e sua posterior organização, todos os itens relacionados às variáveis pesquisadas foram codificados numericamente. O modelo do IMR e sua codificação são apresentados na figura 1.

Neste estudo, considerou-se LD como qualquer dor ou afecção músculo-esquelética resultante de treinamentos e competições esportivas e que foi suficiente para causar alterações no treinamento normal, seja na forma, duração, intensidade ou freqüência14.

A questão referente ao tipo de lesão objetivou identificar, a exemplo de estudos epidemiológicos de morbidade referida, o agravo percebido pelo atleta, independente de diagnóstico médico. A localização anatômica da lesão contou com uma figura ilustrativa do corpo humano, com o intuito de facilitar a identificação por parte do atleta.

Os mecanismos de instalação da lesão ou de aumento dos sinais e sintomas foram investigados visando conhecer o momento de ocorrência das LD referidas. Já o período de treinamento em que ocorreu a lesão revelou em que fase do treinamento, na temporada, foi observada a lesão, considerando os períodos: básico, específico e competitivo. E, por fim, o retorno às atividades apresentou-se com o intuito de observar se o retorno à prática esportiva normal, ou seja, sem quaisquer alterações no treinamento, ocorreu com ou sem a presença de sintomas.

3. Procedimentos de campo

Dois fisioterapeutas receberam questionários idênticos e foram treinados separadamente para coletar informações referentes às LD sofridas pelos atletas durante a última temporada de treinamentos e competições (oito meses). Um deles obteve os dados entrevistando os atletas utilizando um formulário específico, portanto, foi caracterizado como IMR. O segundo, utilizando o mesmo formulário, buscou preenchê-lo junto aos prontuários do setor de saúde da APA, cobrindo o período relativo à mesma temporada. Esses procedimentos são descritos na literatura como formas utilizadas para realizar estudos de morbidade dentro de uma população ou instituição1-3.

Cabe esclarecer que as informações contidas nos prontuários da APA são retroativas no máximo a quatro dias da exposição do atleta à lesão desportiva e se complementam com informações obtidas junto à comissão técnica e ao setor de saúde da equipe, enquanto os IMR trazem informações de até oito meses antecedentes à pesquisa, sendo referidas unicamente pelo atleta acometido.

4. Procedimentos estatísticos

Foram considerados como padrão ouro os prontuários de LD, por terem sido registrados logo após o evento, e contarem com a identificação dos sinais e sintomas da lesão, os quais permitiram caracterizar com maior clareza a história, natureza, causa situacional e os procedimentos adotados para o controle e tratamento do agravo.

O estudo da concordância de respostas nas duas formas de coletas (prontuários e inquéritos), considerando tipo de lesão, local anatômico, mecanismo de lesão ou aumento do sintoma, período de treinamento e qualidade do retorno às atividades, foi realizado utilizando-se do teste da proporção binomial de concordância e se estabeleceu o limite de 95% de confiança para a concordância15.

5. Aspectos legais da pesquisa

A participação da população investigada deu-se mediante leitura, compreensão e autorização por escrito de um termo de consentimento livre e esclarecido, o qual foi aprovado juntamente com o projeto original para esta pesquisa pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto.

 

RESULTADOS

Na tabela 1, verificam-se, além da distribuição das freqüências de LD segundo a forma de obtenção dos dados, os valores de concordância de informações e o teste de proporção com seus intervalos de confiança. Os agravos musculares foram os mais observados tanto em prontuários quanto em inquéritos e as tendinopatias também apresentaram taxa elevada nas duas formas de coleta, em que o valor de concordância de informações apresentou teste de proporção significante para p < 0,0001.

 

 

A distribuição das freqüências de locais anatômicos acometidos, assim como os valores de concordância para esta variável, são apresentados na tabela 2. Os membros inferiores foram os mais lesionados, independente da forma de coleta, com destaque para a coxa, tornozelo/pé e perna/panturrilha; neste caso o nível de concordância foi de 91,67%.

 

 

O mecanismo de lesão ou aumento dos sinais e sintomas referidos é apresentado na tabela 3. A corrida em velocidade é o momento em que ocorre a maior parte dos agravos, tanto em prontuários quanto em inquéritos, com apenas uma discordância. Os saltos também merecem destaque, pois, além de apresentarem taxa elevada, mostraram também, total concordância de informações.

 

 

A tabela 4 refere-se à variável período de treinamento, em que se observa concordância de 91,67% nas informações referidas quando comparadas com os prontuários, destacando os períodos básico e específico como os preferidos para instalação de LD.

 

 

A tabela 5 apresenta dados referentes à qualidade do retorno às atividades normais, ou seja, se o retorno ocorreu com ou sem a presença de sinais ou sintomas associados à LD. Verifica-se que a volta ao treinamento, para o grupo estudado, aconteceu com maior freqüência ainda na presença de sinais ou sintomas e que a concordância de informações para esta variável foi de 90%, com p < 0,0001.

 

 

DISCUSSÃO

Ao investigar LD, percebe-se a falta de consenso entre pesquisadores no âmbito conceitual. Tal fato deve sempre ser lembrado em discussões sobre o tema, já que as discordâncias dificultam a análise entre estudos da mesma natureza, ou seja, envolvendo populações de atletas5,7,8.

As LD nesta pesquisa, como também observadas em outras, apresentaram-se com taxas elevadas, o que nos leva a concordar com a afirmação de Laurino et al.9, que, em seu trabalho, concluiu que o atletismo pode ser considerado um esporte de risco elevado para o surgimento de LD. Além da própria sobrecarga de treinamento, outros fatores, como idade, gênero, prova, tempo de treinamento e especialização precoce contribuem para sua instalação.

Dentre as mais observadas, destacaram-se as tendinopatias e a distensão muscular, que também são observadas como as mais freqüentes nos estudos de Shiffer16 e D'Souza17, envolvendo o atletismo. Essas lesões mostraram-se marcantes para os atletas participantes desta pesquisa.

Outro agravo observado neste estudo foi a periostite, compreendendo 11,67% do total, não sendo anotados, no entanto, casos de fraturas por stress, diferente do que se observou na pesquisa de Bennell e Crossley14, em que tal ocorrência, envolvendo praticantes da modalidade atletismo, foi a mais observada. A principal razão sugerida para essas variações diz respeito a características extrínsecas e intrínsecas, particulares a cada situação, como superfície de prática esportiva, clima, especialidade e o próprio treinamento desportivo e suas características adaptativas18.

Do ponto de vista conceitual, o termo periostite também gerou subsídios para discussão. Inicialmente, todos os atletas referiram-se a esse agravo como "canelite". De fato, essa expressão é usada sistematicamente por muitos envolvidos com o atletismo, substituindo o termo síndrome de estresse tibial. Assim, os relatos considerando a instalação de "canelites" foram revistos, relacionando-os a uma terminologia mais adequada proposta para o estudo e desconsiderando a especificidade do local anatômico para o agravo. Dessa forma, a "canelite" representando a síndrome do estresse tibial foi direcionada à definição considerada para a instalação da periostite.

Com a análise dos resultados, constataram-se particularidades em três agravos: contratura, mialgia e algia crônica inespecífica. Durante a coleta de dados, notou-se que alguns atletas que se referiram acometidos por contraturas, na verdade, apresentaram sinais e sintomas típicos de mialgia.

A confirmação do equívoco por parte dos entrevistados deu-se pelas anotações nos prontuários e as observações de integrantes da comissão técnica, que determinavam o que realmente havia ocorrido. Tal fato explica a situação apresentada nos resultados, apontando uma discordância referente à maior taxa de contraturas apontadas em inquéritos que as anotadas nos prontuários e, também, a baixa concordância em relação à mialgia, quando confrontados prontuários e inquéritos.

No caso das algias crônicas inespecíficas, a justificativa por conta de sua elevada taxa de discordância compreende sua própria inespecificidade. Ou seja, sinais e sintomas pouco definidos, não específicos e também de menor importância são menos passíveis de recordação.

Em linhas gerais, os agravos verificados nesta pesquisa mostraram coerência com os de outros estudos9,10,14.

Referindo-se aos locais de preferência para a instalação de lesões, percebeu-se que os mesmos são encontrados em outras investigações dentro de populações de atletas que pesquisaram os comprometimentos físicos originados a partir da prática do esporte em questão9,10,14,16. Tal fato pode ser explicado pela maior exigência aplicada aos membros inferiores, quando comparados com outras regiões, sobretudo por se tratar de atletas especialistas em provas de velocidade e explosão muscular.

Ao discutir os valores discordantes para esta variável, fazem-se necessários comentários sobre o comportamento do atleta, no ato de se referir à localização anatômica da lesão. Em muitos casos, havia justificativas sobre a não recordação de agravos ocorridos nas regiões da coxa, joelho e no complexo tornozelo/pé, em virtude da quantidade de agravos nesses locais.

As LD ocorreram em todas as fases de preparação física dos atletas. Contudo, a maior prevalência de instalação foi observada no período específico. Convém lembrar que esse é o intervalo mais longo dentre os três outros analisados. Foram registrados 55% do total de lesões nos prontuários e 48,33% de informações aos inquéritos.

D'Souza17, em estudo com praticantes de atletismo de vários níveis de competição, observou que a maior parte das lesões ocorre no período de treinamento (60%) e 20% no período de competição. Embora a divisão das LD pelos períodos de treinamento seja coerente com nossa pesquisa, as proporções são diferentes. Somente 8,33% dos agravos foram anotados em competições dentro da modalidade. Isso deve ser valorizado, sobretudo pelas características do nível de treinamento dos indivíduos, neste estudo: apenas atletas de alto rendimento.

As principais atividades referidas ou registradas e que foram responsáveis pelo maior número de agravos foram as que requerem velocidade e explosão muscular, com 41,67% e 40% em prontuários e inquéritos, respectivamente. Esse fato é comprovado por vários autores, que identificaram as atividades que exigem movimentos explosivos como sendo as que mais lesionam, em se tratando do atletismo9,10. Essa situação pode ser explicada, principalmente pelas excessivas exigências biomecânicas, seja das articulações ou de grupos musculares que envolvem tal mecanismo19.

O retorno às atividades físicas normais verificou-se, em sua maioria, na presença de sinais ou sintomas. Foram registrados: 81,67% das lesões em prontuários e 75% nos inquéritos. Observamos taxa de discordância entre os instrumentos, maior no retorno sintomático que no assintomático. Nesse sentido, as informações coletadas parecem discordar das afirmações de Pereira2 sobre os agravos mais marcantes relativos aos indivíduos. Contudo, vale lembrar, que o número total de retorno sintomático à prática desportiva foi maior que os retornos assintomáticos e, dessa forma, tem maior probabilidade de discordância.

Os resultados da investigação, de forma geral, mostraram-se conflitantes com os achados de Pinheiro et al.12, que testaram níveis de concordância em relatos de sintomas osteomusculares nos sete dias e 12 meses precedentes à aplicação de uma entrevista. Verificaram que em apenas uma região corporal, os ombros, houve concordância entre os achados. Contudo, a amostra foi constituída por bancários, o que poderia explicar tais resultados.

Hahn11 verificou a validade do auto-relato sobre sintomas de joelho entre atletas, e concluiu que questionários semanais poderiam ser substituídos por anuais, devido aos níveis de concordância encontrados em suas respostas. Essas afirmações confirmam os resultados desta pesquisa, no que se refere ao período de intervalo de instalação do agravo e relato em inquéritos.

Analisando a síntese das pesquisas de Hahn11 e Pinheiro et al.12 e confrontando seus resultados com os deste estudo, percebe-se que as populações investigadas informam, nos IMR, as lesões músculo-esqueléticas ocorridas, em que tais agravos parecem mais marcantes aos indivíduos que necessitam do aparelho locomotor em perfeitas condições, para desempenhar suas funções de trabalho, o que se observa em atletas de alto rendimento.

Constatou-se, ainda, baseado nos resultados encontrados, que é possível utilizar com razoável precisão o IMR com intervalo de tempo retroagindo oito meses após a instalação da LD, como instrumento de coleta de dados para pesquisa científica, envolvendo atletas de alto rendimento, principalmente as LD, cujos sinais e sintomas, mostraram-se marcantes.

Essas afirmações concordam com as de Girotto et al.7 e Netto Jr.10, que utilizaram instrumento semelhante, com a justificativa da importância da LD para o atleta de alto rendimento, para coletar informações retroagindo a períodos longos desde a instalação do agravo até o momento da entrevista.

 

CONCLUSÃO

A partir do levantamento e comparação de informações sugeridas como objetivo desta pesquisa, constatou-se que houve elevada taxa de concordância entre todas as informações levantadas, mostrando a eficácia do Inquérito de Morbidade Referida como instrumento para a coleta de informações sobre lesões desportivas para a população investigada.

 

Todos os autores declararam não haver qualquer potencial conflito de interesses referente a este artigo.

 

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Endereço para correspondência
Carlos Marcelo Pastre
Rua Fernão Dias, 950
19023-280 – Presidente Prudente, SP
E-mail: marcelopastre@hotmail.com

Recebido em 6/10/03
2a versão recebida em 7/12/03
Aceito em 12/1/04