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Revista Brasileira de Medicina do Esporte

versión impresa ISSN 1517-8692versión On-line ISSN 1806-9940

Rev Bras Med Esporte v.13 n.1 Niterói ene./feb. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S1517-86922007000100003 

ARTIGO ORIGINAL

 

Efeitos do condicionamento físico sobre pacientes com fibromialgia

 

Efectos del condicionamiento físico en pacientes con fibromialgia

 

 

Livia Maria dos Santos SabbagI; Carlos Alberto PastoreII; Paulo Yazbek JúniorI; Margarida Harumi MiyazakiI; Adilson GonçalvesI; Helena Hideko Seguchi KaziyamaIII; Linamara Rizzo BattistellaI

IDivisão de Medicina de Reabilitação do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo – São Paulo, SP
IIServiço de Eletrocardiologia do Instituto do Coração (InCor) – Universidade de São Paulo – São Paulo, SP
IIIClínica de Neurologia e Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo – Grupo de estudo da dor – São Paulo, SP

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

INTRODUÇÃO: Fibromialgia é uma síndrome crônica, caracterizada por dor músculo-esquelética generalizada. A possibilidade de atenuação dos sintomas com a atividade física abriu novas perspectivas para o tratamento desta doença.
OBJETIVO:
Avaliar o efeito de um programa de condicionamento físico sobre a capacidade funcional, dor e qualidade de vida de pacientes com fibromialgia.
MÉTODOS: Adotado o desenho de coorte para avaliar 18 mulheres, média de 46,4 ± 5,8 anos de idade, com a síndrome em média de 10,6 ± 5,7 anos, submetidas a um ano de condicionamento físico supervisionado, predominantemente aeróbio. No início do estudo e trimestralmente foram realizados: teste de esforço cardiopulmonar para determinação da capacidade funcional; avaliação da intensidade de dor empregando a escala analógica visual; contagem dos pontos dolorosos e determinação do limiar de dor à pressão com o uso do algômetro de pressão; aplicação do questionário de qualidade de vida Medical Outcomes Study 36-Item Short-Form Health Survey (SF-36) traduzido e adaptado para a população brasileira.
RESULTADOS:
A capacidade funcional melhorou a partir do terceiro mês (p < 0,05), o limiar de dor aumentou a partir do sexto mês (p < 0,05), houve diminuição da dor pós-esforço (p < 0,05) e do número de pontos sensíveis (p < 0,05) no nono mês. A intensidade de dor diminuiu no 12º mês (p < 0,05). Com exceção do item "estado geral de saúde" (p > 0,05), os demais domínios do questionário de qualidade de vida melhoraram em diferentes períodos do estudo (p < 0,05).
CONCLUSÃO: As pacientes com fibromialgia submetidas ao programa de condicionamento físico supervisionado apresentaram melhora da capacidade funcional, da dor e da qualidade de vida.

Palavras-chave: Dor músculo-esquelética. Exercícios físicos. Teste de esforço cardiopulmonar. Capacidade funcional. Qualidade de vida.


RESUMEN

INTRODUCCIÓN: La fibromialgia es un síndrome crónico, caracterizado por dolor músculo-esquelético generalizado. La posibilidad de atenuación de los síntomas con la actividad física abrió nuevas perspectivas para el tratamiento de esta enfermedad.
OBJETIVO:
Evaluar el efecto de un programa de condicionamiento físico sobre la capacidad funcional, dolor y calidad de vida de pacientes con fibromialgia.
MÉTODOS: Adoptado el método de aglomeración para evaluar 18 mujeres, con edad media de 46,4 ± 5,8 años, con el síndrome en media hace 10,6 ± 5,7 años, sometidas a un ano de condicionamiento físico supervisado, predominantemente aeróbico. Al iniciar el estudio y trimestralmente, fueron realizados: test de esfuerzo cardiopulmonar para determinar la capacidad funcional; evaluación de la intensidad de dolor empleando la escala analógica visual; contaje de puntos dolorosos y determinación del límite del dolor a la presión con el uso del algómetro de presión; aplicación de cuestionario de calidad de vida "Medical Outcomes Study 36-Item Short-Form Health Survey" (SF-36) traducido y adaptado para la población brasileña.
RESULTADOS:
La capacidad funcional mejoró a partir del tercer mes (p < 0,05), la resistencia al dolor aumentó a partir del sexto mes (p < 0,05), hubo disminución de dolor pos esfuerzo (p < 0,05) y el número de puntos sensibles (p < 0,05) al noveno mes. La intensidad de dolor disminuyó al décimo segundo mes (p < 0,05). Con excepción del ítem "estado general de salud" (p > 0,05), los demás dominios del cuestionario de calidad de vida mejoraron en diferentes periodos del estudio (p < 0,05).
CONCLUSIÓN: Las pacientes con fibromialgia sometidas al programa de condicionamiento físico supervisado presentaron mejora de la capacidad funcional, dolor y calidad de vida.

Palabras-clave: Dolor músculo-esquelético. Ejercicios físicos. Test de esfuerzo cardiopulmonar. Capacidad funcional. Calidad de vida.


 

 

INTRODUÇÃO

Fibromialgia (FM) é uma síndrome crônica, de etiopatogenia não elucidada, caracterizada por dor músculo-esquelética generalizada e presença de no mínimo 11 dos 18 pontos sensíveis específicos à palpação(1). Constitui um desafio clínico pela falta de uma estratégia terapêutica eficaz, sendo recomendável um programa de tratamento multidisciplinar composto por farmacoterapia, atividade física e terapia psicossocial. Para instituir este amplo programa é essencial o conhecimento dos efeitos de cada componente a ser incluído. A atividade física aeróbia é considerada benéfica para indivíduos com FM, porém com impacto ainda indefinido sobre o quadro clínico da síndrome(2-5).

A redução dos sintomas da FM foi observada em programas de condicionamento físico de durações variáveis(6-7), geralmente curtas; porém a reprodução de algumas destas intervenções é difícil devido a problemas metodológicos, tais como: programas de treinamento precariamente descritos(6); determinação inconsistente da intensidade de exercícios, delimitada pela tolerância do paciente(8-10); e protocolos envolvendo condicionamento físico não supervisionado(11-12).

Objetivo: Verificar os efeitos de um programa de condicionamento físico supervisionado (CFS) sobre a capacidade funcional, dor e qualidade de vida de pacientes com fibromialgia.

 

MÉTODOS

População estudada

No período de junho 1999 a junho 2000, foram selecionadas na Divisão de Medicina de Reabilitação do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP) 45 pacientes com FM que procuraram o ambulatório de dor da Clínica de Neurologia e do Instituto de Ortopedia e Traumatologia do HC-FMUSP (IOT), de acordo com os critérios de inclusão determinados para o estudo: sexo feminino, idade entre 25 e 65 anos, com fibromialgia primária diagnosticada havia mais de cinco anos, sedentarismo havia mais de um ano, sem utilização de medicamentos ou outros tipos de terapêutica, consentimento e assinatura do termo pós-informação sobre o protocolo de pesquisa aprovado pela Comissão de Ética para Análise de Projetos de Pesquisa do HC-FMUSP e conforme a Declaração de Helsinki.

No decorrer do estudo, 14 mulheres (31,1%) foram excluídas por diferentes motivos: não obediência à prescrição dos exercícios, faltas aos treinos e ao teste de esforço cardiopulmonar. Onze retornaram para avaliação e referiram usar diferentes doses, tipos e associações de medicamentos.

Durante o seguimento houve 13 desistências (28,9%): cinco no primeiro trimestre (começaram a usar medicações), seis no segundo trimestre (por doenças não relacionadas à atividade física) e duas no terceiro trimestre (uma por fratura ulnar acidental na rua e outra por doença em família). As pacientes foram convocadas, mas não voltaram para reavaliação.

Deste modo, o grupo experimental foi composto por 18 mulheres com FM que apresentaram assiduidade ao treino superior a 80%, seguiram corretamente a prescrição dos exercícios, compareceram às avaliações e se mantiveram sem medicação ou outros tipos de tratamento.

Métodos

Diagnóstico de fibromialgia

O diagnóstico de FM obedeceu aos critérios do Colégio Americano de Reumatologia(1): dor músculo-esquelética generalizada por no mínimo três meses e presença de dor à pressão digital de 4kg em pelo menos 11 dos 18 pontos sensíveis à palpação (tender points).

Avaliação da capacidade funcional

O teste de esforço cardiopulmonar (TECP) foi empregado para determinar o consumo de oxigênio (O2 max), o melhor índice da capacidade funcional. Os TECP foram realizados em esteira elétrica Inbramed (Inbramed, Porto Alegre, Brasil), seguindo o protocolo de Bruce. Os resultados metabólicos foram obtidos a cada 20 segundos pelo sistema de análises metabólicas Aerosport TEEM 100 (Aerosport, Ann Arbor, EUA), conectado ao sistema de ergometria Micromed (Micromed Biotechnology Ltd., Distrito Federal, Brasil). O critério de interrupção dos TECP foi sintoma limitante ao esforço.

Avaliação da dor

Avaliação da intensidade de dor

Empregada a escala visual analógica (visual analogue scale – VAS): uma régua não graduada de 100 milímetros de comprimento com descritores nas extremidades: à esquerda "sem dor" e à direita "dor insuportável". A distância entre o ponto correspondente à intensidade dolorosa assinalado pela paciente e a extremidade esquerda da escala determinou o valor de VAS em milímetros. Maiores escores indicaram altos graus de intensidade de dor.

Avaliação da intensidade dolorosa e do número de tender points

O ponto foi considerado doloroso ao ocorrer dor à pressão do algômetro de Fischer (Pain Diagnostics & Thermography, EUA) inferior a 4kg/cm2. O limiar de dor foi definido pela mínima pressão necessária para induzir dor em cada ponto. Os escores dos vários tender points de cada indivíduo foram somados para quantificar a intensidade individual total de dor em kg/cm2.

Avaliação da qualidade de vida

Aplicado, sob a forma de entrevista, o instrumento de avaliação da qualidade de vida The Medical Outcomes Study 36-Item Short-Form Health Survey (SF-36), traduzido e adaptado para a população brasileira(13), composto por oito domínios, cada um variando de 0 – pior, a 100 – o melhor estado de saúde.

Programa de condicionamento físico supervisionado

O programa de condicionamento físico supervisionado (CFS) seguiu as recomendações do American College of Sports Medicine(14) e consistiu de sessões de 60 minutos de treino predominantemente aeróbio, três vezes por semana, por período de um ano. A intensidade dos exercícios foi delimitada pela freqüência cardíaca (FC) do limiar anaeróbio (LA) e a FC do ponto de compensação respiratória (PCR) obtidas no TECP inicial e atualizada a cada avaliação trimestral.

Durante o TECP, o LA foi determinado pelo ponto em que houve quebra de linearidade do equivalente ventilatório de O2 (menor valor de VE/O2) e menor fração expirada de O2(15). O PCR foi estabelecido pelo momento em que houve quebra de linearidade do equivalente ventilatório de CO2 (menor valor do VE/CO2) e maior fração expirada de CO2, precedendo sua queda abrupta(16).

A cada 15 minutos da sessão de CFS, foi verificado o número de batimentos cardíacos em 15 segundos, pela palpação do pulso radial.

As sessões de CFS às segundas e sextas-feiras consistiram de: 10 minutos (min.) de alongamento, 30min. de atividade aeróbia caminhada e/ou corrida (para atingir a FC estabelecida para o treino) e 20min. de atividade em piscina aquecida (32-34ºC) (cinco min. de caminhada e/ou trote, 10min. de fundamentos da natação e 5min. de alongamento). Às quartas-feiras: 5min. de alongamento, 5min. de aquecimento, 30min. de exercícios aeróbios – caminhada e/ou corrida, 10min. de atividade muscular localizada e 10min. de relaxamento.

Dinâmica do estudo

Todas as pacientes foram submetidas à consulta clínica inicial para avaliação da intensidade de dor pela VAS, determinação do número de pontos dolorosos e do limiar de dor à pressão por dolorimetria, questionamento sobre a qualidade de vida; e TECP, seguido de avaliação da intensidade dolorosa pós-esforço pela VAS. Iniciado o programa de CFS, estas avaliações foram repetidas a cada três meses durante um ano de seguimento, para determinação do comportamento das variáveis ao longo do tempo.

Análise estatística

Para estudar as pacientes que completaram o programa de CFS, foi empregada a análise de variância (ANOVA) com medidas repetidas, complementada pelo teste de comparações múltiplas de Bonferroni ou pelo método least significant difference. ANOVA, Kruskal Wallis e o teste exato de Fisher foram aplicados para comparar o grupo treinado, o grupo de pacientes excluídas e as pacientes desistentes do estudo. Adotado como nível de significância estatística o valor de p menor ou igual a 5% (p < 0,05).

 

RESULTADOS

Características das pacientes estudadas

Na época de inclusão na pesquisa, a média (m) ± desvio-padrão (DP) do peso e índice de massa corpórea das pacientes eram, respectivamente, de 65,6 ± 11kg e 25,5 ± 3,6kg/m2, e não houve alteração significante nas avaliações subseqüentes (p > 0,05).

Intensidade do condicionamento físico

A tabela 1 mostra as médias ± DP em valores reais (% do O2 pico) dos limites mínimo e máximo do treinamento aeróbio.

 

 

Capacidade funcional

As médias ± DP dos valores iniciais e trimestrais do O2 pico obtido no TECP foram de 21,2 ± 4,8; 23,6 ± 4,6; 25,8 ± 4,9; 24,6 ± 4,6; 24,9 ± 4,5mL.kg-1min-1. Diferenças significantes da primeira avaliação foram encontradas no 3º (p = 0,047), 6º (p = 0,007) e no 12º meses de CFS (p = 0,014).

Avaliação da dor

Avaliação por VAS

As médias ± DP dos valores de intensidade dolorosa foram de 60,7 ± 37,6, 75,9 ± 18,4, 64,6 ± 25,9, 61,3 ± 25,8 e 47,7 ± 31,4mm. Observado aumento (não significante) no 3º mês (p = 0,997) e gradual redução nas avaliações subseqüentes, com melhora estatisticamente significativa do 3º para o 12º mês (p = 0,007).

As médias ± DP dos valores de intensidade de dor pós-esforço (80,5 ± 19, 82,8 ± 18,5, 78 ± 23,8, 68,2 ± 29,7 e 58,2 ± 34,3mm) mostraram comportamento semelhante, com piora no 3º mês (sem significância estatística, p = 1,0) e melhora estatística do 3º para o 9º mês (p < 0,05).

Avaliação por algômetro de pressão

As médias ± DP do número de tender points (16,1 ± 2,4, 15,9 ± 3,8, 13,9 ± 4,0, 12,5 ± 6,1 e 12,8 ± 6,6) mantiveram-se estáveis até o 3º mês e decaíram posteriormente, apresentando diferença significante entre os resultados do 3º e 9º meses (p = 0,041).

No terceiro mês de CFS, o exame físico de duas pacientes mostrou ausência dos critérios diagnósticos para FM [conforme estabelecido pelo Colégio Americano de Reumatologia(1)]. O mesmo ocorreu com uma paciente no sexto e com outra após o nono mês de treino. No término do estudo, um total de seis participantes não mais preencheu os critérios diagnósticos para FM.

As médias ± DP da intensidade individual total de dor (43,40 ± 12, 46,50 ± 17,9, 53,58 ± 14,9, 58,52 ± 19,8 e 55,08 ± 22,1kg/cm2) evidenciaram melhora significante entre o início e o 6º (p = 0,026) e 9º meses (p = 0,005) e também do 3º para o 9º mês de CFS (p = 0,035).

Avaliação da qualidade de vida – domínios

• "Estado geral de saúde": as médias ± DP não revelaram diferença estatisticamente significante durante o seguimento (43,3 ± 23,0, 45,8 ± 28,5, 50,4 ± 25,2, 50,3 ± 25,4 e 57,4 ± 24,1).

• "Capacidade funcional" (33,1 ± 21,1, 36,9 ± 20,7, 41,9 ± 19,5, 41,4 ± 18,7, e 45,8 ± 16,5): houve aumento significativo no 12º mês (p = 0,024), comparado com o início.

• "Aspectos físicos" (13,9 ± 26, 27,8 ± 33,1, 37,5 ± 37,6, 38,9 ± 39,5 e 34,7 ± 37,5): significantes aumentos em relação à media ± DP inicial foram observados no 3º, 6º e 9º meses (p < 0,05).

• "Dor" (28,1 ± 23,4, 32,3 ± 23,5, 39,4 ± 20,8, 41,8 ± 20,1 e 40,9 ± 20,8): houve melhora significante em relação ao início para as avaliações do 9º e 12º meses (p < 0,05).

• "Vitalidade" (35,8 ± 19,3, 35,8 ± 25,7, 46,9 ± 20,7, 45,8 ± 22,1, e 42,8 ± 23,7): aumentos significativos ocorreram da segunda para a terceira e quarta avaliações (p < 0,05).

• "Saúde mental" (38,2 ± 24,4, 45,8 ± 27,7, 53,1 ± 25, 51,1 ± 25,2 e 52,4 ± 26,5): foram observadas elevações significantes do início para o 6º, 9º e 12º meses (p < 0,05).

• "Aspectos sociais" (49,3 ± 38,7, 57,6 ± 40,5, 75,7 ± 36, 62,5 ± 35,4 e 79,2 ± 32,9): houve melhora significativa do início para as avaliações do 6º e 12º meses e do 3º para o 6º mês de CFS (p < 0,05).

• "Aspectos emocionais" (16,7 ± 34,8, 27,3 ± 34,8, 57,2 ± 37,8, 43,3 ± 43,4 e 44,5 ± 41,2): significante elevação ocorreu da 1ª e 2ª avaliações para a 3ª (p < 0,05), seguida por um decréscimo sem significância estatística (p > 0,05).

Comparação entre o grupo treinado, as pacientes excluídas e o grupo de pacientes desistentes do estudo

A comparação do grupo treinado, das excluídas e das desistentes não mostrou diferença estatística (p = 0,07) entre as médias de idade (46,5 ± 5,8, 49,4 ± 9,6 e 41,2 ± 11,5 anos, respectivamente), de peso (65,7 ± 11,0, 64,8 ± 10,9 e 66,2 ± 15,3kg, respectivamente, p = 0,96), do índice de massa corpórea (25,5 ± 3,7, 25,3 ± 3,7 e 25,9 ± 5,3kg/m2, respectivamente, p = 0,93), do tempo de doença (10,6 ± 5,7, 9,8 ± 9,6 e 10,5 ± 9 anos, p = 0,55), do número de tender points (16,1 ± 2,5, 14,0 ± 2,9 e 15,9 ± 2,4; p = 0,06) e da intensidade individual total de dor (43,4 ± 12, 52,7 ± 15,1 e 43,5 ± 14,5kg/cm2, respectivamente, p = 0,13).

O conjunto de pacientes que completou o programa de treinamento concentrou maior número de pessoas com educação escolar de grau primário (56%) e o grupo de desistentes apresentou maior concentração de pessoas com 2º grau (46%).

O grupo que completou o estudo, o grupo de excluídas e o das desistentes não apresentaram diferenças (p > 0,05) quanto à capacidade funcional (21,2 ± 4,8, 22,7 ± 3,4 e 25,3 ± 5,8mL.kg-1.min-1, respectivamente), limite mínimo (61,3 ± 13,4, 55,8 ± 13,6 e 60,1 ± 11,9) e limite máximo do treinamento aeróbio (82,9 ± 12,3, 77,5 ± 13,7, 79,3 ± 15,1), expressos em médias reais (em % do O2 pico) no início do seguimento.

 

DISCUSSÃO

Capacidade funcional

O aumento do O2 pico em nosso grupo experimental, a partir do terceiro mês de CFS, confirmou os resultados de estudos anteriores empregando diferentes tipos de treino(11) e diversos métodos de avaliação(7), e pode ser atribuído aos efeitos crônicos dos exercícios aeróbios sobre os sistemas cardiovascular e muscular-esquelético: 1) aumento do débito cardíaco(17), 2) desvio da curva de dissociação da hemoglobina para a direita(18), aumento da capilaridade muscular(19), e diminuição da resistência à difusão de O2 das hemácias para as fibras musculares contráteis(20); 3) remodelamento dos músculos exercitados, com transformação das fibras tipo IIb para IIa(17); aumento do número, tamanho e da concentração enzimática das mitocôndrias das células musculares de contração lenta(21).

Dor

A manifestação dolorosa é uma experiência multidimensional e no caso da FM é modulada por fadiga, estresse emocional e depressão. Como a VAS é um instrumento unidimensional(22) para avaliação de dor, optamos por analisar conjuntamente os escores da VAS com os da dolorimetria.

Nos primeiros três meses de CFS, o limiar de dor e o número de tender points mantiveram-se inalterados e os escores de VAS pré e pós-esforço apresentaram aumento sem significância estatística. Este resultado negativo confirmou os achados de outros estudos(2,7) e pode ser atribuído à grande expectativa de melhora dos sintomas e à dor pós-exercício gerada pela força excêntrica, mais vigorosa que a da vida diária, imposta à musculatura dolorida da fibromialgia.

No decorrer deste estudo, a menor percepção dolorosa das doentes pode ser explicada por diversos mecanismos: 1) diminuição dos despertares noturnos, reduzindo a contração muscular mantida da FM(23); 2) liberação de endorfinas pelo sistema nervoso central(24).

O número de tender points é um sinal clínico de alta sensibilidade e especificidade no diagnóstico da síndrome(1). A ausência dos critérios diagnósticos para FM em seis pacientes no final do seguimento atesta a eficiência do programa de treinamento proposto.

Qualidade de vida

O questionário SF-36, embora não validado para pacientes com FM, foi empregado por ser mais abrangente que o Fibromyalgia Impact Questionnaire(25), específico para esta doença.

Após o terceiro mês de seguimento, as pacientes referiram maior facilidade para execução de tarefas e trabalho, provavelmente devido ao aumento da capacidade funcional, constatada pelo TECP. A partir do sexto mês de CFS as doentes perceberam maior vigor, melhora do humor e da depressão, menor interferência dos problemas emocionais sobre o trabalho e as relações sociais. Estas respostas confirmaram os benefícios psicológicos dos exercícios aeróbios sobre os sintomas da FM, como sensação de bem-estar e redução da ansiedade e somatização(2).

A menor interferência da dor sobre o trabalho, a partir do nono mês de treino, deveu-se à melhora da dor pós-esforço e à redução do número de tender points.

Atribuímos a maior aptidão para realizar atividades cotidianas, detectada ao final de 12 meses, à menor intensidade dolorosa, constatada pela VAS, e ao somatório dos efeitos favoráveis do treinamento físico durante o seguimento.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As 11 pacientes excluídas que utilizaram diferentes medicações não foram comparadas com as que completaram o programa de CFS, a fim de evitar vieses.

A baixa aderência e anuência ao programa de CFS proposto, também detectada em outras investigações(8-9), foi atribuída à piora da dor (único efeito adverso observado) no terceiro mês de CFS, já que os grupos de pacientes treinadas, de excluídas e o de desistentes apresentaram características, capacidade funcional e intensidade de treino iniciais semelhantes. As desistentes tinham maior grau de instrução e, talvez por serem mais informadas, procuraram formas adicionais de tratamento. Durante o segundo semestre do seguimento houve melhora dos sintomas da FM e conseqüentemente menor número de desistências.

Ao contrário da literatura, recomendamos protocolos de exercícios de longa duração. Sugerimos esclarecimento aos pacientes sobre a presumida intensificação dolorosa nos primeiros meses de intervenção, suporte terapêutico medicamentoso e técnicas de controle da dor nesse período.

Limitações do estudo

O tamanho reduzido da população em nossa pesquisa deveu-se à dificuldade de seleção de indivíduos com fibromialgia sem doenças concomitantes, que poderiam interferir sobre os resultados do estudo, e à rigidez dos critérios de exclusão. Freqüência aos treinos inferior a 80% do total de sessões, desobediência à prescrição dos exercícios físicos e faltas às avaliações comprometeriam a avaliação da efetividade do programa. Obstáculo importante foi a restrição ao uso de medicamentos. Gerou insegurança por parte das pacientes, sem suporte terapêutico para a piora da dor, razão da baixa aderência inicial. Porém, se fossem incluídos pacientes sob medicações e/ou terapias diversas, a pesquisa teria resultados duvidosos pelos efeitos colaterais, interações entre estes tratamentos e o efeito destes sobre a tolerância aos esforços físicos.

A amostra altamente selecionada e a variabilidade individual do espectro e intensidade dos sintomas não permitem a generalização dos achados.

 

CONCLUSÃO

Os efeitos do programa de condicionamento físico supervisionado sobre indivíduos com fibromialgia foram: aumento da capacidade funcional, melhora da dor e da qualidade de vida.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência:
Livia Maria dos Santos Sabbag
MD, Rua Diderot, 43 – Vila Mariana
04116-030 – São Paulo, SP
Tel.: (11) 5549-0111, fax: (11) 5549-0556
E-mail: liviasabbag@uol.com.br

Recebido em 27/6/05. Versão final recebida em 29/11/05. Aceito em 17/7/06.

 

 

Todos os autores declararam não haver qualquer potencial conflito de interesses referente a este artigo.

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