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Revista Brasileira de Medicina do Esporte

Print version ISSN 1517-8692

Rev Bras Med Esporte vol.17 no.4 São Paulo July/Aug. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1517-86922011000400013 

ARTIGO ORIGINAL
CIÊNCIAS DO EXERCÍCIO E DO ESPORTE

 

Resposta da cinética de consumo de oxigênio e da eficiência mecânica delta de homens e mulheres em diferentes intensidades de esforço

 

 

Lucenildo S. CerqueiraI,II; Fernando S. NogueiraI,II; Joyce CarvalhoI,III; Fernando A.M.S. PompeuI,II

ILaboratório de Biometria - Ladebio - PPGEF/ UFRJ
IILaboratório de Ergoespirometria, Serviço de Pneumologia, HSE - UFRJ
IIILaboratório de Fisiologia Aplicada à Educação Física - Lafisaef - IEFD/ UERJ

Correspondência

 

 


RESUMO

INTRODUÇÃO: A eficiência mecânica delta (EMΔ ) e a cinética do consumo de oxigênio (K2) são influenciadas por parâmetros metabólicos musculares e pelo transporte de 2. O objetivo do presente estudo foi determinar a diferença na K2 e na EMΔ em três intensidades de esforço nos dois gêneros.
MÉTODOS: 56 sujeitos (26 mulheres) foram submetidos ao protocolo de esforço escalonado, contínuo e máximo (GxT) no cicloergômetro mecânico para determinação da potência aeróbia máxima (2máx), carga máxima (Wmax), limiar anaeróbio (AT) e ponto de compensação respiratória (PCR). O AT foi determinado através dos métodos V-slope e E E / 2; o PCR através da relação 2 versus E ; ambos por dois avaliadores. A EM
Δ e a K 2 foram consideradas como a inclinação entre 2 versus Watts e 2 versus tempo (s), respectivamente, do começo do teste até o AT (S1), do AT ao PCR (S2) e do PCR ao 2máx (S3), determinada por análise de regressão linear.
RESULTADOS: Para a EM
Δ, diferenças significativas foram observadas entre S1 versus S2 (p = 0,001), S1 versus S3 (p = 0,001) e S2 versus S3 (p = 0,006). Não foi observada diferença (p = 0,060) ou interação significativa (p = 0,062) entre homens versus mulheres. Para a K 2 diferenças significativas foram observadas entre S1 versus S3 (p = 0,001) e S2 versus S3 (p = 0,001) em ambos gêneros. Diferenças (p = 0,001) e interação significativa (p = 0,006) foram observadas entre homens versus mulheres, no último parâmetro.
CONCLUSÕES: A EM
Δ decresce com o incremento da intensidade de trabalho, porém, não há diferenças quando se compara homens e mulheres. Por outro lado, as mulheres apresentam K 2 mais rápida do que os homens.

Palavras-chave: ergoespirometria, teste de esforço, componente lento de 2 e 2máx .


ABSTRACT

INTRODUCTION AND OBJECTIVE: Delta efficiency (DE) and oxygen uptake kinetics (K2) are influenced by muscle metabolic parameters and oxygen transport. The aim of this study was to determine the difference in DE and K 2 in three intensities of effort in both genders.
METHODS: Fifth six subjects (26 women) were submitted to a graded maximal exercise test (GXT) on cycle ergometer to determine the maximum oxygen uptake (2máx), maximal power output (Wmáx), anaerobic threshold (AT) and respiratory compensation point (RCP). The AT and RCP were determined using the V-slope and E / 2 methods; the RCP using the relationship 2versus E both for two investigators. The DE and K 2 has been considered as a slope between 2versus Watts and 2versus time (s), respectively, of start of test until AT (S1), of AT to RCP (S2) and of RCP to 2máx (S3), determined by linear regression analysis.
RESULTS: For the DE, significant differences were observed between S1 versus S2 (p = 0.001), S1 versus S3 (p = 0.001) and S2 versus S3 (p = 0.006). There was no significant difference (p = 0.060) or interaction (p = 0.062) between men and women. For K 2, significant differences were observed between S1 versus S3 (p = 0.001) and S2 versus S3 (p = 0.001) in both genders. Significant differences (p = 0.001) and interaction (p = 0.006) were observed between men and women, in the last parameter.
CONCLUSIONS: The DE decreases with increasing intensity of power output, but there are no differences when comparing men and women. On the other hand, women have K 2more fast than men.

Keywords: ergospirometry, effort test, 2 e 2máx slow component.


 

 

INTRODUÇÃO

O exame ergoespirométrico com cargas escalonadas até o limite da capacidade do indivíduo, realizado para mensurar o consumo máximo de oxigênio (2máx )(1), limiar anaeróbio (AT)(1-3), carga máxima (Wmáx) e eficiência mecânica(4) é prática comum em laboratórios de fisiologia do exercício(2,5). A análise dessas variáveis adquire maior importância durante a realização de exercícios físicos de longa duração, visto que a eficiência mecânica é um dos principais parâmetros observados em eventos de endurance(6). A eficiência mecânica reflete a porção da energia química potencial estocada no músculo convertida em trabalho mecânico. Essa eficiência é geralmente estimada a partir do consumo de oxigênio(4,7). Na avaliação desse parâmetro, o cicloergômetro é preferível, pois apresenta leituras de potência física mais próximas ao valor real(1,4).

A manutenção do exercício físico depende de um adequado fornecimento de oxigênio para os músculos ativos(6). A disponibilidade de oxigênio para o tecido muscular durante o exercício pode ser mensurada através da eficiência mecânica delta (EMr), que corresponde ao quociente entre a variação do gasto energético e a variação da potência gerada(4,7,8). Nos exercícios de alta intensidade a EMr pode inferir a capacidade de mover altas cargas de trabalho com predomínio do metabolismo oxidativo, observando-se um consumo extra de oxigênio(7,8). Estas observações comumente não são realizadas em mulheres(8-11) devido a motivos não muito claros, tais como: efeitos do ciclo menstrual e oscilações hormonais sobre a eficiência mecânica. Índices inferiores de hemoglobina e hematócrito observados em mulheres também podem contribuir para o desenvolvimento da anemia(12), elevando-se os níveis de 2,3 difosfoglicerato (2,3-DPG) e, assim, diminuindo-se a afinidade do oxigênio pela hemoglobina(13,14). A intensificação do efeito Bohr significa um desvio maior da curva de dissociação da oxiemoglobina para a direita(13,14), podendo resultar em baixos índices de inclinação da relação 2 • tempo -1 e rápidas cinéticas de consumo de oxigênio.

Recentemente, uma técnica para determinação da cinética do consumo de oxigênio (K2) através de um protocolo de incrementos baseados na relação 2 • tempo -1 foi proposta por Boone et al.(9), porém, foram avaliados somente sujeitos do sexo masculino. Considerando-se que o comportamento da relação 2 • tempo -1 pode fornecer importantes informações sobre a velocidade de oferta de oxigênio para os tecidos ativos, em eventos esportivos e na prática clínica, e que em mulheres tal mecanismo precisa ser melhor elucidado, o objetivo da presente investigação retrospectiva foi analisar a resposta da K2 e observar a diferença na EMr entre homens e mulheres em diferentes níveis metabólicos durante um teste de incrementos no cicloergômetro.

 

MÉTODOS

Sujeitos

A presente investigação foi constituída por 56 voluntários, estudantes de educação física, sendo 30 do gênero masculino (25 ± 1 ano; 74,3 ± 2,1kg) e 26 do feminino (27 ± 1 ano; 57,4 ± 1,1kg), aparentemente saudáveis, não tabagistas e não atletas. Foi recomendada para as 24h prévias ao exame à abstinência de atividades físicas extenuantes (>5 METs) e da ingestão de álcool. Recomendou-se também a manutenção da dieta mista nas 48h precedentes ao esforço. Solicitou-se a abstinência de alimentos que contenham cafeína nas três horas previas ao esforço. Cada sujeito foi informado quanto aos riscos associados aos procedimentos adotados. Um termo de esclarecimento e consentimento foi lido e assinado. Todos os procedimentos foram aprovados pelo Comitê de Ética Local para Experimentos com Seres Humanos (Rio de Janeiro, CEP/ HSE 000.021/99). Este estudo foi realizado conforme a Declaração de Helsinki.

Protocolo ergométrico

Foi empregado um protocolo de esforço escalonado, contínuo e máximo (GxT)(3) no cicloergômetro mecânico (Monark®, São Paulo, SP, Brasil) para determinação da potência aeróbia máxima ( 2máx ), carga máxima (Wmax), limiar anaeróbio (AT) e ponto de compensação respiratória (PCR). A altura do selim foi ajustada para cada sujeito, de maneira que o joelho mantivesse um ângulo próximo à extensão total (aproximadamente 175º). A potência máxima foi estimada previamente para cada indivíduo, a fim de viabilizar incrementos de 10% da carga máxima a cada minuto(15). O protocolo GxT constou do repouso inicial por seis minutos sentado sobre o selim do cicloergômetro, seguido pelo aquecimento de quatro minutos pedalando sem carga e, posteriormente, pela fase escalonada (aproximadamente 25 W • min-1). A duração máxima do exercício foi de 10 ± 2min. Os sujeitos mantiveram uma cadência fixa ao longo do exame (aprox. 1,23Hz), controlada por um metrônomo audiovisual (Wittner Junior Plast 826, Isny/Allgäu, Alemanha).

A ventilação minuto ( E ) e a fração expirada de oxigênio e dióxido de carbono foram continuamente medidas através de calorimetria indireta de circuito aberto (TEEM 100® Total Metabolic Analysis System, Aerosport®, Ann Arbor, MI., EUA)(16). Os sujeitos utilizaram um clipe de nariz e um pneumotacômetro de fluxo médio (Hans Rudolph Inc®, Kansas City, MO, EUA). O consumo de oxigênio por minuto ( 2) e a excreção de gás carbônico por minuto ( 2) foram apresentados a cada 20 segundos. A frequência cardíaca (FC) foi monitorada continuamente ao longo do teste através de telemetria (Vantage NV®, Polar Electro Oy®, Kempele, Finlândia) e o conceito de esforço percebido (CEP), na escala de Borg de seis a 20, foi coletado ao final de cada estágio.

Controles e calibragens

O analisador metabólico e o cicloergômetro foram calibrados antes de cada teste. O ergoespirômetro foi calibrado em circuito fechado, através de uma mistura certificada de gases contendo 17,01% de oxigênio, 5,00% de gás carbônico e balanceada com nitrogênio (AGA®, Rio de Janeiro, RJ, Brasil). O fluxo foi calibrado utilizando-se uma seringa de ar de três litros (Hans Rudolph Inc.®, Kansas City, MO, EUA). Ao final de cada teste, foi realizada a medida das frações percentuais de oxigênio e gás carbônico na mistura de gases empregada para calibragem. O erro máximo admitido foi de índices entre 16,16 a 17,86% para F2 e de 4,75 a 5,25% para FC2. O cicloergômetro foi calibrado através de um lastro de 3kg.

Os testes foram considerados máximos quando observou-se pelo menos três dos seguintes critérios(17): a) platô no 2 (aumento < 150ml • min-1 ou 2ml • Kg-1 • min-1); b) razão de trocas respiratórias (RER) > 1,15; c) 90% da FCmáx prevista pela idade (220 - idade); d) conceito de esforço percebido > 19 (6-20); e) fadiga voluntária máxima com incapacidade de manutenção do ritmo pré-estabelecido. O 2máx foi determinado como sendo o mais alto valor encontrado ao final do teste.

Análise dos dados

Foram utilizados dois métodos para detecção do AT por inspeção visual: o método equivalente ventilatório (EqV)(18) e o V-slope simplificado (V-slope)(19).

O EqV foi caracterizado como o momento em que ocorre um aumento no equivalente ventilatório para consumo de oxigênio (E / 2) sem o concomitante aumento no equivalente ventilatório para excreção de dióxido de carbono (E / 2).

O método V-slope simplificado foi analisado em um gráfico de coordenadas cartesianas, tendo no eixo das abscissas o consumo de oxigênio por minuto ( 2) e no das ordenadas a excreção de gás carbônico por minuto ( 2), sendo observado o momento em que os pontos ultrapassaram a linha paralela à bissetriz do ângulo reto.

Análise do PCR(20): no gráfico de coordenadas cartesianas, tendo no eixo das abscissas o 2 e no das ordenadas a E , observou-se a interseção de dois segmentos de retas abaixo e acima desse ponto. Abaixo desse ponto a E aumenta linearmente com o 2, mas acima a E aumenta mais rapidamente.

Para cada indivíduo, os dois métodos de determinação do AT e o método de identificação do PCR foram analisados visualmente por dois investigadores experientes.

 

ANÁLISE ESTATÍSTICA

O tratamento estatístico foi realizado através dos aplicativos Statistical Package for the Social Sciences® (SPSS® Inc., Chicago, IL, EUA), SigmaPlot® (Systat® Software Inc, Chicago IL, EUA) e Microsoft Excel® para Windows® (Microsoft®, Redmond, WA, EUA). Foi empregada a estatística descritiva através da média ± erro padrão da média (EPM). A média dos resultados obtidos pelos dois avaliadores a partir dos métodos EqV e V-slope foi considerada como o AT(21). Para o PCR também foi utilizada a média dos dois investigadores.

A eficiência mecânica delta (EMr) foi determinada em três diferentes intensidades: do início do teste até o AT (S1), do AT ao PCR (S2) e, do PCR ao 2máx (S3)(22). A EMr foi considerada como o coeficiente angular da relação 2 versus carga de trabalho (W) determinada por análise de regressão linear. O coeficiente angular da relação 2 versus tempo (em segundos) também foi determinado a fim de mensurar a K2(9).

Testou-se os dados à distribuição normal através do teste de Shapiro Wilk. Quando não foi observada distribuição normal, conduziu-se uma transformação logarítmica. Empregou-se ANOVA de dois fatores e teste post-hoc de Tukey-HSD para determinar se houve diferenças significativas entre os coeficientes angulares em cada nível metabólico e entre os gêneros. O nível de significância adotado foi p < 0,05.

 

RESULTADOS

Os resultados do AT, PCR, 2máx e RER foram apresentados na tabela 1. Diferenças significativas foram observadas nos três níveis metabólicos (S1, S2 e S3) tanto em homens quanto em mulheres.

 

 

Relação 2 • W-1 - Foi observado um aumento progressivo do S1 ao S2 e do S2 ao S3 (tabela 2; figura 1). Diferenças significativas foram observadas entre S1 versus S2 (p = 0,001), entre S1 versus S3 (p = 0,001) e entre S2 versus S3 (p = 0,006) em ambos os gêneros (tabela 2; figura 1). Não foram observadas diferenças significativas entre homens versus mulheres (p = 0,060) ou interação significativa (p = 0,062) intensidade versus gênero (tabela 2). Esse resultado mostrou a diminuição da EMr com o aumento da intensidade de esforço independentemente do gênero.

 

 

 

 

Cinética de 2 - Diferenças significativas foram observadas entre o S1 versus S3 (p = 0,001) e entre o S2 versus S3 (p = 0,001) em ambos os gêneros (tabela 3; figura 2). Não foi observada diferença significativa entre o S1 versus S2 (p = 0,753). Diferenças significativas (p = 0,001) foram observadas entre homens versus mulheres (tabela 3; figura 2) e interação significativa (p = 0,001) entre intensidade versus gênero (tabela 2; figura 2). Foi observada uma K 2 significativamente mais rápida no gênero feminino comparado ao masculino independente da intensidade de esforço.

 

 

 

 

DISCUSSÃO

A presente investigação considerou que a determinação da cinética de 2 em protocolos de incrementos a partir de um método baseado na relação 2 • tempo -1 precisa ser melhor elucidada em sujeitos do gênero feminino. Até o presente estudo, a resposta da K 2 em testes com incrementos a cada minuto ainda não havia sido investigada em mulheres. Para tanto foi analisado o efeito do aumento da intensidade sobre a resposta da K 2 em homens e mulheres durante o teste de incrementos. Observou-se também a EMr durante o exercício com incrementos a cada minuto para mulheres e homens.

O padrão de recrutamento das fibras musculares tipo II, predominantemente glicolíticas, pode ser apontado como explicação para a redução da eficiência mecânica delta e o aumento do componente lento do 2 em intensidades a partir do AT(7,8,10,22-26). Bonne et al.(25) mostraram um aumento progressivo da amplitude da atividade eletromiográfica, demonstrada pela EMG integrada (iEMG) em testes de esforço máximo realizados no cicloergômetro. O RMS vem sendo empregado para estudar o aumento da atividade mioelétrica total em testes de esforço máximono cicloergômetro e pode ser empregado como um indicador de recrutamento de unidades motoras de elevado limiar de excitação(25-27). No presente estudo, corroborou-se a hipótese do elevado metabolismo glicolítico e o alto RER (tabela 1) observado nas altas cargas de trabalho.

Embora não se tenha constatado diferença (p = 0,060) nem interação (p = 0,062) significativa entre os gêneros, foi observado um fenômeno de diferente magnitude da EMΔ (tabela 2). Um aumento de 2,97 mL• W-1 • min-1 entre S2-S1 (S2-S1) nos homens e apenas 0,60 ± 0,51 (mL • W-1 • min-1) nas mulheres foi observado. Estes resultados sugerem uma importante fase na qual parece existir o maior recrutamento de fibras do tipo II após o AT(22-27). Bell e Ferguson(28) mostraram, em mulheres jovens, altas correlações da cadeia pesada da miosina do tipo I em 60 e 75 revoluções por minuto no cicloergômetro (r = 0,80 e r = 0,84, respectivamente), quando confrontados com a eficiência mecânica. Essas cadências foram similares às empregadas na presente investigação. As diferenças entre os gêneros parecem ocorrer fundamentalmente em função do tamanho e composição corporal. Apesar da composição de fibras musculares ser semelhante em ambos os gêneros(7,28), o volume de cada fibra parece ser maior nos homens.

Boone et al.(9) encontraram em estudantes de educação física do gênero masculino, submetidos a testes progressivos (incrementos de 25W-1),valores médios de inclinação de 4,09mL•W-1•s-1 para a K 2. Estes valores foram similares aos observados nos homens avaliados, na presente investigação, na intensidade do AT (tabela 3). Esta mesma variável apresentou valores de 2,64 mL•W-1•s-1 nas mulheres, indicando um rápido fornecimento de oxigênio para os tecidos ativos. O componente lento do consumo de oxigênio nos homens de 2,03 ± 0,22 mL•W-1•s-1 determinado pela relação 2 • tempo -1 e, o baixo valor nas mulheres 0,36 ± 0,14 (mL • W-1 • s-1) entre S2-S1 apresentou comportamento similar à eficiência delta (tabela 2; figura 1). Lamentavelmente, Boone et al.(9) não determinaram a relação do 2 • tempo -1 nas intensidades acima do AT alegando complexidades adicionais por causa da cinética lenta do 2 . A presente investigação foi a primeira, segundo nossas buscas nas bases ISI e Medline, a analisar a relação 2 • tempo -1 em mulheres, o que dificulta comparações com outros estudos. A decomposição de um teste progressivo em três níveis distintos metabólicos (S1, S2 e S3) permitiu analisar e identificar em um teste progressivo o momento onde o componente lento do 2 se tornou mais significativo.

Durante o teste de incrementos, as alterações hemodinâmicas, principalmente o aumento no fluxo intramuscular, aumento na 2,3-DPG, temperatura corporal e diminuição do pH provocado pelo aumento da intensidade(3,5) têm potencial efeito sobre a liberação do oxigênio da hemoglobina na musculatura ativa(14). Esses fatores podem causar um desvio à direita da curva de dissociação da oxiemoglobina que indicam uma liberação do oxigênio para atender a maior demanda energética dos músculos esqueléticos em contração. O 2,3-DPG parece apresentar importante papel redutor da afinidade do oxigênio pela hemoglobina(13,14). As mulheres sexualmente maduras apresentam concentrações de hemoglobina mais baixas do que os homens e frequentemente apresentam quadros anêmicos devido ao sangramento menstrual(12). Este fenômeno pode explicar os baixos valores da inclinação 2 • tempo-1 encontradosnas mulheres no presente estudo (tabela 2), indicando que o oxigênio é fornecido rapidamente para atender as demandas metabólicas e, assim, indicando um mecanismo compensatório nas mulheres.

É essencial que haja precisão das medidas das trocas gasosas e ventilatórias para que os dados sejam reproduzidos, sendo necessário o controle da qualidade das medidas através dos procedimentos de calibragem, de operação e de análise por técnicos experientes(29). Testes em que esses cuidados são tomados apresentam baixa variação nas medidas repetidas em momentos próximos(1,15). A variação diária intraindivíduo, devido ao erro e às flutuações fisiológicas do 2, E , e FC, são(30), respectivamente, de 3,8%, 8,0% e 3,0%. Granja Filho et al.(1) observaram um índice de variação intraindivíduo de 5,5% para o 2máx . Nogueira e Pompeu(21) e Magrani e Pompeu(31) observaram índices satisfatórios para as medidas analisadas em equipamento usado nesse estudo. Há diferenças nas medidas obtidas, por esse equipamento comparando-as às oriundas de equipamentos mais sofisticados (3,8% versus 5,5%), o ergoespirômetro aqui adotado foi validado por outro grupo(16) e é amplamente empregado em laboratórios brasileiros.

Considerando-se que a determinação da K 2 em protocolos de incrementos a partir de um método baseado na relação 2 • tempo -1 precisava ser melhor investigada em sujeitos do gênero feminino, conclui-se que a eficiência mecânica delta decresce com o incremento da intensidade de trabalho, quando se analisa o coeficiente angular da relação 2 • W -1 em diferentes níveis metabólicos, porém, não há diferenças quando comparados ambos gêneros. Por outro lado, as mulheres apresentam K 2 mais rápidas em relação aos homens.

 

AGRADECIMENTOS

Os autores deste estudo expressam seus agradecimentos à Associação dos Amigos do Centro de Estudos e Aperfeiçoamento do Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro, na pessoa do Dr. Aluysio S. Aderaldo Jr. pela contribuição significativa para a realização deste trabalho e ao colega Gilberto Sabóia Pompeu Neto. Este estudo recebeu o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ) e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (MCT/CNPq).

 

REFERÊNCIAS

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Correspondência:
Fernando A.M.S. Pompeu
Programa de Pós-Graduação em Educação Física - EEFD/UFRJ
Av. Carlos Chagas Filho, 540 - Cidade Universitária
21941-599 - Rio de Janeiro, RJ, Brasil
E-mail: ladebio@eefd.ufrj.br

Todos os autores declararam não haver qualquer potencial conflito de interesses referente a este artigo