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Revista Brasileira de Medicina do Esporte

Print version ISSN 1517-8692

Rev Bras Med Esporte vol.11 no.2 Niterói Mar./Apr. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S1517-86922005000200007 

ARTIGO ORIGINAL

 

Suplementação de creatina anula o efeito adverso do exercício de endurance sobre o subseqüente desempenho de força

 

La suplementación de creatina anula el efecto adverso del ejercicio de endurance sobre el subsequente desempeño de fuerza

 

 

Rodrigo Vitasovic GomesI; Marcelo Saldanha AokiI, II

ILaboratório de Fisiologia do Exercício – Centro Universitário UniFMU, São Paulo, Brasil
IIInstituto de Ciências Biomédicas - Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: o presente estudo teve como objetivo verificar se a suplementação de creatina exerce efeito ergogênico durante a execução do exercício concorrente.
MÉTODOS:
Dezesseis universitárias foram divididas aleatoriamente em dois grupos: placebo (P) e creatina (CRE). A suplementação foi realizada seguindo o modelo duplo-cego, 20g de placebo ou creatina durante cinco dias e posteriormente 3 g por sete dias. Antes da suplementação, os sujeitos foram submetidos ao teste de 1-RM e ao teste de repetições máximas no leg press 45º (três sets de repetições máximas, realizadas a 80% do valor de 1-RM e separadas por 150 segundos de pausa – Pset: 9,0 ± 2,4; 2º set: 8,9 ± 2,9 e 3º set: 8,3 ± 3,3 e CRE set: 10,2 ± 2,2; 2º set: 9,8 ± 2,9 e 3º set: 9,7 ± 3,5 reps). Após o período de suplementação, os sujeitos realizaram o teste de corrida, no qual os mesmos foram instruídos a percorrer a maior distância possível em 20 minutos. Imediatamente após o teste de corrida, os testes de 1-RM e de repetições máximas foram realizados novamente.
RESULTADOS: Não foi observada diferença no desempenho do teste de 1-RM. Também não houve diferença no desempenho do teste de corrida. Após o teste de corrida, foi observado um decréscimo no número de repetições máxima no grupo placebo (Reps - P:set: 7,6 ± 2,6; 2º set: 4,3 ± 2,9*; p<0,01 e 3º set: 4,6 ± 2,3*; p<0,01). Esta redução não foi observada no grupo creatina (Reps - CRE:set: 10,9 ± 2,9; 2º set: 9,5 ± 2,7 e 3º set: 9,0 ± 3,0).
CONCLUSÕES:
A execução do exercício de endurance provocou uma fadiga residual que afetou a capacidade de realização de repetições máximas a 80% do valor de um 1RM. Uma das possíveis causas da fadiga no exercício de força está relacionada à depleção dos estoques de creatina-fosfato. Provavelmente, o maior conteúdo de creatina-fosfato, induzido pela suplementação, acelerou a re-síntese da ATP, servindo como um substrato energético adicional para o exercício concorrente.

Palavras-chave: Creatina. Suplementação. Exercício concorrente. Interferência


RESUMEN

OBJETIVO: El presente estudio tiene como objetivo verificar el efecto ergogénico que ejerce la suplementación de la creatina durante la ejecución del ejercicio competitivo.
MÉTODOS:
Dieciséis estudiantes universitarios fueron aleatoriamente divididos en 2 grupos: placebo (P) y creatina (el he/she CREE). La suplementación se siguió cumpliendo el modelo doble-ciego, 20g de placebo o creatina durante 5 días y después 3 gramos durante 7 días. Antes de la suplementación, los atletas fueron sometidos a la prueba de 1-RM y a la prueba de repeticiones del máximo en el press de pierna 45º (3 juegos de repeticiones del máximo, logró a 80% del valor de 1-RM y separado por 150 segundos de pausa - P 1º set: 9,0 ± 2,4; 2º set: 8,9 ± 2,9 y 3º set: 8,3 ± 3,3 y el CREE 1º set: 10,2 ± 2,2; 2º juego: 9,8 ± 2,9 y 3º set: 9,7 ± 3,5 representantes). Después del periodo del suplementación, los modelos lograron la prueba de la raza en la que los mismos fueron bien educados para alcanzar la distancia más grande posible en 20 minutos. Inmediatamente después de la prueba de la carrera, las pruebas de 1-RM y de repeticiones del máximo se cumplieron otra vez. RESULTADOS: No se observó diferencia en la acción de la prueba de 1-RM. Tampoco había diferencia en la acción de la prueba de la carrera. Después de la prueba de la carrera, un descenso se observó en el número de las repeticiones máximas en el grupo placebo (Representantes - P: 1º set: 7,6 ± 2,6; 2º set: 4,3 ± 2,9*; p < 0,01 y 3º set: 4,6 ± 2,3*; p < 0,01). Esta reducción no se observó en grupo de uso de creatina (Representantes – el CREE: 1º set: 10,9 ± 2,9; 2º set: 9,5 ± 2,7 y 3º set: 9,0 ± 3,0).
CONCLUSIONES: La ejecución del ejercicio de paciencia provocó un a fatiga residual que afectó la capacidad de realización de repeticiones del máximo a 80% del valor de un 1-RM. Se relaciona una de las posibles causas de la fatiga en el ejercicio de fuerza al vaciamiento de las acciones de creatina-fosfato. Probablemente, el volumen más grande de creatina-fosfato, inducido por el suplementación, aceleró la re-síntesis de ATP y lo define como bueno como un substrato de energía adicional para el ejercicio competitivo.

Palabras-clave: Creatina. Suplementación. Ejercicio competitivo. Interferencia.


 

 

INTRODUÇÃO

Nas últimas décadas diversos estudos investigaram o efeito do treinamento concorrente, no qual o exercício de endurance e o exercício de força são realizados simultaneamente na mesma sessão de treino(1). Uma vez que atletas e indivíduos fisicamente ativos adotam esta estratégia de treinamento, existe um grande interesse com relação à interferência que a primeira atividade teria sobre atividade subseqüente.

Resultados obtidos no nosso laboratório demonstraram que o exercício de endurance (70% do O2max por 45 minutos em esteira) promove redução do desempenho no subseqüente teste de repetições máximas no leg press 45º (2). Outros estudos confirmam nossos resultados que o exercício aeróbio afeta o subseqüente desenvolvimento de força e potência, quando o exercício de endurance é realizado previamente(1).

Em um outro estudo, nós observamos que o exercício de força (6 séries de repetições máximas no leg press 45º, sendo 3 séries a 60% do valor de 1-RM e as outras 3 a 90% do valor de 1-RM) não interferiu no posterior desempenho de potência aeróbica(3). Estes resultados também são reforçados por outras pesquisas que demonstraram que o desempenho de potência aeróbica parece não ser alterado pela prévia execução do exercício de força (4-8).

Entretanto, a literatura apresenta resultados controversos(1). Algumas pesquisas sugerem que não existe interferência do treinamento concorrente sobre o desempenho de força ou potência aeróbica (9-2). No entanto, em um estudo conduzido por Nelson et al.(13) foi demonstrado que a realização do treinamento concorrente prejudica o desenvolvimento da potência aeróbica. Esta controvérsia pode estar relacionada ao nível de adaptação ao estímulo do treino concorrente. Parece que indivíduos adaptados ao exercício concorrente sofrem uma menor interferência em relação aos indivíduos não treinados(3-14). Outros fatores também contribuem para a discrepância de resultados obtidos pelas pesquisas que analisaram o treinamento concorrente tais como, os protocolos de exercício utilizados e a organização de suas variáveis (intensidade, duração e freqüência)(15).

Atualmente, o dado mais consistente sobre o treinamento concorrente indica que esta estratégia atenua o ganho de força e potência em comparação ao treinamento de força isolado (4-8,16).

Existem duas hipóteses para explicar esta interferência deletéria do treinamento concorrente. Estas hipóteses estão relacionadas a processos agudos ou crônicos (1,15). A hipótese crônica consiste na idéia de que após o treino concorrente, o músculo tentaria adaptar-se a ambos os estímulos. No entanto, isto não é possível porque as adaptações crônicas induzidas pelo treinamento de endurance são freqüentemente inconsistentes com as observadas durante o treinamento de força. Segundo a hipótese crônica, a combinação destes dois estímulos diferentes poderia afetar o desenvolvimento destas duas capacidades físicas (força e potência aeróbica) devido ao fato de que ambos induzem adaptações diferentes (1,4,5).

Com relação à hipótese de comprometimento agudo, esta é baseada na idéia de que a atividade anterior levaria a uma fadiga residual. Este desgaste comprometeria o desempenho da atividade subseqüente através de alterações no metabolismo energético (menor disponibilidade de substratos, acidose, aumento da concentração de amônia)(1).

Considerando que a hipótese aguda é uma possível explicação para a interferência observada no exercício concorrente, nós realizamos dois estudos utilizando a suplementação de carboidrato durante o exercício concorrente(2,3). Em ambos estudos, o consumo de carboidrato não exerceu o efeito ergogênico(2,3).

Estes resultados nos levaram a considerar que a disponibilidade de outro substrato energético seria o fator limitante para execução do subseqüente exercício de força. Considerando que a Creatina-fosfato contribui de forma significativa para a realização do exercício de alta intensidade, o objetivo deste trabalho foi verificar o efeito da suplementação de creatina sobre a execução do exercício concorrente (exercício de endurance realizado previamente ao teste 1-RM e no teste de repetições máximas realizado a 80% do valor de 1-RM).

 

METODOLOGIA

Amostra

Foram selecionadas 16 mulheres (20,1 ± 1,9 anos), estudantes de educação física do Centro Universitário UniFMU. Foi estabelecido como critério de seleção, praticar exercícios de força pelo menos três vezes por semana, assim como, exercício de endurance com pelo menos 30 minutos de duração em dias alternados ou simultâneos. Outro critério adotado para a participação do estudo foi o período mínimo de 12 meses de experiência prévia em treinamento de força. A seleção da amostra foi realizada por meio de um questionário, no qual foi avaliado o consumo de outros suplementos nutricionais e substâncias controladas. O protocolo experimental foi aprovado pela Comissão de ética em pesquisa envolvendo seres humanos (CEPSH) do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ofício 051.00). Os experimentos foram conduzidos segundo a resolução específica do Conselho Nacional de Saúde (nº 196/96). Todos indivíduos foram informados detalhadamente sobre os procedimentos utilizados e concordaram em participar de maneira voluntária do estudo, assinando um termo de consentimento informado e proteção da privacidade.

Determinação de 1-RM e da capacidade de repetição máxima

Após um breve aquecimento, o valor de 1-RM foi determinado através de três tentativas crescentes no exercício leg press 45º (17). Posteriormente, foi calculado o valor percentual equivalente a 80% do valor de 1-RM para a execução dos três sets de repetições máximas com pausa de 150 segundos.

Exercício de endurance

O protocolo de exercício adotado consistiu de teste de corrida de 20 minutos em uma pista demarcada, no qual os sujeitos percorreram a maior distância possível em 20 minutos. Com o ritmo constante das passadas durante todo a atividade, o teste teve início sob a voz de comando "atenção já", acionando-se o cronômetro concomitantemente. O término do teste foi marcado por um apito.

Protocolo de suplementação

As participantes foram divididas em dois grupos aleatoriamente. A suplementação de creatina (ou placebo) foi conduzida conforme o modelo duplo-cego. Na primeira fase (sobrecarga) foram administradas 20 gramas de creatina (ou placebo) por dia, divididas em quatro doses, durante cinco dias. Durante a segunda fase (manutenção) foram administradas três gramas de creatina (ou placebo) por sete dias. O grupo placebo foi usado como controle e seguiu as mesmas condições experimentais do grupo suplementado com creatina, no entanto, o mesmo recebeu carboidrato (maltodextrina).

Procedimento experimental

Foram realizadas duas coletas de dados em dias distintos, separadas por 12 dias. No início do protocolo de suplementação, ambos os grupos foram submetidos inicialmente ao teste de 1-RM e o teste de repetições máximas no leg press 45º (80%-1RM). Após 12 dias de suplementação (creatina e placebo), foram realizados novamente ambos os testes (1-RM e repetições máximas) imediatamente após o teste de corrida de 20 minutos. Portanto, o objetivo foi verificar o efeito do exercício de endurance (corrida) sobre o desempenho de força no grupo placebo e no grupo suplementado com creatina por 12 dias.

Análise estatística

Os resultados foram analisados utilizando teste de análise de variância (ANOVA - two way) (fator tempo x fator suplementação) seguido pelo teste de Tukey (software GraphPAD) O nível mínimo de significância adotado no presente estudo foi de p<0.05. Os resultados estão expressos em média e desvio padrão.

 

RESULTADOS

O valor obtido no teste de 1-RM não apresentou alteração entre os grupos placebo e creatina, com ou sem a execução prévia do exercício de endurance (Tabela 1). A razão entre o valor de 1-RM e o peso corporal também permaneceu inalterada em relação aos grupos placebo e creatina, no início (sem a prévia realização do exercício de "endurance") e ao final do experimento (com a execução prévia exercício de "endurance") (Tabela 1).

 

 

Entretanto, no teste de repetições máximas foi observado decréscimo no número de repetições executadas pelo grupo placebo após a realização do exercício aeróbio nos dois últimos sets em relação ao início do experimento (P:set: 9,0 ± 2,4; 2º set: 8.9 ± 2.9 e 3º set: 8,3 ± 3,3 vs. P:set: 7,6 ± 2,6; 2º set: 4,3 ± 2,9*; p<0,01 e 3º set: 4,6 ± 2,3*; p<0,01) (Tabela 2). Esta resposta não foi observada no grupo creatina (CRE:set: 10,2 ± 2,2, 2º set: 9,8 ± 2,9 e 3º set: 9,7 ± 3,5 vs. CRE:set: 10,9 ± 2,9; 2º set: 9,5 ± 2,7 e 3º set: 9,0 ± 3,0). Ao final do experimento, após o exercício de endurance, a média do número de repetições máximas realizadas pelo grupo creatina, nos dois últimos sets, foi superior a do grupo placebo (Tabela 2).

 

 

Com relação ao teste de 20 minutos de corrida não foi observada diferença no desempenho em ambos os grupos (Tabela 3).

 

 

DISCUSSÃO

O objetivo do presente estudo foi testar o efeito da suplementação de creatina sobre o efeito adverso do exercício de endurance sobre o subseqüente desempenho de força. Conforme já observado previamente, a realização do exercício de endurance afetou o subseqüente desempenho de força(1,2).

Esse comprometimento poderia ser explicado pela realização do exercício de força em uma condição energética e metabólica adversa, caso o mesmo seja precedido por um exercício de endurance(1). Isto aconteceria durante o treino de força realizado na mesma sessão, portanto, caracterizando um efeito agudo. Nesse contexto, o músculo estaria com sua capacidade de desenvolver tensão reduzida durante a realização do posterior treino de força. A possível explicação para este fenômeno foi denominada de hipótese aguda(1,15).

A hipótese de interferência aguda é sustentada pelo estudo de Craig et al.(6) que verificaram que o desenvolvimento de força nos membros inferiores ficou comprometido pela realização de uma corrida imediatamente antes do treino de força. No mesmo estudo foi observado que a adaptação dos membros superiores não foi comprometida pelo treino prévio de endurance. Segundo os autores, a musculatura das pernas não se recuperaria do treino de endurance e não realizariam o treino de força na intensidade necessária para promover as adaptações desejadas.

Os mecanismos responsáveis pelo comprometimento da força e potência no treinamento concorrente ainda não foram totalmente identificados(1,15,18,19). Um possível candidato é a depleção de glicogênio muscular, pois esse é um importante substrato energético para o treino de força(20-22). Entretanto, evidências anteriores obtidas em nosso laboratório demonstram que indivíduos que realizaram um consumo adequado de carboidrato antes do exercício e que também foram suplementados com carboidrato durante o exercício concorrente não conseguiram atenuar o efeito deletério do exercício de endurance sobre o posterior exercício de força(2). Estes resultados, portanto, nos fez considerar a hipótese de que outro substrato energético poderia contribuir para execução do treino concorrente (treino aeróbio realizado antes do treino de força), a creatina-fosfato (CP).

No presente estudo, os resultados observados demonstram que a estratégia de consumir creatina ou placebo não afetou o resultado do teste de 1-RM. Recentemente, em um outro estudo conduzido em nosso laboratório(23), verificamos que a suplementação de creatina não alterou a carga máxima suportada no supino, aferida através do teste de 1-RM. Entretanto, nesse mesmo estudo verificamos que o consumo de creatina potencializou a capacidade de realizar repetições máximas a 70% do valor de 1-RM. Esses resultados estão de acordo com os demonstrados por outros pesquisadores(17,24). Earnest et al.(17) também não observaram aumento no valor de 1-RM para o supino após a suplementação de creatina. Assim como nosso estudo, verificaram somente aumento na capacidade de repetição máxima a 70% do valor de 1-RM.

Apesar da produção absoluta de energia durante o esforço máximo e de curta duração (~6-8 segundos), como no caso do teste de 1-RM, ser fornecida predominantemente pela degradação da creatina fosfato, o conteúdo basal de creatina intramuscular antes da suplementação seria capaz de suprir esta demanda. Conseqüentemente, o grupo submetido à suplementação de creatina não apresentaria um melhor desempenho em relação ao grupo placebo(17,23,25).

Em relação à capacidade de realizar repetições máximas (80%-1RM) no grupo placebo, conforme esperado, o exercício de endurance promoveu decréscimo neste parâmetro em relação ao teste inicial. Uma possível explicação para a redução do número de repetições máximas é que o exercício de endurance promoveria um desgaste em termos de substratos energéticos, gerando uma fadiga residual (hipótese de comprometimento aguda)(1,15),. Já no grupo creatina, a capacidade de realizar repetições máximas (80%-1RM) no leg press 45º após o exercício de endurance foi mantida.

A instalação da fadiga no exercício de força parece ser multi-fatorial, tendo como causas em potencial a depleção de CP, a acidose intramuscular (aumento de íons H+) e/ou a redução do glicogênio muscular(25). Mac Dougall et al.(26) observaram no seu estudo que a combinação entre depleção de CP (62% em relação ao repouso) e a acidose (21,3 mmol.kg-1 peso úmido) era responsável pela fadiga na 1ª série de repetição máxima a 80% do valor de 1-RM. Estes autores também afirmaram que após três séries de repetições máximas a 80% do valor de 1-RM, a incapacidade de manutenção do padrão de movimento parece ser limitada pelo aumento da concentração de íons H+ (26). A elaboração desta hipótese foi baseada no fato de que o grau de redução de CP (50% em relação ao repouso) foi menor que no observado na 1ª série (62% em relação ao repouso). Reforçando esta hipótese, a produção de lactato havia sido superior ao término da última série (uma série - 21,3 mmol.kg-1 peso úmido vs três séries - 27,4 mmol.kg-1 peso úmido) (26).

Considerando que a fadiga na 1ª série pode estar relacionada à redução de CP, pode-se especular que o maior conteúdo deste substrato no músculo minimizaria a depleção de CP no grupo suplementado com creatina, favorecendo a sua subseqüente resíntese para as próximas séries. Além disto, é importante mencionar a capacidade de tamponamento exercida pelo sistema ATP-CP(27). A refosforilação imediata da ADP em ATP, através da hidrólise da CP requer um íon H+ (27). Conseqüentemente, esta capacidade de tamponamento atenuaria os efeitos deletérios da acidose(25,27,28), tais como a inibição de enzimas envolvidas no metabolismo energético(25,27) e a redução da sensibilidade das proteínas contráteis aos íons Ca++ (28).

Portanto, o aumento da disponibilidade deste substrato e a sua capacidade de tamponamento seriam responsáveis pela manutenção do desempenho no subseqüente teste de repetições máximas no grupo submetido à suplementação de creatina.

 

CONCLUSÂO

Corroborando outros resultados disponíveis na literatura, o presente estudo demonstrou que a execução prévia do exercício de endurance afeta o subseqüente exercício de força. Ainda neste estudo, foi constatado que a suplementação de creatina é capaz de anular o efeito adverso induzido pelo exercício de endurance sobre o subseqüente desempenho no teste de repetições máximas a 80% do valor de 1-RM. Estes resultados sugerem que o sistema ATP-CP contribui de maneira significativa para realização do exercício concorrente, no qual o subseqüente treino de força é realizado em uma alta intensidade.

 

AGRADECIMENTOS

Agradecemos o apoio do Prof. Flávio Delmanto – Coordenador do Núcleo de Ciências da Saúde do Centro Universitário UniFMU. Ainda agradecemos o Prof. Ms. Vagner Raso pelo auxílio na análise estatística e o Prof. Dr. Reury Frank P. Bacurau pelo auxílio na discussão dos resultados.

 

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Endereço para correspondência
Prof. Dr. Marcelo Saldanha Aoki
Prédio 20 – Faculdade de Educação Física - UniFMU
Laboratório de Fisiologia do Exercício
Rua Galvão Bueno, nº 707, Liberdade
01506-000 - São Paulo, SP
E-mail: saldanha@fmu.br

Recebido em 12/10/04. 2ª versão recebida em 5/1/05. Aceito em 4/3/05.

 

 

Todos os autores declararam não haver qualquer potencial conflito de interesses referente a este artigo.