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Revista Brasileira de Medicina do Esporte

versão impressa ISSN 1517-8692versão On-line ISSN 1806-9940

Rev Bras Med Esporte v.12 n.1 Niterói jan./fev. 2006

https://doi.org/10.1590/S1517-86922006000100008 

ARTIGO ORIGINAL

 

Comparação entre limiar anaeróbio determinado por variáveis ventilatórias e pela resposta do lactato sanguíneo em ciclistas

 

Comparación entre umbral anaeróbico determinado por variables ventilatórias y por la respuesta del lactato sanguíneo en ciclistas

 

 

Alexandre Hideki OkanoI,II,IV; Leandro Ricardo AltimariI,IV; Herbert Gustavo SimõesV; Antonio Carlos de MoraesI,IV; Fábio Yuzo NakamuraI,II,III; Edilson Serpeloni CyrinoI,II,III; Roberto Carlos BuriniVI

IGEPEMENE – Grupo de Estudo e Pesquisa em Metabolismo, Nutrição e Exercício Centro de Educação Física e Desporto (CEFD) – Universidade Estadual de Londrina – Londrina (PR) – Brasil
IIGrupo de Estudo das Adaptações Fisiológicas ao Treinamento Centro de Educação Física e Desporto (CEFD) – Universidade Estadual de Londrina – Londrina (PR) – Brasil
IIICentro de Educação Física e Desporto CEFD – Universidade Estadual de Londrina UEL – Londrina (PR) – Brasil
IVFaculdade de Educação Física, Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) – Campinas (SP) – Brasil
VDepartamento de Educação Física, Universidade Católica de Brasília – Brasília (DF) – Brasil
VICentro de Metabolismo em Exercício e Nutrição, Faculdade de Medicina, UNESP/Botucatu (SP) – Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Muitas investigações têm demonstrado que a coincidência entre os limiares ventilatórios e os limiares que se utilizam da resposta do lactato nem sempre ocorre, sugerindo que não existe relação entre causa e efeito entre os fenômenos. Dessa forma, o presente estudo teve como objetivos comparar e correlacionar os valores de consumo de oxigênio (VO2), potência (W) e freqüência cardíaca (FC) obtidos por protocolos de determinação do limiar ventilatório (LV) e limiar anaeróbio individual (IAT). A amostra foi constituída por oito ciclistas de níveis paulista e nacional (idade: 27,88 ± 8,77 anos; massa corporal: 65,19 ± 4,40kg; estatura: 169,31 ± 5,77cm). O IAT foi determinado iniciando-se com aquecimento de três minutos a 50W com aumentos progressivos de 50W.3min-1 até a exaustão voluntária, com as coletas de sangue aos 20 segundos finais de cada estágio e durante a recuperação. Para a determinação do LV, utilizou-se o mesmo protocolo adotado para a determinação do IAT, porém, sem efetuar as coletas de sangue. O LV foi identificado pelas mudanças da ventilação pulmonar e dos equivalentes ventilatórios de O2 e CO2. O teste t de Student não revelou diferenças estatisticamente significantes em nenhuma das variáveis obtidas. As associações encontradas foram altas e significativas. O VO2 (ml.kg-1.min-1), P (W) e FC (bpm) correspondente ao LV e IAT, e as associações entre as variáveis foram, respectivamente, de: 48,00 ± 3,82 vs 48,08 ± 3,71 (r = 0,90); 256,25 ± 32,04 vs 246,88 ± 33,91 (r = 0,84); 173,75 ± 9,18 vs 171,25 ± 12,02 (r = 0,97). De acordo com os resultados obtidos, pode-se concluir que o IAT e o LV produzem valores semelhantes de VO2, W e FC, o que favorece a adoção do LV por ser um método não-invasivo para determinação do limiar anaeróbio em ciclistas.

Palavras-chave: Limiar anaeróbio. Resposta do lactato sanguíneo. Ciclistas.


RESUMEN

Muchas investigaciones han estado demostrando que la coincidencia entre los umbrales ventilatorios y los umbrales que se usan en la respuesta del lactato ni siempre ocurre, mientras que también se sugiere que no existe una relación causa-efecto entre estos fenómenos. De esta manera, el estudio presente tiene como objetivos comparar y poner en correlación los valores de consumo de oxígeno (VO2), potencia (W) y frecuencia cardíaca (FC) obtenidos por los protocolos de determinación del umbral ventilatorio (UV) y el umbral anaeróbico individual (UAI). La muestra se constituyó de ocho ciclistas de nivel de paulistas y nacionales (de edad: 27,88 ± 8,77 años; de masa corpórea: 65,19 ± 4,40 kg; de estatura: 169,31 ± 5,77 centímetros). UAI fue al principio determinado con un calentamiento de tres minutos a 50 W con aumentos progresivos de 50W.3min-1 hasta el agotamiento voluntario, con colecta de sangre a los 20 segundos finales de cada fase y durante la recuperación. Para la determinación de UV, el mismo protocolo se usó adoptando para la determinación de UAI, sin embargo, sin hacer esta vez las colectas de sangre. UV se identificó por los cambios del ventilación pulmonar y de los equivalentes ventilatórios de O2 y CO2. La prueba t de Student no reveló las diferencias estadisticamente significativas en ninguna de las variables obtenidas. Las asociaciones encontradas eran altas y significantes. VO2 (ml.kg-1.min-1), P (W) y FC (el bpm) correspondiendo a UV y UAI, y las asociaciones entre las variables eran, respectivamente de: 48,00 ± 3,82 contra 48,08 ± 3,71 (el r = 0,90); 256,25 ± 32,04 contra 246,88 ± 33,91 (el r = 0,84); 173,75 ± 9,18 contra 171,25 ± 12,02 (el r = 0,97). De acuerdo con los resultados obtenidos, puede concluirse que UAI y UV producen valores similares de VO2, W y FC, lo que favorece la adopción de UV como un método no-invasivo para la determinación del umbral anaerobio en ciclistas.

Palabras-clave: Umbral anaerobio. Respuesta del lactato sanguíneo. Ciclismo.


 

 

INTRODUÇÃO

Nas últimas décadas, limiares metabólicos têm sido alvo de diversas investigações dentro da fisiologia do exercício, sendo considerados parâmetros extremamente importantes, superando inclusive o consumo máximo de oxigênio para a prescrição da intensidade do treinamento(1-3), controle dos efeitos do treinamento(4,5) e predição de desempenho físico(6-8).

O termo limiar anaeróbio (LAn) foi introduzido por Wasserman e McIlroy(9) e definido como a intensidade de esforço anterior ao aumento exponencial do lactato no sangue em relação aos níveis de repouso. Posteriormente, verificou-se a existência de dois limiares, o que levou Kindermann et al.(2) a introduzirem o termo "transição aeróbia-anaeróbia". O primeiro ponto de transição é identificado como limiar aeróbio (LAe), refletindo a intensidade de exercício correspondente ao início do acúmulo do lactato sanguíneo. O segundo ponto de transição seria denominado de LAn e representa a intensidade de exercício que corresponde ao máximo estado estável de lactato no sangue (MEEL)(10). Os autores sugerem que a primeira transição corresponde ao LAn proposto por Wasserman e McIlroy(9) ou ao limiar ventilatório 1 (LV1)(11). O segundo ponto de transição é considerado o ponto de compensação respiratória(9) ou, ainda, limiar ventilatório 2 (LV2)(11). Essas diferentes terminologias para fenômenos correlatos trouxeram alguma confusão na área de fisiologia do exercício. Para a determinação das intensidades correspondentes ao LAe e LAn, Kindermann et al.(2) adotam concentrações fixas de 2 e 4mmol.l-1 de lactato no sangue, respectivamente, em protocolo incremental de exercício.

Grande parte dos investigadores utilizam concentrações fixas de 4mmol.l-1 de lactato sanguíneo para determinação do MEEL, sendo propostas diversas terminologias para identificar tal fenômeno(2,12-15). Heck et al.(10) justificam a escolha dessa concentração fixa de lactato no sangue (4mmol.l-1) em função de a maioria dos sujeitos apresentarem nessa intensidade de exercício a capacidade máxima de remoção do lactato produzido. Entretanto, no mesmo estudo, verifica-se que o MEEL pode ocorrer em concentrações de lactato no sangue variando entre 3,1 e 5,5mmol.l-1.

Resultados semelhantes foram verificados por Stegmann et al.(16), que encontraram valores individuais diferentes de lactato sanguíneo na identificação do MEEL em teste incremental, que variavam entre 1,4 e 7,5mmol.l-1. Tendo em vista essa grande variabilidade interindividual nos resultados encontrados, os autores introduziram o termo limiar anaeróbio individual (IAT), que constitui um método de identificação do MEEL de forma a não respeitar o critério de concentração fixa de lactato, podendo ser empregado durante a corrida, no cicloergômetro, no remoergômetro, na avaliação do desempenho, prescrição e controle do treinamento(3,4,17-25).

Muitos pesquisadores têm investigado a relação entre o IAT e outros protocolos para identificação do MEEL, porém, nesses estudos, a resposta do lactato sanguíneo foi determinada por método direto(20,22,23,26). A determinação da resposta do lactato sanguíneo por método direto exige coletas de sangue programadas; assim, torna-se necessária a utilização de métodos não-invasivos para identificação desse fenômeno.

Alguns estudos foram desenvolvidos envolvendo métodos não-invasivos para determinação do IAT. Contudo, não foi encontrada coincidência na intensidade de exercício obtida pelo IAT quando comparada com a potência crítica(19) e o ponto de deflexão da freqüência cardíaca proposta por Conconi(27).

O método não-invasivo que permite a identificação do MEEL durante o exercício de cargas incrementais envolve a estimativa do LV. No entanto, a coincidência entre LV e os limiares que se utilizam do lactato nem sempre ocorre, sugerindo que não existe uma relação de causa-efeito entre os fenômenos. Os achados dos estudos que têm analisado a relação entre o IAT e o LV são bastante controversos(11,28,29).

Com base nesses fatos, os objetivos do presente estudo foram: estabelecer comparações entre os valores de consumo de oxigênio (O2), intensidade (W) e freqüência cardíaca (FC) obtidos durante a realização de protocolos de determinação do IAT e LV em atletas de ciclismo e, posteriormente, verificar as possíveis associações entre os parâmetros obtidos pelos dois métodos.

 

MÉTODOS

Indivíduos

Fizeram parte deste estudo oito atletas de ciclismo, níveis paulista e nacional, do sexo masculino que competiam nas categorias Bike Speed (N = 4) e Mountain Bike (N = 4). As características gerais da amostra são apresentadas na tabela 1. Como pré-requisitos para admissão no experimento, os atletas deveriam ter experiência mínima em competições regionais ou estaduais de dois anos. Todos os sujeitos, após examinados por um médico, receberam informações sobre as finalidades do estudo e os procedimentos aos quais seriam submetidos e assinaram consentimento livre e esclarecido. O estudo foi desenvolvido no CeMENutri (Centro de Metabolismo em Exercício e Nutrição) e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Medicina/UNESP de Botucatu-SP.

 

 

Controle dietético

No sentido de o experimento não sofrer qualquer tipo de interferência nos resultados do teste, no que se refere à disponibilidade de substratos energéticos(30,31), os atletas tiveram acompanhamento nutricional durante o estudo. A partir da aplicação do inquérito alimentar (recordatório de 24 horas e hábitos alimentares), a equipe de nutricionistas elaborou dietas comuns aos hábitos alimentares dos sujeitos investigados. Os indivíduos foram orientados a seguir essa dieta durante todo o período do experimento. Além disso, foi elaborado um café da manhã padronizado, a ser ingerido duas horas antes da realização dos testes. Os indivíduos foram orientados, também, a não consumir produtos cafeinados nas 24 horas precedentes aos testes, visto que essa substância pode influenciar nos resultados(32). As informações sobre a quantidade e a qualidade dos alimentos ingeridos foram processadas por meio do programa de análise nutricional Virtual Nutri, versão 1.0.

Delineamento experimental

Na primeira etapa do experimento, os indivíduos compareceram ao laboratório para realização do exame médico, medidas antropométricas para caracterização da amostra e entrevista com as nutricionistas, quando foi orientada a conduta alimentar a ser seguida durante o período do experimento. Além disso, foram agendados os horários em que cada atleta deveria comparecer ao laboratório na etapa seguinte. Posteriormente, os sujeitos realizaram um teste pré-experimental, no intuito de familiarizar-se com o equipamento e o protocolo.

A partir da segunda etapa do experimento, os indivíduos compareceram ao laboratório nos horários predefinidos, onde foram submetidos ao teste para determinação do IAT e LV2, os quais foram realizados aleatoriamente. Todos os testes (pré-experimental, IAT e LV2) foram aplicados com intervalo de 72 horas entre os mesmos. Os indivíduos foram instruídos a não realizar atividades físicas 24 horas antes de cada teste, para evitar interferências.

Ergoespirometria

Os testes incrementais foram realizados em cicloergômetro eletromagnético (Corival 400, Quinton®, EUA). As variáveis ventilatórias foram medidas continuamente em sistema ergoespirométrico de circuito aberto (QMCTM 90 Metabolic Cart, Quinton®, Bothell, EUA) utilizando-se da técnica breath-by-breath. No início de cada teste foi efetuada a calibração usando seringa de calibração de três litros Hans Rudolf 5530 e uma mistura de gás de 26% de O2 com balanço de N2 e 4% de CO2 e 16% O2 (White Martins Praxair, Inc., São Paulo, Brasil).

A análise foi processada em computador IBM mediante cálculos da ventilação minuto (VE), do O2, da produção de dióxido de carbono (CO2) e da relação entre produção de dióxido de carbono e consumo de oxigênio (R).

A FC foi mensurada por um cardiofreqüencímetro (Vantage NV, Polar Electro OY, Finlândia) com registros a cada cinco segundos, descarregados em software (Polar Precision PerformanceTM, Finlândia) para posterior análise. A FC correspondente às diferentes cargas foi determinada a partir do registro dos valores dos últimos cinco segundos de cada estágio. As variáveis de temperatura ambiente e umidade relativa do ar foram mantidas entre 21 e 24°C e 40 e 60%, respectivamente.

IAT

Para determinação do IAT, inicialmente os indivíduos realizaram aquecimento de três minutos a uma carga de 50W e em seguida iniciou-se o teste incremental com aumento de carga de 50W a cada três minutos, mantendo cadência de 70 revoluções por minuto. Os sujeitos foram incentivados verbalmente durante o teste incremental para prosseguir no exercício até a exaustão voluntária. A coleta de sangue foi realizada no lóbulo da orelha em situação de repouso (pré-esforço), aos 20 segundos finais de cada carga até a exaustão, e aos três, cinco e dez minutos após o termino do teste. A partir da construção de um gráfico apresentando os valores de lactato sanguíneo em cada estágio do teste incremental e durante a recuperação passiva (figura 1), determinou-se o IAT de acordo com os procedimentos proposto por Stegmann et al.(16).

 

 

LV2

O LV foi identificado mediante aplicação do mesmo protocolo utilizado para determinar o IAT, porém, nessa situação, não foram realizadas as coletas de sangue. O LV2, ou ponto de compensação respiratória, foi identificado em duplicata mediante o uso do equivalente ventilatório de oxigênio (VE/O2), equivalente ventilatório de dióxido de carbono (VE/CO2), considerando o aumento abrupto do VE/CO2, de acordo com os critérios propostos por McLellan(11). A figura 2 ilustra a identificação dos limiares; contudo, neste estudo foi analisado somente o LV2.

 

 

Análises bioquímicas

Foram coletados 25µl de sangue do lóbulo da orelha através de capilares de vidro heparinizados, previamente calibrados, sendo, imediatamente transferidos para microtúbulos de polietileno tipo "Ependorf" de 1,5ml, contendo 50µl de solução de fluoreto de sódio 1%. Em seguida, as amostras foram armazenadas a -70oC. A análise do lactato foi realizada através de analisador eletroenzimático (YSL 2300 STAT, Yellow Spring Co., EUA), sendo os valores expressos em mmol.l-1.

Tratamento estatístico

Os resultados foram agrupados em valores de média e desvio-padrão utilizando-se do pacote estatístico Statistica 6.0® (Statsoft Inc., EUA). Mediante a aplicação do teste de Shapiro Wilk verificou-se que as distribuições dos dados eram normais. Assim, as variáveis obtidas nos protocolos foram contrastadas a partir do teste t de Student para amostras dependentes. Coeficiente de correlação linear de Pearson foi empregado para verificar as associações entre as variáveis obtidas nos protocolos de determinação do IAT e LV2. O nível de significância adotado para todas as análises foi de 1%.

 

RESULTADOS

A tabela 1 apresenta as características gerais da amostra.

Na tabela 2 são apresentados os valores de O2max, intensidade no momento da exaustão (WO2max) e FCmax obtidos nos dois protocolos administrados neste estudo (IAT e LV2). Não foram encontradas diferenças significativas quando comparadas as variáveis acima descritas no momento da exaustão para os testes de IAT e LV2. Na mesma tabela, podem-se observar os valores de lactato sanguíneo na intensidade correspondente ao IAT e à carga máxima.

 

 

Os resultados do O2, W e FC correspondentes ao LV2 e IAT, são apresentados na tabela 3. O teste t de Student não identificou diferenças significantes entre os valores de O2, W e FC obtidos nos protocolos de LV2 e IAT.

 

 

A regressão linear entre o O2, a FC e W obtidos pelos dois métodos são apresentadas nas figuras 3, 4 e 5, respectivamente. As associações foram altas e significativas em todas as variáveis analisadas.

 

 

 

 

 

 

DISCUSSÃO

O IAT é definido como a mais alta taxa metabólica em que a concentração do lactato sanguíneo é mantida em estado de equilíbrio durante exercício prolongado e a eliminação do lactato sanguíneo é máxima, sendo equivalente à taxa de difusão do compartimento muscular para o sangue(16). Portanto, pode-se considerar que o protocolo do IAT é capaz de determinar a intensidade correspondente ao MEEL.

Nesse sentido, diversos estudos têm encontrado o MEEL durante teste retangular de longa duração na intensidade correspondente ao IAT, evidenciando essa relação(4,20,23,26,33).

Diferente do limiar de concentração fixa de 4mmol.l-1 de lactato sanguíneo, o protocolo de IAT considera o comportamento individual do lactato na ocorrência do segundo ponto de transição aeróbia-anaeróbia durante um teste de cargas progressivas. No presente estudo, a concentração do lactato sanguíneo correspondente ao IAT foi em média de 3,44mmol.l-1, apresentando uma variação interindividual de 1,9 a 5,0mmol.l-1. Esses resultados confirmam os achados de Stegmann et al.(16) e Stegmann e Kindermann(26), que encontraram variação de 1,4-7,5 e 1,8-6,1mmol.l-1 de lactato sanguíneo, respectivamente.

Com relação ao LV2, a literatura tem apontado que esta variável, assim como o IAT, pode ser considerada um indicador do MEEL(34-36). Dessa forma, teoricamente, as intensidades obtidas nos protocolos de determinação do IAT e do LV2 deveriam coincidir. Os achados do presente estudo confirmam essa hipótese. Embora a intensidade do LV2 seja 3,8% superior em relação à do IAT, essa diferença não foi estatisticamente significante. Além disso, os coeficientes de correlação entre as variáveis obtidas pelos dois métodos foram de r = 0,84 a r = 0,97. Esses resultados sugerem que quando a finalidade é classificar os sujeitos quanto à capacidade aeróbia, parece não existir interferência do protocolo utilizado.

Diversos estudos têm evidenciado estreita relação entre o LAn determinado por concentrações fixas de lactato sanguíneo e pelo método ventilatório(35,37-39). No entanto, poucos estudos têm analisado a relação direta entre o IAT e os limiares ventilatórios(11,28,29).

McLellan(11), em uma amostra de sujeitos não-treinados, comparou o LV2, IAT e LAn correspondente a 4mmol.l-1 obtidos em protocolos administrados no cicloergômetro. O critério adotado para identificar o LV foi a mudança do padrão da resposta do VE/CO2 acima da ocorrência do LV1. O autor verificou que os valores de IAT foram estatisticamente inferiores aos observados nos demais métodos.

Dickhuth et al.(28), empregando testes incrementais na esteira, analisaram a relação entre a reprodutibilidade das intensidades do IAT e LV determinado pelo método V-Slope (LVV-Slope). Os autores encontraram alta correlação (r = 0,97; p < 0,01), sendo o IAT cerca de 7-8% superior aos valores do LV.

McNaughton et al.(29) compararam diversos métodos de determinação do LAn e, posteriormente, submeteram os sujeitos a um teste contínuo até a exaustão voluntária na intensidade obtida por cada método. A intensidade de LVV-Slope superou em 13% os valores encontrados no IAT. Contudo, essas diferenças não foram estatisticamente significantes. Utilizando a intensidade do LV, os sujeitos conseguiram permanecer por 14 minutos no teste submáximo. Já quando se exercitaram na intensidade do IAT, o tempo do teste foi praticamente o dobro, alcançando por volta de 28 minutos. Esses achados indicam a necessidade de uma análise criteriosa do significado de cada limiar, sobretudo quando o propósito for a prescrição do treinamento.

Além de ser reduzido o número de estudos desenvolvidos em torno da comparação entre o IAT e os limiares ventilatórios, os resultados são bastante conflitantes. Possivelmente, a discrepância nos achados pode estar atrelada aos critérios adotados para determinação dos limiares ventilatórios, às características dos sujeitos estudados, ou ainda à utilização de diferentes tipos de exercício e/ou protocolos (intensidade de incremento da carga e duração dos estágios).

Inicialmente, os critérios adotados para identificação dos limiares ventilatórios eram os pontos de quebra da VE em relação ao O2. Posteriormente, além do critério citado anteriormente, foi sugerido o uso de outras variáveis como VE/O2, VE/CO2 e R(40,41). Basicamente, o que se procura identificar durante um protocolo incremental de cargas é o momento em que ocorre um aumento do VE/O2 e da pressão de O2, sem alterações no VE/CO2 e na pressão de CO2. Para alguns autores, essa intensidade corresponde ao LV1(11). A partir desse ponto, o aumento na intensidade de exercício acarretará acidose metabólica, resultando em diminuição do pH e, conseqüentemente, em aumento no VE/CO2 e na pressão de CO2. Esse segundo ponto é considerado o LV2(11), ou ponto de compensação respiratória(9).

Com relação à condição física do sujeito, os mecanismos envolvidos na ocorrência do LAn parecem ser os mesmos tanto nos atletas quanto nos indivíduos não-treinados. Contudo, o ponto onde ocorre o fenômeno se diferencia entre eles(37). Isso pode ser explicado em função da variação na capacidade de difusão e/ou remoção do lactato produzido entre os diferentes segmentos(42).

Outro aspecto importante que não pode ser desconsiderado diz respeito ao protocolo adotado para determinação dos limiares ventilatórios. O protocolo ideal é aquele que permite ao investigador observar o ponto de inflexão do VE/O2 e a região do tamponamento isocápnico (aumento do VE/O2 sem modificações do VE/CO2). Assim, Davis(43) sugere a utilização de protocolos incrementais com estágios de um minuto de duração. Neste estudo, o protocolo empregado para determinar o LV foi semelhante ao adotado para identificação do IAT, ou seja, a duração dos estágios foi de três minutos. De acordo com McLellan(11), esse segundo limiar parece não sofrer influência da duração dos estágios (1, 3 ou 5 minutos).

Como se pode observar, é grande o número de critérios e terminologias utilizados para identificação dos limiares metabólicos. Assim, é fundamental observar criteriosamente o protocolo que foi adotado para determinação da resposta do lactato sanguíneo, sobretudo, quando o intuito for a prescrição da intensidade do treinamento.

É importante destacar que uma das limitações do presente estudo está relacionada à amostra reduzida. Nesse sentido, recentemente, Stone et al.(44) apontaram para a necessidade da distinção entre os conceitos de Ciência do Exercício e de Ciência do Esporte. De modo geral, encontram-se na literatura inúmeras publicações relacionadas à Ciência do Exercício; no entanto, existe uma carência de publicações relacionadas ao fenômeno desporto propriamente dito, ou seja, à Ciência do Esporte, entendida como aquela desenvolvida com o objetivo de proporcionar o incremento da performance desportiva através da aplicação de métodos e princípios científicos para avaliação, controle e prescrição do treinamento(44).

 

CONCLUSÃO

Com base nos resultados encontrados neste estudo, podemos concluir que os protocolos de determinação do IAT e LV fornecem valores de O2, intensidade e FC semelhantes, apresentando, ainda, altas correlações entre essas variáveis, o que favorece a adoção do LV por ser um método não-invasivo para determinação do limiar anaeróbio em ciclistas.

 

AGRADECIMENTOS

Agradecemos ao CNPq e à FAPESP pelo apoio.

 

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Endereço para correspondência:
Alexandre Hideki Okano
Unicamp – Universidade Estadual de Campinas, Faculdade de Educação Física – Departamento de Ciências do Esporte, Av. Érico Veríssimo, 701, Caixa Postal 6134 – 13083-851 – Campinas, SP, Brasil
E-mail: ahokano@fef.unicamp.br

Recebido em 3/8/04. Versão final recebida em 25/7/05. Aceito em 5/9/05.

 

 

Todos os autores declararam não haver qualquer potencial conflito de interesses referente a este artigo.

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