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Revista Brasileira de Medicina do Esporte

Print version ISSN 1517-8692

Rev Bras Med Esporte vol.12 no.3 Niterói May/June 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S1517-86922006000300006 

ARTIGO ORIGINAL

 

Influência da maturação sexual, idade cronológica e índices de crescimento no limiar de lactato e no desempenho da corrida de 20 minutos*

 

Influencia de la madurez sexual, edad cronológica e índices de crecimiento en el límite de lactato y en el desempeño en carreras de velocidad de 20 minutos

 

 

Deivis Elton Schlickmann Frainer; Fernando Roberto de Oliveira; Joris Pazin

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Crianças e adolescentes apresentam, em uma determinada carga, menores concentrações de lactato [la] do que os adultos; especula-se que essas diferenças são ligadas a aspectos maturacionais. O objetivo deste estudo foi verificar a influência da maturação sexual, idade cronológica (I) e índices de crescimento (IC - massa corporal, estatura e somatório de dobras cutâneas subescapular e tricipital) na velocidade do limiar de lactato na concentração fixa de lactato ([la]) de 2,5mmol.l-1 (V2,5) e na corrida de 20 minutos (V20). Trinta e três meninos participantes de escolas de esportes foram submetidos a: 1) avaliação antropométrica e avaliação da maturação sexual através dos índices de Tanner (maturação sexual de órgãos genitais e maturação sexual de pêlos púbicos); 2) teste progressivo descontínuo de 3 x 800m (pista de atletismo) para determinar V2,5; e 3) corrida de 20 minutos para determinar a V20 e a [la] final. Não foi encontrada associação entre maturação sexual, idade cronológica e indicadores de crescimento com V2,5. Somente a estatura se mostrou associada com V20. Assim, outras variáveis de desempenho, fisiológicas ou biomecânicas, podem influenciar mais no limiar de lactato e na corrida de 20 minutos, do que as variáveis de crescimento durante a adolescência.

Palavras-chave: Maturação sexual. Limiar de lactato. Corrida. Adolescentes.


RESUMEN

Niños y adolescentes presentan en determinada carga menores concentraciones de lactato [la] que los adultos; se especula que esas diferencias están relacionadas a los aspectos de madurez. El objetivo de este estudio ha sido verificar la influencia de la madurez sexual, edad cronológica (I) e índices de crecimiento (IC - masa corporal, estatura y la suma de dobleces cutáneos subescapular y tricipital) en la velocidad del Límite de Lactato en concentración fija de lactato ([la]) de 2,5 mmol.l1 (V2,5) y en carreras de 20 minutos (V20). Treinta y tres niños participantes de escuelas de deportes fueron sometidos a: 1) evaluación antropométrica y evaluación de madurez sexual a través de los índices de Tanner (madurez sexual de genitales y madurez sexual del pelo pubiano); 2) test progresivo descontinuo de 3 x 800m (pista de atletismo) para determinar V2,5, y 3) carreras de 20 minutos para determinar V20 y la [la] final. No fue encontrada asociación entre madurez sexual, edad cronológica e indicadores de crecimiento con V2,5. Solamente la estatura se mostró asociada con V20. Así, otras variables de desempeño, fisiológicas o biomecánicas, pueden influenciar más al final de la concentración de lactato y en las carreras de 20 minutos que las variables de crecimiento durante la adolescencia.

Palabras-clave: Madurez sexual. Límite de lactato. Carreras. Adolescentes.


 

 

INTRODUÇÃO

Historicamente, o consumo máximo de oxigênio (O2 máx) é utilizado como fator determinante do desempenho nas provas de média e longa duração de crianças e adolescentes. No entanto, alguns estudos demonstraram que o O2 máx não é um bom discriminador do rendimento aeróbio em grupos homogêneos de jovens(1). Com corredores entre 10 e 18 anos, acompanhados longitudinalmente, podem ocorrer melhoras no desempenho de corrida sem modificações correspondentes no O2 máx relativo à massa corporal(2). Além disso, em crianças e adolescentes, nem sempre é possível determinar o O2 máx através do tradicional platô de O2, devido principalmente a aspectos maturacionais e dificuldades em se obter um esforço máximo(3). Dessa maneira, é recomendável a utilização de avaliação e prescrição de atividades utilizando modelos submáximos, para atenuar tais dificuldades(4).

Como abordagem padrão de variáveis submáximas, a medida de concentração sanguínea de lactato ([la]) é parte da rotina de vários laboratórios de fisiologia do exercício e avaliação funcional. Os chamados limiares de transição, que, basicamente, refletem pontos em que ocorrem aumentos abruptos na curva [la]-intensidade, passaram a ser utilizados como referência de capacidade aeróbia(5). Em verdade, os limiares são aproximações da zona de intensidade no exercício onde ocorreria um equilíbrio entre a produção e a remoção do lactato no sangue, correspondente à intensidade de máximo estado estável de lactato (MEEL). A determinação de limiares, principalmente o limiar de lactato (LL), em alguns trabalhos denominado de limiar anaeróbio (LAn), é utilizada com referências de intensidade para a prescrição das cargas de capacidade aeróbia(6).

Apesar do interesse e evolução tecnológica da medida de [la], esta é uma metodologia custosa e que requer pessoal especializado. Além disso, a coleta de sangue é uma abordagem invasiva e desconfortável, principalmente nos mais jovens. Para atenuar esses problemas metodológicos, diversos autores propuseram alternativas para a predição de variáveis relacionadas ao MEEL e LAn, com abordagens restritas, basicamente, a adultos(7,8), com um número menor de estudos com crianças e adolescentes(9). Com os mais jovens, existe uma deficiência de métodos de estimativa de LAn.

A [la] de 4,0mmol.l-1 é freqüentemente utilizada como indicadora do LAn e MEEL em adultos. Entretanto, muitas crianças podem suportar cargas próximas à exaustão sem exceder este valor de [la](10), tornando discutível a sua utilização como critério para avaliar os mais novos. Assim, foram sugeridos o uso de critérios com menores valores como 2,5mmol.l-1(10-13).

Cavinato et al. (14), avaliando jovens jogadores de futebol de nível nacional, encontraram [la] de 2,52 ± 0,90mmol.l-1, um minuto após uma corrida em esforço máximo constante de 20min, sendo este valor similar ao sugerido como referência fixa de [la] no LAn (2,5mmol.l-1) para crianças e adolescentes, demonstrando que a velocidade média neste esforço pode ser uma alternativa para a aproximação do LAn nesses indivíduos.

Pazin et al.(15), com o objetivo de verificar a possibilidade de determinação de velocidades de referência de MEEL (utilizando como critério 2,5mmol.l-1) através do teste de corrida de 20 minutos em pista, avaliou 56 jovens participantes de escolas de esportes. Seus resultados mostraram que a velocidade na corrida de 20 minutos não é diferente estatisticamente da velocidade de 2,5mmol.l1, concluindo que a corrida em 20 minutos possui bom poder discriminador da aptidão aeróbia de jovens atletas.

Desde os estudos de Ericksson et al.(16-18) vem sendo especulado que as menores [la] nos jovens estariam ligadas a uma menor capacidade glicolítica dos mesmos, e isso estaria relacionado com o processo maturacional. Entretanto, essas evidências vêm sendo questionadas por outros estudiosos e merecem que sejam mais bem investigadas(19). A idade cronológica e os indicadores de crescimento como, por exemplo, peso e estatura, têm sido citados na literatura como possíveis influenciadores do desempenho aeróbio de jovens(1).

Tendo em vista essas evidências, o objetivo deste estudo foi verificar a influência da maturação sexual, idade cronológica e índices de crescimento na velocidade do limiar de lactato e no desempenho da corrida de 20 minutos.

 

MÉTODO

Amostra

A amostra constou de 33 meninos, entre 13 e 15 anos, participantes de Escolas de Esportes (basquetebol, voleibol e atletismo), em clubes e entidades esportivas da região de Florianópolis - SC. A coleta de dados foi realizada após a assinatura de consentimento informado pelos pais, conforme a aprovação do Comitê de Ética e Pesquisa da Universidade do Estado de Santa Catarina.

Medidas antropométricas, idade cronológica corrigida e avaliação da maturação sexual

Inicialmente, foram obtidas da amostra a massa corporal, a estatura e a tomada de dobras cutâneas tricipital e subescapular para efetuar o somatório de dobras cutâneas (SDC). As medidas foram realizadas de acordo com a padronização de Lohman (1991) citado por Tritschler(20).

A idade cronológica foi corrigida (ICC) pela data de nascimento de cada indivíduo em relação à data de realização da obtenção dos dados antropométricos dos mesmos; esse ajuste se deu em ordem decimal.

A maturação sexual foi determinada através dos índices padronizados por Tanner(21), observando-se o desenvolvimento das características sexuais secundárias de pilosidade pubiana (MSPP) e desenvolvimento de órgãos genitais em meninos (MSOG). Os jovens receberam a instrução acerca do significado da avaliação e, em seguida, uma ficha contendo as figuras padronizadas e com um campo ao lado para que eles respondessem a respeito do estágio maturacional que, observando nas figuras, se aproximava ao deles. Esse preenchimento foi realizado de forma individualizada: o adolescente preencheu a ficha em uma sala fechada. Após isso, somente os pesquisadores tiveram acesso aos dados preenchidos pelo jovem.

Os jovens foram agrupados como púberes quando se encontravam nos estágios 2 e 3, tanto de pilosidade púbica quanto de órgãos genitais, e como pós-puberes quando se encontravam nos estágios 4 e 5.

Teste de corrida de 20 minutos

O teste foi realizado em pista de 200 metros de material sintético, com os jovens realizando um aquecimento de 10 minutos com corrida contínua de baixa intensidade e 10 minutos de exercícios de alongamento; foi recomendado aos participantes que mantivessem a velocidade constante durante a corrida, com o objetivo de percorrerem a maior distância possível em 20 minutos. A freqüência cardíaca (FC) foi monitorada durante todo o teste (registro da FC de 5 em 5 segundos através do freqüencímetro Polar S610itm) para análise da intensidade de esforço. Houve coleta de sangue, para a mensuração das concentrações sanguíneas de lactato [la], um minuto após o final do teste. As variáveis obtidas nesse teste foram a velocidade média na corrida de 20 minutos (V20), freqüência cardíaca no final do teste (FCfinal) e percentual da FC máxima estimada (%FCmáx). O teste foi realizado em grupos de no máximo cinco indivíduos.

Teste progressivo

Os jovens realizaram (em pista de atletismo de 200m) três corridas de 800 metros (com um minuto de intervalo), com a intensidade do esforço sendo controlada por zonas de freqüência cardíaca preestabelecidas para cada corrida. Esta metodologia de teste progressivo foi modificada de Geysemeyer e Rieckert(22). Após um período de aquecimento de 10 minutos com corrida contínua de baixa intensidade e 10 minutos de exercícios de alongamento, foi executada a primeira corrida de 800m, quando o indivíduo era orientado a manter a FC entre 140 e 150bpm; as outras corridas foram realizadas em valores de FC entre 160-170bpm e 180-190bpm, controlados a partir do monitor de FC. O intervalo entre cada corrida de 800 metros foi de um minuto. Imediatamente após cada corrida de 800m, houve coleta de sangue para mensuração das [la]. As medidas das [la] no sangue foram analisadas por método eletroenzimático em um aparelho YSI 1500 (Yellow Springs Instruments®), com amostras de 25 microlitros de sangue capilar retiradas do lóbulo da orelha. Para a medida da FC utilizaram-se monitores de FC Polar S610 (Polar Electro®).

A variável obtida nesse teste foi a velocidade média na [la] de 2,5mmol.l-1 (V2,5). Para identificar V2,5 utilizou-se o método de interpolação e extrapolação linear a partir da plotagem das [la] nas suas respectivas velocidades médias obtidas do teste progressivo. O limite utilizado de extrapolação foi menor ou igual a 0,5mmol.l1.

Os testes foram realizados de forma balanceada para diminuir a interferência do seu efeito nos resultados.

Análise estatística

Os jovens foram divididos em grupos por idade cronológica e por índice maturacional. Para verificar associação entre duas variáveis foi aplicada a correlação simples de Pearson. A correlação de Spearman-Rank foi utilizada para verificar a associação entre a maturação sexual e as demais variáveis do estudo. O comparativo entre os índices de crescimento (peso, estatura e somatório de dobras cutâneas), V2,5 e V20 nas idades cronológicas se deu através do teste ANOVA, utilizando post-hoc de Scheffé. O comparativo nos estágios maturacionais se deu através do teste t para amostras independentes. A partir das análises foi estabelecido um modelo de regressão para a estimativa de V20 e V2,5, utilizando as seguintes variáveis preditoras: estágio maturacional, idade, gênero, peso, estatura e % de gordura. ANOVA two-way foi utilizada para comparar V20 e V2,5 entre as diferentes idades cronológicas e estágio maturacional. Para todas as análises foi utilizado o nível de significância para p < 0,05.

 

RESULTADOS

Os valores de massa corporal, estatura e somatório de dobras cutâneas (SDC) para a amostra de meninos de 13, 14 e 15 anos encontram-se na tabela 1. Apenas a estatura foi diferente comparando as idades de 13 e 15 anos.

 

 

Comparando idade cronológica corrigida, massa corporal, estatura e SDC entre os grupos de jovens púberes e pós-púberes, utilizando, como critério de maturação sexual, a auto-avaliação de órgãos genitais (MSOG), não foram encontradas diferenças significantes em nenhuma variável analisada (tabela 2). Já comparando entre os grupos de jovens púberes e pós-púberes, utilizando como critério de maturação sexual a auto-avaliação da pilosidade púbica (MSPP), foram encontradas diferenças significantes entre massa e estatura (tabela 2).

 

 

Comparando as variáveis de performance V2,5 (2,81 ± 0,34; 2,63 ± 0,36; 2,86 ± 0,45m.s-1) e V20 (2,79 ± 0,45; 2,80 ± 0,31; 2,97 ± 0,25m.s-1) nas idades de 13, 14 e 15 anos, respectivamente, também não houve diferença significante entre as idades.

Os valores de V2,5 e V20 entre os grupos de jovens púberes e pós-púberes (MSOG e MSPP) estão representadas nas figuras 1 e 2. Não foram encontradas diferenças significantes entre púberes e pós-puberes para as variáveis de performance (V2,5 e V20) utilizando como critério MSOG; no entanto, utilizando MSPP, foi encontrada diferença significante na V20 (p < 0,05).

 

 

 

 

As correlações entre maturação sexual (MSOG e MSPP), ICC, índices de crescimento, V2,5 e V20 estão presentes na tabela 3.

 

 

Tanto V2,5, quanto VT20, não foram diferentes em relação a diferentes estágios maturacionais (fator 1) e idade cronológica (fator 2), utilizando ANOVA two-way.

Realizou-se uma análise de regressão múltipla (stepwise) para entender melhor quais das variáveis estudadas (maturação sexual, índices de crescimento e variáveis de desempenho) foram relevantes na determinação tanto de V2,5 quanto V20.

Quando colocadas as variáveis de maturação sexual e índices de crescimento, nenhuma delas explicou satisfatoriamente V2,5.

Ao inserirmos os índices de maturação sexual e os índices de crescimento para predizer V20, a única variável que entrou no modelo de predição foi a estatura. A equação gerada foi:


V20 (m.s-1) = 0,402 + 0,01422 x (estatura)

(r = 0,41; r2 = 0,17; EPE = 0,33m.s-1)


Os resultados da FC final no T20 foram de 185 ± 15; 188 ± 11; 188 ± 8bpm nas idades de 13, 14 e 15 anos, respectivamente. O percentual em relação à FC máxima estimada (220-idade) dos jovens foi 89 ± 7%; 91 ± 5% e 92 ± 4%.

 

DISCUSSÃO

Os resultados dos índices de crescimento, massa corporal e estatura, avaliados nos jovens participantes deste estudo, foram consideravelmente maiores do que os resultados obtidos pelos estudos com escolares catarinenses e escolares da cidade de Florianópolis(23,24).

Também não foi encontrada diferença significante na massa corporal e SDC entre as idades. Somente foi encontrada diferença significante na estatura entre os jovens de 13 e 15 anos. No entanto, podemos observar que houve uma grande variabilidade nos resultados dos índices de crescimento nessas idades. Essa grande variabilidade pode ser atribuída em parte, segundo Fagundes e Krebs(24), à associação que existe entre essas variáveis e o período de estirão de crescimento.

Pires e Lopes(23) explicam que o estirão de crescimento é mais tardio e prolongado nos rapazes, em torno dos 14 anos, deixando os rapazes mais altos e mais pesados quando comparados com meninas, que apresentam um estirão mais cedo e de período mais curto, por volta dos 12 anos(25,26). Isso se reflete nas correlações positivas, observadas no presente estudo, entre idade e estatura (r = 0,44), massa e estatura (r = 0,75), massa e maturação sexual (r = 0,70), estatura e maturação sexual (r = 0,56) e maturação sexual e idade cronológica (r = 0,35) (p < 0,05).

Parece que a ação do sistema hormonal, que atua na liberação dos hormônios sexuais e de crescimento, também pode influenciar na variabilidade dos índices de crescimento nas diferentes idades(24).

Esses maiores índices de crescimento observados nos jovens deste estudo podem ser explicados pelo fato de todos os representantes fazerem parte de escolas de esportes da região de Florianópolis nas modalidades de voleibol, basquetebol e atletismo. Todos esses jovens apresentam-se num processo de iniciação esportiva e muitos passaram por "seleções de talentos", em que, nestas modalidades coletivas, as características somáticas são extremamente enfatizadas e relevantes nesse primeiro momento de seleção, o que faz com que a amostra deste estudo esteja muito acima da média dos jovens dos estudos citados acima. Outra possibilidade é o fato de o treinamento regular poder influenciar no crescimento físico e maturação; entretanto, outros fatores podem ter mais relevância na modificação desse processo biológico. Segundo Malina(25), existem interações entre a genética e o ambiente no processo de crescimento e desenvolvimento. Quando as condições ambientais são ótimas, o genótipo é o primeiro regulador do crescimento e maturação. Entretanto, o ambiente social pode influenciar direta ou indiretamente através de fatores como nutrição, as relações familiares, tamanho da família, hábitos de atividade física, hábitos esportivos na família, na escola e na comunidade. Malina ainda conclui que a atividade física, por si só, não determina o crescimento e a maturação. Acredita-se que tal fato deva ter pouco peso nos achados do presente estudo.

As variáveis de desempenho, V2,5 e V20, também não foram diferentes estatisticamente nas idades de 13, 14 e 15 anos, o que denota uma característica de homogeneidade na capacidade aeróbia dos mesmos. Também não houve associação entre essas variáveis de desempenho e idade cronológica.

Não é possível fazer comparações entre os resultados deste estudo com outros estudos que tiveram objetivos semelhantes. Isso se deve, principalmente, às diferenças metodológicas e conceituais empregadas para caracterizar principalmente a capacidade aeróbia dos jovens. Como exemplo, o estudo de Palgi et al.(27) utilizou o limiar ventilatório e o O2 máx absoluto como indicador de capacidade aeróbia; Tanaka e Shindo(28) utilizaram a velocidade no limiar de lactato abaixo da [la] de 2mmol.l-1; Williams et al. utilizaram a %O2 pico no OBLA (4mmol.l-1)(11,12) e na [la] de 2,5mmol.l-1(12) assim como Welsman et al.(29); Armstrong et al.(30) utilizaram como índice de condicionamento cardiorrespiratório o O2 pico.

Com o objetivo de verificar a associação entre a maturação sexual e o desempenho em algumas variáveis, utilizaram-se os índices de Tanner(21) através da auto-avaliação do desenvolvimento dos órgãos genitais e do desenvolvimento da pilosidade púbica. A utilização desses índices tem sido recomendada principalmente a estudos transversais(30) e tem-se constatado uma boa associação com outros indicadores de maturação biológica(25) . Entretanto, deve-se ter cuidado com as análises feitas através desses índices, bem como com a possibilidade de eles estarem discriminando o crescimento e desenvolvimento com acurácia.

Nos resultados deste estudo, levando em consideração a homogeneidade do grupo e o fato de a idade de 13 a 15 anos ser período de diversas modificações nos índices de crescimento, que influenciarão outros componentes de desempenho, e também levando em consideração que existe uma grande variação da idade cronológica para uma mesma idade biológica(31), pode-se observar que a MSOG não discriminou, em nenhuma das variáveis estudadas, o crescimento e desenvolvimento maturacional dos jovens avaliados (vide Resultados - tabelas 2 e 3, e figuras 1 e 2), mesmo não tendo demonstrado diferença significante de MSPP, e os dois índices serem correlacionados significantemente (rs = 0,48, p < 0,05). Esses resultados corroboram os encontrados por Borges et al.(32).

Já a MSPP demonstrou diferença entre os jovens púberes e pós-púberes, e associação significante com massa corporal (r = 0,70) e estatura (r = 0,56) (p < 0,05). Armstrong e Welsman(19) enfatizam que os níveis de testosterona em meninos são altamente correlacionados com os índices de crescimento (massa e estatura) durante a adolescência. Borges et al.(32) recomendam que, quando for empregada a auto-avaliação da maturação sexual para a determinação de eventuais diferenças na aptidão física e nos componentes antropométricos, se utilizem os índices de desenvolvimento da pilosidade púbica como um critério mais eficaz, o que está de acordo com os resultados desse estudo.

Na análise de regressão, os índices de crescimento e a maturação sexual não explicaram o desempenho em V2,5. Parece que em mais jovens, as variáveis de crescimento e a maturação sexual têm baixa associação com o limiar de lactato. Já as variáveis de desempenho de endurance demonstraram maior poder de predição e associação do limiar de lactato, como já fora observado em outros estudos(1,33). Assim, é importante fazer uma reflexão sobre a influencia da maturação sexual no limiar de lactato.

Diversos pesquisadores têm-se preocupado em investigar as razões, a partir dos estudos de Ericksson et al.(16-18), pelos quais os mais jovens apresentavam menores concentrações sanguíneas de lactato. Uma das razões para essa limitação estaria relacionada a uma menor capacidade glicolítica e que conseqüentemente estaria ligada à maturação sexual. Outro estudo, freqüentemente citado pela literatura, demonstrou que para o desenvolvimento da glicólise em ratos é necessária uma proporção adequada de testosterona(34). Falgairette et al.(35) apresentaram associações significantes entre as respostas do lactato sanguíneo no exercício e níveis de testosterona (r = 0,40, p < 0,001) em 144 meninos de 6 a 15 anos. Outro estudo clássico que suporta a influência androgênica na glicólise foi realizado por Tanaka e Shindo(28), que demonstraram haver associação significante entre idade óssea e a velocidade no limiar de lactato em meninos de 6 a 15 anos (r = -0,32), concluindo que "meninos pré-púberes e púberes têm maiores velocidades no limiar de lactato do que jovens rapazes (pós-puberes), e que isso pode, em parte, ser devido a menor ação da testosterona sobre o músculo esquelético".

No presente estudo, não foi encontrada associação significante entre nenhum dos índices de maturação utilizados (MSOG e MSPP) com V2,5 e com V20. Esses resultados são similares aos de outros autores que utilizaram tanto os índices de Tanner como marcador de maturação(11,12) quanto as concentrações sanguíneas de testosterona(29).

Vários estudos têm sido criticados por não demonstrarem um controle adequado, confundindo as influências e as intercorrelações entre testosterona, outros índices de crescimento e a variável de desempenho sob consideração. Uma avaliação dos efeitos independentes da testosterona na resposta do lactato sanguíneo deve usar técnicas estatísticas que permitam que essas relações confusas sejam controladas(19).

Em conjunto, parece temerário, à luz do conhecimento atual, assumir sem riscos a relação com os índices de maturação e [la] submáximo/máximo(29) e atividade enzimática glicolítica(36-38). Tanto as metodologias empregadas quanto a magnitude verificada nas associações não dão sustentação suficiente à idéia da dependência, normalmente divulgada, entre a maturação e os limiares de transição. Nos próprios estudos iniciais de Ericksson, que sugerem uma menor habilidade dos jovens em gerar energia pela glicólise, é recomendado pelo próprio autor que haja cautela na interpretação de seus resultados, e, portanto, que "conclusões gerais não podem ser realizadas"(17,p.18).

Diferentemente da inconsistência das evidências de um inferior potencial glicolítico em mais jovens, os estudos têm consistentemente observado elevados níveis de enzimas oxidativas, por exemplo, succinato desidrogenase (SDH) e isocitrato desidrogenase (ICDH)(37). Diferenças na razão entre PFK (fosfofrutoquinase) para ICDH em crianças (0.884) comparado com adultos (1.633) refletem uma melhor habilidade para oxidar o piruvato e prover evidências de que crianças são preferencialmente equipadas para produzir energia aeróbia(38). No entanto, essas considerações não têm efeito comparativo com o presente estudo, pois essas variáveis não foram mensuradas e servem aqui como ponto de reflexão sobre o assunto.

Com relação ao desempenho no teste de corrida de 20 minutos de jovens, só houve associação entre V20 e estatura (r = 0,37, p < 0,05) sendo a única variável com poder de predição em V20. Talvez isso seja devido a aspectos de economia de corrida, que ocorrem durante a adolescência, através das modificações nos padrões de freqüência e de tamanho de passada na corrida, devido a alterações no tamanho dos segmentos corporais. É necessário que se analisem outras variáveis que podem ter mais associação com a endurance de jovens, como velocidade máxima de corrida, economia de corrida, fração utilizada do O2máx (percentual), entre outras(39).

No presente estudo foi solicitado aos jovens que corressem os 20 minutos de forma mais estável possível, sem que houvesse grandes variações do ritmo durante a corrida. Isso foi recomendado por Frainer et al.(40) em um estudo com jovens jogadores de futebol; os autores sugerem cautela ao empregar o teste de 20 minutos e fazer inferências sobre os resultados. O resultado do percentual da freqüência cardíaca máxima (%FCmáx) encontrado no T20 denota que alguns jovens chegaram próximo a 100% da FCmáx estimada no final do teste, apresentando altas concentrações de lactato, provavelmente, devido a modificações do ritmo de corrida ao longo dos 20 minutos, proporcionando um desequilíbrio entre a produção e a remoção do lactato sanguíneo (41), podendo prejudicar o desempenho de corrida.

Assim, fica difícil fazer inferências sobre os resultados na corrida de 20 minutos, devido às diferentes estratégias de corrida adotadas pelos jovens nesse estudo.

 

CONCLUSÃO

A maturação sexual, a idade cronológica e os índices de crescimento não estão associados com o desempenho na V2,5. Assim, outras variáveis de desempenho, fisiológicas e biomecânicas, podem influenciar mais no limiar de lactato do que as variáveis de crescimento durante a adolescência.

 

AGRADECIMENTOS

Agradecemos a todos os integrantes do LAPEM que colaboraram na coleta de dados deste estudo e agradecemos em especial aos professores Lorival José Carminatti, Adriano Eduardo Lima-Silva e Ruy Jornada Krebs pelas colaborações e discussões.

 

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Endereço para correspondência:
Deivis Elton Schlickmann Frainer
Rua Campolino Alves, 1.199, apto. 406, bloco A, Abraão - 88085-110 - Florianópolis, SC, Brasil.
E-mail: frainer_de@yahoo.com.br

Recebido em 1/7/05. Versão final recebida em 12/9/05. Aceito em 6/12/05.

 

 

Todos os autores declararam não haver qualquer potencial conflito de interesses referente a este artigo.
* Universidade do Estado de Santa Catarina Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, Laboratório de Pesquisa Morfofuncional LAPEM, Grupo de Pesquisa em Fisiologia e Bioquímica do Exercício.