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Revista Brasileira de Medicina do Esporte

Print version ISSN 1517-8692

Rev Bras Med Esporte vol.11 no.4 Niterói July/Aug. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S1517-86922005000400002 

ARTIGO ORIGINAL

 

Relação entre diferentes índices de atividade física e preditores de adiposidade em adolescentes de ambos os sexos

 

Relacion entre diferentes índices de atividad física y predictores de adiposidad en adolescentes de ambos sexos

 

 

Luís Paulo Gomes MascarenhasI, III; Fabiano de Macedo SalgueirosaI; Gabriel Ferreira NunesI, III; Paulo Ângelo MartinsIII; Antonio Stabelini NetoI, III; Wagner de CamposII, III

IProfessor Mestrando, Depto. de Educação Física, UFPR – Curitiba-PR
IIProfessor Adjunto, Depto. de Educação Física, UFPR – Curitiba-PR
IIICPEE, Centro de Pesquisa em Exercício e Esporte, UFPR – Curitiba-PR

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Determinar a relação entre diferentes índices de atividade física e preditores de adiposidade em adolescentes de ambos os sexos.
MÉTODOS:
Foram avaliadas 111 crianças (57 meninos e 54 meninas), com idade média de 11,62 ± 0,72. Como preditores de adiposidade foram determinados o IMC, percentagem de gordura corporal e a relação cintura/quadril (RCQ). Quanto aos indicadores de atividade física, calcularam-se o gasto energético total (GET), nível de atividade física habitual (NAFH), nível de atividade física (NAF) e gasto energético com atividade física (GEat) através do questionário de Bouchard e, para a taxa metabólica basal (TMB), a equação de Schofield-HW.
RESULTADOS:
A amostra apresentou diferenças significativas entre os sexos para idade, % de gordura corporal, RCQ, NAFH, NAF, TMB com p < 0,05. Para os meninos o GET, NAF, TMB e GEat apresentaram correlação significativa com o IMC (r = 0,86; r = 0,70; r = 0,91; r = 0,78) e % de gordura (r = 0,78; r = 0,61; r = 0,90; r = 0,70) com p < 0,01, respectivamente, e o GET, TMB, GEat apresentaram correlação significativa com o RCQ (r = 0,28; r = 0,45 e r = 0,28) com p < 0,05. Para as meninas o GET, NAF, TMB, GEat apresentaram valores significativos com o IMC (r = 0,86; r = 0,82; r = 0,78; r = 0,85); em % de gordura todos os indicadores GET, NAFH, NAF, TMB e GEat foram significativos (r = 0,73; r = –0,29; r = 0,66; r = 0,74; r = 0,70) com p < 0,05.
CONCLUSÃO:
Os diferentes indicadores de nível de atividade física apresentaram significativa correlação com os preditores de adiposidade com exceção do RCQ para as meninas. O aumento da massa corporal demonstrou relação significância com o aumento do dispêndio energético em função da maior necessidade de energia para movimentar o corpo.

Palavras-chave: Gasto energético. Atividade física. Adiposidade. Adolescência.


RESUMEN

OBJETIVO: Determinar la relación entre diferentes índices de actividad física y predictores de adiposidad en adolescentes de ambos sexos.
MÉTODOS:
Fueron evaluados 111 chicos (57 niños y 54 niñas), con edad media de 11,62 ± 0,72 años. Como predictores de adiposidad fueron determinados por IMC, percentil de grasa, y relación cintuda nalga (RCQ). En cuanto a los indicadores de la actividad física se calculó el gasto energético total (GET),el nivel de actividad física habitual (NAFH), nível de actividad física (NAF) y gasto energético con actividad física (GEat) a través de un cuestionario de Bouchard y para la taxa metabólica basal (TMB) la ecuaciónde Schofield-HW.
RESULTADOS:
La muestra presentó diferencias significativas entre los sexos para edades, percentil de grasa, RCQ, NAFH, NAF, TMB con (p < 0,05). Para los niños el GET, NAF, TMB y el GEat presentaron correlación significativa con el IMC (r = 0,86; r = 0,70; r = 0,91; r = 0,78) e % de grasa (r = 0,78; r = 0,61; r = 0,90; r = 0,70) con (p < 0,01) respectivamente, y el GET, TMB, GEat presentaron correlación significativa con el RCQ (r = 0,28; r = 0,45 e r = 0,28) com (p < 0,05). Para las niñas el GET, NAF, TMB, GEat presentaron valores significativos con el IMC (r = 0,86; r = 0,82; r = 0,78; r = 0,85), o % de grasa todos los indicadores GET, NAFH, NAF, TMB y GEat fueron significativos (r = 0,73; r = 0,29; r = 0,66; r = 0,74; r = 0,70) con (p < 0,05).
CONCLUSIÓN:
Los diferentes indicadores de nível de actividad física presentaron una significativa correlación com los predictores de adiposidad con exceción del RCQ para las niñas. El aumento da masa corporal demonstró relación designificancia con el aumento del gasto energético en función de una mayor necesidad de energía para mover el cuerpo.

Palabras-clave: Gasto energético. Actividad física. Adiposidad. Adolescencia.


 

 

INTRODUÇÃO

Na comunidade urbana, a rápida evolução do estilo de vida tem induzido algumas mudanças socioculturais que podem estar afetando o nível de atividade física habitual (NAFH) das crianças e dos adolescentes. O constante aumento da incidência de doenças, como cardiopatias, hipertensão, diabetes, osteoporose e obesidade, e a sua relação com a redução da prática de atividade física mostram a necessidade de estudos com o objetivo de se conhecer a quantidade de exercício recomendado para se reduzir nocivos riscos à saúde de crianças e adolescentes(1-4).

De acordo com Haskell e Kiernan(5), atividade física é qualquer movimento do corpo produzido através da contração da musculatura esquelética. Nahas(6) assume a definição de Haskell e Kiernan(5) e acrescenta que este movimento gere um gasto energético acima dos níveis de repouso.

Dessa forma o gasto energético diário total (GET) pode ser compreendido como o somatório de três componentes: o gasto energético de repouso, o efeito térmico dos alimentos e o gasto energético com atividade física, normalmente apresentado em valores relativos ao peso corporal(7,8). A taxa metabólica de repouso (TMR) ou gasto energético de repouso responde pela maior quantidade de energia despendida pelo nosso corpo, com exceção dos gastos em competição aeróbica de alta intensidade, e é definida como a quantidade de energia necessária para o corpo manter os processos fisiológicos normais durante o repouso(7,9).

A alteração deste estado de repouso induz a uma demanda energética conhecida como gasto energético com atividade física (GEat), que representa a energia gasta dependendo da quantidade de atividade física desenvolvida e da massa corporal do indivíduo(10). O GEat é obtido através da diferença entre gasto energético diário total e taxa metabólica de repouso [GET-TMR](11-13). Já o nível de atividade física (NAF) é um meio pelo qual obtemos informações sobre a diferença relativa das atividades físicas através da divisão do gasto energético diário total pela taxa metabólica de repouso [GET/TMR](11,13-15).

A estimativa do gasto energético diário durante um período de 24 horas, levando em conta períodos de inatividade, atividades leves, moderadas e intensas representa os valores conhecidos como nível de atividade física habitual (NAFH)(16).

Vários estudos apresentam estes indicadores de gasto energético associado com a quantidade de atividade física realizada pelas pessoas e a sua relação com o desenvolvimento de doenças crônicas degenerativas do organismo entre elas a obesidade em crianças e adolescentes(13,17-20).

Katzmarzyk et al.(17) examinaram a relação entre atividade física, desempenho físico e fatores de risco a doenças cardiológicas e os resultados indicaram que a atividade física e o desempenho físico, respectivamente, explicam 5% a 20% e 11% a 30% da variação dos fatores de riscos cardíacos, tais como a taxa de lipídeos no sangue e acúmulo de tecido adiposo em jovens de 9 a 18 anos.

Nesta direção, Boreham e Riddoch(21) sugerem quatro razões de preocupação sobre o prevalecente aumento da obesidade infantil: primeiro porque a obesidade é um fator de risco para o desenvolvimento de doenças como diabetes, hipertensão, aterosclerose; segundo, pela tendência de crianças obesas se tornarem adultos obesos; terceiro, pois adultos que eram crianças obesas têm aumentado seus riscos de morbidade e mortalidade na idade adulta; quarto, adolescentes com sobrepeso podem sofrer discriminações sociais e econômicas de seus companheiros.

Ressalta-se que com o aumento da epidemia de obesidade no mundo, a habilidade de identificar individualmente o mais cedo possível as idades de risco e os fatores de desenvolvimento da obesidade é particularmente importante para o desenvolvimento de estratégias de prevenção(22).

A utilização de preditores de adiposidade, como o índice de massa corporal (IMC), relação cintura/quadril (RCQ) e percentagem de gordura corporal, vem sendo largamente aceita pela literatura, com o intuito de empregar estes indicadores na prevenção da obesidade, esta que é caracterizada como uma doença multifatorial com contribuição de elementos como dieta, atividade física, genética e fatores sociais(13,17,18,23-25).

Apesar dos avanços nesta área, a literatura não apresenta claramente qual seria a relação dos indicadores de atividade física com os preditores de obesidade para meninos e meninas. Como será a respostas destes indicadores em relação ao aumento da massa corporal? O aumento destes indicadores está relacionado com o gasto energético corporal? Portanto este estudo tem por objetivo analisar a correlação entre os indicadores de atividade física e os preditores de adiposidade corporal em adolescentes de ambos os sexos.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Amostra

A amostra intencional foi constituída inicialmente por 187 indivíduos, com idades entre 10,5 e 12,9 anos, pois nesta faixa etária além de diversas alterações biológicas, esta se caracteriza por evidentes alterações no comportamento e menor dependência dos pais.

Apenas 111 adolescentes (57 do sexo masculino e 54 do feminino) foram inclusos na amostra, pois retornaram o questionário de atividades diárias preenchido, sendo todos os adolescentes pertencentes às escolas municipais do anel central de Curitiba – Paraná.

O termo de consentimento para a participação no estudo foi enviado aos pais ou responsáveis pelos adolescentes, os quais foram informados de todos os procedimentos, tendo total liberdade para interromper a participação em qualquer momento da pesquisa. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Setor Ciências Biológicas da Universidade Federal do Paraná.

Instrumentos e procedimentos

Nível de atividade física diária

O nível de atividade física foi avaliado utilizando o recordativo de gasto energético diário, desenvolvido por Bouchard(16). Este consiste em uma ficha composta por três dias semanais (segunda, terça e sábado), em que são registradas a cada 15 minutos as atividades diárias predominantes da criança, sendo possível estimar o gasto energético diário total por peso corporal (kcal/kg/dia) bem como o nível de atividade física habitual pela média dos três dias do recordativo.

O questionário apresenta reprodutibilidade em crianças a partir de 10 anos de idade (r = 0,91)(26), Guedes(27) em estudo com amostra de adolescentes brasileiros apontaram para uma correlação de r = 0,74 e r = 0,79, confirmando as evidencias no sentido de que instrumentos de auto-recordação podem produzir informações quanto ao nível habitual de atividade física em adolescentes com reprodutibilidade aceitável. O recordativo foi respondido pelo adolescente e preenchido em forma de entrevista com auxílio do avaliador, que estimulava o indivíduo a recordar as atividades desenvolvidas no dia anterior. Através dos valores encontrados calcularam-se o GET, GEat, NAF e o NAFH.

Para a estimativa da taxa metabólica de repouso utilizou-se a formula de Schofield-HW(14) desenvolvida para crianças de 3 a 18 anos de idade que representa.

  • Para meninos TMR = (16,25 x massa corporal) + (1,372 x altura) + 515,5

  • Para meninas TMR = (8,365 x massa corporal) + (4,65 x altura) + 200

Índice de massa corporal (IMC)

Com o objetivo de calcular o IMC, foram mensuradas a massa corporal e estatura. Para a massa corporal foi utilizada uma balança digital (Filizola), com resolução de 100 gramas; todos os avaliados foram mensurados em pé, descalços e vestiam apenas shorts e camiseta. Para a estatura foi utilizada uma fita métrica flexível com escala de medida de 0,1cm fixada verticalmente à parede; os adolescentes foram avaliados descalços e em pé com os calcanhares unidos e encostados à parede, mensurando-se a maior distância entre a região plantar e o vértex utilizando-se de um ângulo reto para a realização do apoio no vértex(28). Com as medidas calculou-se o IMC = massa corporal/estatura(2).

Percentagem de gordura corporal

Para estimar a percentagem de gordura corporal foram mensuradas as dobras cutâneas do tríceps e panturrilha, utilizando um compasso científico da marca Cescorf. A dobra cutânea do tríceps foi localizada no ponto medial entre o acrômio e o olécrano na parte posterior do braço com o braço estendido. A dobra cutânea da panturrilha foi localizada no ponto de maior circunferência com o joelho flexionado a 90 graus. As medidas foram realizadas três vezes; adotou-se como valor a média das três avaliações(28). A equação de Slaughter(29), que leva em consideração tanto o sexo como o estágio de maturação sexual, foi utilizada para estimar o percentual de gordura corporal.

Dessa forma, para o cálculo do percentual de gordura os participantes da amostra se auto-avaliaram conforme a classificação maturacional de Tanner (1962)(30). Compreende-se a identificação do estágio atual de desenvolvimento das características sexuais secundarias dos pêlos pubianos como sugerido por Martin et al.(31) e Bojikian et al.(32), que identificaram uma eficácia da auto-avaliação da pilosidade pubiana sobre a avaliação do desenvolvimento genital e uma satisfatória concordância com a avaliação médica de (0,61 e 0,53) tanto para o sexo masculino como para o feminino, respectivamente(31,32).

Relação cintura/quadril (RCQ)

Utilizou-se uma fita métrica flexível com escala de medida de 0,1cm. O avaliado ficava em pé, sendo-lhe solicitado que mantivesse sua respiração normal. A circunferência da cintura foi determinada de forma que o avaliador circundou a fita no plano horizontal ao nível do ponto omphalion. E o quadril da mesma forma, mas no ponto do trochanterion(28). Calculando-se RCQ = cintura/quadril.

Tratamento estatístico

A estatística descritiva (média e desvio-padrão) foi utilizada para caracterização da amostra, para comparação entre os sexos e foi utilizado o teste t de Student para amostras independentes. Para a determinação do grau de relação entre as variáveis investigadas foi utilizada a correlação de Pearson. O nível de significância para as análises foi estipulado em 0,05.

 

RESULTADOS

Os resultados do teste t indicaram diferenças significativas entre meninos e meninas para a percentagem de gordura corporal (t = 105,28 (1,109) p < 0,001), relação cintura/quadril (RCQ) (t = 100,52 (1,109) p < 0,001), NAFH (t = 100,83 (1,109) p < 0,001), NAF (t = 3,99 (1,109) p < 0,05) e TMR (t = 105,55 (1,109) p < 0,0001), conforme verificado na tabela 1. Todos os avaliados desta amostra se localizaram entre o estágio 2 e 3 de maturação sexual, sendo classificados como púberes(30).

 

 

Os resultados das correlações entre os indicadores de atividade física (IAF) e os indicadores de adiposidade (IA) são apresentados na tabela 2. Observa-se associação significativa entre as variáveis: índice de massa corporal (IMC), percentagem de gordura corporal e a relação cintura/quadril (RCQ) com GET, NAF, TMR e o GEat nos adolescentes de ambos os sexos desta amostra, com ressalva RCQ no sexo feminino.

 

 

DISCUSSÃO

Analisando os resultados da tabela 1, observa-se que as variáveis de massa corporal, estatura e IMC não diferiram entre os sexos, o que contradiz o apresentado na literatura, que determina valores menores aos meninos em comparação com as meninas(33); entretanto, pesquisas recentes têm demonstrado aumento considerável do IMC em adolescentes brasileiros do sexo masculino enquanto apresenta estabilidade no sexo feminino(34). Quanto ao percentual de gordura corporal, as meninas (21,85 ± 7,7) demonstraram valores significativamente mais altos que os meninos (17,43 ± 9,4); essa diferença pode vir a ser explicada em razão de as meninas apresentarem o início do processo maturacional antes que os meninos, sendo que na fase púbere as diferenças sexuais geradas pela maturação propiciam o aumento de acúmulo de gordura nos adipócitos pelas meninas e nos meninos o ganho de massa muscular(35,36); ou, ainda, pelo fato de a equação utilizada para a estimativa do percentual de gordura, apesar de largamente utilizada em estudos brasileiros(37), pode apresentar variação por ter sido desenvolvida a partir de outra população.

Considerando a relação cintura/quadril, os meninos (0,82 ± 0,04) apresentaram valores significativamente maiores que as meninas (0,77 ± 0,05). As discrepâncias dos resultados entre os sexos podem estar relacionadas a dois fatores: a) durante o estirão da adolescência, as taxas de crescimento aceleram-se de forma desigual quanto à idade cronológica; b) existe uma distribuição diferenciada da gordura corporal dos meninos em relação às meninas(36).

A variável do GET desta amostra não apresentou diferenças significativas entre os sexos (1792,69 ± 587,75 meninos e 1675,40 ± 405,09 meninas), corroborando com outros estudos(13,38). Entretanto, Roemmich(23) e Bratteby(15) em estudos realizados com crianças pré-púberes e púberes, através do método de água duplamente marcada, encontraram diferenças significativas entre os sexos; os meninos púberes obtiveram GET superior ao das meninas, fato que os autores atribuíram à alta interação apresentada pela variável maturacional e por os meninos se engajarem mais em atividades físicas de alta intensidade do que as meninas no seu cotidiano.

Já para os valores relativos do gasto energético, no NAFH esta diferença foi significativa, demonstrando que os meninos realizam mais atividades que as meninas (41,66 ± 4,24 e 39,57 ± 3,38kcal/kg/dia) com valor de p < 0,001; contudo, quando esta variável é analisada em valores absolutos, a quantidade de energia despendida, o GET (kcal/dia), aparentemente demonstra valores semelhantes para ambos os sexos. Melanson(39) sugere que este aspecto possa estar relacionado com a maturação do sistema metabólico masculino, que induziria uma diferente utilização dos substratos energéticos gerados em parte pela alta capacidade glicolítica dos homens, em comparação com as mulheres.

Para o NAF a diferença foi significativa entre os sexos, com as meninas desta amostra apresentando valores mais elevados; contudo, os valores de 1,23 e 1,32 para meninos e meninas, respectivamente, assemelham-se aos encontrados por Treuth(11), sendo considerados valores baixos de atividade física. Boreham(21) apresenta resultados favoráveis a ganhos importantes à saúde com valores de NAF de 1,7 com participação em atividades moderadas e indica que adolescentes muito ativos podem apresentar valores acima de 1,9.

Vários autores encontraram resultados semelhantes aos de Boreham(21), sendo que os meninos demonstraram resultados superiores aos das meninas em sua maioria(3,13,38), fato este não comprovado por nosso estudo, provavelmente devido aos garotos desta amostra adotarem hábitos de vida sedentários ou por não estarem sofrendo estímulos suficientes que os façam se engajarem em atividades físicas extracurriculares(40).

Adolescentes com elevado NAF, estimulados pela participação em práticas esportivas, podem alcançar valores entre 2,6 e 3,4(3); por outro lado, baixos níveis de atividade física estão associados a altas percentagens de gordura corporal e à propensão a doenças degenerativas do organismo(13).

A significância encontrada na taxa metabólica de repouso (TMB) em favor dos meninos pode ser explicada devido à quantidade de massa dos órgãos (cérebro, fígado, coração, rins) corresponder a dois terços do metabolismo energético de repouso; mesmo a massa total dos órgãos em relação ao corpo sendo inferior a 6%, o tamanho dos órgãos nos homens é ligeiramente maior do que nas mulheres elevando desta forma a demanda energética masculina na TMR(19).

O gasto energético com atividade física (GEat) não apresentou diferenças significativas entre os sexos (373,06 ± 370,65 meninos e 427,06 ± 307,82 meninas), fortalecendo os achados de outros estudos; contudo, as meninas desta amostra aparentemente estão envolvidas em mais atividades que os meninos, oposto aos dados apresentados em diversos estudos que observaram maior interesse dos meninos pela prática de atividades físicas e a tendência das meninas a adotarem hábitos sedentários(13,20,23). Quanto aos indicadores de atividade física, os resultados apresentados neste estudo vêm reforçar a afirmativa de Twisk(1) de que a quantidade de atividade física na população em geral está em declínio, e que provavelmente isso aconteça da infância para a adolescência, continuando até a fase adulta.

Analisando a tabela 2, podemos identificar que o GET, NAF, TMR e o GEat proporcionam forte correlação com índice de massa corporal (IMC), percentagem de gordura corporal e a relação cintura/quadril (RCQ) em adolescentes nesta faixa etária, com exceção da RCQ feminina, que não foi significativa. Estes resultados estão de acordo com Bracco(20), que identificou que um maior tamanho corporal gera a necessidade de maior quantidade de energia para a manutenção deste corpo ou mesmo para seu deslocamento e que crianças com sobrepeso despendem quantidade de energia maior para realizar atividade física que seus pares não obesos, sendo entretanto a quantidade de tempo despendida com atividade física menor em crianças obesas.

Contudo, para esta amostra de adolescentes o NAFH não apresentou correlação com nenhum dos indicadores de adiposidade no sexo masculino, sendo que apenas a percentagem de gordura corporal foi significativa nas meninas (r = –0,292). Mas a relação negativa apresentada para o IMC e o % gordura corporal nos leva a crer que quanto mais elevado for o NAFH dos adolescentes, menores serão os valores encontrados para estes indicadores.

Moore et al.(41), em seu estudo longitudinal, identificaram que crianças com médias de nível de atividade física habitual elevadas tinham consistentemente menor ganho em IMC e somatório de dobras cutâneas indicando que altos níveis de atividade física durante a infância conduzem a baixa aquisição de gordura corporal durante o início da adolescência. Apesar de ser popularmente acreditado que a redução do gasto energético ou atividade física seja um fator de risco para o ganho excessivo de gordura durante o crescimento em crianças e adolescentes, outros fatores podem estar associados, como a alimentação, as características genéticas do indivíduo.

Em oposição a vários autores, Johnson(42) identificou, em estudo realizado com 115 crianças, entre 5 e 11 anos de idade, que a massa corporal gorda é um fator influenciador no aumento de adiposidade e que a aptidão aeróbia mensurada através do volume máximo de oxigênio (O2max) em esteira ergométrica foi inversamente relacionado com a adiposidade infantil. Quando o aumento de tecido adiposo foi ajustado pelo O2max identificou-se que o aumento do O2max em 0,1L/min poderia resultar em decréscimo de 0,81kg de gordura por massa livre de gordura, porém a TMB, o GET e o GEat não se apresentaram como preditores para a alteração dos indicadores do tecidos adiposos.

Uma possível razão para a falta de clareza em relação à associação entre adiposidade em adolescentes e o gasto energético pode ser o balanço energético positivo necessário para que se tenha o acúmulo desta energia em forma de gordura. Bar-or(43) exemplifica que para se ganhar 4kg de gordura em um ano, necessita-se de um excesso de energia diário equivalente a aproximadamente 80kcal, o que representa uma fatia de pão ou 10 minutos de uma partida de basquete.

O ganho com a prática de atividade física não é o único elemento que reflete a redução do tecido adiposo; fatores como maturação sexual e o tipo de alimentação aparecem como elementos que podem influenciar no desenvolvimento de sobrepeso e obesidade(43) e podem ser agentes influenciadores nos resultados; todavia, estas relações não foram alvos do nosso estudo; a literatura apresenta que a demanda energética negativa gerada pela atividade física e a sua associação com dietas hipocalóricas podem trazer significativas reduções na quantidade de gordura corporal(44).

Podemos concluir que a utilização dos indicadores de nível de atividade física (NAF), gasto energético diário total (GET), gasto energético com atividade física (GEat) e gasto energético de repouso ou taxa metabólica de repouso (TMR) apresentam forte correlação com IMC e % de gordura corporal para adolescentes de ambos os sexos. Sendo que o nível de atividade física habitual (NAFH) apenas apresenta significância para o sexo feminino com relação ao percentual de gordura corporal e que provavelmente uma elevação deste pode influenciar na redução da quantidade de tecido adiposo em meninas.

A possível relação negativa apresentada pelo NAFH aparentemente nos guia à necessidade de novos estudos para podermos entender melhor este indicativo e suas implicações à saúde tanto em crianças como em adolescentes. Atenção especial deve ser dada quanto à interpretação dos resultados deste estudo, pois a simples alteração da quantidade de massa muscular ou tecido adiposo são fatores que influenciam no gasto energético em todos os indicadores utilizados, como demonstram as variáveis de IMC e % de gordura corporal.

Novos estudos acerca dos possíveis fatores que possam alterar e influenciar o gasto energético e sua relação com a adiposidade fazem-se necessários para elucidar o possível desequilíbrio entre as necessidades energéticas com o movimento, sua demanda e os fatores que estimulam a diminuição do tecido adiposo.

Os resultados do presente estudo vêm ressaltar que a utilização destes indicadores de atividade física no acompanhamento e monitoramento dos riscos de desenvolvimento da obesidade possa ser satisfatória e desta maneira proporcionar melhor condição de saúde, facilitando continua manutenção apropriada da massa corporal e/ou gordura corporal em relação às atividades físicas(2,13,23).

Todos os autores declararam não haver qualquer potencial conflito de interesses referente a este artigo.

 

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Endereço para correspondência
Luís Paulo Gomes Mascarenhas
Rua Coração de Maria, 92
Jardim Botânico – 80215-370 – Curitiba, PR, Brasil
Tel.: (41) 262-7574 ou (41) 9122-1394, fax: (41) 362-3653
E-mail: luismsk@ uol.com.br

Recebido em 11/3/05. 2ª versão recebida em 19/5/05. Aceito em 31/5/05.