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Revista Brasileira de Medicina do Esporte

Print version ISSN 1517-8692

Rev Bras Med Esporte vol.17 no.1 São Paulo Jan./Feb. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1517-86922011000100008 

ARTIGO ORIGINAL
CIÊNCIAS DO EXERCÍCIO

 

Variáveis fisiológicas e neuromusculares associadas com a performance aeróbia em corredores de endurance: efeitos da distância da prova

 

 

Kristopher Mendes de SouzaI; George VieiraI; Marcelo Figueiró BaldiI; Luiz Guilherme Antonacci GuglielmoI; Ricardo Dantas de LucasI; Benedito Sérgio DenadaiII

ILaboratório de Esforço Físico (LAEF) - UFSC - Florianópolis, SC
IILaboratório de Avaliação da Performance Humana - UNESP - Rio Claro, SP

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

O objetivo deste estudo foi analisar a validade do consumo máximo de oxigênio (VO2max), velocidade associada ao VO2max (vVO2max), tempo de exaustão na vVO2max (Tlim), limiar anaeróbio (LAn), economia de corrida (EC) e força explosiva (FE) para predizer a performance aeróbia de corredores de endurance nas distâncias de 1.500m, 5.000m e 10.000m. Participaram deste estudo 11 corredores de endurance moderadamente treinados (28,36 ± 6,47 anos) que realizaram os seguintes testes: provas simuladas em uma pista de 400m em diferentes dias, nas distâncias de 10.000m, 5.000m e 1.500m; teste incremental máximo para determinar os índices VO2max, vVO2max, e LAn; um teste submáximo de carga constante para determinar a EC, seguido por um teste máximo também de carga constante a 100% da vVO2max para determinar o Tlim; e um teste de salto vertical para determinar a FE. De acordo com a análise de regressão múltipla, a vVO2max utilizada de forma isolada explicou 57% da variação de performance na prova de 1.500m. No entanto, quando o Tlim, a FE e a vVO2max foram analisados em conjunto, a explicação para a performance nessa prova foi de 88%. Nos 5.000m, o Tlim, a vVO2max e o LAn responderam por 88% da variação de performance (p < 0,05). Diferentemente, na prova de 10.000m, o LAn foi a única variável que apresentou capacidade de predição de performance. Em conclusão, a predição da performance aeróbia de corredores moderadamente treinados por meio de variáveis fisiológicas e neuromusculares é dependente da distância da prova (1.500m, 5.000m e 10.000m).

Palavras-chave: predição, provas de endurance, performance de corrida.


 

 

INTRODUÇÃO

Tradicionalmente, as principais variáveis que exercem importante relação com a performance de corredores de endurance incluem o consumo máximo de oxigênio (VO2max)(1,2), o limiar de lactato (LL)(2,3), o limiar anaeróbio (LAn)(3,4) e a economia de corrida (EC)(1,2,5). Entretanto, corredores treinados podem apresentar valores similares nesses índices e, assim, outras variáveis, como a velocidade associada ao VO2max (vVO2max) e o tempo de exaustão na vVO2max (Tlim), podem contribuir para o sucesso em eventos predominantemente aeróbios(2,4,6). A vVO2max e o Tlim têm mostrado uma importante relação com a performance de endurance em corridas de curta e média distância (800m a 5.000m). Essas provas são predominantemente dependentes da potência aeróbia, enquanto que em provas de longa distância (> 5.000m) a capacidade aeróbia parece ser o aspecto mais importante(4).

Por outro lado, têm-se encontrado evidências sobre uma importante participação do metabolismo anaeróbio na performance de corredores treinados em provas de endurance(7). Adicionalmente, Noakes(8) também sugere que, além da participação anaeróbia na performance desses corredores, aspectos relacionados à potência muscular, os quais estão diretamente integrados com o processo de contração muscular independente do fornecimento de oxigênio ao tecido, podem limitar a performance de endurance durante as competições. Com relação às variáveis neuromusculares, as mais destacadas na literatura são a força explosiva (FE) e a força máxima (FM)(9-12).

Diferentes estudos têm analisado a predição da performance aeróbia durante a corrida a partir dos índices citados anteriormente. Estes estudos, no entanto, utilizaram modelos de regressão simples ou múltipla, analisando, no mesmo grupo de atletas, as relações entre os índices fisiológicos e neuromusculares com o desempenho aeróbio em uma única distância, a qual varia frequentemente entre 1.500m e 10.000m(4). Além disso, é possível notar ainda a ausência de informações suficientes na literatura acerca dos efeitos da distância da prova sobre a relação entre os índices fisiológicos (VO2max, vVO2max, Tlim, LAn e EC) e pelo menos um índice neuromuscular (FE) com a performance aeróbia (diferentes distâncias) em corredores moderadamente treinados com características homogêneas, ressaltando a relevância da realização desta investigação.

Dessa forma, tem sido proposto que a distância da prova e, portanto, a intensidade do exercício, pode influenciar as relações entre os índices fisiológicos e a performance aeróbia(4). Entretanto, não foram encontrados estudos que procuraram relacionar a performance aeróbia obtida nos mesmos atletas, em diferentes distâncias, com dois ou mais índices fisiológicos e neuromusculares, particularmente utilizando a vVO2max, o Tlim e a FE. Deste modo, como o percentual de contribuição aeróbia (85% x 95%) e a intensidade relativa à vVO2max (aproximadamente 105% x 95%) são proporcionalmente diferentes entre as provas de 1.500m e 5.000m, respectivamente(13), e, possivelmente, na prova de 10.000m, a hipótese deste estudo é que as relações entre as variáveis fisiológicas (VO2max, vVO2max, Tlim, LAn e EC) e neuromusculares (FE) com a performance nestas distâncias possam ser diferentes.

Sendo assim, os objetivos deste estudo foram: 1) analisar a capacidade de predição do VO2max, vVO2max, Tlim, LAn, EC e FE para a performance nas distâncias de 1.500m, 5.000m e 10.000m de corredores de endurance moderadamente treinados; e 2) analisar os efeitos da distância da prova na relação entre os índices fisiológicos (VO2max, vVO2max, Tlim, LAn e EC) e neuromusculares (FE) com a performance aeróbia nas distâncias de 1.500m, 5.000m e 10.000m.

 

MATERIAIS E MÉTODOS

Sujeitos

Participaram deste estudo 11 corredores moderadamente treinados (28,36 ± 6,47 anos; 68,67 ± 8,05kg; 173,77 ± 7,23cm; e 10,62 ± 2,95% de gordura corporal). Todos os corredores tinham no mínimo dois anos de experiência com treinamento e provas de endurance e, no período que antecedeu a realização deste estudo, estavam treinando seis dias por semana, com um volume semanal que oscilava entre 70 e 90km. Esse estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Federal de Santa Catarina (protocolo nº 336/06). Os participantes foram informados e familiarizados com todos os procedimentos do experimento, assim como os riscos e benefícios, assinando um termo de consentimento livre e esclarecido.

Protocolo experimental e procedimentos

O protocolo experimental foi realizado dentro de um prazo de duas semanas com todos os testes sendo realizados em um mesmo período do dia. Inicialmente, os atletas realizaram em uma pista de 400m as provas simuladas de performance ordenadas nas distâncias de 10.000m, 5.000m e 1.500m, respectivamente. Na semana seguinte, iniciaram os testes de laboratório para realização das mensurações antropométricas e determinação do VO2max, vVO2max, LAn, EC, Tlim e FE. Todos os testes (condições de laboratório e campo) foram realizados em situações climáticas similares (T = 23-25ºC e URA = 60-68%) (Cosmed, Roma, Itália) e com um intervalo de no mínimo 48h entre cada um deles.

Determinação da performance de corrida nas provas de 10.000m, 5.000m e 1.500m

Os corredores realizaram provas simuladas em uma pista de 400m em diferentes dias, nas distâncias de 10.000m, 5.000m e 1.500m. Antes de cada prova, foi permitido aos atletas realizarem um aquecimento de intensidade moderada seguido de alongamento.

Avaliação antropométrica

A massa corporal foi mensurada em uma balança com precisão de 0,1kg (Filizola®, São Paulo, Brasil). A estatura foi medida em um estadiômetro com precisão de 0,1cm (Sanny, São Paulo, Brasil). O percentual de gordura corporal foi estimado a partir da equação de três dobras cutâneas (tricipital, abdominal, coxa média) proposta por Evans et al.(14) para atletas, sendo utilizado para realização das medidas um adipômetro com precisão de 0,1mm (Cescorf, Porto Alegre, Brasil).

Determinação do VO2max, da vVO2max e do LAn

O VO2max foi determinado utilizando-se um protocolo incremental em esteira rolante (Imbramed Super ATL, Porto Alegre, Brasil). A velocidade inicial foi de 12km.h-1 (1% de inclinação), com incrementos de 1km.h-1 a cada 3min até à exaustão voluntária. Entre cada estágio houve um intervalo de 30s para a coleta de 25µl de sangue do lóbulo da orelha para a dosagem do lactato sanguíneo. A análise do lactato foi realizada por meio de um analisador eletroquímico (YSI 2700 STAT, Yellow Springs, OH, USA). O VO2 foi mensurado respiração a respiração durante todo o protocolo a partir do gás expirado (K4b2, Cosmed, Roma, Itália), sendo os dados reduzidos à média de 15s. O VO2max foi considerado como o maior valor obtido durante o teste nestes intervalos de 15s. Para considerar que durante o teste os indivíduos atingiram o VO2max, foram adotados os critérios propostos por Taylor et al.(15) e Lacour et al.(16). A vVO2max foi considerada como sendo a menor velocidade de corrida, na qual ocorreu o VO2max(17,18). A velocidade referente ao LAn (vLAn) foi encontrada a partir da concentração fixa de lactato de 3,5mmol.L-1(19).

Determinação da EC e Tlim

Inicialmente, os indivíduos realizaram um aquecimento de 7min a 12km.h-1, seguido por um descanso de 3min. Posteriormente, correram por mais 8min a 14km.h-1, com o VO2 sendo medido entre o sexto e o sétimo min, a partir do qual foi determinada a EC do atleta, que foi definida como a relação entre o VO2 e a velocidade de corrida(5). Em seguida, repousaram por 5min na esteira rolante e a velocidade foi ajustada para 100% da vVO2max e o indivíduo foi estimulado verbalmente a manter o esforço até a exaustão. O VO2 foi também mensurado continuamente durante todo o protocolo a partir do gás expirado. O Tlim foi considerado como o tempo total de esforço mantido na vVO2max e foi expresso em segundos.

Determinação da FE

Os sujeitos realizaram um protocolo de salto vertical em plataforma de força Quattro Jump (Kistler, modelo 9290AD) para a determinação da FE. Foi utilizada uma técnica de salto vertical com um movimento de preparação (contramovimento) em que é permitido ao executante realizar a fase excêntrica para em seguida executar a fase concêntrica do movimento(20). Este salto tem sua aplicação na determinação do nível de força explosiva dos membros inferiores(20-22). Todos os indivíduos realizaram um aquecimento com duração de 10min, o qual foi constituído por exercícios de alongamento e saltos e, em seguida, realizaram três saltos na plataforma de força com 1min de intervalo entre cada salto. A altura máxima foi considerada a partir do melhor salto obtido nas três tentativas permitidas.

Análise dos dados

Os dados estão expressos em média ± desvio padrão (DP). A normalidade dos dados foi verificada por meio do teste de Shapiro-Wilk (n < 50). A correlação entre o tempo de prova nos 1.500m, 5.000m e 10.000m e o VO2max, vVO2max, LAn, EC, Tlim e FE foi realizada pela análise de regressão múltipla utilizando o método Stepwise. Para a comparação dos valores de velocidade média nas provas com a vVO2max e a vLAn, foi utilizada a análise de variância ANOVA one way, sendo complementada pelo teste post hoc LSD. Em todas as análises foi adotado um nível de significância de 5%.

 

RESULTADOS

Os tempos de performance, as variáveis fisiológicas e a variável FE estão descritos na tabela 1.

 

 

As associações entre a vVO2max e a vLAn com a velocidade média apresentada em cada uma das provas simuladas estão expressas na tabela 2. De acordo com a análise de variância, a velocidade média da prova de 1.500m (v1.500m) não apresentou diferença significativa em relação à vVO2max. Em relação à velocidade média sustentada durante a prova de 10.000m (v10.000m), foi verificada uma v10.000m significativamente maior do que a vLAn (p < 0,01).

 

 

A tabela 3 destaca os índices que apresentaram capacidade de predição nas diferentes distâncias analisadas. Nesse sentido, pode-se observar que a vVO2max, quando utilizada de forma isolada, é capaz de explicar 57% da performance na prova de 1.500m. Contudo, quando a vVO2max é utilizada em conjunto com o Tlim e a FE, esses índices explicam 88% da performance nessa prova. Para predizer a performance na prova de 5.000m, as variáveis selecionadas pela análise de regressão múltipla foram o Tlim, a vVO2max e a vLAn (R2 = 0,88, p < 0,05). Já na prova de 10.000m, a vLAn foi a única variável que apresentou predição de performance (30% de explicação).

 

 

DISCUSSÃO

O principal resultado encontrado neste estudo foi que a predição da performance de endurance de corredores moderadamente treinados a partir de variáveis de caráter fisiológico (VO2max, vVO2max, Tlim, LAn e EC) e neuromuscular (FE) é dependente da distância da prova (1.500m, 5.000m e 10.000m). Contudo, apesar da duração da prova apresentar efeitos na relação entre esses índices e a performance dos atletas nestas distâncias, é importante ressaltar que o sistema aeróbio de produção de energia é predominante em todas as provas estudadas(13,23).

Alguns estudos têm analisado a capacidade de variáveis fisiológicas e neuromusculares de predizer performance de corredores de endurance(4,9-13,23-25). Além disso, esses estudos têm verificado a influência da distância da prova na relação entre essas variáveis com a performance aeróbia, visto que o percentual de contribuição do metabolismo aeróbio e as intensidades relativas à vVO2max e à vLAn são proporcionalmente diferentes entre provas de endurance(4,9-13,23-25).

Apesar de o VO2max ser considerado um determinante fisiológico da performance aeróbia de corredores de endurance, quando se analisam grupos homogêneos de corredores, essa variável tem apresentado pouco poder discriminatório da performance em eventos predominantemente aeróbios(4). Isso pode ser evidenciado também no presente estudo, visto que não houve correlação entre nenhuma prova e esse índice fisiológico. Uma das explicações para esse comportamento pode ser devido ao baixo coeficiente de variação do VO2max (8,4%).

Além disso, quando se avaliam corredores que apresentam performances similares e baixa variabilidade do VO2max, pode-se encontrar dificuldade na associação entre as variáveis. Um baixo coeficiente de variação para a faixa de valores de uma ou ambas as variáveis (neste caso, os tempos de performance e VO2max) determina um coeficiente de correlação próximo de zero quando se associa uma variável com a outra. Uma vez que corredores que apresentam valores similares de VO2 são analisados, tem-se acreditado que a homogeneidade do grupo pode fornecer informações mais precisas quanto à capacidade de predição de performance por parte de outras variáveis fisiológicas e neuromusculares (ex: vVO2max e FE).

Interessantemente, assim como o VO2max, foi o fato de a EC não apresentar correlação com nenhuma prova estudada. Isso é um tanto surpreendente, visto que, entre corredores homogêneos quanto aos valores de VO2max, a EC tem sido considerada uma variável fisiológica importante na determinação da performance de endurance(5). No entanto, neste estudo, a EC também apresentou uma baixa variabilidade (CV = 7,5%), encontrando, dessa forma, dificuldade na associação entre as variáveis (performance x EC).

Na distância de 1.500m, a vVO2max, o Tlim e a FE foram as variáveis que apresentaram correlação significativa com a prova, explicando 88% da variação da performance dos corredores do presente estudo. Além de apresentar correlação com os 1.500m, explicando 57% da performance quando utilizada de forma isolada, a vVO2max não apresentou diferença da v1.500m. Nos estudos de Lacour et al.(25) e Lacour et al.(16), encontrou-se correlação significativa entre a vVO2max e a performance de corredores de endurance na prova de 1.500m (r = -0,62 e r = -0,90, respectivamente). No entanto, no estudo de Lacour et al.(25) a amostra foi composta por um grupo de atletas mais homogêneos (CV = 10% na v1.500m), sendo que no estudo de Lacour et al.(16) os corredores analisados tinham uma maior variação na performance dos 1.500m (CV = 30% na v1.500m). Essa maior variação de performance encontrada no estudo de Lacour et al.(16) pode explicar a alta correlação apresentada entre a vVO2max e a performance dos 1.500m. Além disso, a vVO2max pode explicar melhor as diferenças de performance entre corredores bem treinados, sendo assim mais fidedigna que outras variáveis como VO2max e EC(24).

No estudo de Denadai et al.(4) foi observado que, em corredores de endurance moderadamente treinados, a vVO2max e o Tlim explicaram 88% da variação da performance nos 1.500m. Resultados semelhantes foram apresentados por Billat et al.(26), nos quais a vVO2max e o Tlim foram as variáveis que explicaram quase que totalmente a variação da performance de corredores de elite na prova de 1.500m (95% de explicação).

Muitos estudos têm mostrado que, além de variáveis fisiológicas, variáveis neuromusculares são também importantes para predizer performance de endurance(9-11). Assim, uma das propostas do presente estudo foi analisar a capacidade de predição de performance por variáveis fisiológicas e neuromusculares, visto que no modelo de Paavolainen et al.(9) a performance de corrida é influenciada não somente pelo consumo e utilização de oxigênio, mas também por fatores relacionados à capacidade de recrutamento de unidades motoras e produção de força muscular. Alguns autores(27) têm suportado essa ideia, destacando que em alguns estudos que utilizaram o pico de velocidade no teste anaeróbio máximo de corrida (VMART), o qual tem sido utilizado para mensurar a capacidade anaeróbia e a potência muscular, foi encontrada relação com a prova de 1.500m. Outros estudos(9-11) também suportam essa ideia, visto que apresentam resultados que associam características neuromusculares com a performance em provas de 5.000m e 10.000m. Isso enfatiza a importância da potência muscular em esportes de endurance, visto que tanto o componente anaeróbio como as características neuromusculares podem desempenhar um papel importante na performance aeróbia, principalmente quando os atletas apresentam características aeróbias similares(9-11).

No presente estudo, a velocidade sustentada durante os 5.000m (~16,5km.h-1) foi superior à vLAn (~111%); no entanto, ficou abaixo da vVO2max (~90%). As variáveis que explicaram a performance nessa distância foram o Tlim, a vVO2max e a vLAn (88% de explicação). Com referência à correlação encontrada entre a performance dos 5.000m e o Tlim, o qual pode ser empregado para obter informações sobre a capacidade anaeróbia lática(28), os resultados apresentados são semelhantes aos resultados anteriormente destacados na literatura(7), em que foi encontrada correlação significativa (r = -0,74) entre a participação do componente anaeróbio e a performance nos 5.000m. Destaca-se, assim, como em outros estudos, a importância da capacidade anaeróbia para performance de corredores de endurance.

Analisando também a performance nos 5.000m, Lacour et al.(25) encontraram correlação significante (r = 0,86) entre a vVO2max e velocidade média nesta distância. Adicionalmente, tem sido encontrada correlação significativa (r = -0,63) entre o VO2max demand e a performance na distância de 5.000m(9). No estudo realizado por Paavolainen et al.(9), a velocidade máxima atingida em um teste incremental durante a corrida na esteira foi calculada por meio do VO2max demand; no entanto, a inclinação da esteira foi aumentada (velocidade constante) nos últimos estágios do teste, sendo dessa forma a performance de corrida na esteira calculada não pela vVO2max, mas pelo O2 demand no último minuto antes da exaustão (VO2max demand), como proposto pelo ACSM(29).

Tanaka et al.(30) verificaram os efeitos do treinamento de endurance (nove meses) na relação entre variáveis fisiológicas e os 5.000m. Os autores verificaram que, dentre as variáveis correlacionadas com a performance na prova de 5.000m, a vVO2max apresentou correlação significativa antes do programa de treinamento (r = -0,79), ao longo do treinamento (r = -0,75) e depois do treinamento (r = -0,67)(30). O estudo de Tanaka et al.(30) também encontrou correlações significativas entre a performance nos 5.000m e a vLAn (coeficientes de correlação entre -0,79 e -0,83) para os mesmos períodos do treinamento citados acima(30).

Por outro lado, a velocidade na distância de 10.000m (~15,6km.h-1) foi significativamente superior à vLAn (~105%, p < 0,01) e próxima de 85% da vVO2max. Com relação às variáveis estudadas, a análise de regressão múltipla selecionou apenas a vLAn para explicar a performance nessa prova (30% de explicação). Tanaka et al.(30) verificaram também os efeitos do treinamento sobre a relação de variáveis fisiológicas e os 10.000m. Dentre as variáveis que apresentaram correlação com a performance neste estudo(30), a vLAn também foi o melhor preditor apresentando valores de r variando entre -0,81 e -0,84 com o tempo nesta distância.

Resultados semelhantes foram encontrados no estudo de Morgan et al.(24) que verificaram um r = -0,82 entre vLAn e a performance nos 10.000m de corredores bem treinados. É importante ressaltar que, semelhante ao presente estudo, Morgan et al.(24) analisaram um grupo de corredores com características homogêneas de VO2max (64,8 ± 2,1ml. kg-1.min-1; CV = 3,2%) e de performance nos 10.000m (1.937 ± 76s; CV = 3,9%). Assim, em corredores moderadamente treinados, quando a distância da prova determina uma intensidade próxima à vLAn, a performance parece ser mais dependente da capacidade aeróbia (resposta do lactato sanguíneo) que da potência aeróbia ou FE.

Contudo, de acordo com os resultados apresentados no presente estudo, pode-se concluir que a predição da performance aeróbia de corredores de endurance moderadamente treinados, a partir do VO2max, vVO2max, Tlim, EC, LAn e FE é dependente da distância da prova analisada (1.500m, 5.000m e 10.000m). Recomenda-se, entretanto, a realização de estudos similares com corredores de endurance de elite, para verificar as possíveis influências destes fatores na performance desses atletas em diferentes distâncias.

 

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Endereço para correspondência:
Luiz Guilherme Antonacci Guglielmo
Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) - Centro de Desportos - Laboratório de Esforço Físico (LAEF) - Bloco V
Trindade - 88040-900 Florianópolis, SC
E-mail: luizguilherme@cds.ufsc.br

Todos os autores declararam não haver qualquer potencial conflito de interesses referente a este artigo.