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Revista Brasileira de Medicina do Esporte

Print version ISSN 1517-8692

Rev Bras Med Esporte vol.13 no.3 Niterói May/June 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S1517-86922007000300015 

ARTIGO ORIGINAL

 

Comparação de respostas fisiológicas absolutas e relativas entre ciclistas e triatletas

 

 

Fernando DiefenthaelerI; Cláudia Tarragô CandottiI,II; Jerri RibeiroI; Álvaro Reischak de OliveiraI

ILaboratório de Pesquisa do Exercício – LAPEX – UFRGS, Porto Alegre, RS
IICurso de Educação Física – UNISINOS, São Leopoldo, RS

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

FUNDAMENTOS E OBJETIVO: O limiar anaeróbio, que pode ser determinado a partir do método ventilatório, tem sido proposto como um marcador de capacidade e como referência para prescrição de treinamento em exercícios de resistência aeróbia. O objetivo deste estudo foi comparar o consumo máximo de oxigênio (VO2MÁX) e o limiar ventilatório (LV) de ciclistas e triatletas, durante teste em cicloergômetro.
MÉTODOS: Doze atletas do ciclismo e 13 atletas do triatlo foram submetidos a um teste de esforço máximo, para a determinação do VO2MÁX e LV, que foi mensurado por meio de medida direta, utilizando um ergoespirômetro. O valor do VO2MÁX foi considerado o maior valor mantido durante 30 segundos consecutivos durante o teste. Os equivalentes ventilatórios de oxigênio e de dióxido de carbônico, a pressão parcial de oxigênio e a pressão parcial de CO2 (PETCO2) foram plotados em um gráfico, em função da carga. A partir desses gráficos, o LV foi determinado usando o critério do aumento dos equivalentes ventilatórios com concomitante redução na PETCO2.
RESULTADOS E CONCLUSÃO: Houve diferença (p < 0,05) para o VO2MÁX (57,72 ± 3,92 e 49,47 ± 5,96kg·ml-1·min-1), VO2 no LV (46,91 ± 5,96 e 42,16 ± 4,97kg·ml-1·min-1) e freqüência cardíaca máxima (FCMÁX) (188,83 ± 12,89 e 174,61 ± 13,79bpm) entre ciclistas e triatletas, respectivamente. Entretanto, não houve diferença para o %VO2MÁX no LV (81,42 ± 7,61 e 85,18 ± 6,87%), freqüência cardíaca correspondente ao LV (168,5 ± 13,79 e 157,23 ± 16,15bpm) e %FCMÁX no LV (89,23 ± 6,98 e 90,05 ± 1,04%) entre ciclistas e triatletas. Concluiu-se que ciclistas e triatletas apresentaram diferenças quanto ao seu condicionamento aeróbio, pois apresentaram adaptações fisiológicas distintas.

Palavras-chave: Limiar ventilatório. Freqüência cardíaca. Consumo máximo de oxigênio.


 

 

INTRODUÇÃO

O ciclismo é um dos esportes mais tradicionais no mundo, principalmente na Europa, onde é considerado o esporte número um. Esse esporte data do século XIX, quando surgiram as primeiras bicicletas de competição e também as primeiras provas, sendo a mais tradicional o Tour de France. O treinamento no ciclismo baseia-se na busca da superação dos atletas em provas que se estendem por 23 dias, entre os mais variados tipos de terrenos. Isso provoca importante demanda dos diversos aspectos fisiológicos, bioquímicos e biomecânicos. Dessa forma, é extremamente importante o domínio de todas essas variáveis a fim de otimizar o desempenho dos atletas(1).

O triatlo é um esporte que envolve natação, ciclismo e corrida e representa uma nova abordagem das três modalidades que o compõem, no que se refere a treinamento, equipamento, regulamento e competição(2-4). Os atletas que se dedicam a essa modalidade devem ser polivalentes e apresentar versatilidade, de modo que transitem igualmente pelos três esportes. O treinamento do triatlo, por se tratar de uma prova mista (natação, ciclismo e corrida), resulta geralmente em adaptações que melhoram os valores do consumo máximo de oxigênio (VO2MÁX), bem como adaptações no limiar anaeróbio.

O treinamento no triatlo, portanto, envolve as três modalidades simultaneamente e isso acarreta redução no tempo de treinamento do triatleta para cada esporte específico, quando comparado com um atleta que treina somente uma modalidade(5). Entretanto, tem sido referido que o aproveitamento da capacidade aeróbia máxima de cada modalidade sugere melhora generalizada no sistema cardiovascular, ou seja, parece que o treinamento específico de uma modalidade intervém na outra(6). Portanto, acredita-se que o sucesso em uma prova de triatlo de longa duração (Ironman) pode ser assumido pelo resultado da habilidade do triatleta em manter um ritmo forte nas três modalidades por um período prolongado de tempo.

O limiar anaeróbio tem sido utilizado, com sucesso, como um parâmetro do desempenho em esportes de resistência aeróbia(7), sendo definido como a taxa metabólica mais alta em que a concentração do lactato sanguíneo é mantida em um mesmo nível (steady-state), durante o exercício prolongado(8). O limiar anaeróbio pode ser determinado a partir do método ventilatório(9) e tem sido proposto como um índice de capacidade para exercícios prolongados e, também, como referência para prescrição de treinamento(7-8,10).

Alguns estudos têm medido o VO2MÁX analisando as variáveis dos gases expirados ou mesmo medindo a concentração de lactato sanguíneo para detectar o limiar anaeróbio em atletas que treinam somente uma modalidade(6-7). Atletas de elite do ciclismo e da corrida geralmente apresentam alto VO2MÁX e elevado limiar anaeróbio quando avaliados em suas respectivas especialidades (cicloergômetro e esteira). Como os triatletas não são especializados em nenhuma das três modalidades que compõem o treinamento do triatlo, acredita-se que devam apresentar comportamento distinto dos nadadores, ciclistas e corredores, tanto para o VO2MÁX quanto para o limiar anaeróbio.

Considerando que a etapa de ciclismo representa mais de 50% do tempo total de uma prova de triatlo e antecede a corrida, fase esta que tem sido referida como decisiva da prova(6), parece ser importante que o triatleta apresente desempenho no ciclismo que esteja próximo daquele dos ciclistas de elite.

Na década passada, o tempo médio de uma prova de 40km contra-relógio no ciclismo era de aproximadamente 48 min(11-12), enquanto que no triatlo era de 54min (International Triathlon Union). Atualmente, devido às mudanças nas regras do triatlo, o tempo da etapa de ciclismo tem apresentado redução significativa. Uma vez que se verifica a diminuição da diferença entre o desempenho de triatletas e de ciclistas, a determinação das diferenças fisiológicas entre os dois grupos é de extrema importância. Estudos que busquem essa comparação irão contribuir de forma significativa para a determinação de novas estratégias de treinamento, pois entendemos que o desempenho do ciclista deve ser utilizado como parâmetro de referência para a prescrição de treinamento do triatleta.

Portanto, o objetivo deste estudo foi comparar o VO2MÁX e o VO2 correspondente ao limiar ventilatório (LV) de ciclistas e triatletas, durante teste em cicloergômetro. Como hipótese deste estudo considerou-se que tanto o (1) VO2 correspondente ao limiar ventilatório (LV) como o (2) percentual do consumo máximo de oxigênio (%VO2MÁX) dos ciclistas seria maior do que o dos triatletas, já que o triatleta treina mais duas modalidades esportivas, além do ciclismo, não podendo especializar-se.

 

METODOLOGIA

Amostra

A amostra foi constituída por 12 atletas do ciclismo (grupo 1) e 13 atletas do triatlo (grupo 2), ambos os grupos de elite e com um mínimo de três anos de pratica das respectivas modalidades. Todos os indivíduos eram do sexo masculino. Não houve restrição quanto à faixa etária dos participantes. Foram fornecidas, antes dos testes, informações detalhadas a respeito dos procedimentos a serem utilizados. Todos os indivíduos assinaram um termo de consentimento livre e informado. Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Procedimentos de aquisição

Os atletas foram submetidos a um protocolo para determinação do VO2MÁX. Esse protocolo foi realizado em um cicloergômetro computadorizado CARDIO2 (Medical Graphics Corp., St Louis, EUA), o qual fornece a carga de trabalho de cada estágio e a cadência da pedalada. O VO2MÁX foi mensurado de forma direta, utilizando um analisador de gases modelo CPX/D (Medical Graphics Corp., St Louis, EUA).

Foi utilizado um protocolo em rampa com incrementos de carga de 30 watts.min-1 até a exaustão ou quando os atletas não conseguiam manter a cadência acima de 70rpm. Após o término do teste, era sugerido aos atletas uma recuperação ativa na bicicleta pedalando por quatro minutos.

Os atletas foram posicionados no cicloergômetro, ficando dois minutos em repouso para registrar os valores de base (quando o coeficiente respiratório estava em torno de 0,8 o teste era iniciado). Durante o protocolo, os atletas mantiveram cadência acima de 90rpm. A freqüência cardíaca foi monitorada durante todo o protocolo, através de eletrocardiograma em derivação CM5 (Funbec, Brasil).

O selim e os pedais originais do cicloergômetro foram substituídos por equipamentos utilizados em bicicletas de competição, o que permitiu que os atletas utilizassem suas próprias sapatilhas.

Procedimentos de análise

Uma vez conhecidos os valores do VO2MÁX, da produção de dióxido de carbono (VCO2) e da ventilação (VE), fornecidos pelo ergoespirômetro, esses valores foram plotados, em um gráfico, em relação à carga do teste. O valor do VO2 considerado máximo foi o maior valor mantido por 30 segundos consecutivos durante o teste(10).

O equivalente ventilatório de oxigênio (VE/VO2), o equivalente ventilatório de CO2 (VE/VCO2), a pressão expirada de oxigênio (PETO2) e a pressão expirada de CO2 (PETCO2) foram plotados em gráficos, em função da carga. O VO2 correspondente ao segundo limiar ventilatório foi determinado como sendo o ponto de aumento dos dois equivalentes ventilatórios concomitante com a redução da PETCO2 e com o segundo aumento da curva ventilatória. Para a determinação desse valor, foi utilizada a estratégia de duplo-cego, por meio da avaliação dos gráficos, por dois especialistas.

Tratamento estatístico

A análise estatística foi realizada utilizando-se o software SPSS 10.0. Foi utilizado o teste t independente para verificar as diferenças entre triatletas e ciclistas quanto ao: (1) VO2MÁX, (2) LV e (3) %VO2MÁX. O nível de significância adotado foi 0,05.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os resultados deste estudo demonstraram que houve diferença (p < 0,05) para o consumo máximo de oxigênio (VO2MÁX) e para o limiar ventilatório (LV) entre os grupos 1 e 2, de ciclistas e triatletas, respectivamente, conforme ilustra a figura 1. Os resultados também demonstraram que para o percentual do consumo máximo de oxigênio (%VO2MÁX) não houve diferença entre os ciclistas e triatletas.

 

 

Os valores médios do VO2MÁX e LV foram diferentes, mostrando que ambos os grupos não possuíam um mesmo nível de treinamento aeróbio. Os triatletas apresentaram as médias do VO2MÁX (49,47 ± 5,96kg·ml-1·min-1) e do VO2 no LV (42,16 ± 4,97kg·ml-1·min-1) menores que as dos ciclistas (57,72 ± 3,92kg·ml-1·min-1 e 46,91 ± 5,96kg·ml-1·min-1), respectivamente, indicando que o treinamento especializado dos ciclistas permitiu adaptações fisiológicas que resultaram em maior capacidade aeróbia, quando comparados com os triatletas. Porém, a média da percentagem do consumo máximo de oxigênio (%VO2MÁX), que representa o quanto o LV se aproxima do VO2MÁX, dos triatletas (85,18 ± 6,87%) foi levemente superior à dos ciclistas (81,42 ± 7,61%). Isso pode ser explicado pelo fato de que o grupo dos triatletas, apesar de não treinar mais especificamente o ciclismo, divide seu tempo treinando duas modalidades (natação e corrida), o que demanda maior número de horas semanais para seu treinamento do que o grupo dos ciclistas.

Em um estudo utilizando cicloergômetro e esteira rolante, foi constatado que a maioria dos triatletas registrou valores mais altos de VO2MÁX na corrida, seguido pelo ciclismo e pela natação. A maioria dos triatletas de elite obteve valores de VO2MÁX próximos ou inferiores ao VO2MÁX de ciclistas e corredores de elite(13). Esses dados, portanto, corroboram que os resultados encontrados no presente estudo estão de acordo com a literatura.

O lactato sanguíneo e o limiar ventilatório têm sido usados para identificar o ponto onde ocorre abrupto aumento na produção de ácido lático (acidose metabólica) durante o exercício(14). A magnitude da utilização fracional do consumo máximo de oxigênio (%VO2MÁX), referente ao limiar anaeróbio, parece estar muito próxima à relatada no desempenho durante provas de resistência aeróbia na corrida e no ciclismo(15-17).

Tal correlação pode ser explicada pelo fato de que, durante o teste em cicloergômetro, podem-se medir a carga aplicada, a velocidade, a cadência da pedalada e a freqüência cardíaca (FC) em cada momento do teste. Então, ao se verificar o momento no qual aconteceu o limiar ventilatório e o VO2MÁX, pode-se relacionar tais valores com a velocidade, carga, FC e cadência nos respectivos pontos, para com isso permitir a otimização do treinamento. Dessa forma, os resultados obtidos em testes laboratoriais podem ser utilizados na prescrição de um treinamento mais eficaz, bem como no planejamento de estratégias de competição.

O limiar ventilatório e o lactato, reportados durante um estudo com triatletas(7), foram similares ou pouco inferiores aos relatados em atletas do ciclismo. Segundo Ribeiro et al.(10), fatores associados ao limiar anaeróbio limitam a utilização do %VO2MAX que pode ser sustentado durante exercícios de resistência aeróbia. Em ciclistas com valores similares de VO2MÁX, o tempo de fadiga foi mais que o dobro para os atletas em que o limiar ocorria a 81% do VO2MÁX, quando comparado com aqueles em que o limiar ocorria a 66% do VO2MÁX. Isso significa dizer que, quanto maior o percentual do VO2MÁX, mais eficiente será o atleta, pois ele terá capacidade de suportar e manter um ritmo bem mais próximo do seu máximo, por um longo período de tempo, sem com isso aumentar a produção de lactato sanguíneo.

No presente estudo, os ciclistas e os triatletas apresentaram diferença (p < 0,05) no valor de VO2 correspondente ao limiar ventilatório. Dessa forma, aceitou-se a primeira hipótese, pois o grupo 1 apresentou valores mais elevados do LV que o grupo 2, mostrando que a especificidade do treinamento alterou as adaptações fisiológicas. No entanto, a análise do percentual do consumo máximo de oxigênio (%VO2MÁX) não apresentou diferença entre os grupos. Sendo assim, rejeitou-se a segunda hipótese deste estudo.

O VO2MÁX é considerado o melhor indicador de capacidade aeróbia e o LV, o indicador mais sensível às alterações do condicionamento aeróbio em resposta ao treinamento(18-19). No entanto, recentemente alguns pesquisadores verificaram que o VO2MÁX não é o melhor indicador para o desempenho em provas de resistência aeróbia(1,14). Tem sido sugerido que o mais importante é o ritmo que o atleta pode manter sem acumular grandes quantidades de lactato (aproximadamente 5% abaixo do LV). Parece haver consenso de que o aumento de lactato sanguíneo durante o exercício intenso é um fator limitante para o desempenho, principalmente, em provas de resistência aeróbia(1,10,14-16).

Os resultados do presente estudo quanto ao VO2MÁX, LV e o %VO2MÁX, obtidos, para ambos os grupos, sugerem que independente da especificidade do treinamento, a quantidade de horas de treino (sessões) e sua intensidade tenham sido o fator determinante para que ciclistas e triatletas apresentem níveis distintos de condicionamento aeróbio.

A partir da inclusão do triatlo nos jogos olímpicos (Jogos Olímpicos de Sydney, 2000), o nível técnico em cada modalidade que compõe o esporte exigiu dos atletas um altíssimo preparo físico. Na busca pela melhor performance, triatletas e técnicos têm utilizado, como parâmetros para a prescrição do treinamento, os tempos individuais de atletas de natação, ciclismo e corrida.

Dessa forma, acreditamos que, à medida que o grupo dos triatletas utilizar os valores de VO2MÁX e VO2 correspondente ao LV alcançados pelo grupo dos ciclistas, como referência, na tentativa de aprimorar sua capacidade aeróbia, melhora no desempenho na etapa de ciclismo, seguramente, será observada. Assim como melhor desempenho final durante uma prova de triatlo.

Os resultados deste estudo também demonstraram que houve diferença (p < 0,05) para a freqüência cardíaca máxima (FCMÁX) entre os grupos 1 e 2, sendo os maiores valores para os ciclistas. Os resultados também demonstraram que não houve diferença para a freqüência cardíaca correspondente ao limiar ventilatório (FCLIM) e para o percentual da freqüência cardíaca máxima (%FCMÁX) entre os ciclistas e triatletas. A figura 2 ilustra as médias e desvios-padrões da FCMÁX e da FCLIM em ambos os grupos.

 

 

A média da FCMÁX dos ciclistas (188,83 ± 12,89bpm) foi superior à dos triatletas (174,61 ± 13,79bpm), sugerindo que o grupo dos ciclistas, em função da especificidade do treinamento, pode atingir valores de pico mais altos. Os ciclistas possuem uma zona de freqüência cardíaca, durante o exercício intenso, bem próxima ao seu limite máximo estimado (220 – idade).

Independente do tipo de treinamento, as variáveis fisiológicas (VO2MÁX e FCMÁX), de ambos os grupos, apresentaram valores médios maiores para os ciclistas, provavelmente em função da especificidade do treinamento e não da carga de treinamento, o que está em acordo com outros estudos(15). Ciclistas realizam, em média, 10 sessões de treinamento de ciclismo semanal, divididos em dois turnos (manhã e tarde). Enquanto que os triatletas realizam, em média, 13 sessões de treinamento divididas entre: natação (cinco sessões), ciclismo (quatro sessões) e corrida (quatro sessões).

Na maioria das vezes, o treinamento é realizado em condições que não permitem controlar com exatidão a mesma velocidade que foi obtida nos testes. Utiliza-se, então, a freqüência cardíaca correspondente a essa velocidade. Assim, tem-se um meio mais fácil de controle da intensidade do esforço, já que o controle da FC em pequenos intervalos de tempo é bem mais simples e prático e, por essa razão, é amplamente utilizado.

Segundo Denadai(20) e Morton e Billat(21), não há necessidade de controlar a velocidade, presumindo-se que a relação velocidade versus FC não muda durante a sessão de treinamento. A afirmação desses autores pode ser contestada, pois nem sempre a relação velocidade versus FC é constante. Por exemplo, em um treino de ciclismo, a FC torna-se um parâmetro constante e fidedigno quando comparada com a velocidade, pois muitas vezes o local (relevo do percurso) possui subidas e descidas, vento contra e/ou a favor, fazendo com que a velocidade da pedalada mude constantemente, sem com isso alterar a intensidade do exercício.

Em um estudo envolvendo ciclistas(20), seis sujeitos realizaram três testes em uma bicicleta eletromagnética, com incrementos de carga de 25W a cada três minutos, o primeiro teste para a obtenção do limiar anaeróbio (LA), o segundo com carga imediatamente abaixo do LA e o terceiro com carga imediatamente acima do LA. Em sua conclusão, o autor diz que a FC, tanto nos exercícios realizados abaixo como acima do LA, não serve como um índice adequado para o controle da intensidade do exercício contínuo, pois com o passar do tempo (> 10 min) há uma dissociação entre a FC e a sobrecarga que está sendo aplicada, determinando com isso menor adaptação do organismo em resposta ao treinamento. Concluiu, ainda, que a prescrição da intensidade do exercício contínuo seja feita a partir das metodologias existentes (%FCMÁX, %VO2MÁX ou LA) e que o controle da sessão de treinamento seja, sempre que possível, baseado na sobrecarga encontrada (km.h-1, m.min-1 ou watts).

No momento em que começa a ocorrer uma dissociação entre FC e a carga de trabalho imposta, presume-se que os músculos iniciam um processo de fadiga, com possível aumento na produção de ácido lático, com o objetivo de manter a mesma intensidade. Então, a FC tende a aumentar para compensar as adaptações exigidas durante o exercício.

A percentagem da freqüência cardíaca máxima (%FCMÁX) tem sido extensivamente utilizada como meio de prescrição da intensidade de exercício. Isso ocorre pela grande facilidade que existe em sua mensuração e também por sua estreita relação com o consumo de oxigênio e, conseqüentemente, com a intensidade do exercício. Analisando os resultados obtidos no presente estudo, no qual ciclistas e triatletas apresentaram %FCMÁX muito semelhante, sugere-se que ambos os grupos devam treinar utilizando a %FCMÁX como modulador da intensidade(20).

A partir dos resultados do presente estudo, acredita-se que a prescrição da intensidade do treinamento, de ambos os grupos, pode ser facilmente modulada pelo percentual do consumo máximo de oxigênio (%VO2MÁX) e, neste grupo de indivíduos, pelo percentual da freqüência máxima (%FCMÁX), apesar de não ter sido encontrada diferença significativa para a %FCMÁX entre ciclistas e triatletas. Os resultados indicam que tanto os ciclistas como os triatletas estarão trabalhando muito próximo dos seus limiares ventilatórios.

 

CONCLUSÕES

Os resultados deste estudo demonstraram que tanto ciclistas como triatletas apresentaram valores diferentes para os limiares ventilatórios. Os resultados, também, sugerem que os atletas de ambas as modalidades não treinam na mesma intensidade de esforço, de modo que as adaptações fisiológicas para cada grupo de atletas são distintas. Seria interessante conduzir outro estudo, com um grupo de amostragem maior e utilizar ciclistas e triatletas da categoria elite nacional, para que esses resultados possam ser comparados e padronizados. Acredita-se que, a partir dessa comparação, os ciclistas e triatletas poderão ser classificados em categorias de acordo com o seu desempenho no teste em cicloergômetro.

 

AGRADECIMENTOS

Este artigo é reflexo da paixão do Prof. Antônio Carlos Stringhini Guimarães pelo estudo dos aspectos biomecânicos e fisiológicos do ciclismo. Essa paixão norteou este e diversos outros trabalhos, orientados, ou não, por ele. O Prof. Guimarães faleceu no dia 22 de outubro de 2005 praticando justamente o esporte objeto de seu estudo. Seu comportamento ético não permitiria, em hipótese alguma, que seu nome constasse entre os autores deste trabalho, uma vez que não foi diretamente por ele orientado. Por todo o seu trabalho, influência, rigor científico e amizade, o homenageamos.

 

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Endereço para correspondência:
Escola de Educação Física
Universidade Federal do Rio Grande do Sul LAPEX
Sala 212, Rua Felizardo 750, Bairro Jardim Botânico
90690-200 – Porto Alegre, RS
E-mail: fdiefenthaeler@gmail.com / aroliveira@esef.ufrgs.br / candotti@unisinos.br

Aceito em 15/7/06

 

 

Todos os autores declararam não haver qualquer potencial conflito de interesses referente a este artigo.