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Revista Brasileira de Medicina do Esporte

Print version ISSN 1517-8692

Rev Bras Med Esporte vol.18 no.1 São Paulo Jan./Feb. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1517-86922012000100007 

ARTIGO ORIGINAL
APARELHO LOCOMOTOR NO EXERCÍCIO E NO ESPORTE

 

Tradução e adaptação cultural para o português do Brasil do Western Ontario Shoulder Instability Index (WOSI)

 

 

Gisele BarbosaI; Lígia LemeI; Michele F. SaccolI; Alberto PocchiniII; Benno EjnismanII; Sharon GriffinIII

IFisioterapeuta do Centro de Traumatologia do Esporte(CETE), Departamento de Ortopedia e Traumatologia, Universidade Federal de São Paulo – São Paulo, SP, Brasil
IIMédico Ortopedista do Centro de Traumatologia do Esporte(CETE), Departamento de Ortopedia e Traumatologia, Universidade Federal de São Paulo – São Paulo, SP, Brasil
IIIMembro do Kirkley Research Group, Fowler Kennedy Sport Medicine Clinic, University of Western Ontario –London Ontario – Canada

Correspondência

 

 


RESUMO

INTRODUÇÃO: A instabilidade no ombro é um problema comum que afeta pacientes, mais frequentemente, na segunda e terceira décadas de vida e atletas que participam de esportes de arremesso ou de contato. Entre suas consequências estão dor, decréscimo no nível de atividade e um decréscimo geral na qualidade de vida. Muitos tratamentos têm sido propostos para os diversos tipos de instabilidade; entretanto, existem poucos instrumentos de avaliação que comprovem sua eficácia. Para utilização de medidas de avaliação em saúde desenvolvidas e utilizadas em outro idioma é necessário realizar a equivalência transcultural, sendo desnecessário criar e validar outro instrumento que avalie a condição de interesse. O objetivo deste estudo foi realizar a tradução e a adaptação cultural do questionário WOSI (The Western Ontario Shoulder Instability Index) para a língua portuguesa do Brasil.
MATERIAIS E MÉTODOS: O protocolo aplicado consistiu em: 1) preparação, 2) tradução, 3) tradução de volta à língua original (retrotradução), 4) interrogatório cognitivo, e 5) relato de informações. Ao serem concluídas as etapas de tradução e retrotradução, as versões foram enviadas para os autores do WOSI original, que aprovaram para continuação do estudo. A versão em português foi aplicada em 35 pacientes com instabilidade no ombro para verificar o nível de compreensão do instrumento. A versão brasileira final do WOSI foi definida após conseguir menos que 15% de "não compreensão" em cada item. Para análise das variáveis, foi utilizada estatística descritiva.
RESULTADOS: Para obter a equivalência cultural foram realizadas modificações e alterações de termos sugeridas pelos pacientes para os itens "não compreendidos".
CONCLUSÃO: Após a tradução e adaptação cultural do questionário, a versão em português do WOSI foi concluída.

Palavras-chave: instabilidade, questionário, tradução, qualidade de vida.


 

 

INTRODUÇÃO

A instabilidade no ombro é um problema comum que afeta pacientes, mais frequentemente, na segunda e terceira décadas de vida1 e atletas que participam de esportes de arremesso ou de contato2. Entre suas consequências estão dor, decréscimo no nível de atividade e um decréscimo geral na qualidade de vida3,4.

Muitos tratamentos têm sido propostos para os diversos tipos de instabilidade; entretanto, existem poucos instrumentos de avaliação que comprovem sua eficácia.

Nos últimos anos, o uso de questionários como instrumento de avaliação tem sido intensificado na pesquisa científica. Isso se deve ao crescente interesse por métodos subjetivos de avaliação clínica. Dessa forma, valoriza-se a opinião do paciente sobre sua condição de saúde. Esses instrumentos, geralmente elaborados em língua inglesa, avaliam o impacto dessas disfunções na qualidade de vida dos pacientes. Esses questionários devem ser escolhidos conforme o objetivo que se deseja alcançar, e, com base nisso, as propriedades de medidas devem ser claras e correlacionáveis com o objetivo específico5.

O desenvolvimento de métodos de tradução e adaptação cultural possibilitou que um instrumento desenvolvido para ser usado em determinada língua e cultura possa também ser usado, após tradução e adaptação, em outra língua e em outro contexto cultural5.

A fase de validação consiste em verificar se o novo instrumento manteve as características da versão original. As propriedades psicométricas mais comumente analisadas nessa fase são validade, reprodutibilidade e sensibilidade a mudanças. Todo esse processo é relevante para que o instrumento seja culturalmente aceito no país em questão e equivalente à versão original6-9.

O WOSI (The Western Ontario Shoulder Instability Index) é um questionário de qualidade de vida desenvolvido na língua inglesa. O estudo de suas propriedades psicométricas mostrou forte correlação com os instrumentos Disabilities of the Arm, Shoulder and Hand (DASH) e UCLA Shoulder Rating Scale, enquanto na avaliação da reprodutibilidade o índice de correlação intraclasse foi considerado excelente1. Foi criado e validado para ser aplicado em pacientes com instabilidade no ombro. Sendo um instrumento específico, engloba aspectos de qualidade de vida relevantes para essa doença. Contém 21 questões, abrangendo quatro domínios: 1) sintomas físicos; 2) esportes, recreação e trabalho; 3) estilo de vida; e 4) estado emocional1.

O formato de resposta às questões do WOSI é através de escala visual analógica (EVA). Todas as questões têm o mesmo valor ponderal. Portanto, cada item tem a possibilidade de ser pontuado de 0 a 100 na EVA e o resultado final pode variar de 0 a 2.100. O total de 0 implica em nenhuma redução na qualidade de vida e 2.100 é a pior pontuação.

O objetivo deste estudo foi realizar a tradução e adaptação cultural do questionário WOSI para o português do Brasil.

 

MATERIAIS E MÉTODOS

Participaram do estudo 35 pacientes com diagnóstico clínico de instabilidade no ombro, de diferentes níveis escolar, socioeconômico e cultural. A média de idade foi de 25 anos (18-36 anos), sendo 80% do sexo masculino e 20%, do feminino. Com relação ao nível de escolaridade, 8,5% tinham o primeiro grau completo, 71,5% segundo grau completo e 20% terceiro grau completo. Os critérios de exclusão foram inabilidade para ler, alterações cognitivas, problemas visuais, doenças neurológicas e reumáticas ou outras afecções específicas da articulação do ombro.

O estudo foi realizado no Centro de Traumatologia do Esporte (CETE-Unifesp).

Os autores do WOSI original autorizaram o estudo via correio eletrônico e o trabalho foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de São Paulo. Todos os sujeitos receberam esclarecimentos quanto aos procedimentos a serem realizados e assinaram o termo de consentimento informado.

Os processos de tradução para o português e de adaptação cultural do WOSI foram realizados de acordo com o protocolo específico de equivalência linguística sugerido e enviado pelos autores da versão original do WOSI. Esse protocolo segue os critérios definidos pelo MAPI Research Institute10 e segundo Aquadro et al11. Inclui cinco fases: preparação, tradução, tradução de volta à língua original (retrotradução), interrogatório cognitivo e relato das informações.

Na fase de preparação, foi realizado o contato com os autores do WOSI original para definições de seus conceitos e autorização para utilização do mesmo.

A tradução inicial do WOSI foi realizada por dois tradutores juramentados independentes que têm como língua-mãe o português. Com isso, obtiveram-se duas versões distintas do questionário: "V1" e "V2". Após essa etapa, foi realizado um encontro com ambos os tradutores e o pesquisador principal, os quais definiram uma versão consensual "V3" em português.

A "V3" foi traduzida de volta para o inglês (retrotradução) por um terceiro tradutor juramentado, o qual tem como língua-mãe o inglês, fluência na língua portuguesa e que não tinha conhecimento do questionário original. Durante um encontro entre o último tradutor e o pesquisador principal foram comparadas a versão original, a "V3" e a retrotradução para estabelecer uma versão consensual em português "V4".

As traduções foram enviadas para os autores da versão original, que as analisaram e aprovaram de acordo com os critérios do MAPI Research Institute10 para manter a originalidade do questionário, reconhecê-lo como versão oficial da língua alvo e evitar a proliferação de versões desautorizadas.

A fase do interrogatório cognitivo foi realizada com a "V4", para testar a clareza, compreensão e aceitabilidade com cinco indivíduos. O pesquisador principal leu em voz alta os itens do instrumento para esses indivíduos. Estes tiveram que: 1) responder se compreenderam (sim ou não), 2) comentar o que entenderam de cada item lido e 3) sugerir alterações caso existisse algum item "não compreendido". De acordo com os resultados desse teste, a tradução foi modificada, para estabelecimento da versão "V5".

Na segunda fase do interrogatório cognitivo, a versão "V5" foi então aplicada a outros 15 pacientes para refinar o teste de clareza e compreensão do instrumento, sendo que os itens com 15% ou mais de "não compreensão" foram reformulados. Após essa etapa, o questionário foi aplicado a outros 15 pacientes com o mesmo propósito, em uma terceira fase do interrogatório cognitivo. Finalmente, a versão brasileira do WOSI foi definida.

A análise estatística usada no estudo foi descritiva.

 

RESULTADOS

Na tradução inicial, as versões "V1" e "V2" apresentaram semelhanças. Pequenas diferenças encontradas nas questões 2, 4, 5, 6, 10, 14 e 17 estão na tabela 1. Após a discussão entre os tradutores iniciais e o pesquisador principal, chegou-se à versão consensual "V3".

Após a retrotradução, obteve-se a versão "V4", que foi enviada aos autores da versão original. Foi sugerida a alteração da questão 17 (roughhousing e horsing around) que não possui equivalência idiomática no Brasil, para qualquer tipo de brincadeira pesada que sobrecarregue o ombro e não seja violenta. Então, a questão foi traduzida como "brincar, rolar no chão".

No interrogatório cognitivo foram sugeridas alterações para a questão 6, na qual a expressão "enrijecimento" foi modificada para "enrijecimento/endurecimento" e para a questão 19, em que a expressão "consciente" foi modificada para "frustrado". Assim, foi formulada a versão "V5" que foi aplicada em 15 pacientes. Nessa fase, apenas a questão 19 foi classificada como "não compreendida" por um paciente (6,7%), não tendo necessidade de reformulação dessa questão.

Para confirmar a compreensão de todas as questões, a versão "V5" foi aplicada em mais 15 pacientes e obteve-se 100% de compreensão em todas as alternativas.

Finalmente, foi obtida a versão traduzida e adaptada para a língua portuguesa do Brasil da escala WOSI.

 

DISCUSSÃO

O procedimento de tradução e adaptação cultural do WOSI para o português seguiu o protocolo sugerido pelos autores da versão original10,11. Todas as versões em desenvolvimento do WOSI em outras línguas utilizam esse mesmo protocolo. Na tradução e adaptação cultural do WORC (Western Ontario Rotator Cuff Index) para a língua portuguesa, foi utilizado o mesmo processo de tradução e adaptação cultural12. Guillemin8 propõe um procedimento padronizado para tradução e adaptação cultural de instrumentos. Embora esse procedimento seja seguido e citado em vários estudos e os critérios reconhecidos internacionalmente, é de difícil realização dependendo da população estudada. A complexidade das etapas, a longa duração e o alto custo são os principais pontos questionados12,13.

Não houve grandes dificuldades para a tradução e a adaptação cultural desse questionário, pois o uso de critérios preestabelecidos, a troca de informações e a colaboração dos autores da versão original facilitaram o processo. É importante que todas as etapas do processo de tradução, adaptação cultural e validação de questionários sejam relatadas para que seja possível escolher instrumentos apropriados e adequadamente testados. Do contrário, poderiam levar a resultados tendenciosos ou errados, com falhas desde a escolha inapropriada de um questionário até a utilização de questionários sem valor científico ou a utilização inadequada dos mesmos12.

Após a aplicação do questionário WOSI em pacientes, obtivemos sugestões que foram analisadas e as questões foram alteradas para obtenção da adaptação cultural. Os autores da versão original sugeriram a alteração da questão 17 (roughhousing e horsing around) que não possui equivalência idiomática no Brasil. Para manter o sentido de qualquer tipo de brincadeira pesada que sobrecarregue o ombro e não seja violenta, a questão foi traduzida como "brincar, rolar no chão". A mesma alteração foi sugerida para a tradução da mesma questão do WORC12.

Alguns pacientes sugeriram alterações para a questão 6, na qual a expressão "enrijecimento" foi modificada para "enrijecimento/endurecimento". Para facilitar o entendimento, foi adicionado o termo mais usado no cotidiano, mantendo o contexto original. Na questão 19, a expressão "consciente" foi modificada para "frustrado", mantendo o sentido de preocupação com a função do ombro.

As respostas de cada questão do WOSI têm o formato de escala visual analógica (EVA). Não houve dificuldade de compreensão para respondê-las de acordo com o significado de progressão do sintoma representado por ela, pois as instruções do questionário explicam claramente como utilizar esse tipo de escala. O mesmo foi encontrado na tradução e adaptação cultural do questionário WORC12.

Após a tradução e adaptação cultural do questionário, obteve-se a versão brasileira do WOSI. Embora o WOSI original já tenha suas propriedades psicométricas estudadas1, a investigação da validade, confiabilidade e responsividade da versão em português encontra-se em andamento, pois essas informações são fundamentais para suportar sua utilização.

 

REFERÊNCIAS

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2. Allen AA, Warner JJP. Shoulder instability in the athlete. Orthop Clin North Am 1995;26:487-503.         [ Links ]

3. Kirkley A, Werstine R, Ratjek A, Griffin S. Prospective randomized clinical trial comparing the effectiveness of immediate arthroscopic stabilization versus immobilization and rehabilitation in first traumatic anterior dislocations of the shoulder: Long-term evaluation. Arthroscopy 2005;21:55-63.         [ Links ]

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7. Kirkley A, Griffin S, Dainty K. Scoring systems for the functional assessment of the shoulder. Arthroscopy 2003;19:1109-20.         [ Links ]

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10. Acquadro C, Conway K, Girourdet C, Mear I. Linguistic Validation Manual for Patient Reported Outcomes(PRO) Instruments.Lyon (France): MAPI Research Trust; 2004. Available from: http://www.mapi-research.fr/i_02_manu.htm.         [ Links ]

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13. Falcão DM, Ciconelli RM, Ferraz MB. Translation and cultural adaptation of quality of life questionnaire: an evaluation of methodology. J Rheumatol 2003;30:379-85.         [ Links ]

 

 

Correspondência:
Rua Mairinque, 261, Vila Clementino – 04037-020 – São Paulo, SP, Brasil.
E-mail: barbosa_gisele@yahoo.com.br

Todos os autores declararam não haver qualquer potencial conflito de interesses referente a este artigo.