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Revista Brasileira de Medicina do Esporte

Print version ISSN 1517-8692

Rev Bras Med Esporte vol.18 no.2 São Paulo Mar./Apr. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1517-86922012000200009 

ARTIGO ORIGINAL
APARELHO LOCOMOTOR NO EXERCÍCIO E NO ESPORTE

 

Variação de temperatura do músculo quadríceps femoral exposto a duas modalidades de crioterapia por meio de termografia

 

 

Alberito Rodrigo de Carvalho; Daiane Lazzeri de Medeiros; Francieli Tibes de Souza; Grazieli Francine de Paula; Patrícia Mantovani Barbosa; Paula Renata Olegini Vasconcellos; Márcia Rosângela Buzanello; Gladson Ricardo Flor Bertolini

Laboratório de Estudo das Lesões e Recursos Fisioterapêuticos da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), campus de Cascavel – Paraná

Correspondência

 

 


RESUMO

INTRODUÇÃO: Crioterapia é qualquer forma de aplicação terapêutica de frio que leva à diminuição da temperatura dos tecidos.
OBJETIVO:
Comparar as variações na temperatura superficial do músculo quadríceps femoral, em três momentos distintos, quando expostos a duas modalidades de crioterapia: sacos com gelo ou sacos contendo mistura de gelo e água.
MATERIAIS E MÉTODOS: Participaram do estudo 18 indivíduos, com idade entre 18 e 25 anos, de ambos os sexos. Em cada voluntário foi realizada, simultaneamente, crioterapia com gelo na coxa esquerda e mistura de gelo e água na coxa direita, durante 15 minutos na região do quadríceps femoral. A temperatura superficial foi mensurada por um termógrafo e foram feitos registros nos seguintes momentos: pré-crioterapia, imediatamente e 15 e 30 minutos após a retirada da modalidade de crioterapia.
RESULTADOS: Ambas as modalidades de crioterapia foram eficientes para diminuir a temperatura do quadríceps femoral e a mistura de gelo e água foi capaz de induzir a uma temperatura mais baixa em relação àquela modalidade que usou somente gelo. O resfriamento, para ambas as modalidades, perdurou por, pelo menos, 15 minutos após a retirada do gelo e a temperatura superficial já estava restaurada ao nível pré-aplicação aos 30 minutos após a retirada.
CONCLUSÃO: Ambas as modalidades promoveram redução da temperatura que perdurou, pelo menos, durante 15 minutos; e após 30 minutos da retirada das modalidades a temperatura foi restabelecida aos níveis normais. Contudo, a mistura de gelo e água produziu resfriamento maior do que a modalidade de gelo sozinho.

Palavras-chave: crioterapia, termografia, agentes de resfriamento.


 

 

INTRODUÇÃO

Desde a Grécia antiga a crioterapia é utilizada como forma terapêutica, visando o resfriamento tecidual, analgesia local, diminuição do edema, redução do processo inflamatório, do fluxo sanguíneo, da taxa metabólica intramuscular, da velocidade de condução nervosa e minimização dos danos teciduais ocasionados pela hipóxia1,2.

Durante a aplicação da crioterapia, observa-se uma primeira fase de sensação inicial de frio. A segunda fase é de dor ou desconforto, e a terceira de analgesia ou anestesia. A quarta fase produz vasodilatação reflexa ou paralítica profunda. Essas fases duram aproximadamente três minutos cada, dependendo da modalidade utilizada3. A diminuição do fluxo sanguíneo local ocorre quando a temperatura do tecido chega a 13,8°C. Já a analgesia acontece a 14,4°C. Se o resfriamento atingir temperatura abaixo de 10ºC há um bloqueio total das transmissões dos impulsos nervosos4.

Atualmente, a crioterapia é uma técnica amplamente utilizada na fisioterapia e existem várias modalidades, tais como o uso de sacos com gelo, pacotes contendo mistura de gelo e água, imersão em água gelada, dentre outros. Contudo, as diferenças na capacidade de resfriamento das distintas modalidades de crioterapia ainda geram questionamentos, visto que conhecer o efeito de resfriamento de cada uma delas é determinante para que a resposta clínica da terapia seja otimizada ao máximo5.

A termografia é um exame diagnóstico de imagem de grande sensibilidade, totalmente rápido, seguro, indolor, sem radiação ionizante, contato ou contraste. Por meio de uma câmera especial, capaz de captar radiação infravermelha longa emitida pelo corpo humano, torna-se possível mensurar a temperatura da superfície cutânea e formar uma imagem da distribuição térmica. Para a realização do exame, o ambiente utilizado deve ser climatizado com temperaturas na faixa de 22-25ºC. A climatização e estabilização térmica do paciente devem ocorrer por 10 a 15 minutos6-8.

Assim, o presente estudo procurou identificar, por meio da termografia, qual entre duas modalidades de crioterapia frequentemente utilizadas no meio clínico ocasiona maior diminuição de temperatura, sendo o objetivo comparar as variações na temperatura superficial do músculo quadríceps femoral, em três momentos distintos, quando expostos a duas modalidades de crioterapia: sacos com gelo (G) ou sacos contendo mistura de gelo e água (G+A).

 

MATERIAIS E MÉTODOS

A amostra, eleita por conveniência e de forma não probabilística, foi composta por 18 universitários, com idade entre 18 e 25 anos, de ambos os sexos. As duas modalidades de crioterapia, sacos com gelo (G) e sacos contendo mistura de gelo e água (G+A), foram aplicadas em todos os indivíduos, sendo que a modalidade G+A foi aplicada no quadríceps direito e a modalidade G no quadríceps esquerdo. A duração da aplicação para ambas foi de 15 minutos e elas foram aplicadas simultaneamente. Os protocolos foram realizados no Laboratório de Estudo das Lesões e Recursos Fisioterapêuticos da Clínica de Fisioterapia da Unioeste. A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Unioeste sob parecer 479/2010-CEP.

Inicialmente, os sujeitos foram submetidos a uma avaliação de triagem para registros de dados de identificação e também para análise de possíveis fatores desfavoráveis à participação na pesquisa. Não foram incluídos no estudo os voluntários que apresentassem doenças sistêmicas, vasculares ou do aparelho locomotor, ou, ainda, que tivessem hipersensibilidade ao frio.

Ambas as modalidades foram aplicadas utilizando-se um saco plástico contendo: na modalidade G+A – 760g de gelo + 240g de água; na modalidade G – 1kg de gelo. Para confirmação das medidas, utilizou-se uma balança Techline Digital Bal 150pa.

As imagens foram obtidas por um termógrafo de câmera infravermelha portátil ThermaCAM® E320, com resolução de 320 x 240 pixels, 4x de zoom digital, sensibilidade térmica de –0,10ºC a 25ºC, e precisão de ± 2ºC para a análise termográfica dos dados. A análise termográfica dos dados foi realizada com o auxílio do programa Therma CAMTM Quick Report – versão 1.1. A termografia foi utilizada para medir a temperatura superficial dos músculos quadríceps femoral de ambos os membros inferiores, simultaneamente, e foi dada em graus Celsius.

Para análise das imagens do termógrafo foi utilizado, como ponto de referência no quadríceps, um ponto a 8cm da borda superior da patela. O laboratório permaneceu climatizado a uma temperatura de 24ºC durante 12 horas antes do procedimento. No dia da aplicação da crioterapia, os voluntários foram submetidos a 15 minutos de climatização no ambiente de coleta utilizando roupa adequada (shorts), deixando o quadríceps desnudo, com portas e janelas fechadas. Evitaram-se movimentos próximos dos indivíduos, que permaneceram sentados, sem nenhum contato com a região de interesse e orientados a realizar o mínimo de movimento possível.

Após este período, realizou-se o primeiro registro termográfico (AV1). Em seguida, aplicaram-se as duas modalidades de crioterapia simultaneamente no mesmo indivíduo, com o intuito de minimizar o viés da aplicação. Imediatamente após, 15 e 30 minutos depois da retirada das modalidades de crioterapia realizou-se o segundo (AV2), terceiro (AV3) e quarto (AV4) registro, respectivamente, de ambas as coxas.

A análise estatística foi realizada pelo teste Kolmogorov-Smirnov para normalidade. Para comparar os dados entre quadríceps direito e esquerdo, utilizou-se o teste de Wilcoxon. Friedman com pós-teste de Dunn's foi utilizado para comparar o momento pré-crioterapia, imediatamente após, 15 e 30 minutos pós-aplicação dentro de cada modalidade. O nível de significância foi p < 0,05.

 

RESULTADOS

Nas comparações entre os quadríceps direito e esquerdo, nos diferentes momentos de registro, que evidenciou qual das modalidades foi capaz de resfriar mais o músculo, não foi encontrada diferença significativa no momento AV1 (p = 0,1969), indicando homogeneidade. Contudo, imediatamente após (AV2, p = 0,0017), 15 (AV3, p = 0,0013) e 30 minutos (AV4, p = 0,001) após a retirada da crioterapia, houve diferenças significativas entre as modalidades (Tabela 1) e a modalidade G+A induziu a um resfriamento significativamente mais baixo.

 

 

Para os lados direito (G+A) e esquerdo (G), comparando-se AV1 com AV2 e AV3, houve diferenças significativas (p < 0,05) indicando diminuição significativa da temperatura. Mas ao comparar AV1 com AV4 não se observou diferença significativa entre esses registros (p > 0,05), sugerindo que houve restauração dos valores pré-aplicação. Ao comparar AV2 com AV3, não houve diferença significativa (p > 0,05), indicando manutenção da diminuição da temperatura alcançada; mas houve diferença significativa com a avaliação após 30 minutos (AV4, p < 0,05), mostrando o retorno da temperatura para os níveis iniciais. Na comparação entre AV3 e AV4, não houve diferença significativa (p > 0,05) (Tabela 1).

 

DISCUSSÃO

Este estudou demonstrou que as duas modalidades de crioterapia foram eficazes para diminuir a temperatura do quadríceps femoral e que a mistura de gelo e água foi capaz de induzir a uma temperatura mais baixa em relação àquela modalidade que usou somente gelo. O resfriamento, para ambas, perdurou por, pelo menos, 15 minutos após a retirada do gelo e a temperatura superficial foi restaurada nos níveis pré-aplicação aos 30 minutos após a retirada.

Enwemeka et al.1 avaliaram a temperatura do músculo quadríceps em 1, 2 e 3cm de profundidade, antes, durante e após 20 minutos de tratamento com bolsa de gelo. Os resultados revelaram queda significativa da temperatura da pele a partir de oito minutos de tratamento. Após a terapia, a temperatura em 1cm subiu rapidamente, retornando aos níveis basais. Em contrapartida, houve queda da temperatura nas profundidades de 2 e 3cm, pois os tecidos mais profundos perderam calor favorecendo o reaquecimento dos tecidos superficiais.

De forma concordante, Myrer et al.9 e Mac Auley10 observaram que a temperatura intramuscular continua a reduzir após o término da crioterapia. Tomchuk et al.11 também observaram que a temperatura intramuscular permaneceu diminuindo 2ºC a 3ºC depois de 10 minutos após a remoção do gelo, antes de ser gradualmente aumentada aos valores basais.

Supõe-se, baseado na literatura, que os tecidos mais profundos são uma das fontes de calor usadas para reaquecer o tecido superficial. Neste estudo, possivelmente, os tecidos profundos continuaram resfriando-se após a retirada da crioterapia, devido ao aumento gradual da temperatura da superfície do músculo. Contudo, como o termógrafo não é capaz de fazer registros distinguindo as diferentes profundidades, sugere-se, então, novos estudos que avaliem a temperatura em várias profundidades, confrontando com dados avaliados por termografia.

As modalidades de frio com propriedades termodinâmicas distintas produzem diferentes temperaturas intramusculares, umas com efeitos maiores do que outras, sendo a mais importante a mudança de estado físico. Algumas absorvem o calor por condução e permitem que a água produzida pelo derretimento do gelo evapore, absorvendo com isso mais calor da superfície12. A interação entre a superfície de resfriamento e dos tecidos subjacentes é importante na determinação da eficácia do tratamento, reforçando a hipótese de que a maior área de contato e acoplamento ao tecido influenciam no efeito da terapêutica4. Baseado nessa hipótese, poder-se-ia inferir que a modalidade G+A pudesse produzir um maior resfriamento do que apenas G, resultado esse que foi observado.

Assemelhando-se aos estudos acima citados, Dykstra et al.13 verificaram que a terapia com gelo e água foi mais eficaz no resfriamento do músculo gastrocnêmio, após 20 minutos de aplicação, do que cubos de gelo ou gelo picado. Tal fato pode ter ocorrido devido ao aumento do contato entre o gelo molhado e a pele, pois a água dentro da embalagem se adapta melhor à área de tratamento do que o gelo. Contrapondo, Janwantanakul14, utilizando uma bolsa do gelo com diferentes tamanhos e pesos, verificou que o tamanho da área de contato não alterou o grau de resfriamento dos tecidos.

Outro aspecto que interfere na passagem do calor é a capacidade térmica de cada material, ou seja, calor específico12. Kanlayanaphotporn e Janwantanakul15 estudaram a aplicação de quatro modalidades de crioterapia: pacote de gelo, mistura de água e álcool congelado, pacote de gel e ervilhas congeladas, e observaram que o pacote de gelo e mistura de água e álcool foram mais eficientes na redução da temperatura da superfície do tecido. Isto pode ser explicado pelo alto calor específico no pacote de gelo e mistura de água e álcool, oferecendo maior capacidade de resfriamento superficial.

Devido à importância clínica da crioterapia, e visto que outros fatores, como a espessura do tecido e termorregulação em diferentes estágios da vida, podem influenciar nas alterações da temperatura16, sugerem-se, ainda, novos estudos que utilizem populações com extremos de idades e alterações patológicas.

 

CONCLUSÃO

Ambas as modalidades promoveram redução da temperatura que perdurou, pelo menos, durante 15 minutos; e, após 30 minutos da retirada das modalidades, a temperatura foi restabelecida aos níveis normais. Contudo, a mistura de gelo e água produziu resfriamento maior do que a modalidade de gelo sozinho. Assim, clinicamente, pode haver diferença entre a aplicação de sacos com gelo ou da mistura de gelo e água.

 

REFERÊNCIAS

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Correspondência:
Gladson Ricardo Flor Bertolini

Rua Universitária, 2.069, Colegiado de Fisioterapia, Jd Universitário
85819-110 – Cascavel, PR
Caixa Postal 711
E-mail: gladson_ricardo@yahoo.com.br

Todos os autores declararam não haver qualquer potencial conflito de interesses referente a este artigo.