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Revista Brasileira de Medicina do Esporte

versión impresa ISSN 1517-8692

Rev Bras Med Esporte vol.18 no.5 São Paulo sept./oct. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1517-86922012000500009 

ARTIGO ORIGINAL
APARELHO LOCOMOTOR NO EXERCÍCIO E NO ESPORTE

 

Efeitos do ΔF sobre a acomodação da corrente interferencial em sujeitos saudáveis

 

 

Kelly Mara PivettaI; Gladson Ricardo Flor BertoliniII

IUniversidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste)
IICurso de Fisioterapia da Unioeste

Correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Avaliar em quanto tempo ocorre acomodação da corrente interferencial (CI), e quantas vezes essa acomodação acontece em 10 minutos usando diferentes padrões de variações na frequência de estimulação: ∆F nulo = 0, ∆F baixo = 30% e ∆F alto = 70%.
MATERIAIS E MÉTODOS: Ensaio clínico cruzado, com 15 voluntários saudáveis, com idade média de 22,53 ± 0,91 anos, de ambos os gêneros. Os pacientes foram submetidos a CI por 10 minutos na forma bipolar com os eletrodos longitudinalmente dispostos sobre as vértebras L1 e S1.
OS PARÂMETROS DO EQUIPAMENTO FORAM: frequência base de 4.000Hz, AMF 100Hz, rampa de entrega do ΔF 1:1, ΔF dependendo do dia e do subgrupo, por 10 minutos. Foi avaliado o limiar de acomodação e quantas vezes a corrente acomodou no tempo total de estimulação.
RESULTADOS: Para o tempo da primeira acomodação e pelo número de acomodações, não houve diferença significativa (p > 0,05).
CONCLUSÃO: Observou-se que não houve efeito com a variação dos diferentes ∆F analisados.

Palavras-chave: estimulação elétrica nervosa transcutânea, limiar sensorial, modalidades de fisioterapia.


 

 

INTRODUÇÃO

Pode-se denominar a corrente interferencial (CI) como um método de estimulação elétrica de corrente alternada de média frequência, que geralmente é utilizada para o alivio da dor1. Contudo, se aplica em outras condições clínicas, tais como reeducação muscular, fortalecimento e redução de edema. A mesma possui uma frequência variável entre 1-10kHz, que em sua essência utiliza rajadas de baixa frequência, ou seja, variando entre 1 e 150Hz2.

Uma das vantagens da CI é a possibilidade de gerar frequência modulada pela amplitude (AMF), parâmetro do interferencial, que é uma corrente de baixa frequência gerada profundamente dentro da área de tratamento devido à interação de dois circuitos de média frequência3. A importância do AMF é questionável, pois faltam efeitos que mostrem diferenças significativas com diferentes AMF4.

A intensidade da CI, no início da terapia, é gradualmente aumentada até que o indivíduo relate sensação de formigamento. Assim que esse formigamento tenha diminuído, pode-se aumentar a intensidade da corrente para manter um estímulo constante5. Este processo é chamado de "acomodação" e ocorre porque os sensores estimulados passam informações relativas às mudanças externas em grau decrescente. A adaptação consiste em um declínio na intensidade da resposta com intensidade constante, ou seja, inicialmente os receptores respondem com alta frequência de impulsos, diminuindo progressivamente à medida que o estímulo torna-se constante6. No equipamento de interferencial a "acomodação" tenta ser evitada pela variação do delta F (ΔF)7.

O ΔF é uma variação no AMF, que ocorre aumentos e diminuições da frequência em padrões estabelecidos no equipamento, que vai de 1 a 100Hz. Dessa forma, se for utilizada uma AMF de 100Hz, com um ΔF de 50Hz, a variação da modulação ocorrerá entre 100-150Hz. Tal fato é também utilizado para evitar a acomodação, pois, além da intensidade, a alteração da frequência é outro fator que combate a acomodação7.

Os estímulos proporcionados advindos da CI podem ser localizados ou generalizados, isso depende da configuração da corrente aplicada à pele. Ao contrário de outros métodos de estimulação elétrica de baixa frequência, este encontra uma baixa resistência na pele e pode, assim, penetrar profundamente, sem causar muito desconforto8. A corrente interferencial pode ser entregue sobre a pele na forma bipolar (dois eletrodos) ou na forma tetrapolar (quatro eletrodos). Na forma bipolar usa-se apenas um circuito; portanto, não há cruzamento de caminhos em profundidade e a interferencial ocorre no próprio aparelho e não no paciente9.

Há uma confusão na literatura sobre os parâmetros ideais de estimulação utilizados no interferencial10. Apesar do uso generalizado da CI para controle da dor, há falta de evidências científicas que justifiquem sua eficácia2. Até o presente momento, não foram encontrados na literatura estudos sobre o ΔF, sobre a relação entre os parâmetros utilizados e a acomodação da corrente. Mostra-se, assim, importante e original uma pesquisa com esta temática.

O presente estudo tem como objetivo avaliar em quanto tempo (minutos e segundos) demora a primeira diminuição da sensação da corrente interferencial (acomodação) e quantas vezes essa acomodação acontece em 10 minutos, usando diferentes padrões de variações na frequência de estimulação: ΔF nulo = 0, ΔF baixo  30% e ΔF alto = 70%, ao utilizar AMF de 100Hz.

 

MATERIAIS E MÉTODOS

Este estudo trata-se de um ensaio cruzado, com amostra aleatorizada e cega. Foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisas Envolvendo Seres Humanos da Universidade Estadual do Oeste do Paraná – Unioeste, sob parecer 003/2011- CEP. A coleta de dados foi realizada no laboratório de estudo das lesões e recursos fisioterapêuticos por um período de três semanas, no qual os voluntários compareceram em horários predeterminados.

Após o esclarecimento acerca dos objetivos e procedimentos do estudo, os voluntários foram submetidos a uma avaliação para identificação de possíveis fatores de não inclusão. Depois de aceito o convite e constatada a elegibilidade para o estudo, os voluntários assinaram o termo de consentimento.

Os critérios de inclusão adotados foram: a) disponibilidade para participar das avaliações e testes nos dias e horários predeterminados; b) os indivíduos deveriam ter sentido a corrente interferencial pelo menos uma vez na vida. Os critérios de não inclusão e exclusão foram: a) uma única falta; b) uso de drogas que afetassem o sistema nervoso central ou o equilíbrio, tais como os sedativos ou ansiolíticos; c) diminuição da sensibilidade local; d) pacientes com história clínica de cirurgia na coluna; e) gravidez.

Amostra e procedimentos

Foram selecionados 15 indivíduos saudáveis, sendo três do sexo masculino e 12 do sexo feminino, com idade média de 22,53 ± 0,91 anos, peso médio de 66,93 ± 14,26kg, altura média de 1,71 ± 0,09m e IMC 22,52 ± 3,13. Os voluntários receberam a corrente interferencial (Ibramed®) (equipamento aferido previamente), posicionados em decúbito ventral com um travesseiro fino sob seu abdômen. A corrente foi transmitida na forma bipolar, com os eletrodos longitudinalmente dispostos sobre as vértebras L1 e S1. Os eletrodos utilizados eram de borracha-silicone com 4cm2. Os parâmetros do equipamento foram: frequência base de 4.000Hz, AMF 100Hz, rampa de entrega do ΔF 1:1, ΔF dependendo do dia e do subgrupo, por 10 minutos. A coleta de dados foi realizada em dias consecutivos.

A amostra foi divida em três subgrupos:

Subgrupo 1 – composto por cinco pessoas, sendo que no primeiro dia receberam a corrente com o ΔF nulo; no segundo dia, com 30%; e no terceiro dia, com 70%.

Subgrupo 2 – composto por cinco pessoas, sendo que no primeiro dia receberam a corrente com o ΔF de 30%; no segundo dia, com 70%; e no terceiro, nulo.

Subgrupo 3 – composto por cinco pessoas, sendo que no primeiro dia receberam a corrente com o ΔF de 70%; no segundo dia, nulo; e no terceiro, com 30%.

Avaliação da acomodação

Após a colocação dos eletrodos e a definição dos parâmetros, o avaliador aumentou a intensidade da corrente gradualmente até o indivíduo relatar uma sensação de "formigamento". Os voluntários foram instruídos a dizer um "sim" assim que a sensação de formigamento da corrente diminuísse, ou seja, quando ocorresse a acomodação. A intensidade da corrente foi aumentada toda vez que os voluntários relataram a diminuição da sensação. Durante este período, o avaliador anotou quanto tempo o indivíduo demorou a dizer o primeiro "sim" e quantas vezes o voluntário repetiu o "sim", tendo assim os valores de limiar de acomodação (em segundos) e total de acomodações, respectivamente.

 

ANÁLISE ESTATÍSTICA

O tamanho da amostra foi calculado usando um desvio padrão de 28, com diferença a ser detectada de 25 (s), para um nível de significância de 5% e poder do teste de 80%. Os dados foram avaliados quanto à sua normalidade pelo teste de D'Agostino & Pearson, seguido de análise pela ANOVA medidas repetidas, com pós-teste de Bonferroni para o limiar de acomodação, com apresentação dos dados em média e desvio padrão. Para avaliação do número de vezes em que houve acomodação, os dados foram apresentados por mediana e 1o e 3o quartis, sendo utilizado o teste de Friedman, com pós-teste de Dunn's. Em todos os casos o nível de significância foi de 5%.

 

RESULTADOS

Para o tempo da primeira acomodação, considerando todos os ΔF analisados, verificou-se que não houve diferença significativa (p > 0,05), fato que também se repetiu para o número de acomodações em 10 minutos (p > 0,05) (tabela 1).

 

 

DISCUSSÃO

A corrente interferencial é utilizada para uma grande diversidade de indicações. Segundo Fuentes et al.11, a corrente interferencial é capaz de produzir um efeito de aliviar as condições dolorosas musculoesqueléticas. Jorge et al.12 mostram que apesar do efeito de curta duração a CI é eficaz na redução da dor inflamatória. Tugay et al.13 citam que a CI é eficaz na dismenorreia primária, e estudos comprovam os efeitos benéficos da CI na função intestinal em crianças com constipação crônica14-16.

O estudo sobre a corrente interferencial é de extrema importância, pois apesar de ser uma técnica amplamente utilizada por fisioterapeutas, ainda não se tem parâmetros ótimos para estimulação, sendo utilizado o empirismo como base terapêutica, inclusive para evitar a acomodação.

O presente estudo foi realizado com indivíduos saudáveis, pois a sua finalidade foi verificar a acomodação e não seus fins terapêuticos, como, por exemplo, a analgesia. Por se tratar de um estudo cruzado, foi realizado um planejamento com três subgrupos que foram escolhidos aleatoriamente no qual todos os voluntários receberam a corrente por três dias consecutivos e os três tipos de ΔF.

O método de entrega utilizado nesse estudo foi realizado através de dois eletrodos. Ozcan et al.9 citam que a forma bipolar pode ser clinicamente mais eficaz quando comparada à forma tetrapolar, pois a forma bipolar atinge maior profundidade e é mais confortável para o paciente. Além disso, conforme relatam Bircan et al.17, ao usar a forma bipolar, as correntes de média frequência são pré-misturadas no dispositivo e são entregues diretamente à pele, ao contrário do método tetrapolar, pelo qual as correntes de média frequência se cruzam dentro do corpo do paciente e, portanto, provavelmente oferecem menor impedância da pele.

Visto que não foram encontrados na literatura outros estudos que abordam o tema, procurou-se em manuais de usuário7 a explicação para o uso do ΔF, o qual apresenta-o como um recurso da CI muito utilizado para se evitar a acomodação, sendo citado que ΔF maiores são mais eficientes quando comparados com menores para prevenir a acomodação. Contudo, no presente estudo, nos 10 minutos em que os voluntários foram avaliados, verificou-se um grande número de acomodações em um breve período de tempo, também não houve diferenças significativas entre os diferentes ΔF analisados. A partir disso, pode-se concluir que este dispositivo não interfere na acomodação, quando usado na técnica bipolar, com AMF 100Hz e entregues com variação de um segundo, pelo tempo analisado.

Uma possível explicação para a ausência de efeitos sobre a acomodação é que a variação na frequência para a AMF é grande; contudo, ao observar a variação com respeito à frequência base, ela é muito pequena. Pois, com frequência base de 4.000Hz e AMF de 100Hz, tem-se como frequência de estimulação 4.050Hz, na variação de 30% a frequência base variava entre 4.050-4.065Hz, e com 70% a variação foi de 4.050-4.085Hz. Levando-se em conta o trabalho de Palmer et al.4, no qual citam que a estimulação em média frequência é a causadora dos efeitos terapêuticos e não a modulação em baixa, pode-se explicar a ausência de efeitos do ΔF.

A principal limitação para a realização deste artigo foi a escassez de trabalhos científicos que abordam o tema da acomodação e o ΔF. Desta forma, há a necessidade de estudos adicionais para avaliar a acomodação frente à eletroestimulação, e desta frente às diferentes doenças.

 

CONCLUSÃO

De acordo com os resultados apresentados, conclui-se que não houve qualquer diferença no tempo e no número de acomodações para os ΔF analisados.

 

REFERÊNCIAS

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Correspondência:
Laboratório de Estudo das Lesões e Recursos Fisioterapêuticos da Unioeste. Campus Cascavel – Paraná.
Rua Universitária, 2.069, Jardim Universitário - 85819-110 – Cascavel, PR .
Caixa Postal: 711 Colegiado de Fisioterapia.
E-mail: gladson_ricardo@yahoo.com.br

 

 

Todos os autores declararam não haver qualquer potencial conflito de interesses referente a este artigo.