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Revista Brasileira de Medicina do Esporte

Print version ISSN 1517-8692

Rev Bras Med Esporte vol.12 no.2 Niterói Mar./Apr. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S1517-86922006000200007 

ARTIGO ORIGINAL

 

Associação entre estado nutricional e atividade física em escolares da Rede Municipal de Ensino em Corumbá – MS

 

La asociación entre el estado nutricional y la actividad física en escolares de la Red Municipal de Ensino en Corumbá – MS

 

 

Silvia Beatriz Serra BarukiI; Lina Enriqueta Frandsen Paez de Lima RosadoII; Gilberto Paixão RosadoII; Rita de Cássia Lanes RibeiroII

IMestre em Ciência da Nutrição, Universidade Federal de Viçosa-MG
IIProfessor do Departamento de Nutrição e Saúde, Universidade Federal de Viçosa-MG

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

O sedentarismo é fator de risco para o desenvolvimento de sobrepeso e obesidade infantil, condições que se associam à dislipidemia, hipertensão arterial e resistência insulínica, entre outras alterações. O objetivo deste estudo foi avaliar o estado nutricional e a associação com o padrão de atividade física em escolares da Rede Municipal de Ensino de Corumbá (MS). Foi realizado estudo analítico transversal em uma amostra de 403 escolares, com idade entre sete e 10 anos, no qual se consideraram com risco de sobrepeso e sobrepeso as crianças com percentis de IMC < 85 e < 90 e < 90, respectivamente. O índice de atividade física foi determinado por meio de questionário elaborado especificamente para o estudo, obtendo-se dados sobre a duração (minutos), intensidade (equivalente metabólico) e gasto calórico (kcalorias) das atividades físicas ativas e sedentárias. Verificou-se prevalência de 6,2% e 6,5% para risco de sobrepeso e sobrepeso, respectivamente, com prevalência maior nas meninas do que nos meninos. A maioria das atividades físicas realizadas pelas crianças foi leve (< 3 METs) e moderada (3 a 6 METs) e nenhuma atividade física vigorosa (> 6 METs) foi registrada. Quanto maior a idade, menor o tempo despendido nas atividades físicas ativas. Constatou-se que crianças eutróficas são mais ativas, praticam atividades físicas mais intensas e gastam menos tempo assistindo à televisão e jogando videogames do que as crianças com sobrepeso. Os dados evidenciam a importância em promover mudanças no estilo de vida com a adoção de hábitos saudáveis, desde a infância, e a sua manutenção por toda a vida. Crianças ativas favorecem uma população adulta também ativa e saudável contribuindo, conseqüentemente, para a redução da incidência de morbidade e mortalidade na idade adulta.

Palavras-chave: Estado nutricional. Atividade física. Composição corporal. Sobrepeso.


RESUMEN

El sedentarismo es el factor de riesgo principal para el desarrollo de sobrepeso y la obesidad infantil, creando condiciones que asocian la dislipidemia, hipertensión arterial y la resistencia a la insulina, entre otras alteraciones. El objetivo de este estudio fue el de evaluar el estado nutritivo y la asociación con un modelo de actividad física en los escolares de la Red Municipal de Ensino en Corumbá (MS). Se realizó un estudio analítico que fue cumplido en una muestra de 403 escolares, con edades entre 7 y 10 años considerando riesgo de sobrepeso y sobrepeso los niños con percentil de CMI < 85 y < 90 y < 90, respectivamente. El índice de actividad física fue medido a través de una encuesta elaborada específicamente para este estudio, obteniéndose los datos sobre la duración (minutos), intensidad (equivalente metabólico) y el gasto calórico (el kcalorias) de las actividades físico en los activos y los sedentarios. Se verificó un predominio de 6,2% y 6,5% para el riesgo de sobrepeso y sobrepeso, respectivamente, con el predominio más grande en las muchachas que en los muchachos. La mayoría de las actividades físicas lograda por los niños eran ligeras (< 3 METs) y moderadas (3 a 6 METs) aún así, cualquier actividad física vigorosa (> 6 METs) fue registrada. Cuanto más grande la edad, más pequeño el tiempo gastato en las actividades físico activas. Se verificó que los niños eutróficos son más activos, que practican las actividades físicas más intensas y gastan menos tiempo asistiendo a la televisión y jugando con video-juegos que los niños con el sobrepeso. Los datos evidencian la importancia de la promoción de los cambios en el estilo de vida con la adopción de hábitos saludables, desde la niñez, y el mantenimiento de la misma para una vida. Los niños activos también favorecen una población adulta contribuyendo a una vida activa y saludable, por consiguiente, para la reducción de la incidencia del morbilidad y mortalidad en la edad adulta.

Palabras-clave: Actividad estatal. Actividad físico nutritiva. Composición corporal. Sobrepeso.


 

 

INTRODUÇÃO

O sedentarismo tem papel importante no desenvolvimento de sobrepeso e obesidade infantil(1-3): aumenta os níveis de gordura corporal(4,5) e expõe crianças obesas a um risco maior de hipercolesterolemia (aumento nos níveis séricos de LDL-colesterol), em comparação com crianças não obesas(6). Presente em idade precoce, a obesidade contribui para aumentar a prevalência de morbidade e mortalidade em adultos(7).

A atividade física é fator protetor contra a obesidade e sobrepeso. Crianças mais ativas apresentam menor percentual de gordura corporal(8) e menores valores de índice de massa corporal (IMC)(9). Crianças obesas, comparadas com crianças não obesas, são menos ativas e participam menos de atividades moderadas e/ou intensas, com predomínio das atividades de baixa intensidade(10,11). No entanto, se considerarmos que a chance de uma criança obesa ser pouco ativa é duas vezes maior do que a criança de peso normal(12), reforça-se a hipótese de que a gordura corporal pode determinar o nível de atividade física em crianças obesas(2) e dificultar o controle do excesso de gordura corporal. Ou seja, essas crianças são menos ativas porque são obesas e não simplesmente são obesas porque são menos ativas. Porém, vale ressaltar a importância da prática de atividade física, já que crianças que são ativas desde cedo têm maior probabilidade de permanecer ativas quando adultas(9).

Combater o sedentarismo é o enfoque principal nas intervenções direcionadas à criança no tratamento e controle da obesidade, sendo necessário o levantamento de dados que fundamentem a aplicação de políticas educacionais adequadas à população. O objetivo deste estudo foi avaliar o estado nutricional e a associação com o padrão de atividade física em escolares de sete a 10 anos de idade, da Rede Municipal de Ensino de Corumbá (MS).

 

METODOLOGIA

Foi realizado estudo analítico do tipo transversal com 403 escolares de sete a 10 anos de idade, de ambos os sexos, de 1ª a 4ª séries da Rede Municipal de Ensino de Corumbá (MS), que, segundo a Secretaria Municipal de Educação, possui 14 escolas localizadas na zona urbana e 5.074 escolares. A escolha das escolas e dos alunos foi aleatória. A cidade foi subdividida em quatro regiões de acordo com a sua localização geográfica: três na periferia e uma na região central da cidade, na qual observou-se uma população com melhor poder aquisitivo do que nas outras três regiões. Em cada região foi sorteada uma escola, totalizando quatro escolas. O mesmo procedimento foi adotado na escolha das turmas. Em cada escola a pesquisa foi realizada em uma turma de cada série escolar (1ª, 2ª, 3ª e 4ª), formando um grupo de quatro turmas por escola. O número de alunos para cada escola sorteada foi representativo do número de alunos matriculados na região.

O projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade Federal de Viçosa. Antes de iniciar a coleta de dados, a direção da escola e os pais ou responsáveis pelas crianças foram informados sobre os objetivos e a utilidade da pesquisa. A participação das crianças foi voluntária e com autorização dos pais ou responsáveis, conforme as Diretrizes Regulamentadoras de Pesquisa Envolvendo Seres Humanos, do Conselho Nacional de Saúde(13). A coleta de dados só se iniciou após prévio consentimento das crianças e dos pais ou responsáveis e foi realizada num período total de quatro meses, em dois momentos: durante os meses de outubro e novembro de 2003 foram avaliadas duas das quatro escolas selecionadas para o estudo e nos meses de fevereiro e março de 2004, as outras duas escolas restantes. Para cada escola o tempo médio gasto foi de quatro a cinco semanas.

O tamanho da amostra foi determinado segundo proposta de Lwanga e Lemeshow(14), com freqüência máxima esperada de sobrepeso na faixa etária a ser estudada (sete a 10 anos) igual a 10%, tendo como referência recentes estudos nacionais realizados por Balaban e Silva(15), Abrantes et al.(16) e Leão et al.(17). O intervalo de confiança adotado foi de 95% e a amostra mínima estabelecida para o estudo foi de 140 crianças.

As medidas antropométricas foram realizadas na escola. O peso corporal (kg) foi determinado em balança digital eletrônica. Para a aferição da estatura (cm) utilizou-se o estadiômetro. A circunferência de cintura (cm) foi medida ao redor da menor curvatura localizada entre a crista ilíaca e as costelas, com fita métrica inextensível(18,19). As pregas cutâneas tricipital (PCT) e subescapular (PCSE) foram obtidas com utilização de caliper Lange (± 1mm). As técnicas para a obtenção das medidas antropométricas foram descritas por Jelliffe(20). O percentual de gordura (%G) foi estimado a partir do somatório das duas pregas cutâneas citadas, usando a equação preditiva proposta por Lohman (1986) e utilizada por Cintra et al.(21): %G = 1,35 (tríceps + subescapular) 0,012 (tríceps + subescapular)2 C, onde C é uma constante diferenciada pela idade e sexo. No sexo masculino, C é igual a 3,4 (sete aos nove anos de idade) e 4,4 (10 anos de idade); no sexo feminino, esses valores correspondem a 1,4 e a 2,4, respectivamente. Para prevalência de obesidade quanto ao %G, utilizou-se o ponto de corte maior do que 30%, de acordo com a definição sugerida por Cintra et al.(21). A classificação do estado nutricional foi determinada pela curva revisada de IMC/idade do National Center for Health Statistics (NCHS)(22), de acordo com os pontos de corte: baixo peso para percentil < 5; eutrofia para percentil > 5 e < 85; risco de sobrepeso para percentil > p 85 e < p 95; e sobrepeso para percentil > p 95.

O índice de atividade física foi determinado a partir de um questionário baseado em diferentes questionários de atividade física(23), objetivando registrar as atividades físicas durante uma semana habitual. São elas: deslocar-se para a escola a pé ou de bicicleta, brincar, praticar exercícios físicos formais (natação, balé, futebol, etc.), realizar serviços domésticos, horas de sono durante o dia e à noite, assistir à televisão e/ou jogar videogame, estudo e/ou leitura e o tempo gasto na escola (sala de aula, recreio e aulas de educação física). O questionário foi aplicado às mães das crianças no mesmo período em que se efetuaram as medidas antropométricas, em momentos separados: as crianças durante o horário de aulas e as mães em horário predeterminado e de acordo com a sua disponibilidade. Apenas 20% das mães não responderam ao questionário.

As atividades foram classificadas de acordo com o seu equivalente metabólico (MET), conforme Compêndio de Atividades Físicas(24,25) e avaliadas quanto à duração (minuto/dia) e à intensidade (METs/dia). Para a unidade minuto/dia, somou-se o tempo gasto durante os sete dias da semana e posteriormente calculou-se a média em minuto/dia. A partir desse resultado, multiplicou-se o valor de MET por atividade para se obter a unidade METs/dia para cada atividade física do questionário. Com as informações quanto à duração (minuto/dia) e o valor em METs/dia para cada atividade, e considerando que 1 MET corresponde a 1kcal/kg/hora, estimou-se o gasto energético diário (kcal/dia) em relação às atividades registradas, aplicando-se a seguinte equação(25,26):

A partir desses resultados, as atividades foram subdividas em dois novos grupos: atividade física total (AFT) e atividade física específica (AFE). Para a AFT, foram consideradas todas as atividades registradas pelo questionário. Para a AFE consideraram-se apenas as atividades que expressavam melhor o estilo de vida das crianças e que as diferenciavam: deslocar-se para a escola (a pé ou de bicicleta), brincar e/ou praticar exercícios físicos formais e assistir à televisão e/ou jogar videogame.

Quanto ao tipo de atividade categorizada pelo seu MET específico, as atividades físicas foram agrupadas de acordo com a classificação proposta por Pate et al.(27): atividade leve (< 3 METs ou < 4kcal/min), atividade moderada (3 a 6 METs ou 4 a 7kcal/min) e atividade vigorosa (> 6 METs ou > 7kcal/min).

As análises estatísticas foram realizadas nos programas Epi-Info 6.0, SAEG e SAS. Calculou-se a razão de prevalência, com intervalo de confiança (IC) de 95% para as associações entre IMC e sexo. As correlações de Pearson (r) foram realizadas entre as variáveis de atividade física e as medidas antropométricas. Efetuou-se a análise exploratória tendo como variável independente o estado nutricional e como variáveis dependentes a atividade física e as medidas antropométricas, em dois grupos: masculino e feminino. Posteriormente foi aplicado o teste de Tukey para comparação entre as médias. Num segundo momento adotaram-se como variáveis independentes o estado nutricional, a escola e o sexo. A idade foi considerada covariável contínua; e variável dependente a atividade física específica. Para os efeitos significantes foi aplicado, nas médias, o teste t de Student, sendo que foram ajustadas pelo método de quadrados mínimos. Para as variáveis que apresentaram efeito significante em função da idade, foi estimada a equação de regressão linear. Para todas as análises fixou-se em 5% o nível de rejeição da hipótese de nulidade (p < 0,05).

 

RESULTADOS

Dos 403 escolares, 54,1% eram do sexo masculino (218) e 45,9% do sexo feminino (185), com média de idade igual a 8,8 ± 1,12 anos. Verificou-se prevalência de 12,7% da população acima do peso (6,2% com risco de sobrepeso e 6,5% com sobrepeso), com prevalência 39% maior no sexo feminino do que no masculino; 78,2% das crianças estavam eutróficas e 9,2% estavam abaixo do peso. Constatou-se que 9,4% das crianças (n = 38) estavam com percentual de gordura corporal maior do que 30%, sendo 60,5% (n = 23) do sexo feminino e 39,5% (n = 15) do sexo masculino, sem diferenças estatisticamente significantes entre os sexos, mas com valores maiores nas meninas do que nos meninos. A média do %G e da circunferência de cintura (CC) aumentou progressivamente e com diferenças estatisticamente significantes entre as classes de estado nutricional (tabela 1).

 

 

O %G teve forte correlação com o IMC e a CC em ambos os sexos e no grupo como um todo (tabela 2). Houve fraca correlação entre %G, IMC, CC e as variáveis de atividade física, tanto na duração (minuto/dia) como na intensidade (METs/dia) das atividades, evidenciando correlação negativa com as atividades físicas ativas e correlação positiva com as atividades físicas sedentárias (televisão e/ou videogame) (tabela 3).

 

 

 

 

Verificou-se, nas atividades físicas ativas (deslocar-se para a escola e brincar e/ou praticar exercícios formais), média igual a 2,6 horas/dia no sexo masculino e 2,4 horas/dia no sexo feminino. Nas atividades físicas sedentárias (assistir à televisão e/ou jogar videogame), a média foi igual a 2,6 horas/dia e 2,5 horas/dia, em meninos e meninas, respectivamente. As atividades físicas praticadas pelas crianças foram, na maioria, atividades leves. Houve poucas atividades moderadas e nenhuma atividade física vigorosa.

As crianças eutróficas deslocaram-se mais do que as crianças com sobrepeso (tabela 4). Não houve diferença significante em relação ao METs/dia e o tempo destinado à atividade de se deslocar (minuto/dia) foi mais significante do que o seu gasto energético, entre as classes de estado nutricional.

 

 

Nas atividades de brincar e/ou praticar exercícios formais, verificou-se diferença significante apenas no gasto calórico (kcal/dia) em relação ao estado nutricional (tabela 5). Os meninos apresentaram média de gasto energético maior do que as meninas (232,18kcal/dia e 211,78kcal/dia respectivamente, com p < 0,05), o que pode ser explicado tanto pelo peso corporal maior como pela intensidade (METs/dia), já que os meninos apresentaram média de METs/dia maior do que as meninas (436,98 e 380,69 respectivamente e p < 0,01). E como não houve efeito do sexo em minuto/dia, conclui-se que os meninos praticaram atividades de maior intensidade do que as meninas.

 

 

Assistir à televisão e/ou jogar videogame apresentou diferença significante apenas em relação à duração (minuto/dia). As crianças eutróficas gastaram menos tempo nessa atividade do que as crianças com sobrepeso (tabela 6).

 

 

DISCUSSÃO

Apesar da utilização de diferentes pontos de corte, os valores encontrados para a prevalência de excesso de peso encaixam-se no contexto das evidências científicas. Em crianças de cinco a 10 anos de idade, em escolas públicas na Bahia, verificou-se uma prevalência de sobrepeso (IMC > 85p) e obesidade (IMC > 95p), segundo WHO (1995) e adotando-se os pontos de corte propostos por Cole et al. (2000), igual a 6,5% e 2,7%, respectivamente(28). Leão et al.(17) identificaram em crianças da mesma faixa etária, de escolas particulares e públicas na cidade de Salvador (BA), prevalência total de obesidade (IMC > 95p) igual a 15,8%, sendo 30% nas escolas particulares e 8% nas públicas. Abrantes et al.(16) verificaram maior prevalência de obesidade (escore z maior que 2 para o índice de peso/estatura) em crianças de zero a 10 anos, da região Sudeste (11,9%), em relação às crianças da região Nordeste (8,2%).

Nas correlações verificadas entre %G, IMC e CC, Giugliano e Melo(29) evidenciaram resultados semelhantes, em escolares de Brasília (seis a 10 anos), com forte correlação do IMC com o %G (r = 0,84 nos meninos e r = 0,75 nas meninas) e do IMC com a CC (r = 0,88 nos meninos e r = 0,89 nas meninas). A relação inversa entre atividade física e composição corporal reforça a importância da CC, juntamente com o IMC.

A correlação negativa com as atividades físicas ativas (deslocar-se para a escola e brincar e/ou praticar exercícios formais) e a correlação positiva com as atividades físicas sedentárias (televisão e/ou videogame) mostram que as crianças mais ativas têm menor percentual de gordura e menores valores de IMC(2,4,5,9). A média de tempo gasto nas atividades físicas ativas concorda com outros estudos nos quais esses valores variaram de 1,8 hora/dia a 2,2 horas/dia(1,8). Nas atividades físicas sedentárias, a média encontrada coincide com dados recentes de duas a três horas/dia(30-32).

Crianças com sobrepeso deslocaram-se menos para a escola do que as crianças eutróficas, resultado que é sustentado por outros estudos, nos quais deslocar-se para a escola favorece ganho de peso corporal(33,34) e pode diferenciar o estilo de vida (ativo ou sedentário)(35). Considerando que nenhuma diferença significante foi observada em relação ao METs/dia para essa atividade e que o gasto calórico não foi equivalente ao peso corporal, o tempo destinado à atividade de se deslocar (minuto/dia) foi mais significante do que o seu gasto energético quanto ao estado nutricional, ou seja, o tempo gasto nas atividades físicas pode ser mais importante do que o seu custo energético(31).

Nas atividades de brincar e/ou praticar exercícios formais, apenas o gasto calórico teve diferenças significantes, o que se explica por crianças obesas gastarem mais calorias do que crianças não obesas, devido ao maior peso corporal e ao esforço despendido para a mesma intensidade de atividade física(36). Quanto ao sexo, o maior gasto calórico verificado nos meninos pode ser causado tanto pelo peso corporal como pela intensidade (METs/dia) das atividades. Os meninos apresentaram média de METs/dia maior do que as meninas, e como não houve efeito do sexo em minuto/dia, os meninos praticaram atividades de maior intensidade do que as meninas. Estudos confirmam essa predisposição dos meninos para maior participação em atividades físicas do que as meninas(3,8,35).

Assistir à televisão por mais de três horas/dia e jogar videogame por mais de duas horas/dia são fatores de risco para sobrepeso e obesidade(30). As crianças eutróficas gastaram menos tempo nessas atividades do que as crianças com sobrepeso, sustentando evidências nas quais crianças que assistem à televisão por mais de quatro horas/dia são menos ativas e obesas(12), ou mais propensas ao sobrepeso(1,37), constatando uma correlação positiva entre o tempo gasto nessa atividade e o IMC(8,38). O Framingham Children's Study, estudo longitudinal com crianças dos quatro aos 11 anos de idade, confirma maiores valores de IMC no grupo que assistiu mais à televisão (> 3 horas/dia), e os menores valores no grupo que assistiu menos (< 1,75 hora/dia)(32). O American Academy of Pediatrics recomenda que o limite para televisão e videogame é de duas horas/dia(39). A correlação moderada e inversa verificada entre brincar e/ou praticar exercícios com assistir à televisão e/ou jogar videogame, em ambos os sexos, evidencia que crianças mais sedentárias assistem mais à televisão do que crianças mais ativas e estão mais expostas ao ganho de peso corporal, resultados de acordo com outros estudos(1,32).

Embora pesquisas recentes(40,41) ressaltem a importância das atividades físicas praticadas pelas crianças na hora do recreio, os dados coletados no ambiente escolar (as aulas de educação física e a hora do recreio) não foram utilizados nas análises. Foram incluídas, apenas, as três atividades mais predominantes no dia-a-dia das crianças, conforme metodologia citada anteriormente. Foi verificado que, durante o recreio de 15 minutos diários, meninos e meninas praticaram atividade física leve(27), de intensidade igual a 3,5 e 2,6 METs, respectivamente. Nas aulas de educação física determinou-se uma intensidade de 5 METs, para ambos os sexos, durante 120 minutos por semana. Portanto, os dados mostram que a escola proporciona pouca atividade física, sugerindo principalmente a hora do recreio como objeto de estudo para futuras pesquisas e importante recurso a ser utilizado para a promoção de atividade física no ambiente escolar.

Conclui-se que crianças eutróficas são mais ativas e gastam menos tempo em atividades sedentárias do que crianças com sobrepeso, evidenciando que é fundamental educar para a adoção de hábitos saudáveis, desde a infância. Intervenções sociais envolvendo a escola, as famílias e os profissionais da área de saúde devem proporcionar orientações nutricionais, conscientizar a população para a redução do sedentarismo e incentivar a prática de atividades físicas em crianças e adolescentes, com ênfase não apenas na iniciação, mas principalmente na sua manutenção durante a juventude e a idade adulta, promovendo saúde pública e melhor qualidade de vida para todos.

 

AGRADECIMENTOS

Agradecemos à Profª Regina Baruki Fonseca pela revisão ortográfica e tradução do abstract.

 

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Endereço para correspondência:
1. Silvia Beatriz Serra Baruki
Rua Colombo, 1.313 79332-020 – Corumbá, MS
Tel.: (67) 231-6607
E-mail: sbaruki@yahoo.com.br

2. Lina Enriqueta Frandsen Paez de Lima Rosado
Departamento de Nutrição e Saúde, Programa de Pós-Graduação em Ciência da Nutrição – Universidade Federal de Viçosa – 36570-000 – Viçosa, MG
Tel.: (31) 3899-1269
E-mail: lerosado@ufv.br

Recebido em 20/11/04. Versão final recebida em 3/11/05. Aceito em 10/11/05.

 

 

Todos os autores declararam não haver qualquer potencial conflito de interesses referente a este artigo.