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Revista Brasileira de Medicina do Esporte

Print version ISSN 1517-8692

Rev Bras Med Esporte vol.15 no.6 Niterói Nov./Dec. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S1517-86922009000700002 

ARTIGO ORIGINAL
CLÍNICA MÉDICA NO EXERCÍCIO E NO ESPORTE

 

Efeito da temperatura da água nas respostas cardiovasculares durante a caminhada aquática

 

Effect of water temperature in cardiovascular responses during aquatic walking

 

 

Angélica Cristiane OvandoI, II; Heloisa Meinke EickhoffI; Jonathan Ache DiasII; Eliane Roseli WinkelmannI

IUniversidade do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul – Unijuí – Departamento de Ciências da Saúde. Curso de Fisioterapia. Ijuí, Rio Grande do Sul (RS), Brasil
IIUniversidade do Estado de Santa Catarina – Udesc - Centro de Ciências da Saúde e do Esporte – Cefid – Programa de Pós-Graduação em Ciências do Movimento Humano. Florianópolis, Santa Catarina (SC), Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

O objetivo deste estudo foi verificar o efeito da temperatura da água nas respostas cardiovasculares: frequência cardíaca (FC), pressão arterial sistólica (PAS) e pressão arterial diastólica (PAD), durante a caminhada aquática em três temperaturas (29°C, 33°C e 37°C). Participaram do estudo 10 homens, com média de idade de 23,2 ± 2,25 anos, massa corporal de 78,4 ± 4,01kg e estatura de 1,774 ± 0,017m. Os participantes realizaram caminhadas aquáticas durante 30 min, a uma cadência controlada de 55 passos/minuto, na altura do processo xifoide, em dias diferentes para cada temperatura, sendo as respostas cardiovasculares monitoradas nos minutos 5, 10, 20 e 30. Apesar do efeito principal de 75,4% (p < 0,001) da temperatura da água sobre a variação da FC, também foi identificado um efeito do tempo de exercício de 91,8% (p = 0,001). A FC aumentou gradativamente no decorrer da caminhada, especialmente na temperatura de 37°C (71,3 ± 8,4 para 114,6 ± 4,4); ao final da caminhada foi maior que os 29°C (p < 0,01) e 33°C (p < 0,05); estas últimas não apresentaram diferença entre si. A temperatura parece ter tido pouco efeito sobre a PAS, visto que apenas nos minutos 20 e 30 foi maior aos 33°C comparada com a de 29°C (p < 0,05). A PAD sofreu efeito da temperatura, diminuindo gradativamente no decorrer da caminhada, especialmente na temperatura de 37°C (70,0 ± 5,0 para 40,0 ± 2,5); apresentou diferença significativa em relação às temperaturas de 29°C e 33°C (p < 0,05), as quais não mostraram diferença entre si. Considerando o efeito da temperatura da água sobre a FC e a PAD durante a caminhada aquática, sugere-se que, quando piscinas terapêuticas forem utilizadas para realização de caminhada na água, a escolha da temperatura da água seja considerada, recomendando-se valores entre 29°C e 33°C para menor estresse cardiovascular.

Palavras-chave: imersão, exercício, frequência cardíaca, pressão arterial.


ABSTRACT

The purpose of this study was to investigate the effect of water temperature in cardiovascular responses: heart rate (HR), systolic blood pressure (SBP) and diastolic blood pressure (DBP), while walking in water at different temperatures (29°C, 33°C e 37°C). Ten men, mean age 23.2 ± 2.25 years, mean weight 78.4 ± 4.01 kg, mean stature 1.774 ± 0.017 m, participated in the study. Each individual underwent water walking in different days for each temperature during 30 min, with a controlled cadence of 55 steps per minute, at a depth in the xiphoid process. During aquatic walking, the HR and blood pressure (BP) were measured at the 5th, 10th, 20th, and 30th minute of walking. Despite the 75.4% (p<0.001) main effect of water temperature on the HR, we also identified a significant effect of 91.8% (p=0.001) of exercise time. HR increased most during exercise in water at 37°C (71.3 ± 8.4 to 114.6 ± 4.4), showing significant difference compared to 29°C (p<0.01) and 33°C (p<0.05) temperatures, which were not different from each other. Water temperature seemed to have little effect on the SBP, we have only identified differences between 29°C and 33°C temperatures in the 20' e 30' minutes (p<0.05). DBP has decreased at all temperatures studied, and it was more expressive in 37°C (70.0 ± 5.0 to 40.0 ± 2.5) showing significant difference compared to 29°C and 33°C (p<0.05) temperatures, which were not different from each other. Considering the effect of water temperature on HR and DBP during water walking, it is suggested that water temperature should be considered when walking in water, and temperatures between 29 and 33C are recommended for less cardiovascular strain during water walking.

Keywords: immersion, exercise, heart rate, blood pressure.


 

 

INTRODUÇÃO

A prática de atividades físicas aquáticas torna-se cada vez mais popular, incluindo tanto indivíduos saudáveis quanto portadores de diversas patologias. Dentre as modalidades de exercícios aquáticos, a caminhada tem sido utilizada em atividades de reabilitação, terapêuticas e também em programas de condicionamento específicos, sendo particularmente útil para indivíduos com lesões nos membros inferiores. Tal modalidade de exercício destaca-se ainda pelo fato de não envolver habilidades especiais, além de poder ser realizada nas mais variadas condições de saúde do indivíduo(1,2).

Na reabilitação em ambiente aquático é necessário conhecer, além das sutilezas do meio, as alterações fisiológicas produzidas nas diversas modalidades de atividades, durante e após a imersão em diferentes condições de temperatura da água. O acompanhamento da forma pela qual a frequência cardíaca (FC) e a pressão arterial (PA) reagem em diferentes temperaturas da água durante o exercício pode ser útil na apreciação do estresse cardiovascular provocado pela temperatura da água. Tais variáveis permitem o entendimento das respostas cardiovasculares agudas ao exercício, que consistem em uma série complexa de ajustes para fornecer aos músculos em atividade um suprimento adequado de sangue, ao mesmo tempo em que se dissipa calor e se mantém um aporte de nutrientes necessários a órgãos vitais como o cérebro e o coração(3).

Estudos têm relatado o efeito do meio aquático sobre o comportamento da FC; alguns deles relatam a ocorrência de taquicardia(4-9), outros afirmam que não há alterações(10) e a maior parte dos estudos revela ocorrência de bradicardia(9,11-20). No que diz respeito ao comportamento da PA, foram encontrados poucos estudos e as respostas são contraditórias. De acordo com a literatura revisada, a pressão arterial sistólica (PAS) pode aumentar, diminuir ou mesmo permanecer inalterada(8,9,21), enquanto a pressão arterial diastólica (PAD) tem mostrado redução durante a imersão em várias temperaturas(8,9,21). A caminhada aquática também tem sido objeto de alguns estudos enfocando as respostas cardiorrespiratórias e metabólicas(7,21,22), mas poucos apontam as diferenças dessas variáveis em diferentes temperaturas. Além disso, nos estudos encontrados, a caminhada é realizada em esteira rolante submersa, o que não é comum na prática clínica diária.

A FC é muito utilizada para prescrição e monitorização da intensidade do exercício, em função de suas relações com o consumo de oxigênio e com a intensidade de trabalho(23), sendo um método de fácil mensuração. No entanto, sua aplicação nos programas de exercícios aquáticos pode ser equivocada, dada a influência do meio aquático sobre o sistema cardiovascular, especialmente quando se desconsidera a temperatura da água na qual a atividade será realizada. Conforme Sheldahl et al.(24), a FC para o treinamento na água não deve ser a mesma dos exercícios em terra, visto que as alterações na FC em ambiente aquático são causadas pela temperatura da água e/ou pela hipervolemia central. A monitorização e o controle das respostas cardiovasculares durante o exercício aquático em diferentes temperaturas tornam-se fundamentais na condução segura das atividades propostas, especialmente quando se trabalha com indivíduos cujas condições clínicas permitem pensar em risco cardiovascular aumentado.

Considerando a presente preocupação no que se refere a um possível estresse provocado por atividade aeróbica em piscinas terapêuticas aquecidas, este estudo teve como objetivo verificar o efeito da temperatura da água nas respostas cardiovasculares (FC e PA) de homens jovens e saudáveis durante a caminhada aquática sem a utilização de esteira, em três diferentes temperaturas (29°C, 33°C e 37°C), que se assemelham àquelas comumente utilizadas na hidroterapia. Dessa forma, buscou-se identificar o ambiente com menor estresse cardiovascular para a realização de caminhada aquática em intensidade apropriada para a reabilitação, especialmente no caso de lesões dos membros inferiores.

 

MÉTODOS

Sujeitos

Participaram do presente estudo 10 sujeitos do sexo masculino, não atletas, com 23,2 ± 2,2 anos, massa corporal de 78,4 ± 4,0kg, estatura de 1,77 ± 0,02m e VO2max de 51,709 ± 4,714ml.kg-1.min-1, avaliado por teste ergoespirométrico, mostrando-se um grupo homogêneo em relação à aptidão física. O grupo foi selecionado a partir dos seguintes critérios de inclusão: deveriam ser homens, adaptados ao meio líquido, com faixa etária entre 20 e 25 anos e estatura entre 1,75 e 1,80m. Como critério de exclusão foi estabelecido que não devessem apresentar lesões musculoesqueléticas no ato da coleta e nem diagnóstico de doenças cardiovasculares. Os sujeitos foram convidados a participar do estudo, informados sobre os procedimentos de forma verbal e escrita, e em seguida assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido. Os procedimentos foram aprovados previamente pelo comitê de ética em pesquisa local.

Procedimentos da coleta de dados

O presente estudo foi realizado em uma piscina terapêutica (6 x 4 x 1,5m). Uma semana antes da coleta foi realizado um pré-experimento, onde os indivíduos foram submetidos a todo o protocolo. Esse momento serviu para definir a cadência apropriada (passos/minuto), com velocidade confortável semelhante à utilizada em situações de reabilitação e que pudesse ser mantida em um mesmo ritmo durante 30 minutos de forma cômoda. Estabelecida a cadência (55 passos/min), os sujeitos treinaram a marcha em cadência controlada durante 30 minutos, reproduzindo todo o procedimento de coleta de dados que teria inicio na semana seguinte. Após o pré-experimento, os sujeitos participaram de três sessões, cada uma em temperatura diferente a 33°C, 29°C, e 37°C, nessa ordem, em diferentes dias, com intervalo de uma semana entre cada avaliação. Todos os sujeitos foram avaliados seguindo essa mesma sequência de temperaturas. A cadência foi controlada utilizando como metrônomo um sinal sonoro gravado em um compact disk (CD).

As avaliações ocorreram sempre às 15h. Foi solicitado que os participantes não realizassem exercícios por 48 horas e também se abstivessem do consumo de bebidas que pudessem conter cafeína e/ou álcool depois das 21h do dia anterior ao do teste. No local da avaliação, os indivíduos permaneceram em repouso na posição sentada durante 10 minutos. Em seguida foi verificada, de cada sujeito, a PA com um esfigmomanômetro (Heidji, Brasil) e um estetoscópio (Diasyst, Brasil), e a FC com um oxímetro de pulso (Nonin Onyx 9500, EUA), na posição sentada, em repouso. Todos os instrumentos de medida estavam devidamente calibrados. A aferição da pressão arterial foi realizada por um avaliador experiente, cuja reprodutibilidade na situação de repouso e de exercício foi determinada previamente, estabelecendo-se um erro técnico de medida intra-avaliador menor que 2%. A temperatura ambiente durante a coleta dos dados permaneceu entre 22 e 28°C de acordo com termômetro digital da marca Incoterm (resolução de 0,1ºC). Para medida da temperatura da água foi utilizado um termômetro químico de líquido da marca Incoterm, com resolução de 0,5°C.

Os valores encontrados no minuto de pré-imersão foram considerados os de FC e PA em repouso. Após essa verificação, cada sujeito foi instruído a entrar lentamente na água, que estava à altura do processo xifoide até o ponto que foi demarcado como sendo o inicio da caminhada, onde permaneceu em repouso por 30 segundos, ouvindo o sinal sonoro do CD com o ritmo da caminhada. Após 30 segundos, foi dado o comando verbal para que iniciasse a marcha. Os parâmetros de FC e PA foram monitorados nos minutos 5, 10, 20 e 30. Para a mensuração desses, cada sujeito permaneceu com a articulação do ombro esquerdo em abdução de ± 90º com o cotovelo estendido na borda da piscina, mantendo marcha estacionária na frequência do metrônomo enquanto eram verificadas a FC e PA. Adicionalmente, ao final de cada minuto estabelecido nas três diferentes temperaturas, foi apresentada a escala de Borg(25) de 6-20 pontos e cada sujeito indicou o nível de esforço percebido. Ao final dos 30 minutos, cada sujeito deixou a piscina e permaneceu fora da água, em repouso na posição sentada, e a FC e PA foram novamente monitoradas no quinto e 10º minuto após a saída da piscina.

 

ANÁLISE ESTATÍSTICA

A estatística descritiva constituiu-se da apresentação da tendência central dos dados, média ou mediana, e da dispersão com a utilização do desvio padrão (DP) ou intervalo interquartil (IIQ). Os dados da FC apresentaram distribuição normal e os da PA não, de acordo com o teste de Shapiro-Wilk. Como estatística inferencial para análise da variável FC foi utilizado o teste ANOVA fatorial 3 x 4 com duas variáveis independentes dentre participantes, a temperatura com três níveis (29°C, 33°C e 37°C) e os minutos em imersão (tempo de caminhada) a quatro níveis (5', 10', 20' e 30'). O teste t pareado foi utilizado como post-hoc para verificar os efeitos simples tanto da temperatura quanto do tempo de caminhada. Os efeitos principais da temperatura e do tempo de caminhada sobre a PA foram analisados com o teste não paramétrico de Friedman. Posteriormente, para verificar os efeitos simples, foi utilizado o teste de Wilcoxon. Os testes foram realizados com o software SPSS versão 14.0, adotando-se um nível de significância de 5% (p < 0,05).

 

RESULTADOS

Verificada a condição de esfericidade e homogeneidade das variâncias dos valores da FC, o teste ANOVA fatorial identificou um efeito principal de 91,8% (F = 89,217; df = 1; p < 0,001) do tempo de caminhada (minutos) e 75,4% (F = 24,527; df = 1; p = 0,001) da temperatura sobre a variação da variável FC. Não foi encontrada interação entre o tempo de exercício e temperatura sobre a FC.

Com relação ao efeito principal da temperatura sobre a PA, a tabela 1 apresenta a comparação da PAS e da PAD entre as temperaturas em cada minuto da caminhada. No entanto, como foi utilizado um teste não paramétrico, não foi possível definir o tamanho deste efeito.

 

 

O comportamento da FC, PAS e PAD nas três condições de temperatura e em diferentes minutos da caminhada é mostrado na figura 1, onde a FC está apresentada com média e DP e a PAS e PAD, com mediana e IIQ. A figura 1 apresenta também os efeitos simples (comparação aos pares) da temperatura sobre a FC e PA.

 

 

A tabela 2 apresenta a diferença dos valores da FC e PA entre os minutos de pré-imersão e o final da caminhada (30').

 

 

A figura 2 apresenta a mediana dos valores da percepção de esforço subjetiva de todos os sujeitos em cada minuto, avaliada pela escala de Borg(25) nas três condições de temperatura.

 

 

DISCUSSÃO

No presente estudo o exercício de caminhada realizado pode ser considerado de baixa intensidade para esse grupo de jovens do sexo masculino, confirmado pela média da FC apresentada que não se aproximou da FC submáxima ou máxima, e pela percepção subjetiva do esforço (figura 2). O comportamento da FC durante o exercício foi crescente nas três temperaturas, no entanto, em 37°C observou-se maior elevação da FC durante a caminhada; os valores médios ao final de 30' foram 21% maiores que em 29°C e 12% maiores que em 33°C. Além disso, os indivíduos relataram sensação de desconforto e maior dificuldade para realizar a caminhada na temperatura de 37°C, o que pode ser conferido pelo esforço percebido (figura 2). O estudo de Weston et al.(26) apresenta importantes reflexões no que diz respeito ao efeito da imersão em repouso na temperatura de 37°C. Os autores observaram taquicardia e aumento da temperatura corporal central de 0,5°C. Dessa forma, a observação de FC mais elevada após exercício de caminhada nessa mesma temperatura no presente estudo parece consistente com o efeito no repouso. Os autores(26) sugerem que a principal contribuição para essa taquicardia tenha sido maior taxa de despolarização do nodo sinoatrial que ocorre em temperaturas corporais elevadas. Tal observação poderia contribuir para explicar a FC mais elevada na temperatura de 37°C no presente estudo. Outra hipótese para o aumento da FC em 37°C no presente estudo poderia estar relacionada com gasto energético maior nessa temperatura, uma vez que a FC reflete o gasto energético e a intensidade metabólica durante o exercício e essa resposta é, em parte, dependente da temperatura da água(1).

O comportamento semelhante dos valores médios da FC de repouso nas três diferentes etapas da coleta de dados indica que a dimensão das alterações encontradas na FC durante a caminhada foi provocada pelas diferentes temperaturas de água utilizadas. Alguns estudos abordaram o efeito da temperatura da água no comportamento da FC durante o exercício. McArdle et al.(27) observaram diminuição da FC em temperaturas mais baixas da água comparadas com mais elevadas durante exercício em cicloergômetro aquático. Shimizu et al.(28), ao comparar caminhada de cinco minutos em esteira subaquática em temperaturas de 25, 30 e 35°C, observaram que a FC teve maior aumento durante o exercício a 35°C e, de acordo com os autores, esse comportamento pode ser explicado pela necessidade aumentada de fluxo sanguíneo para a pele na temperatura mais elevada. No mesmo estudo, não houve diferença entre o VO2max durante a caminhada nas três diferentes temperaturas.

Os valores de FC encontrados no presente estudo corroboram os estudos supracitados, onde o mesmo exercício realizado em um ambiente aquático com temperatura mais elevada apresenta maiores valores da FC. Considerando que o exercício em meio aquático normalmente é prescrito com base na FC e esforço subjetivo, a temperatura da água deve ser considerada ao utilizar esse indicador de intensidade de esforço no meio aquático. Ainda, deve ser considerado o fato de, em temperaturas termoneutras (32°C e 33°C), a FC ser menor no exercício aquático comparado com o terrestre(1) e, em temperaturas mais elevadas, a FC ser maior ou igual à do exercício terrestre(21,28). Conforme observado no estudo de Hall et al.(21) e Shimizu et al.(28), em temperaturas mais elevadas, para uma mesma intensidade de exercício, a FC foi maior; no entanto, o consumo de O2 permaneceu o mesmo. Embora o presente estudo não tenha avaliado o VO2 durante a realização da caminhada, a observação de estudos prévios permite afirmar que a prescrição de exercício para condicionamento cardiorrespiratório em piscina terapêutica aquecida acima de 36°C, baseada na FC, poderia ser equivocada, uma vez que o indivíduo poderia atingir sua FC alvo de treinamento com menor intensidade de exercício. De acordo com Graef e Kruel(29), a escala de Borg parece ser uma opção adequada para o controle da intensidade de exercícios aquáticos, considerando-se as recomendações inerentes a sua aplicação.

Quanto ao comportamento da PAS, foi possível identificar um efeito da temperatura na variação da mesma; no entanto, as diferenças encontradas foram somente entre as temperaturas de 29°C e 33°C nos 20' e 30' de caminhada (figura 1). Quando comparado o valor pré-imersão com o de 30' (tabela 2), somente foi observada diferença significativa na temperatura de 33°C, indicando que o tempo de exercício não teve efeito sobre a PAS nas demais temperaturas. Tais achados permitem afirmar que a temperatura teve pouco efeito sobre essa variável, pois em relação à temperatura 37°C não foram observadas diferenças significativas.

De acordo com Sramek et al.(30), as mudanças na PA induzidas pela imersão não são uniformes. Em seu estudo, a PAS durante a imersão em repouso de uma hora diminuiu em média 11% nas temperaturas de 20ºC e 32°C. Em outro estudo(9), com imersão em repouso durante 30 minutos em três condições de temperaturas diferentes (29°C, 33°C e 37ºC), a PAS também diminuiu em todas elas. Aumento da PAS durante exercício em meio aquático é identificado no trabalho de Hall et al.(21), no qual se observou elevação após cinco minutos de caminhada em esteira submersa, nas temperaturas de 28°C e 36°C, sendo que o aumento maior foi observado na de 36°C. Em outro estudo(31), foi avaliada a regulação cardiovascular durante exercício em bicicleta ergométrica na terra e em ambiente aquático na temperatura 32°C. Foram encontrados valores semelhantes da PAS, comparando-se água e terra, nas mais variadas intensidades de exercício.

Em relação à PAD, foi detectado no presente estudo que durante a caminhada ocorreu diminuição gradativa da mesma em todas as temperaturas (figura 1), principalmente na 37°C. O comportamento decrescente da PAD durante a caminhada é muito semelhante ao do durante o repouso, observado no estudo de Ovando et al.(9), onde foram utilizadas as mesmas temperaturas da água do presente estudo, e a PAD teve comportamento decrescente em todas as temperaturas estudadas. Esse fato pode indicar que a diminuição da PAD durante o exercício, neste estudo, pode ter ocorrido em parte em função da imersão em si, que provoca diversas alterações no sistema circulatório(1). A temperatura, entretanto, também teve efeito sobre a PAD no presente trabalho, uma vez que esta mostrou comportamento diferente entre as três temperaturas estudadas, com valores mais baixos especialmente na de 37°C, totalizando redução de 42,9% quando comparada com valores pré-imersão (tabela 2). Comportamento semelhante é observado no trabalho de Hall et al.(21), que ao comparar as respostas cardiorrespiratórias entre duas temperaturas (28°C e 36°C), somente em 36°C encontraram diminuição significativa da PAD. Segundo os mesmos autores, a vasodilatação resultante da imersão em água aquecida aumenta o débito cardíaco e o fluxo sanguíneo para a pele e, dessa forma, aumenta a PAS e reduz a PAD. Além disso, foi demonstrado que a resistência vascular sistêmica diminui durante a imersão em água aquecida, tanto em pessoas jovens como em pacientes com insuficiência cardíaca(32). A medida da resistência vascular sistêmica não foi realizada neste estudo, mas uma redução da mesma causada pelo aumento da temperatura da água explicaria a maior diminuição da PAD na temperatura de 37°C.

Embora seja coerente que resultados de indivíduos jovens e saudáveis não sejam extrapolados para populações especiais de pacientes, um exemplo de comportamento da PA e FC é apresentado no presente estudo, e algumas questões devem ser consideradas quanto ao uso de piscina terapêutica aquecida para a prática de caminhada aquática. A caminhada na água, com intensidade semelhante à utilizada durante situações de reabilitação, com cadência de 55 passos por minuto, mostrou-se uma atividade fácil nas temperaturas de 29°C e 33°C (figura 2), ficando entre relativamente fácil e ligeiramente cansativa na temperatura de 37°C para essa população. A FC apresentou valores mais elevados em temperatura de 37°C. Além disso, a PAD reduziu-se consideravelmente durante caminhada em temperatura mais elevada, gerando mal-estar nos sujeitos. Quanto à PAS, esta parece não ser influenciada pela temperatura mais aquecida, mas estudos em populações especiais poderiam trazer respostas mais seguras.

Algumas limitações, no entanto, devem ser consideradas, pois podem ter comprometido, em parte, a interpretação dos resultados. No presente trabalho não foi realizada a aferição da temperatura corporal central, ou mesmo da temperatura da pele, o que dificulta algumas reflexões que melhor explicariam o comportamento das variáveis do estudo frente às variações de temperatura aquática. Os autores também chamam a atenção para o fato do não balanceamento da amostra quanto à ordem de temperatura da água, visto que todos os indivíduos foram submetidos à mesma ordem de temperatura aquática para a realização da caminhada. Na tentativa de evitar alteração das variáveis FC e PA em função do aprendizado da tarefa, houve o cuidado de realizar um estudo pré-experimento, com repetição de todo o protocolo de coleta, familiarizando os sujeitos ao ambiente aquático e ao ritmo de caminhada imposta. Além disso, em um estudo semelhante onde os indivíduos foram submetidos a atividades aquáticas em três temperaturas distintas, em dias distintos, foi observado que a ordem de avaliação em temperatura diferente, ou na terra, não alterou os resultados(28).

 

CONCLUSÃO

O presente estudo possibilitou verificar o efeito da temperatura da água nas respostas cardiovasculares de homens jovens e saudáveis durante a caminhada aquática; na de 37°C os indivíduos apresentaram valores aumentados da FC, além de maiores alterações na PAD nessa mesma temperatura, demonstrando que temperaturas mais altas parecem ter maior efeito sobre o sistema cardiovascular. Nossos resultados não foram consistentes para demonstrar o efeito da temperatura sobre a PAS. Embora a temperatura aquecida da água seja desejável para aliviar a dor e promover relaxamento muscular durante a reabilitação aquática, sugere-se que, quando a piscina terapêutica for utilizada para exercício de caminhada contínua e prolongada em homens jovens, a escolha da temperatura da água seja considerada, recomendando-se valores entre 29°C e 33°C, evitando assim queda excessiva da PAD e sensação de cansaço. Ainda, ao estabelecer a intensidade da caminhada por meio da FC, deve ser considerada, entre outros fatores, a temperatura da água.

Apesar de a temperatura não ter demonstrado efeito sobre a PAS nessa população, sugere-se a realização de estudos que avaliem o efeito da temperatura da água durante a caminhada aquática sobre as respostas cardiovasculares de populações especiais como idosos, indivíduos hipertensos e/ou com outras patologias cardíacas, visto que o meio aquático tem sido uma escolha frequente para exercícios físicos e reabilitação em tais populações.

 

AGRADECIMENTOS

Agradecemos à Clínica de Fisioterapia Fisio & Vida de Ijuí/RS por ceder a piscina para a realização das avaliações.

Todos os autores declararam não haver qualquer potencial conflito de interesses referente a este artigo.

 

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Endereço para correspondência:
Angélica Cristiane Ovando
Rua Desembargador Pedro Silva, 2.202, bloco 7, apto. 33, Bairro Coqueiros
88080-700 – Florianópolis, SC – Brasil
E-mail: angecris@yahoo.com.br

Submetido em: 05/08/2008
Versão final recebida em: 30/06/2009
Aceito em: 05/10/2009