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Revista Brasileira de Medicina do Esporte

Print version ISSN 1517-8692

Rev Bras Med Esporte vol.13 no.3 Niterói May/June 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S1517-86922007000300011 

ARTIGO ORIGINAL

 

Série de treinamento intervalado de alta intensidade como índice de determinação da tolerância à acidose na predição da performance anaeróbia de natação

 

 

Rafael DeminiceI; Lucas GabarraI; Arthur RizziII; Vilmar BaldisseraI

ILaboratório de Fisiologia do Exercício/UFSCAR
IILaboratório de Fisiologia e Nutrição Experimental/UNAERP

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

O objetivo do presente estudo foi determinar a tolerância à acidose através de uma série de nados intervalados de alta intensidade e relacionar com a velocidade de limiar anaeróbio (VLan), concentração de lactato sanguíneo de pico ([Lac]pico), capacidade de trabalho anaeróbio (CTA), freqüência de braçada (fB), comprimento de braçada (CB) e índice de braçada (IB) na predição da performance de 100m de natação. Dez nadadores realizaram seis nados máximos de 100m no estilo crawl com intervalo de seis minutos. Amostras de sangue foram coletadas cinco minutos após cada nado para posterior análise de lactacidemia ([Lac]). Através da razão entre [Lac] e os respectivos tempos de execução dos seis nados, determinou-se a tolerância à acidose (TA). O número de braçadas realizadas durante os seis esforços foi anotado para determinação da fB, CB, IB. Um nado máximo de 100m foi utilizado como parâmetro de performance (P100) e amostras de sangue foram coletadas para determinação da concentração de lactato sanguíneo de pico ([Lac]pico). Três esforços progressivos de 400m foram realizados para determinação da VLan correspondente à concentração fixa de 3,5mM de lactato. Esforços máximos de 200 e 400m foram realizados para determinação da CTA por regressão linear (coeficiente linear). Os resultados apresentaram significativas correlações (p < 0,05) da TA com VLan (r = 0,77), [Lac]pico (r = 0,81), CB (r = 0,85) e IB (r = 0,84). Além disso, a P100 foi correlacionada com VLan (r = 0,88), TA (r = 0,95), [Lac]pico (r = 0,77), CB (r = 0,97) e IB (r = 0,96). Conclui-se que a TA determinada a partir de série de treinamento intervalado de alta intensidade parece ser útil para determinar a aptidão anaeróbia e predizer a performance de 100m de natação, além de ser influenciada pelo CB e IB.

Palavras-chave: Natação. Treinamento intervalado. Tolerância à acidose. Parâmetros de braçada. Performance.


 

 

INTRODUÇÃO

Ao contrário do que acontece com os métodos de determinação das intensidades para o treinamento aeróbio, as metodologias para mensurar variáveis anaeróbias não são bem desenvolvidas(1-2). Esse fato evidencia um problema, pois a maioria dos eventos de natação requer significante contribuição tanto de vias aeróbias quanto anaeróbias (provas de 50 a 400 metros com 25s a 4 min de duração). Maglischo(3) sugeriu como forma de avaliar a capacidade anaeróbia a determinação da concentração de lactato sanguíneo após esforços máximos; baixos valores de lactato, juntamente com desempenhos insatisfatórios, poderiam indicar a deterioração dessa capacidade. Esses níveis de lactato sanguíneo de pico ([Lac]pico) também podem ser um ótimo indicativo da energia derivada da glicólise anaeróbia durante o esforço e importante ferramenta para identificar a contribuição dos mecanismos anaeróbios em determinadas provas específicas na natação(4-5). Entretanto, durante a performance competitiva, não só a habilidade de produzir, mas também a de sustentar altos níveis de lactato sanguíneo durante os últimos metros da prova estão associadas ao sucesso da mesma. Holroyd e Swanwick(6) propuseram que a taxa de tolerância ao lactato, definida como a diferença de velocidade entre a concentração de lactato sanguíneo de 5 a 10mM no teste progressivo, pode ser utilizada para monitorar as mudanças decorrentes do treinamento anaeróbio. Pyne et al.(7), utilizando-se dessa metodologia, concluíram que a relação entre tolerância ao lactato e a performance reflete mudanças específicas do treinamento de alta intensidade.

Para treinar a tolerância à acidose, Maglischo(3) sugere séries intervaladas com distâncias entre 75 e 200m em velocidades máximas ou muito próximas às máximas, pois devem ser suficientemente demoradas e intensas para que ocorra acidose grave. Segundo Seiler e Hetlelid(8), a finalidade principal do treinamento intervalado de alta intensidade é acumular um bom ritmo de treinamento em altas intensidades, o que não poderia ser mantido em esforço constante. Estudos têm mostrado que quatro a seis semanas desse tipo de treinamento são suficientes para melhorar a capacidade de tamponamento, aumentar a ativação neural e concentração de lactato sanguíneo(9), melhorar a performance de ciclistas(10), além de aumentar a tolerância à dor causada pela acidose(3). Deminice et al.(11), em estudo recente, encontraram significativas correlações entre a relação tempo de execução versus concentração de lactato sanguíneo obtidas através de uma série de treinamento intervalado de alta intensidade e as performances de 100, 200 e 400m em natação.

A capacidade de trabalho anaeróbio (CTA) é teoricamente correspondente à variável anaeróbia do modelo de velocidade crítica, sendo representada pelo coeficiente linear (intercepto-y) e considerado um método não invasivo e de fácil aplicação para avaliar a capacidade anaeróbia. Essa variável tem sido estudada como preditora da aptidão anaeróbia(2), sensibilidade ao treinamento intervalado de alta intensidade(12), treinamento intenso(13), resistido(14), e também como preditora do sucesso em natação(1,15). No entanto, esses autores evidenciam a necessidade de novas pesquisas empenhadas em investigar a utilização da CTA como índice preditor da performance e da aptidão anaeróbia na natação devido à alta incidência de resultados controversos na literatura.

A mecânica de nado também desempenha papel decisivo no complexo de fatores determinantes do rendimento. Por esse motivo, essas variáveis técnicas têm sido o foco de muitos estudos em natação(16-20). Esses autores relatam que a performance na natação é indicada por boa variabilidade do comprimento de braçada (CB) e da freqüência de braçada (fB), dando boa indicação de eficiência mecânica, sendo bastante útil para avaliar a economia de energia e, principalmente, o progresso individual técnico do nado durante treinamentos ou provas. Alberty et al.(20), estudando as modificações na braçada do crawl sob condições de exaustão, concluíram que tais modificações têm estreita relação com a resistência muscular do atleta, sendo esse um dos fatores que mais influenciam os parâmetros de braçada, limitando a manutenção da alta velocidade de nado durante a prova.

Assim, poucos são os autores que têm estudado a utilização da lactacidemia em séries de treinamento intervalado de alta intensidade como forma de determinar a tolerância à acidose, sua capacidade de refletir a aptidão anaeróbia e suas possíveis associações com habilidade técnica na predição da performance de atletas de natação.

O objetivo do presente estudo foi determinar a tolerância à acidose (TA) em nadadores de nível competitivo através de uma série de nados intervalados de alta intensidade e relacionar com a velocidade de limiar anaeróbio (VLan), concentração de lactato sanguíneo de pico ([Lac]pico), capacidade de trabalho anaeróbio (CTA), freqüência de braçada (fB), comprimento de braçada (CB) e índice de braçada (IB) na predição da performance de 100m de natação.

 

MÉTODOS

Participantes

Participaram voluntariamente do presente estudo 10 nadadores (oito do sexo masculino e dois do feminino), com 16,2 ± 1,8 anos, 65,3 ± 10,1kg de massa corporal, 1,70 ± 8,6m de altura e 1,74,5 ± 9m de envergadura, pertencentes à equipe de natação da Sociedade Portuguesa de Desportos da cidade de Ribeirão Preto-SP. Após a aprovação do projeto em questão pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade de Ribeirão Preto, os voluntários foram informados sobre os objetivos e possíveis riscos envolvidos no estudo e assinaram um termo de consentimento. Os atletas realizavam treinamento regular, participavam de competições estaduais havia mais de três anos e estavam familiarizados com as séries de treinamento intervalado de alta intensidade dentro da rotina de treinamento.

Procedimentos

O estudo foi realizado em piscina semi-olímpica (25 x 12 metros), da Associação Portuguesa de Desportos (Ribeirão Preto-SP), com temperatura da água de 27ºC ± 1ºC.

Foram realizados três dias de testes em estilo crawl com intervalo de no mínimo 48 horas entre os mesmos. Antes de cada teste, os nadadores realizaram um período de aquecimento padronizado de aproximadamente 1.000m em estilo crawl.

Determinação da velocidade de limiar anaeróbio (VLan)

Para determinação do VLan, os nadadores foram submetidos a três esforços progressivos de 400 metros nas intensidades correspondentes a 85, 90 e 100% da velocidade máxima para a distância. Foi realizado um intervalo de três minutos entre cada nado. As três tentativas foram iniciadas com saídas dentro da água. Os participantes foram estimulados verbalmente durante todo o teste e receberam informações gestuais para o controle da intensidade de nado. Foram coletadas amostras de sangue (25µl do lóbulo da orelha) um minuto após o final de cada nado e um, três e cinco minutos após o término do teste para análise da lactacidemia. Para cada nado, foi calculada a velocidade média e a concentração de lactato sanguíneo. A velocidade de limiar anaeróbio (VLan) foi assumida como a velocidade de nado correspondente à concentração fixa de 3,5mM de lactato na relação lactato versus velocidade por ajuste de curva de crescimento exponencial(21).

Determinação da tolerância à acidose (TA)

Para determinação da TA, foram realizados seis nados máximos de 100m com seis minutos de intervalo entre eles. Amostras de sangue foram coletadas cinco minutos após cada nado e no terceiro e quinto minutos após o final da série para análise de lactacidemia. Os atletas foram estimulados verbalmente durante todo o teste para garantir a realização do esforço máximo (adaptado de Maglischo(3) e Santiago et al.(22)). A TA foi correspondente à razão entre o valor médio de lactato sanguíneo ([Lac]) e o tempo para 100m (t) dos seis nados realizados (equação 1).

Determinação da performance de 100m (P100) e concentração de lactato de pico em 100m ([Lac]pico)

Um esforço máximo de 100m foi realizado 48h antes dos testes citados acima. A velocidade média para completar 100m foi adotada como parâmetro de performance (P100). Amostras de sangue foram coletadas um, três e cinco minutos após o nado. O maior valor encontrado entre as três amostras foi considerado como concentração de lactato sanguíneo de pico ([Lac]pico).

Amostras de sangue

Foram coletados 25µl de sangue do lóbulo da orelha para mensuração da concentração de lactato [Lac]. As amostras foram armazenadas em tubos Eppendorf de 1,5ml contendo 50µl de fluoreto de sódio a 1% (NaF). O homogenado foi analisado em lactímetro eletroquímico YSI modelo 1500 Sport (YSI, Ohio, EUA). As concentrações de lactato foram expressas em mM.

Determinação da capacidade de trabalho anaeróbio (CTA)

Para determinação da CTA, foram realizados esforços máximos de 200 e 400m. Os valores de distância e tempo para completar os esforços foram submetidos ao procedimento de regressão linear (modelo distância-tempo). O coeficiente linear (intercepto-y) representou a capacidade de trabalho anaeróbio como proposto por Wakayoshi et al.(23).

Determinação dos parâmetros de braçada (fB, CB e IB)

Para determinação da freqüência de braçada (fB), comprimento de braçada (CB) e do índice de braçada (IB), no teste TA, o número de braçadas (nb) realizadas a cada 25m foi anotado para o total de 100m de cada nado. O comprimento de braçada (CB) foi determinado pela razão entre a distância (d) e o número de braçadas (equação 2). A velocidade de nado (V) foi calculada a partir da razão entre distância de 100m (d) pelo tempo para completar a mesma (t) (equação 3). A freqüência de braçada (fB) foi correspondente à razão da V pelo CB (equação 4). O índice de braçada (IB) foi calculado de acordo com Costill et al.(24), através do produto da V pelo CB (equação 5). A fB, CB e IB foram determinadas nos seis nados de 100m para todos os atletas.

Análise estatística

Os valores são expressos em média ± desvio-padrão. Foi utilizado o teste de correlação de Pearson para verificar possíveis associações entre TA e P100. O teste de correlação de Pearson ainda foi utilizado para verificar associações dos parâmetros TA e P100 com VLan, CTA, [Lac]pico, fB, CB e IB. ANOVA para medidas repetidas com teste post-hoc de Tukey foi utilizada para avaliar possíveis diferenças no tempo de execução, fB, CB e IB entre os nados da série de tolerância à acidose. Em todos os casos, o nível de significância foi prefixado para < 0,05.

 

RESULTADOS

A figura 1 demonstra o comportamento da lactacidemia durante o teste de TA. A média de concentração de lactato sanguíneo alcançada pelos atletas nos seis nados foi de 13,5 ± 1,6mM. As altas concentrações de lactato sanguíneo alcançadas e as velocidades superiores ao VLan nos seis nados realizados demonstram o perfil anaeróbio da série proposta. A concentração de lactato sanguíneo do primeiro nado (9,6 ± 2,5mM) foi significativamente menor que as encontradas do segundo ao sexto nado (13 ± 2,4; 14,5 ± 4,6; 14,3 ± 3; 14,4 ± 2,8 e 14,3 ± 2,6mM, respectivamente) e no terceiro e quinto minutos de repouso (14,1 ± 3,9 e 13,6 ± 2,7mM, respectivamente). Estabilização da lactacidemia foi observada a partir do segundo nado até os valores de repouso (figura 1).

 

 

A figura 2 representa o comportamento dos parâmetros de braçada durante o teste de TA. Foi observada queda significativa do primeiro (35,8 ± 1,1 ciclos/min) para o segundo nado (33,4 ± 1,7 ciclos/min) e posterior estabilidade do terceiro ao sexto nado (32,7 ± 1,9; 32,6 ± 1,4; 32,6 ± 2,2 e 32,9 ± 2 ciclos/min, respectivamente) com relação à fB. O contrário foi observado para o CB, o qual aumentou do primeiro (2,66 ± 0,2m/ciclo) para o segundo nado (2,72 ± 0,3m/ciclo) e posteriormente diminuiu significativamente no final do teste com relação ao primeiro nado (2,69 ± 0,2; 2,65 ± 0,3; 2,62 ± 0,3 e 2,58 ± 0,3m/ciclo, respectivamente, do terceiro ao sexto nado). A partir do terceiro nado, o IB diminuiu significativamente em relação aos dois primeiros nados e essa queda continuou sucessivamente até o último nado (4,27 ± 0,7; 4,15 ± 0,7; 3,96 ± 0,7; 3,83 ± 0,7; 3,74 ± 0,7 e 3,66 ± 0,7, respectivamente, do primeiro ao sexto nado) (figura 2).

 

 

Foi encontrada correlação positiva significativa da TA com VLan, [Lac]pico, CB e IB. A P100 foi fortemente correlacionada com a TA, além das correlações positivas significativas com relação à VLan, [Lac]pico, CB e IB (tabela 1).

 

 

DISCUSSÃO

As séries de treinamento intervalado de alta intensidade têm duas finalidades principais: aumento da velocidade de nado, o que permitirá aos nadadores iniciarem e terminarem as provas mais rapidamente, e melhora da capacidade de tamponamento, de forma que eles possam manter suas velocidades durante a prova, a despeito do acúmulo de ácido láctico(3). As duas juntas referem-se à capacidade anaeróbia(25). Assim, é evidente a importância do metabolismo anaeróbio para os velocistas, pois altas velocidades de nado não podem ser alcançadas sem elevadas taxas de glicólise anaeróbia. Porém, o período no qual os atletas podem tolerar tais elevadas taxas do metabolismo anaeróbio pode limitar sua performance. Os exercícios de treinamento intervalados de alta intensidade aumentam a atividade das proteínas monocarboxilato transportadoras de lactato (MCT1 e MCT4) através da membrana muscular, o que permite o aparecimento mais rápido do lactato no sangue(26). Esse tipo de treinamento funciona também por meio do aumento da capacidade de tamponamento nos músculos e no sangue e pelo aumento de tolerância à dor causada pela acidose(3). Quando a capacidade de tamponamento melhora, os nadadores tornam-se capazes de manter mais tempo a velocidade rápida de produção de lactato, retardando a diminuição na velocidade de nado, uma das possíveis adaptações produzidas pela tolerância a esses exercícios, conhecido como tolerância ao lactato.

No presente estudo, propusemos uma série de treinamentos de alta intensidade com intervalos de seis minutos, longos o suficiente para permitir alta velocidade de nado e conseqüentes elevados níveis de ácido láctico e, ao mesmo tempo, curtos o suficiente para garantir que os músculos continuem em acidose. As séries de tolerância à acidose, portanto, precisam ser designadas em relação ao tempo nadado em altos níveis de lactato(3). As altas concentrações de lactato sanguíneo após os nados e a estabilização da curva de lactato encontrada durante o teste de tolerância à acidose (figura 1) demonstram o perfil anaeróbio da série proposta. Esses resultados confirmam que a série de treinamento específica proposta corresponde diretamente ao componente biomotor postulado. As significativas correlações encontradas da TA com a [Lac]pico e P100 (tabela 1) demonstram a aplicabilidade da série utilizada como determinante da aptidão anaeróbia e preditora da performance de 100 metros de natação. As correlações encontradas entre [Lac]pico e P100 confirmam a utilização desse parâmetro como preditor da performance em natação(4-5).

No entanto, algumas precauções devem ser tomadas com a utilização dessas séries de tolerância à acidose durante a temporada de treinamento. Esse tipo de treinamento é muito estressante para o atleta, tanto em nível físico quanto psicológico. A motivação dos atletas foi uma das grandes dificuldades encontradas na realização da série proposta nesse estudo. Maglischo(3) ressalta que há necessidade de muita resistência psicológica para suportar regularmente a dor provocada pela acidose. Ainda, a intensidade de força muscular exigida juntamente com a intensa acidose produzida pode levar a lesão temporária do tecido muscular. Por esses motivos, o uso excessivo de séries de treinamento de tolerância à acidose pode levar ao estado de supertreinamento do atleta, prejudicando seu desempenho dentro da temporada de treinamento.

Para determinar o VLan no presente estudo, utilizamos um protocolo validado por Pereira et al.(21) que, com o propósito de otimizar o tempo dos testes, utilizaram a concentração fixa de 3,5mM. A utilização dessa concentração contraria Heck et al.(27), que sugerem a concentração fixa de 3,5mM apenas para protocolos com estágios com duração de até 3 min, inferiores aos utilizados nesse estudo (4 a 5 min). O uso da concentração fixa de 4mM, sugerida por esses autores, quando a duração dos estágios for de 5 min, parece superestimar o VLan na natação, se a pausa entre os esforços incrementais for pequena, provavelmente devido à existência de efeitos residuais do metabolismo e da fadiga específica dos estágios anteriores(21). As significativas correlações encontradas, nesse estudo, do VLan com a P100 (r = 0,88) e com TA (r = 0,77) confirmam a utilização dessa metodologia como preditora da performance em natação(28) e demonstram a importância da capacidade aeróbia como base para o desenvolvimento da capacidade anaeróbia(7). As melhoras nas capacidades aeróbia e anaeróbia reduzirão a velocidade de instalação da acidose, retardando o estado de fadiga durante a prova(3).

A grande vantagem de utilizar métodos indiretos para avaliar nadadores está principalmente relacionada ao baixo custo e fácil aplicabilidade. A exemplo do mencionado por Papoti et al.(1), que não encontraram associações da capacidade de trabalho anaeróbio com a aptidão anaeróbia e com a performance, em nosso estudo, a CTA não apresentou correlação significativa com nenhum dos parâmetros correlacionados (tabela 1). Guglielmo e Denadai(15) também não encontraram correlações entre a CTA de nadadores com a potência média determinada durante esforços máximos de 30 segundos em ergômetro de braço isocinético. Dekerle et al.(29) não constataram correlação significativa entre CTA e a máxima distância anaeróbia em nadadores e sugeriram a não utilização desse parâmetro para controlar variáveis anaeróbias. A utilização de apenas dois esforços máximos (200 e 400m), como ocorreu no presente estudo, pode limitar o emprego da CTA, pois pequenas variações na velocidade de nado podem resultar em significativas alterações no intercepto-y(29). Toussaint et al.(30) ressaltam que a CTA sofre influência proveniente tanto do sistema aeróbio quanto do anaeróbio, não fornecendo estimativa real da capacidade anaeróbia.

Confirmando em parte a validade dos índices técnicos para predição da performance, verificaram-se nesse estudo altas correlações entre o CB, IB e a P100 (tabela 1). As significativas correlações entre o CB, IB e TA demonstram a importância da habilidade técnica do nadador e confirmam a relação existente entre parâmetros fisiológicos e técnicos em natação(16-18,20,24). Essas correlações podem ser explicadas pela diferença de habilidade dos nadadores em conseguir realizar maior número de braçadas com melhor aplicação de força, o que é importante na minimização do arrasto e diminuição da fadiga, podendo desenvolver força por mais tempo, mesmo em exercícios de altas intensidades, onde o acúmulo de ácido láctico pode causar grande desconforto, perda da eficiência e coordenação do nadador(20). Assim, a causa da queda do CB e do IB durante a série (figura 1) pode ser atribuída à habilidade técnica do nadador em conjunto com sua aptidão anaeróbia(19).

A grande limitação do presente estudo foi a utilização do esforço máximo de 100m, realizado na forma de simulação competitiva no ambiente de treinamento, como parâmetro de performance (P100). Pyne et al.(7) utilizaram o Sistema de Pontuação Internacional, reconhecido pela FINA (Federação Internacional de Natação Amadora), para avaliar a performance em seu estudo com nadadores australianos de elite. Esse sistema permite comparar qualquer performance, independente do gênero e da prova realizada pelo atleta, e ainda reflete a informação real do ambiente de competição, além da possibilidade de avaliar e comparar os atletas nas suas provas especificas.

Para estabelecer um bom período de treinamento de acordo com as capacidades do nadador, parece importante determinar tanto parâmetros fisiológicos como técnicos e considerar suas interações e interrelações. No entanto, existe ainda pouco respaldo científico quanto aos critérios e possíveis aplicações de parâmetros de determinação da aptidão anaeróbia juntamente com parâmetros técnicos e suas possíveis relações com a performance em natação.

Através dos resultados obtidos, pode-se concluir que a TA determinada a partir de série de treinamento intervalado de alta intensidade apresentou ser um parâmetro útil para determinar aptidão anaeróbia e predizer a performance de 100m de natação. Além disso, a grande influência dos parâmetros de braçada como CB e IB sobre a TA demonstra a importância da habilidade técnica do nadador a despeito da sua aptidão anaeróbia.

 

AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem ao técnico José Carlos Lopes, do Laboratório de Fisiologia do Exercício da UFSCar, pelo auxílio com a análise das amostras.

 

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Endereço para correspondência:
Rafael Deminice
Rua Arnaldo Victalia no, 971, Iguatemi
14091-220 – Ribeirão Preto, SP, Brasil
E-mail: deminice@ig.com.br

Aceito em 22/11/06

 

 

Todos os autores declararam não haver qualquer potencial conflito de interesses referente a este artigo.