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Revista Brasileira de Medicina do Esporte

Print version ISSN 1517-8692

Rev Bras Med Esporte vol.18 no.1 São Paulo Jan./Feb. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1517-86922012000100003 

ARTIGO ORIGINAL
CLÍNICA MÉDICA DO EXERCÍCIO E DO ESPORTE

 

Gasto calórico dos diferentes domínios de atividade física como preditor da ausência de diabetes em adultos

 

 

Luiz Alberto Bastos de AlmeidaI; Francisco José Gondim PitangaII; Marcela Mota FreitasIII; Cristiano Penas Seara PitangaIV; Estélio Henrique Martin DantasV; Carmem Cristina BeckVI

IUEFS – Universidade Estadual de Feira de Santana, Laboratório de Biociência da Motricidade Humana – LABIMH – UCB – Rio deJaneiro, RJ
IIFaculdade de Educação da UFBA – Universidade Federal da Bahia – Salvador, BA
IIIUNIME – União Metropolitana de Ensino – Lauro de Freitas,BA
IVUNIME – União Metropolitana de Ensino – Lauro de Freitas,BA
VUniversidade Castelo Branco – Laboratório de Biociência da Motricidade Humana – LABIMH – Rio de Janeiro, RJ
VIPrograma de Pós-Graduação em Educação Física da UFSC –Universidade Federal de Santa Catarina – Florianópolis, SC

Correspondência

 

 


RESUMO

INTRODUÇÃO: A atividade física apresenta efeito protetor contra doenças crônicas e fatores de risco cardiovascular; no entanto, o gasto calórico necessário para promover a prevenção do diabetes permanece especulativo.
OBJETIVO: Analisar o gasto calórico dos diferentes domínios da atividade física (trabalho, deslocamento, atividade doméstica, tempo livre e atividade física total) como preditores da ausência de diabetes em adultos de ambos os sexos.
MÉTODOS: Estudo transversal realizado na cidade de Lauro de Freitas, Bahia, Brasil (2007-2008) com amostra constituída por 522 indivíduos maiores de 18 anos, sendo 302 do sexo feminino e 220 do sexo masculino. Foram construídas curvas Receiver Operating Characteristic (ROC) e comparadas as áreas sob as mesmas, além de verificar-se a sensibilidade e especificidade para identificar os melhores pontos de corte entre os diferentes domínios da atividade física e a ausência de diabetes. Foi utilizado o intervalo de confiança a 95%.
RESULTADOS: Entre os diferentes domínios de atividade física analisados encontrou-se significância estatística nas áreas sob a curva ROC para o tempo livre, deslocamento e para atividade física total. Observou-se também que o gasto calórico na atividade física total de 830kcal/semana quando analisados apenas os homens, e 1,774kcal/semana quando analisados homens e mulheres conjuntamente, foram os melhores pontos de corte para predizer a ausência de diabetes.
CONCLUSÃO: A prática da atividade física deve ser sugerida em níveis adequados para indivíduos de ambos os sexos visando contribuir para a prevenção do diabetes.

Palavras-chave: atividade motora, valor preditivo, curva ROC, adulto.


 

 

INTRODUÇÃO

A atividade física é definida como qualquer movimento corporal produzido pela musculatura esquelética que resulte em gasto energético acima dos níveis de repouso1, podendo ser dividida pelos domínios das atividades de trabalho, deslocamento, atividade doméstica e tempo livre.

Diversos estudos2-6 vêm demonstrando que a atividade física apresenta efeito protetor contra doenças crônicas e fatores de risco cardiovascular, incluindo diabetes, obesidade, hipertensão, dislipidemias, marcadores inflamatórios.

A inatividade física, o envelhecimento da população e a alta prevalência da obesidade são alguns fatores que estão levando o diabetes mellitus (DM) ao patamar de epidemia, pois, segundo a Sociedade Brasileira de Diabetes7, em 1985 estimou-se que existissem 30 milhões de adultos com DM no mundo; este número cresceu para 135 milhões em 1995, atingindo 173 milhões em 2002, com projeção de chegar a 300 milhões no ano 2030. Aproximadamente dois terços dessa população habitam países em desenvolvimento onde a epidemia manifesta-se com maior intensidade, passando a ocorrer também em jovens8.

Para os portadores de DM a atividade física é parte fundamental do tratamento, assim como é o uso de medicamentos e a dieta alimentar9. A atividade física de tempo livre ajuda a diminuir e/ou manter o peso corporal, a reduzir a necessidade de antidiabéticos orais, a diminuir a resistência à insulina e contribui para melhora do controle glicêmico, o que, por sua vez, reduz o risco das complicações associadas ao diabetes10. Além disso, foi demonstrado recentemente que os diversos domínios da atividade física podem ser considerados bons preditores de ausência de diabetes em indivíduos adultos11.

Apesar de todas essas evidências, o gasto calórico necessário e o domínio da atividade física que proporcionaria o maior impacto para a prevenção do diabetes permanece especulativo, o que amplia a relevância de estudos que busquem responder estas questões. Um maior conhecimento sobre a atividade física e seus benefícios traz importantes contribuições para a saúde pública, porque podem servir de base para o gerenciamento de políticas públicas que promovam o incentivo à prática de atividades física em subgrupos populacionais mais afetados por um estilo de vida fisicamente inativo.

Portanto, o objetivo deste estudo foi analisar o gasto calórico com a atividade física total e em seus diferentes domínios (trabalho, deslocamento, atividade doméstica, tempo livre) como preditores da ausência de diabetes em adultos de ambos os sexos.

 

METODOLOGIA

Trata-se de estudo de corte transversal realizado no município baiano de Lauro de Freitas situado no nordeste do Estado da Bahia, parte da Região Metropolitana de Salvador, com extensão territorial de 59 quilômetros quadrados. O município de Lauro de Freitas possuía IDH de 0,771, PIB per capita de R$ 12.046,00 e população estimada de 138.24012.

Amostra

O cálculo da amostra foi baseado em Kisch13, levando-se em consideração os seguintes parâmetros: tamanho da população de 138.240 habitantes, prevalência de indivíduos ativos de 50% tendo como base estudo realizado no Estado de São Paulo, Brasil14, bem como da maior prevalência entre as variáveis analisadas no estudo, nível de confiança de 95% de precisão, erro de cinco pontos percentuais. A amostra foi calculada em 500 indivíduos com acréscimo de 20%, totalizando 600 adultos com idade igual ou maior a 18 anos.

O acréscimo de 100 indivíduos na amostra mínima calculada previu a exclusão das residências desabitadas, moradores ausentes, moradores inelegíveis, pessoas acamadas por motivo de doença, pessoas que se recusaram a responder o questionário.

A amostra foi probabilística, em múltiplos estágios e por conglomerados de classes sociais informados pela Secretaria de Ação Social da Prefeitura da cidade de Lauro de Freitas a partir do poder aquisitivo dos moradores dos bairros. Considerou-se como classe A (alta e média alta), classe B (média), classe C (média e baixa) e classe D (baixa e pobreza).

Inicialmente o mapa da cidade foi dividido em microrregiões de acordo com a classe social predominante. Em seguida foram sorteadas 25 ruas da cidade de Lauro de Freitas pertencentes aos quatro níveis sociais (classes A, B, C e D). A divisão das ruas foi proporcional ao nível socioeconômico e obedeceu ao seguinte quantitativo: seis ruas em cada um dos conglomerados A, B e C e sete ruas na classe D. Em cada rua, 13 domicílios foram sorteados por amostra sistemática. O intervalo entre as casas variou de acordo com a quantidade de domicílios encontrados em cada rua. Em cada residência visitada foram sorteados dois indivíduos adultos (um homem e uma mulher), respeitando a proporcionalidade da distribuição dos sexos na população.

O presente estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética da Faculdade Adventista de Fisioterapia (FAFIS) localizada na cidade de Cachoeira, Bahia, Brasil, conforme parecer nº. 0033/2007. Todos os participantes da pesquisa assinaram Termo de Participação Livre e Esclarecida e foram entrevistados em domicílio.

Coleta de dados

A coleta de dados aconteceu de março de 2007 a abril de 2008. Cinco avaliadores foram devidamente preparados e treinados para todas as etapas do trabalho. O índice de confiabilidade interavaliadores foi testado para aplicação do IPAQ por meio do coeficiente Kappa, o qual apresentou bom índice de concordância (0,61)15. O erro técnico de medidas para o peso e a estatura foi considerado baixo (1,2%)16.

Os dados demográficos e as variáveis relacionadas à saúde foram coletados por meio de questionário. Para obtenção dos dados antropométricos utilizou-se os seguintes protocolos: a estatura foi mensurada com uma trena antropométrica em aço Sanny (Brasil), com os indivíduos descalços, em posição ereta, com pés e calcanhares unidos e encostados na parede, braços estendidos ao longo do corpo, respiração normal seguindo o plano de Frankfurt17.

A massa corporal foi mensurada duas vezes utilizando-se balanças da marca Plenna com precisão de 100 gramas, todas aferidas previamente pelo Instituto Nacional de Metrologia (Inmetro). Ao entrevistado era solicitado que subisse na balança com os pés descalços, com o mínimo de roupa possível17.

Para a medida de atividade física foi utilizado o IPAQ (International Physical Activity Questionnaire) versão longa, constituído de questões acerca da frequência e duração das atividades físicas realizadas nos quatro domínios (trabalho, deslocamento, atividade doméstica e tempo livre)18.

Para o cálculo do gasto energético foi multiplicado o valor do dispêndio de energia de acordo com a atividade realizada, considerando-se a frequência semanal e a duração das mesmas (tempo médio em minutos/semana).

Para converter os dados obtidos por meio do IPAQ em METs utilizou-se a proposta de Heymsfield19, considerando-se os seguintes valores para cada domínio:

• Trabalho – caminhada = 3,3 METs; atividades moderadas = 4,0 METs; atividades vigorosas = 8,0 METs;

• Transporte – caminhada = 3,3 METs, bicicleta = 6,0 METs;

• Atividade doméstica – moderada (jardim ou quintal) = 4,0 METs, moderada (dentro de casa) = 3,0 METs, vigorosa (jardim ou quintal) = 5,5 METs;

• Tempo livre – caminhada = 3,3 METs, moderada = 4,0 METs, vigorosa = 8,0 METs.

Multiplicando-se o valor do MET da atividade realizada pela frequência semanal e duração da mesma foi encontrado o gasto calórico em MET minuto/semana. Para transformar em quilocalorias (kcal) multiplicou-se o valor obtido pelo peso e dividiu-se por 60 minutos. Assim, encontramos o valor do gasto calórico na atividade em METs e também em kcal durante a semana19.

A presença ou ausência de diabetes foi autorreferida considerando-se o diagnóstico médico prévio conforme questão utilizada pelo sistema VIGITEL (Ministério da Saúde, 2007)20: "Algum médico já lhe informou que o(a) Sr(a). tem diabetes?" Caso o indivíduo não soubesse informar era realizada uma apreciação da medicação prescrita pelo médico e verificada a presença de antidiabéticos orais entre os medicamentos.

 

ANÁLISE ESTATÍSTICA

O poder preditivo e os pontos de corte dos diferentes domínios da atividade física para ausência de diabetes foram identificados por meio das curvas Receiver Operating Characteristic (ROC), frequentemente utilizadas para determinação de pontos de corte em testes diagnósticos ou de triagem21.

Inicialmente foi identificada a área total sob a curva ROC entre a atividade física total, seus diferentes domínios (trabalho, deslocamento, atividade doméstica e tempo livre) e a ausência de diabetes. Quanto maior a área sob a curva ROC, maior o poder discriminatório dos diferentes domínios de atividade física para ausência de diabetes. Utilizou-se intervalo de confiança (IC) a 95%. O cálculo do IC a 95% determina se a capacidade preditiva do gasto calórico não é devida ao acaso, não devendo o seu limite inferior ser menor do que 0,5022.

Na sequência foram encontrados pontos de corte em kcal/semana das variáveis preditoras de ausência de diabetes, com suas respectivas sensibilidade e especificidade. Os pontos de corte foram identificados segundo o mais adequado equilíbrio entre a sensibilidade e a especificidade das variáveis da atividade física como discriminadoras da ausência de diabetes. Para identificar a homogeneidade da amostra entre sexos aplicamos o teste t de Student para variáveis contínuas e o teste do Qui-quadrado "x2" para variáveis categoriais, com significância para o p < 0,05. Os dados foram analisados através do programa estatístico STATA, versão 7.0.

 

RESULTADOS

A amostra ficou composta por 522 pessoas, 220 do sexo masculino e 302 do sexo feminino. As características da mesma estão demonstradas na tabela 1. Observa-se que os homens são mais pesados e mais altos do que as mulheres. Quanto à idade, não existem diferenças entre o sexo masculino e o feminino.

 

 

Com relação aos domínios da atividade física, os homens são mais ativos no trabalho, no deslocamento e no tempo livre, enquanto que as mulheres são mais ativas nas atividades domésticas. Na atividade física total não existem diferenças entre homens e mulheres no gasto energético durante a semana. Observa-se também que não existem diferenças entre os sexos quanto à presença ou ausência de diabetes.

Na tabela 2 podemos observar as áreas sob as curvas ROC, com seus respectivos intervalos de confiança, dos diferentes domínios de atividades físicas como preditores da ausência de diabetes. Foram construídas curvas ROC analisando homens e mulheres conjuntamente, apenas para o sexo masculino e apenas para o sexo feminino. As maiores áreas sob as curvas são observadas quando homens e mulheres são analisados conjuntamente (atividade de tempo livre e atividade física total) ou quando os homens são analisados em separado, nos domínios do deslocamento, da atividade física de tempo livre e da atividade física total (figuras 1 e 2). Na análise feita para o sexo feminino, nenhum dos domínios da atividade física apresentaram áreas sob a curva ROC com significância para serem considerados preditores da ausência de diabetes.

 

 

 

 

 

 

Os pontos de corte foram gerados considerando a significância das áreas sob as curvas ROC e os valores de sensibilidade e especificidade encontrados. Assim, apenas foi possível determinar os pontos de corte de gasto calórico semanal (kcal/semana) para predizer a ausência de diabetes para a atividade física total: considerando conjuntamente ambos os sexos (ponto de corte = 1.774kcal/semana; sensibilidade = 64,9%; e especificidade = 60%) e para o sexo masculino (ponto de corte = 830kcal/semana; sensibilidade = 80,9% e especificidade = 60%).

 

DISCUSSÃO

O presente estudo demonstra o poder preditivo da atividade física total e dos seus diferentes domínios (trabalho, deslocamento, atividade doméstica e tempo livre) para a ausência de diabetes. Além disso, identifica os pontos de corte de atividade física em quilocalorias gastas por semana, considerando as atividades físicas totais (somatório do gasto calórico semanal nos quatro domínios) em ambos os sexos e separadamente para o sexo masculino para discriminar a ausência de diabetes.

Uma possível limitação deste estudo foi a determinação do diabetes por método autorreferido, o qual pode ter provocado subestimação na prevalência desta variável, considerando que muitas pessoas podem desconhecer sua condição de diabético. Além disso, o fato de não ter havido estratificação dos grupos etários pode ter sido também uma limitação, considerando que para diferentes grupos etários a necessidade de gasto calórico semanal para proteção contra o diabetes pode variar. Outra limitação pode ser atribuída à dificuldade na coleta de dados nos bairros de classes C e D por questões de focos de violência, o que gerou um menor percentual de pessoas amostradas nestes níveis socioeconômicos. Além disso, a determinação do gasto energético por método indireto, apesar de ser bastante utilizada em estudos epidemiológicos, pode constituir-se outra limitação do presente estudo.

Estudos têm demonstrado que a atividade física pode proporcionar benefícios na prevenção e no tratamento do diabetes23,24, porém poucos trabalhos tentaram identificar o poder preditivo da atividade física, principalmente analisando os seus diversos domínios expressos em gasto calórico semanal, como discriminador da ausência de diabetes.

Em recente publicação25 foi analisada a associação entre atividade física no tempo livre, atividade física no trabalho e diabetes entre 1.651 índios americanos. Os resultados indicaram que aqueles que participaram de qualquer nível de atividade física apresentaram menor risco de diabetes quando comparados com aqueles que não praticavam atividades físicas.

No presente estudo observou-se que apenas as atividades físicas de tempo livre, deslocamento e as atividades físicas totais (considerando os quatro domínios) foram preditoras da ausência de diabetes. Os domínios das atividades físicas domésticas e trabalho não foram discriminadores isolados para ausência de diabetes. Com relação ao deslocamento e de acordo com os nossos resultados, em estudo conduzido com 11.073 homens japoneses26 verificou-se que a caminhada para o trabalho com duração maior do que 21 minutos por dia reduzia o risco de diabetes.

Em outra publicação27, realizada após acompanhamento de 3.316 finlandeses de ambos os sexos, portadores de diabetes tipo 2, observou-se que a atividade física moderada ou vigorosa reduziu a mortalidade cardiovascular em diabéticos. Observou-se também que não apenas a atividade física no tempo livre, mas as atividades físicas no trabalho e no deslocamento são importantes componentes do estilo de vida ativo em indivíduos diabéticos.

Ainda na Finlândia28, foram seguidos, durante 12 anos, 6.898 homens e 7.392 mulheres com objetivo de identificar qual dos domínios da atividade física proporcionaria redução do risco de diabetes. Como resultado, observou-se que moderada ou vigorosa atividade física no trabalho, no deslocamento ou no tempo livre reduzia de maneira significativa o risco de diabetes na população.

É importante ressaltar que este estudo demonstrou evidências de que o gasto calórico semanal, resultante da atividade física total (considerando conjuntamente os quatro domínios) é preditor da ausência de diabetes, sugerindo que o somatório das atividades físicas realizadas no trabalho, no deslocamento, no ambiente doméstico e no tempo livre são importantes para a prevenção do diabetes. É importante também enfatizar que áreas sob a curva ROC variando de 0,55 a 0,69 para a atividade física habitual discriminar a diabetes são extremamente elevadas. Deve ser considerado que a atividade física sozinha foi capaz de discriminar a diabetes, apesar do caráter multifatorial da mesma.

Na presente pesquisa, optou-se por identificar os pontos de corte do gasto calórico semanal da atividade física total para a ausência de diabetes. Considerando ambos os sexos (homens e mulheres), o ponto de corte da atividade física total foi de 1.774kcal/semana, e, considerando-se apenas os homens, o ponto de corte para o gasto calórico foi aproximadamente a metade (830kcal/semana). O menor ponto de corte encontrado em homens analisados isoladamente provavelmente deve-se à menor prevalência do sedentarismo nos mesmos, bem como ao número de homens amostrados ter sido menor do que o das mulheres. Além do que, é possível que os homens necessitem de menos gasto calórico para a prevenção de desfechos metabólicos e cardiovasculares. Na literatura consultada não foram localizados estudos que identificassem pontos de corte de atividade física em gasto calórico semanal como preditores da ausência de diabetes. Assim, optou-se por apresentar alguns resultados de estudos que identificaram gasto energético para atividades físicas para proteção de doença arterial coronariana e mortalidade por todas as causas.

Em trabalho29 que acompanhou 7.337 homens com idade média de 66 anos, foi observado que aqueles que relataram a percepção de esforço como relativamente forte foram os que obtiveram maior proteção contra doença arterial coronariana, independentemente de o gasto calórico ser maior ou menor que 1.000kcal/semana.

Estudo de revisão30, a partir de 36 publicações de diversos autores sugeriu que o ponto de corte de 1.000kcal/semana em atividade física poderia reduzir a mortalidade por todas as causas em mulheres e que esses valores poderiam ser utilizados também para homens.

Os resultados encontrados neste estudo sugerem que a atividade física no tempo livre, no deslocamento e a atividade física total (somatório das atividades nos quatro domínios) são preditoras da ausência de diabetes. Com relação à quantidade de atividade física necessária (considerando-se os quatro domínios), sugere-se que um gasto calórico de 830kcal/semana para homens e 1.774kcal/semana para homens e mulheres analisados conjuntamente seria necessário para que a proteção possa ocorrer.

Recomenda-se a realização de novos estudos, com populações diferentes, que examinem a intensidade e a duração da atividade física em minutos por semana, bem como o gasto calórico necessário para a obtenção de proteção para o diabetes e de outros agravos metabólicos e cardiovasculares.

 

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Correspondência:
Departamento de Saúde
Universidade Estadual de Feira de Santana
Av. Transnordestina, S/N – Novo Horizonte – 44036-900 – Feira de Santana, BA
E-mail: lulalong1000@yahoo.com.br

Todos os autores declararam não haver qualquer potencial conflito de interesses referente a este artigo.