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Revista Brasileira de Medicina do Esporte

Print version ISSN 1517-8692

Rev Bras Med Esporte vol.17 no.3 São Paulo May/June 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1517-86922011000300013 

ARTIGO ORIGINAL
CIÊNCIAS DO EXERCÍCIO E DO ESPORTE

 

O papel do esteroide anabolizante sobre a hipertrofia e força muscular em treinamentos de resistência aeróbia e de força

 

 

Everton Crivoi do CarmoI; Carlos Roberto Bueno JuniorII; Tiago FernandesI; Diego BarrettiI; Stéphano Freitas SoaresI; Natan Daniel da Silva JuniorI; Marco Carlos UchidaIII; Patrícia Chakur BrumII; Edilamar Menezes de OliveiraI

ILaboratório de Bioquímica da Atividade Motora - Escola de Educação Física e Esporte Universidade de São Paulo São Paulo - Brasil
IILaboratório de Fisiologia Celular e Molecular do Exercício - Escola de Educação Física e Esporte Universidade de São Paulo São Paulo - Brasil
IIICurso de Educação Física Departamento de Ciências Biológicas e da Saúde Unifieo - São Paulo - Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

INTRODUÇÃO: Os efeitos dos esteroides anabolizantes (EA) sobre a massa muscular e força são controversos e dependentes do treinamento realizado e das fibras musculares recrutadas. Com isso, o objetivo deste estudo foi avaliar os efeitos da associação de EA ao treinamento de força ou aeróbio sobre a hipertrofia e força muscular.
MÉTODOS: Ratos Wistar (42) foram divididos em seis grupos: sedentário (SC, n = 7), sedentário anabolizante (SA, n = 7), treinado natação controle (TNC, n = 7), treinado natação anabolizante (TNA, n = 7), treinado força controle (TFC, n = 7) e treinado força anabolizante (TFA, n = 7). O EA foi administrado duas vezes por semana (10mg/kg/semana). Os protocolos de treinamento foram realizados durante 10 semanas, cinco sessões semanais. Foram avaliadas a hipertrofia dos músculos sóleo, plantar e gastrocnêmio (massa muscular corrigida pelo comprimento da tíbia), a proteína total muscular (Bradford) e a força muscular em patas traseiras (testes de resistência à inclinação).
RESULTADOS: Não foram observadas diferenças significantes na hipertrofia do músculo sóleo. Os grupos TFC e TFA apresentaram, respectivamente, hipertrofia de 18% e 31% no músculo plantar comparado ao grupo SC. A hipertrofia foi 13% maior no grupo TFA em relação ao grupo TFC. Resultados semelhantes foram encontrados no músculo gastrocnêmio. Os grupos TFC e TFA apresentaram significantes aumentos na quantidade total de proteína nos músculos plantares, sendo essa mais pronunciada no grupo TFA e positivamente correlaciona a hipertrofia muscular. Observamos aumento de força nas patas traseiras nos grupos TCF e TAF.
CONCLUSÃO: A administração de EA ou sua associação ao treinamento aeróbio não aumenta a massa muscular e força. Porém, à associação ao treinamento de força leva a maior hipertrofia muscular em fibras glicolíticas. Portanto, o tipo de treinamento físico, recrutamento muscular e características das fibras musculares, parecem ter importante impacto sobre as respostas anabólicas induzidas pelo EA.

Palavras-chave: hipertrofia, músculo esquelético, treinamento físico, ratos.


 

 

INTRODUÇÃO

Os esteroides anabolizantes (EA) inicialmente foram sintetizados para fins terapêuticos; entretanto, tendo em vista seus possíveis efeitos sobre o aumento da síntese proteica, o incremento das reservas energéticas e a redução no tempo de recuperação após treinamento físico, passaram a ser utilizados por atletas para melhorar o desempenho esportivo(1), figurando atualmente entre as substâncias ergogênicas mais utilizadas nas situações de doping(2).

Pesquisas mostram o aumento crescente do uso de EA por praticantes de treinamento de forças recreacionais(1), que têm como principal objetivo melhorar a aparência física. Esses indivíduos geralmente fazem uso de doses suprafisiológicas, chegando a valores de 10 a 100 vezes maiores do que os indicados para fins clínicos(3). Entretanto, os verdadeiros efeitos dos EA sobre a massa muscular e força ainda são controversos na literatura e parecem ser dependentes, entre outros fatores, do regime de treinamento utilizado(4), visto que somente vão promover aumento da massa muscular e da força se forem associados a estímulos - treinamento físico e dieta - específicos(5).

Estudo mostrou que o EA associado ao treinamento de força melhorou o desempenho de atletas em torno de 1 a 5%, que pode não ser estatisticamente significante, mas pode representar a vitória em esportes de alto nível(4). Também são mostrados aumento de força em cerca de 5 a 20% e aumento da massa corpórea entre 2 a 5kg, o que foi diretamente relacionado ao aumento da massa magra e tamanho muscular(6). Por outro lado, alguns estudos não encontraram aumento de massa muscular e força induzidos pelo EA(7,8). Essas divergências nos resultados podem ser decorrentes dos diferentes EA utilizados, doses administradas ou protocolos de treinamento aplicados. Como pode ser observado, ainda permanecem dúvidas na literatura sobre os verdadeiros efeitos dos EA quando associados ao treinamento de força.

Apesar do uso de EA estar mais relacionado a indivíduos praticantes de exercícios que envolvam potência muscular e força, muitos atletas de modalidades aeróbias utilizam EA(9). Esses indivíduos têm como objetivo diminuir o catabolismo induzido pelo grande volume de treinamento(9). Segundo Zyl et al.(10), que investigaram a resistência em corrida submáxima com uso de EA, verificou-se a melhora de 41% no desempenho aeróbio. No entanto, outro estudo mostra que o uso de EA não altera a fadiga em ratos treinados em natação(11). Portanto, os efeitos dos EA associados ao treinamento aeróbio são controversos. Os estudos que investigam a associação de EA ao treinamento aeróbio não avaliam seus efeitos sobre a massa muscular e a força, o que os torna, até o momento, desconhecidos.

Considerando as controvérsias encontradas na literatura a respeito dos efeitos do EA associado a diferentes protocolos de treinamento físico sobre a massa muscular e a força, o objetivo deste estudo foi avaliar os efeitos da associação de EA ao treinamento de força ou aeróbio (natação) sobre a hipertrofia dos músculos sóleo, plantar e gastrocnêmios e sobre a força muscular.

 

MÉTODOS

Amostra: Foram utilizados 42 ratos Wistar machos, com massa corpórea inicial de 260 ± 6g. Os animais foram mantidos em gaiolas, de três a cinco animais, separados por grupos, no biotério do Laboratório de Bioquímica da Atividade Motora da EEFE/USP com temperatura mantida entre 22 e 24ºC e controle de luminosidade, em ciclo invertido claro-escuro de 12 horas. Água e comida foram administradas ad libitum e os animais foram pesados semanalmente. Todos os procedimentos foram aprovados pelo Comitê de Ética da Escola de Educação Física e Esporte da USP e de acordo com as normas do Colégio Brasileiro de Experimentação Animal.

Tratamento: Os animais foram aleatoriamente divididos em seis grupos experimentais (cada grupo, n = 7): sedentário controle (SC), sedentário anabolizante (SA), treinado natação controle (TNC), treinado natação anabolizante (TNA), treinado força controle (TFC) e treinado força anabolizante (TFA). Foram administradas injeções subcutâneas de veículo (controles) ou EA, Decanoato de Nandrolona (Decadurabolin; Organon, Roseland, NJ), duas vezes por semana, na dose de 5mg/kg por seção, totalizando 10mg/kg/semana. Essa dose equivale à geralmente utilizada por atletas (600mg/semana)(12).

Treinamento de natação: Foi realizado segundo protocolo adaptado por Medeiros et al. (2004)(13), em sistema de natação com água aquecida entre 30-32ºC, durante 10 semanas, sendo realizadas cinco sessões semanais, com aumento gradual do tempo da sessão, até atingir 60 minutos, e da sobrecarga de trabalho (peso atado a cauda do animal) até ser atingido 5% da massa corporal. Esse protocolo é caracterizado como treinamento aeróbio de baixa intensidade e longa duração(13).

Treinamento de força: Foi realizado segundo o modelo proposto por Tamaki et al. (1992)(14). Os animais foram envolvidos com uma capa de lona inibindo a torção e flexão do seu tronco e foram colocados sobre o aparelho de agachamento, onde ficavam sustentados em suas patas traseiras. Uma estimulação elétrica (20V, 0,3 segundo de duração por três segundos de intervalo) foi aplicada na cauda do rato por meio de um eletrodo. Como resultado, os ratos estendiam as suas patas traseiras levantando o braço do aparelho com a carga estipulada (figura 1).

 

 

Os animais realizaram quatro séries de 12 repetições com 90 segundos de intervalo entre as séries, cinco vezes por semana por 10 semanas. Antes do início do treinamento foram realizadas duas semanas de adaptação dos animais ao aparelho. Após a realização do teste de uma repetição máxima (1RM) no aparelho de agachamento, estipulou-se para a carga de treinamento a intensidade de 75% de 1RM. A carga máxima de cada animal foi estipulada como sendo o maior peso que o animal pode levantar após estímulo elétrico. Essa foi realizada com periodicidade de duas semanas até a última semana, ação importante para os ajustes na intensidade do treinamento.

Testes de resistência à inclinação: Para a análise da força muscular esquelética em patas traseiras, foi utilizado teste de resistência à inclinação, padronizado anteriormente na literatura(15). Os animais foram colocados sobre uma prancha de madeira, que foi inclinada em velocidade aproximada de cinco graus por segundo, com auxílio de cronômetro e transferidor. Anotou-se o ângulo no qual os animais escorregaram da prancheta, denominado de ângulo de queda(15).

Coleta do material: Os animais foram mortos por meio de decapitação após 24 horas da última sessão de treinamento. Os músculos sóleo, plantar e gastrocnêmios foram coletados, pesados e armazenados em freezer -80ºC para as análises. A tíbia do animal foi dissecada e seu comprimento medido com paquímetro.

Mensuração da hipertrofia muscular e quantificação de proteínas: Para avaliar a hipertrofia muscular esquelética, o peso dos músculos sóleo, plantar e gastrocnêmio foram normalizados pelo comprimento da tíbia do animal e apresentados como mg/mm.

Para quantificação das proteínas, os músculos sóleo e plantar foram descongelados e uma parte de cada amostra (0,1g) foi homogeneizada por meio de um homogeneizador Polytron (PT-K Brinkman Instruments) com tampão de lise hipotônico contendo 10mM TrisHCl e 5mM EDTA, pH 7,4 na presença de uma mistura de inibidores de proteases. O processo de homogeneização foi realizado três vezes durante 15 segundos com intervalos de 20 segundos. O homogeneizado foi centrifugado a 12.500rpm por 20 minutos a 4ºC. O sobrenadante foi transferido para tubos individuais. A concentração de proteína das amostras foi analisada pelo método colorimétrico em um espectrofotômetro (Bradford - Biorad, EUA) com albumina utilizada como padrão (BSA, 1m/ml)(16). As concentrações de proteína total foram apresentadas em mg/g de tecido muscular.

Análise estatística: Os resultados são apresentados como média ± erro padrão (EP). Foi utilizada análise de variância de duas vias para análise dos dados (treinamento e tratamento com EA como variáveis independentes). Quando observado diferença significante, foi realizado o teste de post hoc de Duncan. Considerando p < 0,05 como estatisticamente significante.

 

RESULTADOS

Os dados de massa corporal e comprimento de tíbia não apresentaram diferenças significantes entre os grupos após o período experimental. Entretanto, foi observada uma tendência a um menor ganho de massa corporal no grupo TNA comparado aos grupos TFC (pOs dados de massa corporal e comprimento de tíbia não apresentaram diferenças significantes entre os grupos após o período experimental. Entretanto, foi observada uma tendência a um menor ganho de massa corporal no grupo TNA comparado aos grupos TFC (pOs dados de massa corporal e comprimento de tíbia não apresentaram diferenças significantes entre os grupos após o período experimental. Entretanto, foi observada uma tendência a um menor ganho de massa corporal no grupo TNA comparado aos grupos TFC (pOs dados de massa corporal e comprimento de tíbia não apresentaram diferenças significantes entre os grupos após o período experimental. Entretanto, foi observada uma tendência a um menor ganho de massa corporal no grupo TNA comparado aos grupos TFC (pOs dados de massa corporal e comprimento de tíbia não apresentaram diferenças significantes entre os grupos após o período experimental. Entretanto, foi observada uma tendência a um menor ganho de massa corporal no grupo TNA comparado aos grupos TFC (pOs dados de massa corporal e comprimento de tíbia não apresentaram diferenças significantes entre os grupos após o período experimental. Entretanto, foi observada uma tendência a um menor ganho de massa corporal no grupo TNA comparado aos grupos TFC (pOs dados de massa corporal e comprimento de tíbia não apresentaram diferenças significantes entre os grupos após o período experimental. Entretanto, foi observada uma tendência a um menor ganho de massa corporal no grupo TNA comparado aos grupos TFC (pOs dados de massa corporal e comprimento de tíbia não apresentaram diferenças significantes entre os grupos após o período experimental. Entretanto, foi observada uma tendência a um menor ganho de massa corporal no grupo TNA comparado aos grupos TFC (pOs dados de massa corporal e comprimento de tíbia não apresentaram diferenças significantes entre os grupos após o período experimental. Entretanto, foi observada uma tendência a um menor ganho de massa corporal no grupo TNA comparado aos grupos TFC (p 18 vs. 397 ± 37 e 398 ± 3mg, respectivamente).

Quando analisada a massa muscular normalizada pelo comprimento da tíbia do animal, utilizada como índice de hipertrofia muscular, não foram observadas diferenças significantes no músculo sóleo entre os grupos (figura 2A). Por outro lado, o grupo TFC apresentou hipertrofia do músculo plantar quando comparado ao grupo controle (18%, p < 0,05), sendo que quando associado à administração de EA a hipertrofia encontrada no músculo plantar foi ainda mais pronunciada - o grupo TFA apresentou aumento de 31% (p < 0,05) em relação ao grupo sedentário controle e um aumento de 13% em relação ao grupo TFC (p < 0,05) (figura 2B). Resultados semelhantes foram observados no músculo gastrocnêmio, no qual o grupo TFA apresentou maior hipertrofia muscular em relação aos demais grupos estudados (p < 0,05) (2C). Não foram observadas diferenças significantes nos grupos que realizaram o treinamento de natação.

 


 

Nas figuras 3A e 3B são apresentados os dados referentes à quantificação de proteína total nos músculos sóleo e plantar de todos os grupos estudados. Não foi observada diferença significante de proteína total no músculo sóleo em nenhum dos grupos experimentais. No entanto, os grupos que realizaram o treinamento de força (TCF e TAF) apresentaram significante aumento na quantidade total de proteína no músculo plantar quando comparados aos outros grupos (p < 0,05). Também podemos observar maior concentração de proteína no grupo que treinou força e recebeu EA comparado ao grupo que apenas realizou o treinamento de força (18,81 ± 0,99 vs. 17,54 ± 0,45, p < 0,05). O aumento nas concentrações de proteína total foi positivamente correlacionada com a hipertrofia muscular observada nesses grupos (R2 = 0,76, p < 0,05) (figura 3C).

 



 

O teste de resistência à inclinação, para avaliação da força muscular em patas traseiras, não apresentou diferenças significantes entre os grupos no período pré-experimental. Entretanto, após 10 semanas de tratamento experimental, observamos aumento de força nas patas traseiras dos grupos TCF e TAF em relação aos outros grupos (p < 0,05, figura 4).

 

 

DISCUSSÃO

Os principais resultados encontrados no presente estudo mostram que o EA é eficaz em aumentar a hipertrofia e as concentrações de proteína muscular apenas quando associado ao treinamento de força. Esses efeitos parecem ser dependentes das características das fibras musculares, sendo os efeitos do EA observados no músculo plantar, caracterizado por ser predominantemente composto por fibras glicolíticas. O treinamento de força foi eficaz em aumentar a força muscular nas patas traseiras dos animais. No entanto, o EA parece não exercer influência sobre esse aumento.

Não foram observadas diferenças significantes na massa corporal após o período experimental, embora o grupo TAN tenha apresentado uma tendência a um menor ganho de massa quando comparado aos grupos que realizaram o treinamento de força. A influência do EA sobre a massa corporal ainda é muito contestada na literatura. Em trabalhos anteriores, Yu-Yahiro et al.(17), mostraram redução da massa corporal em ratos tratados com EA, sendo essa associada a uma redução do apetite nesses animais. Por outro lado, outros autores não viram diferenças em ratos tratados com EA(18). Em trabalho publicado anteriormente pelo nosso grupo, observamos resultados semelhantes ao presente estudo, no qual o grupo tratado com EA e treinado em natação apresentou menor ganho da massa corporal em relação aos outros grupos, o que foi explicado pela redução da gordura intraperitoneal encontrada, sugerindo que o uso de EA associado ao exercício físico aeróbio pode favorecer a lipólise(19).

Quanto aos efeitos do uso dos EA sobre a hipertrofia muscular, os resultados vão depender principalmente das drogas utilizadas, dose e tipo de treinamento realizado. Quando falamos em treinamento, já é bem estabelecido na literatura que o método mais utilizado para promover hipertrofia muscular é o de alta intensidade e curta duração com aumento progressivo da sobrecarga, como o levantamento de peso(14). Pela dificuldade para se estudar hipertrofia muscular em humanos com métodos invasivos e realizações de biópsia e a impossibilidade da aplicação de doses suprafisiológicas de EA, optamos por utilizar um modelo de treinamento de força proposto por Tamaki et al.(14), que desenvolveram um aparelho de agachamento que se mostrou efetivo na promoção da hipertrofia muscular em ratos por mecanismos semelhantes aos encontrados em humanos.

Pelo uso de EA ser mais relacionado a modalidades que envolvem potência e força muscular, os efeitos da sua associação ao treinamento aeróbio sobre a hipertrofia muscular e força não são muito estudados, sendo ainda pouco conhecidos. No entanto, atletas de modalidades aeróbias(9), assim como indivíduos que praticam atividade física como forma de lazer(1) e realizam atividades aeróbias durante seus programas de treinamento, fazem uso de EA, o que torna importante o entendimento dos verdadeiros efeitos dos EA quando associado a esse tipo de exercício.

No presente estudo, ambos os grupos que realizaram o treinamento de natação, mesmo quando tratado com EA não apresentaram hipertrofia em nenhum dos músculos analisados, mostrando, assim, que o EA quando associado ao treinamento aeróbio não é eficaz em induzir a hipertrofia muscular, sugerindo que os efeitos dos EA sobre a hipertrofia são dependentes das características de treinamento realizado.

Quando analisamos os grupos que realizaram o treinamento de força, não observamos hipertrofia nos músculos sóleo e gastrocnêmio; no entanto, foi encontrada hipertrofia no músculo plantar desses animais. Quando o EA foi associado ao treinamento de força, observamos hipertrofia nos músculos gastrocnêmio e plantar, sendo essa ainda mais pronunciada quando comparada ao grupo que apenas realizou o treinamento físico, sugerindo, assim, que o EA quando associado ao treinamento de força pode levar a maior hipertrofia muscular.

Resultados semelhantes foram observados por Giorgi et al.(20), que mostraram em seu estudo aumento mais pronunciado da circunferência do músculo reto femoral no grupo que realizou o treinamento de força associado ao EA comparado ao grupo que realizou o treinamento e recebeu placebo, o que corrobora com os nossos resultados.

Resultados interessantes observados no presente estudo sugerem que o EA pode ter maior efeito sobre músculos compostos predominantemente por fibras musculares glicolíticas, como no caso do músculo plantar, visto que, no músculo sóleo com características predominantemente oxidativas, não foi observada hipertrofia, o que pode explicar a hipertrofia no músculo gastrocnêmio observada no grupo TFA, que pode ter ocorrido pelos efeitos do EA sobre as fibras glicolíticas, sendo o gastrocnêmio caracterizado como músculo misto, composto por fibras glicolíticas e oxidativas. Resultados encontrados na literatura confirmam nossos resultados, nos quais têm sido sugerido que os EA parecem atuar mais sobre fibras musculares com características glicolíticas, de contração rápida, do que sobre fibras de características oxidativas, de contração lenta(21). Kuipers et al.(21), em seu estudo observaram que oito semanas de administração de EA foi efetivo em aumentar as fibras do músculo deltóide de atletas que realizavam treinamento de força, sendo esse aumento mais evidente em fibras glicolíticas do que em fibras oxidativas. Entretanto, o mesmo trabalho ainda ressalta que o uso de EA pode, também, induzir a hipertrofia em fibras oxidativas, principalmente se a administração da droga ocorrer por um longo período de tempo.

A maior hipertrofia observada em fibras glicolíticas pode estar relacionada à maior concentração de receptores androgênicos, que podem ser alteradas por diversos fatores, incluindo atividade contrátil, concentrações de testosterona e tipo de fibra muscular(22). Estudo mostrou aumento nas concentrações dos receptores androgênicos induzido pelo treinamento de força no músculo extensor longo dos dedos de ratos; por outro lado, foi observada redução desses receptores no músculo sóleo, demonstrando a importância das características das fibras musculares sobre os efeitos do treinamento(23), o que pode explicar os resultados observados no presente estudo.

Buscando entender os efeitos dos EA sobre a hipertrofia muscular, avaliamos a quantidade total de proteína nos músculos plantares, predominantemente glicolítico, e sóleo, predominantemente oxidativo. A hipertrofia muscular pode ocorrer por aumento da área de secção transversa da fibra ou por incorporação de novas fibras(24), sendo que o EA tem sido mostrado por ter importante papel nesse processo, atuando na proliferação e diferenciação de células satélites e dos mionúcleos(25), o que acaba refletindo em uma maior concentração proteica nesses músculos.

Não foram observadas diferenças significantes nas concentrações totais de proteína no músculo sóleo em nenhum dos grupos estudados. Por outro lado, quando analisados o músculo plantar, observamos aumento das concentrações proteicas em ambos os grupos que realizaram o treinamento de força quando comparado aos outros grupos. Assim como os resultados observados em relação à hipertrofia muscular, o aumento na proteína total no grupo que treinou força e recebeu EA foi ainda maior comparado ao grupo que apenas treinou força. A hipertrofia muscular foi positivamente correlacionada com o aumento na concentração de proteína total no músculo plantar, o que nos leva a sugerir que a hipertrofia observada nos grupo TFC e TFA foi induzida pelo aumento da síntese proteica induzido pelo treinamento, o que pode ser exacerbado pela associação ao EA.

Semelhante aos resultados observados em humanos, o método de treinamento de força utilizado neste estudo tem-se mostrado efetivo em desencadear aumento da síntese proteica muscular(14). O treinamento de força é efetivo em aumentar a síntese e a degradação proteica; no entanto, a degradação acaba ocorrendo em menor escala do que a síntese, gerando um balanço proteico positivo, aumentando as concentrações totais de proteína(26). Por outro lado, o EA, além de estar associado ao aumento da síntese proteica, também exerce efeito sobre a degradação, inibindo a ação dos receptores de glicocorticoides, diminuindo assim o catabolismo proteico, o que acaba gerando um balanço proteico ainda maior do que o comparado ao treinamento de força apenas(24). Esses dados podem explicar o aumento mais pronunciado das concentrações proteicas no músculo plantar do grupo treinado em força, associado ao uso de EA.

Por fim, é importante ser ressaltado que a hipertrofia muscular nem sempre é acompanhada de aumento na força muscular(15). Para avaliar os efeitos do EA e sua associação a diferentes protocolos de treinamento físico sobre a força muscular, utilizamos um teste de resistência à inclinação segundo Kennel et al.(15), que avalia a força em patas traseiras.

O teste de resistência à inclinação mostrou aumento significante em ambos os grupos que realizaram o treinamento de força, não sendo observados efeitos adicionais induzidos pela associação ao EA. Esses resultados nos mostram que o EA não exerceu influência sobre o aumento de força muscular induzido pelo treinamento neste estudo. O aumento de força pode ser ocasionado por adaptações neurais, que ocorrem no início do programa de treinamento, e por adaptações musculares, hipertrofia muscular, que ocorre posteriormente(27). Ambos os grupos que realizaram o treinamento de força apresentaram hipertrofia nos músculos plantares, o que pode explicar, em parte, o aumento de força nas patas traseiras observado. Entretanto, quando os animais foram tratados com EA, a maior hipertrofia observada, parece não ter exercido influência sobre a força muscular.

Em trabalhos realizados com indivíduos que realizaram treinamento de força e receberam EA, foi observado um aumento de 22% da força muscular em relação ao grupo placebo no final do período experimental, os autores concluem que o uso de EA pode aumentar a força até duas vezes mais rápido do que apenas o treinamento(20). O aumento da força muscular induzido pelo EA pode estar relacionado à maior ativação dos receptores androgênicos neurais, aumentando as concentrações de neurotransmissores, o que pode refletir em maior produção de força(28).

Os efeitos dos EA sobre o aumento de força são dependentes do tipo de EA utilizado, protocolo de treinamento e metodologia do estudo. No presente estudo, quando analisamos a evolução dos testes de repetição máxima (dados não publicados), observamos um aumento significante da carga levantada no grupo TAF em relação ao grupo TCF. Entretanto, para análise da força muscular, optamos pela realização do teste de resistência à inclinação, para que os animais que realizaram o treinamento de natação e força fossem avaliados nas mesmas condições, excluindo possíveis interferências de adaptações ao treinamento, o que ocorreria se fosse realizado o teste de força máxima.

Através dos resultados deste estudo, conclui-se que apenas a administração de EA, ou sua associação ao treinamento físico de resistência aeróbia, não leva ao aumento da massa muscular e força. A associação do EA ao treinamento de força resultou em maior hipertrofia muscular e concentrações proteicas em fibras com características glicolíticas. Portanto, o tipo de treinamento físico, recrutamento neuromuscular e características das fibras musculares, parecem ter importante impacto sobre as respostas anabólicas induzidas pelo EA.

 

AGRADECIMENTOS

Agradecemos a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) pelo apoio financeiro.

 

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Correspondência:
Laboratório de Bioquímica da Atividade Motora, Escola de Educação Física e Esporte Universidade de São Paulo São Paulo - Brasil
Av. Mello Moraes, 65 - Cidade Universitária
05508-030, São Paulo - SP
E-mail: edilamar@usp.br

Todos os autores declararam não haver qualquer potencial conflito de interesses referente a este artigo.